Lagoa Santa é um município brasileiro do estado de Minas Gerais, localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Situa-se a cerca de 35 km da capital estadual, a uma altitude média de 800 metros. Possui área de 231,9 km² e população de 75 145 habitantes, segundo o censo de 2022.

O município localiza-se em uma região de relevo cárstico e abriga importante patrimônio natural, espeleológico, paleontológico, arqueológico, histórico e cultural. Desde o século XIX, a área é objeto de pesquisas científicas, iniciadas pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, que encontrou restos esqueletais humanos e fósseis da fauna pleistocênica.HOLTEN, Birgitte e STERLL, Michael – P.W. Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa – Belo Horizonte, Editora UFMG, 2011.

Na década de 1970, pesquisas arqueológicas realizadas na região contribuíram para a descoberta de “Luzia”, um dos fósseis humanos mais antigos das Américas, datado de aproximadamente 11,5 mil anos. Em junho de 2018, foram encontrados 39 esqueletos humanos com idades entre 8 mil e 11 mil anos no sítio arqueológico da Lapa do Santo.

As pesquisas desenvolvidas em Lagoa Santa têm contribuído para áreas como espeleologia, arqueologia, botânica, ecologia, geografia, geologia e antropologia.

História Bandeira de Fernão Dias miniatura|esquerda|200x200px|Bandeirante Fernão Dias Pais Leme

A colonização recente da região de Lagoa Santa se dá ao final do século XVII, associada a chegada da bandeira de Fernão Dias Pais Leme que subiu o Rio das Velhas em busca de metais e pedras preciosas.HOLLANDA, Sergio Buarque et alii. Historia Geral da Civilização Brasileira. Tomo I: Do descobrimento à expansão territorial. Rio de Janeiro, RJ: Editora Bertrand Brasil, 1997. A Bandeira de Fernão Dias Paes Leme, partiu em julho de 1674 de São Paulo se instalando na região hoje conhecida por Sumidouro, onde chegaram por volta de 1675, desbravando durante sete anos a região da cabeceira do Rio das Velhas, com rumo ao norte.BARBOSA. Waldemar de Almeida. História de Minas. São Paulo : Ed Comunicação. 3 Vol., 1979. Essa bandeira protagonizou eventos dramáticos como a execução de José Dias, levado à forca por ordem do pai, Fernão Dias, pela acusação de conspiração, e o assassinato do fidalgo Dom Rodrigo Castel Blanco, elevado pelo “administrador geral das minas que se encontrassem descobertas e por se descobrir”.VASCONCELOS, Diogo de. Historia Antiga de Minas Gerais. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, quarta edição, 1999. Castel Blanco entrou em confronto com Manuel da Borba Gato que, com a morte do seu sogro Fernão Dias, se viu detentor de seus poderes e não estava disposto a se subjugar ao mesmo, visto por ele como um usurpador das conquistas obtidas pela bandeira de Fernão Dias.

Origem da cidade de Lagoa Santa A ocupação da região de Lagoa Santa próxima à lagoa natural chamada "Lagoa Santa" se dá por volta de 1733, quando Felipe Rodrigues se estabelece em seu entorno, erguendo ali um pequeno engenho para produção de aguardente.MENDONÇA, Paulo C. Lagoa Santa, sua história e sua gente. Lagoa Santa, MG: Edições Garimpo, 2006. Foi Felipe Rodrigues o primeiro a citar os poderes curativos da água da Lagoa, relatando ao Frei Antonio de Miranda, de Sabará,MIRANDA, João Cardoso de. Prodigiosa Lagoa Descoberta nas Congonhas das Minas do Sabará, que tem curado as várias pessoas dos achaques, que nessa relação se expõem. Lisboa: Oficina de Miguel Menescal da Costa, 1749. que ao lavar os eczemas de sua perna, sentiu-se aliviado de suas dores e obteve a cicatrização de suas feridas. Até 1749 não se tem notícias de povoamento ostensivo, o que se altera a partir dessa data com relatos das mais diversas curas operadas pelas águas da Lagoa, registrados por João Cardoso de Miranda, em seu opúsculo “Prodigiosa Lagoa Descuberta nas Congonhas das Minas do Sabará, que tem curado várias pessoas dos achaques que nessa relação se expõe”, de 1749.

