Finasterida é um fármaco sintético da classe dos inibidores da 5-alfa-redutase, enzima responsável pela conversão da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT). É usada principalmente no tratamento da hiperplasia prostática benigna (HPB) e da alopecia androgenética masculina. Em termos farmacológicos, reduz a formação de DHT sem bloquear diretamente o receptor de andrógeno.
A finasterida diminui a concentração de DHT circulante em aproximadamente 70% durante o uso contínuo e reduz de forma ainda mais intensa a DHT intraprostática. Na HPB, esse efeito leva à redução progressiva do volume prostático e do risco de retenção urinária e de cirurgia relacionada à doença em homens adequadamente selecionados. Na alopecia androgenética, reduz a ação da DHT nos folículos capilares suscetíveis, retardando a miniaturização folicular e a progressão da perda de cabelo.
Os efeitos adversos mais bem estabelecidos são de natureza sexual, incluindo redução da libido, disfunção erétil e alterações ejaculatórias; em ensaios clínicos, a frequência absoluta é geralmente baixa, embora superior à observada com placebo em algumas análises. Disfunção sexual persistente após a interrupção também foi relatada em farmacovigilância e consta de informações regulatórias em diversos países, embora a magnitude do risco e os mecanismos permaneçam objeto de investigação.
Em 2025, após revisão europeia de dados clínicos, observacionais, de farmacovigilância e da literatura, o comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu que a ideação suicida deve constar como reação adversa das formulações orais de finasterida de 1 e 5 mg, com frequência desconhecida. A agência manteve, contudo, a avaliação de que a relação benefício–risco permanece favorável para as indicações aprovadas. A finasterida também existe em formulações cutâneas para alopecia androgenética; na União Europeia, uma solução em spray de 2,275 mg/mL é autorizada desde 2020 em diversos Estados-membros.
Usos médicos
Hiperplasia prostática benigna A finasterida é usada em homens com sintomas do trato urinário inferior relacionados à hiperplasia prostática benigna, especialmente quando há aumento do volume prostático e risco de progressão da doença. A dose oral aprovada para HPB é de 5 mg uma vez ao dia em várias jurisdições.
Ao contrário dos bloqueadores alfa-adrenérgicos, que podem produzir alívio sintomático relativamente rápido, os inibidores da 5-alfa-redutase têm início de ação lento. Diretrizes europeias descrevem efeitos clínicos mais evidentes após pelo menos seis meses de tratamento e redução média do volume prostático de aproximadamente 18–28% após dois a quatro anos, com melhora do fluxo urinário e dos escores de sintomas. Uma revisão sistemática Cochrane concluiu que a finasterida melhora sintomas urinários em longo prazo e reduz a progressão da HPB, mas é menos eficaz do que bloqueadores alfa para alívio sintomático no curto prazo; a terapia combinada pode oferecer maior benefício em homens com próstatas aumentadas.
A base de evidência clínica foi construída por vários ensaios randomizados anteriores aos estudos de desfechos. No estudo Veterans Affairs, a terazosina produziu alívio sintomático mais rápido que a finasterida na população não selecionada, enquanto estudos que enriqueceram a amostra com próstatas maiores demonstraram redução consistente do volume glandular e benefício crescente com maior volume inicial. Uma revisão sistemática de 22 ensaios, envolvendo milhares de participantes, confirmou que a magnitude do benefício aumenta com a duração do tratamento e que prevenção de retenção urinária e cirurgia é uma vantagem específica de longo prazo dos inibidores da 5-alfa-redutase. Comparações diretas posteriores entre finasterida e dutasterida encontraram eficácia global semelhante para a maioria dos desfechos clínicos de HPB, apesar da maior supressão sérica de DHT com a dutasterida. A diretriz da American Urological Association segue a mesma lógica de seleção por evidência de aumento prostático e destaca o início de ação lento da classe.
No estudo PLESS, ensaio randomizado com 3.040 homens acompanhados durante quatro anos, a finasterida reduziu em 55% o risco relativo de cirurgia por HPB e em 57% o risco relativo de retenção urinária aguda em comparação ao placebo. No estudo MTOPS, a finasterida também reduziu a progressão clínica da HPB, e a associação de finasterida com o bloqueador alfa doxazosina foi mais eficaz para prevenir progressão do que qualquer um dos fármacos isoladamente.
Além das reduções relativas, a diretriz EAU de 2026 destaca que, no PLESS, as reduções absolutas aproximadas foram de 4 pontos percentuais para retenção urinária aguda e 7 pontos para cirurgia ao longo de quatro anos; no MTOPS, foram de cerca de 2 e 3 pontos percentuais, respectivamente. Esses resultados ilustram por que o benefício preventivo depende do risco basal e é maior em homens com próstatas aumentadas.
Formulações combinadas também existem. Nos Estados Unidos, uma combinação em dose fixa de finasterida 5 mg e tadalafila 5 mg foi aprovada em 2021 para iniciar o tratamento dos sinais e sintomas da HPB em homens com próstata aumentada, por período limitado segundo a rotulagem norte-americana.
O benefício é maior em homens com próstatas aumentadas. A diretriz da European Association of Urology recomenda os inibidores da 5-alfa-redutase para homens com sintomas moderados a graves e risco aumentado de progressão, dando como exemplo volume prostático superior a 40 mL. A diretriz britânica do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), revisada em vigilância em 2024, adota princípio semelhante e recomenda considerar um inibidor da 5-alfa-redutase em homens com sintomas urinários e próstata aumentada ou PSA elevado quando houver maior risco de progressão.
