A Guerra Guaranítica (1753–1756) foi o conflito armado envolvendo as tribos Guarani das missões jesuíticas contra as tropas espanholas e portuguesas, como consequência do Tratado de Madrid (1750) que definiu uma linha de demarcação entre o território colonial espanhol e português na América do Sul.Tau Golin - Cartografia da Guerra Guaranítica

O limite estabelecido entre as duas nações era demarcado pelo rio Uruguai, com Portugal possuindo o território a leste do rio e a Espanha a oeste. Isso fez com que as sete missões jesuítas a leste do rio Uruguai, conhecidas como Missões Orientais, deveriam ser desmanteladas e deslocadas para o lado oeste espanhol do rio. Essas missões: São Miguel, Santo Ângelo, São Lourenço Mártir, São Nicolas, São João Batista, São Luiz Gonzaga e São Francisco de Borja foram algumas das mais populosas da América do Sul com habitantes, de acordo com um recenseamento dos jesuítas e muitos mais nas áreas circundantes.Ganson,Barbara Anne (2003). The Guarani Under Spanish Rule in the Rio de la Plata

Em 1754, os jesuítas entregaram o controle das missões, entretanto os guaranis, liderados por Sepé Tiaraju, recusaram-se a cumprir a ordem de mudança. A princípio os esforços feitos pelo exército espanhol para remover vigorosamente os guarani das missões falharam, estendendo o conflito na região da La Plata. Em 10 de fevereiro de 1756, uma força combinada de soldados espanhóis e portugueses lutaram contra os guaranis na Batalha de Caiboaté.Jeffrey D. Burson; Jonathan Wright (29 October 2015). The Jesuit Suppression in GlobalContext: Causes, Events, and Consequences O conflito resultou na morte de guaranis, enquanto os europeus sofreram apenas 4 mortes. Na sequência da batalha, o exército conjunto luso-espanhol ocupou as sete missões.ASSIS BRASIL, Ptolomeu. Batalha de Caiboaté; episódio culminante da Guerra das Missões. Porto Alegre: Globo, 1938

Causas dos conflitos miniaturadaimagem|350px|Militares portugueses e brasileiros do século XVIII As missões jesuítas guaraníticas eram um conjunto de trinta cidades missionárias fundadas no século XVII pela ordem religiosa católica da Companhia de Jesus, entre os aborígenes guaranis e povos relacionados, cujo propósito era sua evangelização.Frank Salomon - The Cambridge History of the Native Peoples of Americas Volume III: South America Geograficamente, quinze dessas missões se localizavam nas províncias atuais de Misiones e Corrientes, na Argentina; oito delas na atual região do Paraguai e as sete restantes, chamadas Missões Orientais, localizadas no sudoeste do Brasil. Todas estas regiões localizadas na jurisdição chamada Província Paraguaia localizada no Virreinato do Peru e regiões abrangentes do atual Paraguai, Argentina, Uruguai e partes da Bolívia, Brasil e Chile.REINOS PERDIDOS: MERCOSUR JESUÍTICO (PROVINCIA PARAGUARIA DE LA COMPAÑÍA DE JESÚS (1600-1767)" Texto: Arq. Carlos Moreno en Diario del Viajero del 19-10-2011 pag. 3.

