Pontalina é um município brasileiro do estado de Goiás, pela bacia do Rio Paranaíba, com uma população estimada de 18.843 habitantes em 2022, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O município abrange uma área total de 1.437 km², resultando em uma densidade demográfica de 12,48 habitantes por quilômetro quadrado. Tem 15.026 eleitores, um PIB per capita de R$ 15.080.034,64 e destaca-se como um importante polo de moda íntima do Estado de Goiás.

História

A origem do povoado Antes da chegada dos geralistas, a região onde hoje é Pontalina era habitada pelos indígenas Caiapós, chamados assim por seus inimigos Tupis. Os Caiapós lutaram bravamente contra os lusos-brasileiros, principalmente ao longo do período setecentista, para proteger seu território, conhecido como Sertão do Gentio Cayapó.LOURENÇO, L.A.B. Os índios da Farinha Podre. In: A oeste das minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista Triângulo Mineiro (1750-1861) [online]. Uberlândia: EDUFU, 2005, pp. 41-93. ISBN 978-85-7078-516-9. https://doi.org/10.7476/9788570785169.0004.

Na segunda parte do setecentista, o ponto principal de irradiação populacional que ocupou o extremo oeste da bacia do Paranaíba, que abrange o sul e sudoeste goiano e o Triângulo Mineiro, situava-se a sudeste da província de Goyaz, ao longo da rota que conduzia às minas de Goiás. Nessa região, as províncias de Goiás, Minas Gerais e São Paulo se encontravam sem uma delimitação precisa dos limites entre elas. Para apoiar a defesa contra os ataques dos indígenas cayapó (gentio/não manso) aos viajantes deste caminho, aldearam indígenas mansos (os Araxás, por exemplo), aliados dos mineradores, na tentativa de conter os ataques cayapó ao longo dessa estrada.

Ao mesmo tempo, comunidades quilombolas — com destaque para o Quilombo do Ambrósio - estabeleceram-se nas imediações dessa zona fronteiriça, o que resultou em vários conflitos entre mineiros luso-brasileiros, indígenas (gentis e aldeados) e quilombolas.

alt=Figura 1: ferramenta de pedra (Pedra de Raio) achada por fazendeiros, na cabeceira do Ribeirão Mateiro, próximo à cidade de Pontalina; Fonte: ROSA, Antonio Henrique. História de Pontalina: Origem do Lugarejo do Pontal no Contexto da Ocupação da Bacia do Paranaíba Oitocentista. Artigo, 2024.|esquerda|miniaturadaimagem|250px|Ferramenta de pedra indígena (Pedra de Raio) achada por fazendeiro, na cabeceira do Ribeirão Mateiro, próximo à cidade de Pontalina.

Nesse período pela bacia do Paranaíba, as disputas indígenas tinham como objetivo principal a expulsão de ameaças de seus territórios. Paralelamente, os mineradores enfrentavam o esgotamento das jazidas de ouro, o que os obrigava a buscar novas áreas de exploração ou a abandonar essa atividade. Durante o mesmo período, as comunidades quilombolas travavam batalhas pela preservação do sonho de liberdade, ações que impactavam negativamente a arrecadação fiscal e comprometiam o controle regional exercido pela Coroa. Como resposta, foram organizadas expedições para reforçar a autoridade nessa fronteira, resultando em intensos conflitos e um elevado número de mortes. Posteriormente, com o domínio completo da área, o sistema pecuarista começou a se consolidar, impulsionado pelo esgotamento das terras agrícolas no centro da província de Minas, o que deslocou mais habitantes para essas regiões de fronteira.ROSA, Antonio Henrique. História de Pontalina: Origem do Lugarejo do Pontal no Contexto da Ocupação da Bacia do Paranaíba Oitocentista. Artigo, 2024

Isso perdurou até as últimas décadas setecentistas, quando a região foi dominada por geralistas e, a partir de 1800, o processo de povoamento se intensificou, resultando no surgimento de vários lugarejos pela bacia que, em poucos anos, construíram capelas e se transformaram em curatos, e, mais tarde, em arraiais. Nesse contexto, ocorreu a transferência de parte das terras do Sertão do Gentio Cayapó, de Goiás para Minas Gerais, que passaram a ser chamadas de Sertão da Farinha Podre.