A fama das curas operadas pelas águas da Lagoa Santa, cruzou o Oceano Atlântico chegando a capital portuguesa, Lisboa, onde sua comercialização em barris chegou a ocorrer, sendo posteriormente contestada pelo rei, em vista dos prejuízos decorrentes da disputa comercial com as águas de Caldas.LIMA JR. Augusto de. Noticias Históricas. Rio de Janeiro, Livros de Portugal,p. 256.

A partir de 1749, com a chegada à Lagoa Santa de novos habitantes atraídos pela esperança da cura, surgiu à necessidade de se erguer uma capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde, cuja provisão foi obtida em 2 de maio de 1749. Em torno de 1750 foi chamado para vir à região o ouvidor de Sabará, Manuel Nunes Velho, responsável por demarcar o local para erguimento da capela, e a disposição do arruamento e dos locais para banho, designando para tal Faustino Pereira da Silva como executor de suas decisões.VASCONCELOS, Diogo de. Historia Antiga de Minas Gerais. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, quarta edição, 1999, p. 215. Desde então, a cidade de Lagoa Santa se desenvolveu em torno da Lagoa Santa e de seus mitos. A perenidade da lagoa é atestada pelos relatos dos naturalistas viajantes, desde o século XVII. Sua profundidade não ultrapassa três metros, sendo que, a aproximadamente 40 metros de sua base, encontra-se um aquífero que contribui para a sua existência. E também, em grande parte, alimentada por águas pluviais e de vários córregos (ribeirões). Seu formato é triangular e, no período das cheias, seu vertedouro lança suas águas no Rio das Velhas através do Córrego do Bebedouro.

miniatura|esquerda|upright|Igreja Nossa Senhora da Saúde

A freguesia de Nossa Senhora da Saúde de Lagoa Santa foi criada somente em 1823, separando-se então da Freguesia de Santo Antônio da Roça Grande. A construção da igreja matriz de Nossa Senhora da Saúde se dá em 1819, sendo que a criação do distrito se dá em 1891, inicialmente ligado ao município de Sabará e que posteriormente, a partir da Lei Estadual n.843 de 1923 passaria a subordinar-se a Santa Luzia do Rio das Velhas, atual Santa Luzia. A elevação de Lagoa Santa à categoria de cidade se dá através Decreto-Lei n.148, de 17 de dezembro de 1938, considerando apenas o distrito da cidade, sendo que através da Lei n.1039, de 12 de dezembro de 1953, incorporavam-se ao município os distritos de Lapinha e Confins. Em 1995, através da Lei estadual nº 12030, se desmembra do município o distrito de Confins, que se eleva a categoria de município. Segundo divisão territorial datada em 1995 o município se constitui em dois distritos: Lagoa Santa e Lapinha, tendo posteriormente a criação do distrito de Lagoinha de Fora pela lei nº 1334.RIBEIRO, Cleito Pinto. Histórico de Lagoa Santa, CAALE, Lagoa Santa/MG, 14 p. Trabalho não publicado.

Revolução de 1842 Em meados de região de Lagoa Santa foi palco de combates da Revolução Liberal de 1842. Nos dias de 4 e 5 de Agosto de 1842, no arraial de Lagoa Santa, a força insurgente liberal, resistiu tenazmente ao ataque dos legalistas que, apesar da vantagem numérica e de equipamentos, viram seu comandante Coronel Pacheco ser ferido ao início da batalha.MARINHO, José Antônio. História da Revolução Liberal de 1842. Belo Horizonte: Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, 2015. p.244-251. Registros ainda revelam o movimento na cidade de Lagoa Santa “(...) a população apoiava abertamente os rebeldes, ajudando a distribuição de munição, durante as pelejas (...)"BARBOSA, Waldemar de Almeida. História de Minas. São Paulo, Ed. Comunicação, 3 Vol. 1979, p. 585. Após o ocorrido, em 6 de agosto, o destacamento que tinha resistido tão bravamente no Arraial de Lagoa Santa se viu obrigado a se dispersar, em função da falta de provisões e reforços. Posteriormente, em 20 de agosto, após a derrota dos liberais na batalha de Santa Luzia, parte das tropas insurgentes se retiram tomando o caminho de Lagoa Santa, o que mostra o engajamento da população na causa liberal. As batalhas na região do município ocorreram nas proximidades da Lagoa Santa, na então Mata da Jangada (atual Horto).