Com o coroamento de Fernando VI (1746-1759), na Espanha, tendo como rainha Bárbara de Bragança (1711-1758), filha de João V (1689-1750), de Portugal; o novo rei espanhol herdou o beligerante problema de fronteiras entre os dois domínios, causa de constantes guerras, arregimentação de tropas e da população. Fernando VI escolheu uma política conciliadora, optando pela neutralidade frente às tensões entre a França e a Inglaterra, e estabelecendo um momento de reconstrução do seu poder econômico e militar no mundo. Consequentemente a aproximação com Portugal se tornou mais efetiva e crucial para o Tratado de Madrid no ano de 1750. Fernando VI foi coroado em 10 de junho de 1746. Em 12 de novembro já ocorriam as primeiras negociações para um tratado de limites abrangente.Rejane da Silveira Several - Jesuítas e Guaranis Face aos Impérios Coloniais Ibéricos no Rio da Prata direita|350px|thumb|Antiga muralha de Colonia de Sacramento Desde 1680, Portugal havia implantado o enclave da Colônia do Sacramento na sua banda oriental (atual Colônia, no Uruguai), em uma operação de interesse geopolítico para expandir suas fronteiras, mas que se revelara economicamente substancioso pelo contrabando da prata, do couro, do chifre, do sebo e da erva-mate. Três guerras importantes já haviam sido travadas pelo reduto, perdidas por Portugal, mas recuperado na esfera diplomática. Quando não estava em guerra ou ocupada, a Colônia do Sacramento encontrava-se bloqueada permanentemente pela esquadra naval e tropas de terra da Espanha. Este conflito gerou um impasse nas as missões jesuíticas da bacia do alto Uruguai. Quando as negociações vislumbraram a permuta da Colônia do Sacramento pelos Sete Povos, o marquês de la Ensenada e o jesuíta Francisco de Rávago manifestaram-se contra.

Desde o início das conversações, dois problemas de “usurpação” de territórios afloraram. A Espanha indicava a exagerada progressão lusitana sobre o sul, com a anexação do Rio Grande de São Pedro e parte da banda oriental do Uruguai, além da famigerada Colônia do Sacramento. Portugal, por sua vez, indicava a posse espanhola ilegítima das Filipinas. Depois de diversas conferências, os dois reinos adotaram o princípio do Uti possidetis para as questões dos domínios ultramarinos, associado aos marcos notáveis das divisões naturais “dos montes ou rios grandes”. O critério possibilitou que Portugal ficasse com o domínio da Amazônia e a Espanha com o do Rio da Prata, combinado com algumas concessões mútuas de territórios adjacentes.COUTO, Jorge. As missões americanas na origem da expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e seus domínios ultramarinos. In: A expulsão dos jesuítas dos Domínios Portugueses. 250o aniversário. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2009

No entanto, a cessão das missões jesuítas aos portugueses foi um preço elevado para os líderes políticos espanhóis. Desde a sua criação, os jesuítas foram capazes de criar uma barreira real para a penetração portuguesa no Rio de la Plata e no Paraguai, formando, de fato, as únicas populações permanentes em uma fronteira irresoluta e tradicionalmente despovoada, um fato que facilitou o avançado lusitano sobre ela. Além disso, os jesuítas tinham conseguido com persuasão a pacificação hierárquicaAPARTHEID SOCIAL: campanhas racistas reeditam Brasil exterminador de indígenas das tribos indígenas naquela região e sua conversão em trabalhadores disciplinados e convertidos ao cristianismo. Este valor agregado que os missionários indígenas tinham (sua integração social e a produtividade de que eram capazes) tornava-os objeto da ganância dos bandeirantes, expedições de caça de índios que, a partir de cidades como São Paulo, no Brasil Português, buscavam para proporcionar escravos mais baratos do que os negros africanos aos latifundiários portugueses para as suas explorações agrícolas.Ganson, Barbara Anne (2003). The Guarani Under Spanish Rule in the Rio de la Plata Ao longo do século XVII e na primeira metade do século seguinte, as bandeiras e os missionários indígenas, liderados pelos jesuítas, entraram em confronto em confrontos sangrentos, geralmente favoráveis ao último, como, por exemplo, a batalha de Mbororé (sobre um afluente do curso superior do rio Uruguai), em 1641.Frank Salomon - The Cambridge History of the Native Peoples of Americas Volume III: SouthAmerica

Por fim, a coroa espanhola preferiu entregar esses domínios em troca da Colônia e o novo Tratado foi assinado em Madri a 13 de janeiro de 1750, tendo como signatários José de Carvajal e o visconde de Vila Nova de Cerveira (Luis Silva Teles). Deixavam de valer o Tratado de Tordesilhas (1494) e a Tratado de Saragoça (1529).

