Nathan ben Jehiel de Roma (Hebreu: נתן בן יחיאל מרומי) (Roma em ou antes de 1035-1106), foi um escritor lexicógrafo judeu italiano.
Biografia Natã ben Jehiel nasceu em Roma não mais tarde que 1035, em uma das famílias judaicas eruditas mais importantes da cidade. Por muito tempo, devido a um erro difundido por Chaim Yosef David Azulai, acreditou-se que ele pertencesse à família de Pomis. No entanto, estudos modernos indicam com grande probabilidade que ele fazia parte da família Anaw (, em italiano: degli Mansi). Seu pai, Jehiel ben Abraham, além de ser uma autoridade reconhecida em Halacá, foi também poeta litúrgico, como muitos rabinos italianos de sua época.
Os detalhes da vida de Natã são conhecidos principalmente por meio de versos autobiográficos que ele acrescentou à primeira edição de sua obra lexicográfica. Esses relatos indicam que ele não iniciou sua vida como estudioso, mas como comerciante ambulante de tecidos de linho, uma ocupação então considerada pouco respeitável. Após a morte de seu empregador, abandonou o comércio e decidiu dedicar-se ao estudo da Torá. Retornou à casa paterna, onde seu pai passou a instruí-lo, formação que foi posteriormente ampliada sob a orientação de mestres estrangeiros.
Natã viajou para a Sicília, onde entrou em contato com as tradições transmitidas por Maṣliaḥ ben Eliah al-Baṣaq, que havia estudado com Hai Gaon, o último gaom da academia de Pumbedita, na Mesopotâmia. O aprendizado dessas tradições levou alguns estudiosos posteriores a supor, de forma incorreta, que Natã teria estudado pessoalmente em Pumbedita.
Posteriormente, Natã seguiu para Narbona, onde estudou com o exegeta e aggadista Moshe ha-Darshan. Em seu retorno a Roma, é provável que tenha permanecido por algum tempo em diversas academias judaicas da Itália, especialmente em Pavia, onde um rabino chamado Moisés dirigia a escola, e em Bari, onde ensinava Moses Kalfo. Ele regressou definitivamente a Roma antes da morte de seu pai, ocorrida por volta de 1070, ocasião em que pôde colocar em prática sua defesa de ritos fúnebres simples.
Após a morte de Jehiel ben Abraham, a comunidade judaica de Roma confiou a presidência do colégio rabínico aos seus três filhos estudiosos: Daniel, Natã e Abraham, conhecidos como “os geonim da casa de Rabino Jehiel”. Daniel, o mais velho, parece ter escrito um comentário sobre a seção Zeraim da Mixná, frequentemente citada no Arukh, e manteve relações amistosas com estudiosos cristãos. Os três irmãos rapidamente se tornaram autoridades reconhecidas na lei e na exegese judaica, recebendo numerosas consultas de diversas comunidades. Seu correspondente mais frequente foi Salomão ben Isaac (Rashi).
A vida pessoal de Natã foi marcada por tragédias. Todos os seus filhos faleceram ainda muito jovens, o que o levou a buscar consolo na filantropia e no estudo. Em 1085, mandou construir um micvê. Cerca de dezessete anos depois, em setembro de 1101, ele e seus irmãos fundaram uma sinagoga em Roma. Em fevereiro de 1101, Natã concluiu sua principal obra, o Arukh.
Arukh O Arukh (, Arukh, “Organizado”) é um dicionário talmúdico medieval, compilado no final do século XI por Natã ben Jehiel de Roma (c. 1035–1106). A obra tem como objetivo explicar palavras difíceis encontradas no Talmude, no Midraxe e em outros textos rabínicos, sendo considerada uma das mais importantes contribuições lexicográficas do judaísmo medieval.Encyclopaedia Judaica, verbete “Arukh”, 2ª ed., Macmillan Reference USA, 2007.
O Arukh foi composto em Roma, em um período em que os centros de estudo judaico da Europa dependiam fortemente de tradições textuais transmitidas a partir do mundo islâmico e bizantino. Natã ben Jehiel teve acesso a uma ampla herança intelectual, incluindo comentários e obras lexicográficas produzidas por sábios da Babilônia, do Norte da África e do Império Bizantino.Hermann L. Strack; Günter Stemberger, Introduction to the Talmud and Midrash, Fortress Press, 1996.
A obra é organizada em ordem alfabética, seguindo o alfabeto hebraico. Cada verbete geralmente apresenta o termo talmúdico ou midráshico, uma explicação de seu significado, citações de passagens relevantes e propostas etimológicas. Natã ben Jehiel recorre com frequência à comparação linguística para esclarecer termos obscuros.Ludwig Blau, “Aruch”, Jewish Encyclopedia, 1901–1906.
Uma característica distintiva do Arukh é o uso de várias línguas como apoio explicativo, incluindo aramaico, grego, latim, árabe, persa e formas do italiano antigo. Esse método reflete o ambiente multicultural do Mediterrâneo medieval e confere à obra importância também para os estudos históricos da linguagem.Alexander Kohut, Aruch Completum, Viena, 1878–1892.
Natã ben Jehiel baseou-se extensivamente em autoridades rabínicas anteriores, como Hai Gaon, Xerirá ben Haniná e Guershom ben Juda. Em diversos casos, o Arukh preserva citações de obras hoje parcialmente ou totalmente perdidas, o que aumenta seu valor como fonte histórica.Encyclopaedia Britannica, verbete “Nathan ben Jehiel”.
Desde sua composição, o Arukh tornou-se uma obra de referência fundamental para o estudo do Talmude. Foi amplamente utilizado por comentadores medievais e continuou a influenciar estudiosos posteriores. Ao longo dos séculos, surgiram glosas, suplementos e revisões críticas da obra, sendo a mais conhecida o Arukh ha-Shalem, preparado por Alexander Kohut no século XIX.Ismar Elbogen, Jewish Liturgy: A Comprehensive History, Jewish Publication Society, 1993.
Embora algumas de suas etimologias não correspondam aos critérios da linguística moderna, o Arukh permanece indispensável para a compreensão da terminologia rabínica e da tradição interpretativa judaica medieval.Günter Stemberger, Jews and Christians in the Holy Land, T&T Clark, 2000.
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