Em complemento, em 1822, o país se torna independente, o que libera as terras da Coroa para tomada. Todos esses eventos facilitaram a rápida ocupação da região. Na extremidade desse sertão, Uberaba emergiu, herdando a população do antigo Arraial do Desemboque.

Pelo sul goiano, passa a surgir vários lugarejos que - ao serem convertidos em curato - incorporam nomes de santos a seus topônimos. Pelo fato, os ranchos de oração foram transformados em capelas. Em 1813, por exemplo, o povoado de Campininha das Flores, tornou-se Patrimônio de Nossa Senhora da Conceição das Campinas, hoje um bairro de Goiânia. Em 1835, o povoado do Alemão converte-se em São Sebastião das Palmeiras do Alemão, hoje a cidade de Palmeiras de Goiás. Com Pontalina, não foi diferente: o lugarejo do Pontal foi elevado a curato sob a denominação de Patrimônio de Santa Rita do Pontal em 3 de maio de 1841.

É possível notar que o lugarejo do Pontal possui uma história muito mais longa do que a que se celebra atualmente, considerando sua emancipação em 31 de outubro de 1938, marcada como o aniversário da cidade. Sua trajetória abrange, na verdade, mais de 190 anos de ocupação regional, refletindo um passado que vai muito além de sua formalização como município.

Chegada dos primeiros geralistas ao Pontal As primeiras famílias de geralistas — imagina-se que tenha sido aproximadamente sete — a se estabelecerem na circunferência do Pontal, onde mais tarde surgiria Pontalina, vieram principalmente do Alto Paranaíba (Brumado do Salitre, atual Patrocínio) e região central do Farinha Podre (Berabinha - atual Uberlândia), atraídos pela disponibilidade de terras férteis para a pecuária. Essa ocupação se deu na forma de expropriação fundiária de terras indígenas espontânea e sem registros formais, aproveitando a instabilidade política e legislativa no Brasil após a independência em 1822.

Justiniano José Machado foi o primeiro geralista a se estabelecer na região do Pontal, nas proximidades da foz do Ribeirão Mateiro, nos últimos anos da década de 1820. Nativo da região de Patrocínio, deve ter nascido no acender das luzes oitocentistas. Há indícios de que ele seja, se não filho, parente próximo de João Ferreira Machado e Vitória Maria da Conceição, um casal que possuía terras na região do lugarejo do Brumado. Justiniano chegou à região do Pontal ainda solteiro, provavelmente através de alguma expedição sertanista de reconhecimento, prática comum naquele período em toda região do Paranaíba durante a seca, e estabeleceu-se em um local estratégico com floresta menos densa e acesso à água. Ao instalar-se, ele construiu um rancho, o que marcava a posse da terra na região, e posteriormente voltou para buscar Felicidade Alves de Rezende, sua então futura esposa.

miniaturadaimagem|ROSA, Antonio Henrique. História de Pontalina: Origem do Lugarejo do Pontal no Contexto da Ocupação da Bacia do Paranaíba Oitocentista. Artigo, 2024. Fragmentos de cerâmica indígena - provavelmente cayapó -encontrados por agricultores na zona circunvizinha do Pontal, no entorno de Pontalina.|250px

Felicidade Alves de Rezende, natural da região de Berabinha, era provavelmente filha ou parente próxima de José Alves de Rezende e Antônia Rosa da Costa, que se estabeleceram naquela região por volta de 1816. Ela deve ter nascido logo após a chegada de sua família à região do Berabinha e se casado muito jovem com Justiniano, seguindo para o Pontal logo após o matrimônio. Segundo o historiador Antônio Henrique Rosa, o registro post-mortem do casal não detalha as circunstâncias em que se conheceram ou se eram aparentados.