Tratado de Madrid miniaturadaimagem|350px|Tropas brasileiras de Ordenanças. Sec. XVIII Das povoações ou aldeias, que cede S. M. C. na margem oriental do rio Uruguai, sairão os missionários com todos os móveis e efeitos levando consigo os índios para os aldear em outras terras de Espanha; e os referidos índios poderão levar também todos os seus bens móveis e semoventes, e as armas, pólvoras e munições, que tiverem em cuja forma se entregarão as povoações à Coroa de Portugal com todas as suas casas, igrejas e edifícios, e a propriedade e posse do terreno. As que se cedem por Sua Majestade Fidelíssima e Católica nas margens dos rios Pequiri, Guaporé e das Amazonas, se entregarão com as mesmas circunstâncias que a Colônia do Sacramento, conforme se disse no artigo XIV; e os índios de uma e outra parte terão a mesma liberdade para se irem ou ficarem, do mesmo modo, e com as mesmas qualidades, que o hão de poder fazer os moradores daquela praça; exceto que os que se forem perderão a propriedade dos bens de raiz, se os tiverem.

alt=|miniaturadaimagem|286x286px|[P. José Cardiel] Mapa/do governo do Paraguai, e do de Buenos Aires, com a linha divisória das terras/da Espanha e de Portugal, ajustada entre as duas Coroas/ano 1750; cuja posse se pretende tomar este ano de 1752 Assim que o conteúdo do Tratado de Madri foi divulgado, nos dois reinos manifestaram-se contundente oposição. Em Portugal: António Pedro de Vasconcelos, ex-governador da Colônia do Sacramento; Alexandre de Gusmão, ex secretário do João V, que trabalhara no mapa geral; frei Gaspar da Encarnação, irmão do duque de Aveiros; Gomes Freire de Andrade, governador do Rio de Janeiro e Minas Gerais, com jurisdição no sul do Brasil; Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal; mercadores e contrabandistas. Em especial, unia-lhes a posição contra a troca da Colônia do Sacramento pelas terras e cidades missioneiras (oriente do rio Uruguai e norte do rio Ibicuí), com a exclusividade castelhana sobre o Rio da Prata Na Espanha, os partidários de Carlos IV de Nápoles e Sicília, que viria a assumir o reino espanhol como Carlos III, deram eco às suas declarações contra o convênio assinado por Fernando VI. Desde a península itálica, ele publicou uma declaração contra o tratado.

De fato, as forças contrárias ao tratado eram tão contundentes que dava a impressão que não seria executado. Contribuía para isso a longa e penosa doença de João V, acamado desde 1747. A assinatura acorrera em sua pior inanição, em janeiro. Até sua morte, em 31 de julho de 1750, os discursos contrários pareciam colocar uma pá de cal naquela ação diplomática. Entretanto, assim que José I (1714-1777) assumiu o poder, seu gabinete resolveu cumprir o acordo. Dos colaboradores de seu pai manteve Pedro de Mota e Silva na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. As reformas iniciaram com a nomeação de Sebastião José de Carvalho e Melo para a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, e Diogo de Mendonça Corte-Real para a da Guerra e da Marinha e Domínios Ultramarinos. Assim que as tratativas para a execução do tratado foram retomadas, a militância jesuítica retomou com contundência na península ibérica, em Roma e na América, a resistência em defesa de modificação ou revogação, contrária a entrega das Missões da banda oriental do rio Uruguai.

A área de principal litígio, a oriente do rio Uruguai, correspondia aos trabalhos das Primeira e Segunda comissões demarcatórias. À Primeira estava adstrita a demarcação da linha que iniciava em Castillos Grande, percorria as nascentes dos rios da lagoa Mirim, passava pelas cabeceiras do rio Negro, e ingressava na principal nascente do Ibicuí, percorrendo o seu canal principal até a sua foz, no rio Uruguai. Deste ponto, a Segunda Partida, demarcava a linha do rio Uruguai, no sentido de jusante. Ingressava no rio Peperi-guaçu, localizava a nascente do Santo Antônio, prosseguia pelo seu canal até o Iguaçu e, deste, findava no Salto Grande (Sete Quedas), início da demarcação de responsabilidade da Terceira Partida. Ou seja, cabia à Segunda fixar a divisão missioneira, realizando o corte demarcatório principal da separação dos Sete Povos dos demais.