Efeito sobre o PSA A finasterida reduz a concentração sérica do antígeno prostático específico (PSA). Com o uso de 5 mg, uma redução de aproximadamente 50% é esperada após meses de tratamento. Esse efeito é clinicamente importante porque altera a interpretação do exame usado na investigação e acompanhamento do câncer de próstata. Um aumento confirmado do PSA a partir do menor valor atingido durante o tratamento requer avaliação clínica, mesmo que o resultado permaneça dentro da faixa considerada normal para homens que não usam um inibidor da 5-alfa-redutase. Estudos controlados confirmam que a queda do PSA ocorre tanto com 5 mg na HPB quanto com 1 mg na alopecia: em homens de 40 a 60 anos tratados com 1 mg por 48 semanas, a mediana do PSA caiu aproximadamente 40% na faixa de 40–49 anos e 50% na de 50–60 anos. Em homens com HPB, a fração de PSA livre parece ser relativamente preservada apesar da queda do PSA total, e estudos do PCPT demonstraram que a finasterida pode aumentar a sensibilidade discriminatória do PSA para detecção de câncer em determinadas condições.
Alopecia androgenética A finasterida oral de 1 mg uma vez ao dia é aprovada em diversos países para tratamento da alopecia androgenética masculina. O benefício geralmente exige uso contínuo; segundo a bula norte-americana, três meses ou mais de tratamento podem ser necessários antes de se observar resposta, e a interrupção leva à perda progressiva do benefício ao longo dos meses seguintes.
Uma revisão sistemática de 12 estudos, com 3.927 homens, encontrou maior probabilidade de melhora percebida pelos pacientes e pelos investigadores, além de aumento da contagem de fios em comparação com placebo, tanto em seguimento de curto quanto de longo prazo. Uma meta-análise em rede publicada no JAMA Dermatology comparou diferentes doses e vias de minoxidil, finasterida e dutasterida e confirmou eficácia mensurável da finasterida oral na contagem de cabelos em homens com alopecia androgenética, embora outras intervenções tenham apresentado eficácia relativa superior em determinados desfechos e tempos de seguimento. Uma segunda revisão sistemática com meta-análise bayesiana em rede, baseada em 17 artigos elegíveis de ensaios randomizados, também incluiu finasterida 1 mg entre as intervenções avaliadas para crescimento de cabelos terminais, ilustrando ao mesmo tempo a heterogeneidade dos desfechos e das respostas entre tratamentos. Diretrizes europeias baseadas em evidências incluem a finasterida entre as opções estabelecidas para alopecia androgenética masculina.
Os ensaios pivotais de fase III randomizaram 1.553 homens e demonstraram melhora por contagem de fios, avaliação dos participantes, investigadores e fotografias padronizadas. Estudos de dose mostraram eficácia a partir de 0,2 mg/dia, com 1 e 5 mg apresentando eficácia semelhante e superior às doses menores; esses achados sustentaram a seleção de 1 mg como dose de desenvolvimento para alopecia masculina. Em estudos farmacodinâmicos, 1 mg reduziu a DHT no couro cabeludo em cerca de dois terços e a DHT sérica em aproximadamente 70%. A resposta clínica envolve não apenas maior contagem de fios, mas aumento da proporção de cabelos em fase anágena, do peso e da espessura do cabelo. Ensaios e coortes de longo prazo em populações japonesas e coreanas reproduziram a eficácia, embora com diferenças de desenho, classificação e ausência de placebo em parte dos seguimentos. Revisões sistemáticas independentes confirmaram eficácia da finasterida entre os tratamentos não cirúrgicos, mas também destacaram heterogeneidade entre métodos de mensuração e qualidade de evidência.
Estudos de até cinco anos mostraram manutenção do benefício em parte dos homens que continuaram o tratamento.
Formulações tópicas Formulações tópicas de finasterida foram desenvolvidas para produzir inibição local da 5-alfa-redutase no couro cabeludo com menor exposição sistêmica. Em um ensaio clínico de fase III, randomizado e controlado, com 458 homens, a solução tópica produziu aumento ajustado de aproximadamente 20,2 fios na área-alvo após 24 semanas, contra 6,7 com placebo; a resposta foi numericamente semelhante à da finasterida oral no mesmo estudo. A concentração plasmática máxima de finasterida foi mais de cem vezes menor com a formulação tópica, e a redução média da DHT sérica foi de aproximadamente 34,5%, em comparação com 55,6% no grupo oral.
Uma revisão sistemática de formulações tópicas concluiu que os estudos disponíveis demonstram eficácia capilar e redução da exposição sistêmica em comparação com a administração oral, mas ressaltou heterogeneidade entre concentrações, veículos e esquemas de aplicação e a necessidade de dados de longo prazo.
Na União Europeia, a finasterida tópica em spray cutâneo na concentração de 2,275 mg/mL é autorizada desde 2020 para alopecia androgenética masculina em estágio inicial. A revisão regulatória europeia de 2025 listou apresentações cutâneas autorizadas, entre outros países, em Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Bélgica e República Tcheca. A disponibilidade permanece dependente da jurisdição.
Estudos iniciais de administração tópica eram pequenos e heterogêneos. Uma revisão sistemática de 2018 localizou apenas sete estudos humanos e classificou os resultados como promissores, porém ainda preliminares naquele momento; essa limitação histórica foi parcialmente superada por ensaios posteriores de fase III e pela autorização de formulações específicas na Europa.
Uso em mulheres e hirsutismo A finasterida não é indicada nas bulas de referência norte-americanas para tratamento de alopecia em mulheres e é contraindicada durante a gravidez devido ao risco de alterações no desenvolvimento da genitália externa de fetos masculinos. Apesar disso, o fármaco foi estudado como uso off-label em algumas condições hiperandrogênicas, especialmente hirsutismo e alopecia de padrão feminino.