A nova família se instalou definitivamente na região por volta do ano de 1830. Essa chegada ao Pontal insere-se no contexto mais amplo de ocupação de terras indígenas devolutas da bacia. As primeiras famílias que chegaram a partir de 1822, como os Machado, não registraram suas propriedades oficialmente, algo comum após o fim do sistema de sesmarias. A regularização das terras apenas foi realizada muito posteriormente ao falecimento dos primeiros ocupantes.

Não seria um erro acreditar que a escolha do local para o aglomerado de ranchos no Pontal tenha se dado por conta de antigas coivaras ou aldeia indígena abandonada, que ofereciam áreas já desmatadas e facilitava a vida das primeiras famílias. A convergência de cursos d'água na região, formando um "pontal", tornava o local estratégico para o acesso e uso dos recursos hídricos. A constatação da presença indígena, provavelmente dos Cayapó, é corroborada pela facilidade de encontrar vestígios arqueológicos, como ferramentas de pedra e fragmentos cerâmicos encontrados na periferia da atual Pontalina. Esses achados indicam que a área já era povoada muitos anos antes dos geralistas chegarem.

Primeiras habitações geralistas e a evolução do rancho de oração miniaturadaimagem|308x308px|Exemplo de um lugarejo pela bacia do Paranaíba Por toda bacia do Paranaíba, que abrange Goiás e Minas, o iniciar de um lugarejo ocorria com a escolha de um local propício, onde se instalavam amontoados de ranchos, habitações feitas de madeira e cobertas com palha de palmeira, geralmente um para cada fazendeiro da circunferência. Um desses ranchos era denominado de "rancho de oração", um rancho provisório que, posteriormente, através da doação do local à cúria e com a devida autorização da Igreja, era convertido em capela, o que colocava a comunidade no mapa.

Ao longo da década de 1830, foram chegando ao Pontal mais geralistas, que se instalaram em sua periferia. Por diante, cada fazendeiro novo buscava construir no lugarejo uma habitação para sua família. As primeiras moradias dessas famílias eram ranchos simples, construídos com madeira e cobertos com palha. Essas construções precárias refletiam a pobreza e as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros do Pontal. A vida social e religiosa se concentravam no rancho de oração, o qual servia inicialmente para as celebrações religiosas, realizadas por padres itinerantes, e também como local de encontro da comunidade.

Em 3 de maio de 1841, dez anos após Justiniano José Machado e Felicidade Alves de Rezende se instalarem na localidade, com a doação de terras à cúria da Igreja Católica pelo casal, o rancho de oração foi substituído por uma capela de taipa de mão, consolidado a ocupação do lugar e o colocando sob a assistência religiosa de Campininha das Flores. O lugarejo passa, então, a ser denominado de Curato ou Patrimônio de Santa Rita do Pontal, vinculado a Bonfim (Silvânia). Essa doação consolida a posse das fazendas ocupadas pela região, através da lei do padroado, com a Igreja assumindo a administração dos povoados até sua emancipação.

No site da Matriz de Campinas, localizada em Goiânia, encontra-se uma relação de padres atuantes no período, que se acredita terem prestado assistência ao Patrimônio de Santa Rita do Pontal até este ser transferido para a jurisdição religiosa de Morrinhos. A lista inclui os seguintes sacerdotes: Padre Basílio Antônio de Santa Bárbara Almeida (1843-1856), Padre João Francisco Azevedo do Nascimento (1856-1871), Cônego José Olintho (1871-1874) e Padre Luiz Manoel dos Anjos (1874-1876).

A capela, inicialmente uma construção simples, passou por uma reconstrução em 1869, que a transformou na "igrejinha velha", demonstrando o esforço da comunidade em consolidar o patrimônio. A "igrejinha velha" se tornou, então, o centro da vida social e religiosa de Pontalina, até sua demolição em 1957, quando foi substituída pela atual Igreja Matriz Santa Rita de Cássia.

Economia de subsistência e inexpressividade no século XIX