Peter Wilhelm Lund

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Nascido em Copenhague, Dinamarca, Peter Wilhelm Lund chegou ao Brasil pela primeira vez em 1825, em busca de ares mais puros para sua saúde debilitada. Durante sua primeira estadia, que durou até 1829, ele se dedicou ao ofício de naturalista nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, coletando e estudando espécimes de formiga, moluscos e urubus (Piló e Neves, 2002). Após passar quatro anos na Europa, mostrando aos seus pares o resultado de suas pesquisas nos trópicos, Lund retornou ao Brasil. Entretanto, na segunda visita, ele não se alojou no litoral, mas sim no interior do estado de Minas Gerais, na região de Lagoa Santa. As riquezas geológicas, paleontológicas e arqueológicas fascinaram-no de tal forma que se estabeleceu definitivamente na região, onde viria a morrer em 1880 (Hurt e Blasi, 1969; Piló e Auler, 2002; Luna, 2007).HURT, W.R. & BLASI, O. O Projeto Arqueológico "Lagoa Santa", Minas Gerais, Brasil. Arquivos do Museu Paranaense, Nova Série, Arqueologia, 1969.

alt=|miniatura|300x300px|Residência de Lund em Lagoa Santa, c. 1868–1869

Entre 1835 e 1843, o naturalista dinamarquês e seu assistente e ilustrador, Peter Andreas Brandt, visitaram mais de 800 cavernas, identificando material paleontológico em pelo menos 70 delas, em seis das quais também encontraram remanescentes esqueletais humanos. A partir desses achados foram identificados mais de 100 gêneros e 149 espécies de animais, sendo 19 gêneros e 32 espécies extintas (Cartelle, 1994). Entretanto, entre as inúmeras lapas, grutas e cavernas por eles exploradas, nenhuma foi tão importante como a gruta localizada na base do maciço da Lagoa do Sumidouro. Na maior parte do tempo, essa gruta fica alagada, tornando impossível qualquer tipo de exploração do seu interior. Ainda assim, durante eventos de seca intensa que ocorrem a cada 30 anos, o nível freático fica tão baixo que é possível entrar nela. Em 1842 e 1843, durante um desses grandes períodos de seca, Lund e Brandt escavaram os depósitos subterrâneos da gruta do Sumidouro, que já desconfiavam serem muito antigos (Neves et al., 2007a). Neles, Lund e Brandt encontraram ossos humanos de muitos indivíduos, associados a ossos de animais extintos, convencendo-os da antiguidade temporal do homem americano.HOLTEN, Birgitte. STERLL, Michael. P. W. Lund e as Grutas com Ossos em Lagoa Santa; Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011.

Foi nessa mistura de espécies extintas e ainda vivas que apareceram os restos enigmáticos do cavalo e do homem, todos no mesmo estado de decomposição, de modo a não deixar nenhuma dúvida sobre a coexistência desses seres cujos restos foram enterrados juntos. Portanto, mais de três décadas antes que a comunidade norte-americana sequer começasse a cogitar a existência do Homem Glacial americano, e mais de meio século antes que as primeiras evidências nesse sentido fossem geradas, Peter Wilhelm Lund já estava convencido de que os primeiros americanos eram tão antigos que haviam convivido com os grandes animais extintos (Neves et al., 2007b).NEVES, Walter Alves & PILÓ, Luís Beethoven. O povo de Luzia. São Paulo: Editora Globo, 2008.