Uncle Tom's Cabin; or, Life Among the Lowly, ou A Cabana do Tio Tom é um romance sobre a escravatura no Estados Unidos da escritora norte-americana Harriet Beecher Stowe. Publicado em 1852, o livro "ajudou a estabelecer as bases para Guerra Civil", segundo Will Kaufman.Will Kaufman, The Civil War in American Culture, Edinburgh University Press, 2006, p. 18.
Stowe, uma professora do Hartford Female Seminary nascida no estado do Connecticut, e defensora activa do abolicionismo no Estados Unidos, criou a figura do Uncle Tom, um escravo negro, com uma longa história de sofrimento, e cuja vida é o ponto central da história do livro. O romance descreve a realidade da escravatura ao mesmo tempo que afirma que o amor cristão pode superar algo tão destrutivo como a escravidão dos seres humanos.Uncle Tom's Cabin de Harriet Beecher Stowe, Spark Publishers, 2002, p. 19, refere que o romance narra o "poder destrutivo da escravatura e a capacidade de o amor cristão a superar..."Laurie E. Rozakis, The Complete Idiot's Guide to American Literature, Alpha Books, 1999, p. 125, diz que uma das principais mensagens do livro é que "A crise da escravatura só pode ser resolvida pelo amor cristão."Deborah C. de Rosa, Domestic Abolitionism and Juvenile Literature, 1830–1865, SUNY Press, 2003, p. 121. De Rosa cita Jane Tompkins: a estratégia de Stowe era destruir a escravatura através do "poder salvador do amor cristão." Esta citação encontra-se em "Sentimental Power: Uncle Tom's Cabin and the Politics of Literary History" por Jane Tompkins, em In Sensational Designs: The Cultural Work of American Fiction, 1790–1860. New York: Oxford University Press, 1985. pp. 122–146. Neste ensaio, Tompkins também escreve: "Stowe concebe o seu livro como um instrumento para alertar para o dia quando o mundo será governado não pela força, mas pelo amor cristão."
Uncle Tom's Cabin foi o romance mais vendido do século XIX e o segundo livro deste século, logo a seguir à Bíblia."The Sentimental Novel: The Example of Harriet Beecher Stowe" de Gail K. Smith, The Cambridge Companion to Nineteenth-Century American Women's Writing de Dale M. Bauer e Philip Gould, Cambridge University Press, 2001, p. 221. Crê-se que terá sido um dos pontos de partida para a causa do abolicionismo na década de 1850.Goldner, Ellen J. "Arguing with Pictures: Race, Class and the Formation of Popular Abolitionism Through Uncle Tom's Cabin." Journal of American & Comparative Cultures 2001 24(1–2): 71–84. Texto completo: online em Ebsco. No primeiro ano da sua publicação, foram vendidos cerca de cópias nos Estados Unidos; um milhão na Grã-Bretanha.Geoffrey Wheatcroft, "The Cousins' War: review of Amanda Foreman, 'A World on Fire'", New York Times Book Review, 3 de Julho de 2011, p. 1 Em 1855, três anos depois da primeira publicação, foi chamado "o romance mais popular dos nossos dias".Everon, Ernest. "Some Thoughts Anent Dickens and Novel Writing" The Ladies' Companion and Monthly Magazine Londres, 1855, Volume VII, Segunda Série:259. O impacto atribuído ao livro é enorme, reforçado por uma história de quando Abraham Lincoln conheceu Stowe no início da Guerra Civil, e lhe disse: "Então é esta a pequena senhora que deu início a esta grande guerra".Charles Edward Stowe, Harriet Beecher Stowe: The Story of Her Life (1911) p. 203. A citação não é reconhecida; só apareceu impressa em 1896, e tem sido alvo de discussão: "A longa presença da saudação de Lincoln como uma anedota em estudos literários e estudos sobre Stowe, pode talvez ser explicada em parte pelo desejo entre muitos intelectuais contemporâneos ... de afirmar o papel da literatura como agente de mudança social".
O livro e as peças de teatro nele inspiradas ajudaram a tornar popular vários estereótipos sobre os negros.Hulser, Kathleen. "Reading Uncle Tom's Image: From Anti-slavery Hero to Racial Insult." New-York Journal of American History 2003 65(1): 75–79. . Destaque-se a afectuosa mammy (mãezinha) negra; o estereótipo pickaninny referente a crianças negras; e o Uncle Tom (pai Tomás), ou o obediente e serviçal sofredor devoto ao seu patrão ou patroa brancos. Em anos mais recentes, as associações negativas a Uncle Tom's Cabin, esconderam, até um certo ponto, o impacto histórico do livro como um "instrumento essencial anti-escravatura".Henry Louis Gates, Kwame Anthony Appiah, Africana: Arts and Letters: An A-to-Z Reference of Writers, Musicians, and Artists of the African American Experience, Running Press, 2005, p. 544.
Fontes Harriet Beecher Stowe, uma professora do Hartford Female Seminary, nascida no estado norte-americano do Connecticut, e defensora activa do abolicionismo no Estados Unidos, escreveu a história em reacção à aprovação, em 1850, da segunda Lei do Escravo Fugitivo. Grande parte do livro foi escrito em Brunswick, onde o seu marido, Calvin Ellis Stowe, ensinava no Bowdoin College.
Stowe foi parcialmente inspirada a escrever Uncle Tom's Cabin pela narrativa The Life of Josiah Henson, Formerly a Slave, Now an Inhabitant of Canada, as Narrated by Himself (A Vida de Josiah Henson, Ex-Escravo, Actualmente Habitante do Canadá, Tal Como Narrada por Ele Próprio) (1849). Henson, um ex-escravo negro, viveu e trabalhou numa plantação de tabaco com , em North Bethesda, Maryland, do proprietário Isaac Riley.Susan Logue, "Historic Uncle Tom's Cabin Saved", VOA News, 2 de Janeiro de 2006. Acesso em 24 de Dezembro de 2011. Henson escapou da escravatura ao fugir, em 1830, para a Provincia do Canadá Superior (actual Ontário), onde ajudou outros escravos fugitivos, e se tornou autossuficiente, e onde escreveu as suas memórias. Stowe reconheceu em 1853 que os registos de Henson a inspiraram para conceber Uncle Tom's Cabin.Harriet Beecher Stowe, A Key to Uncle Tom's Cabin 1853, p. 42, no qual Stowe afirma: "Semelhanças com Uncle Tom podem ser encontradas nas memórias publicadas do venerável Josiah Henson]..." Estas afirmações também são citadas em A Routledge Literary Sourcebook on Harriet Beecher Stowe's Uncle Tom's Cabin de Debra J. Rosenthal, Routledge, 2003, pp. 25–26. Quando a obra de Stowe se tornou um dos livros mais vendidos, Henson tornou a publicar as suas memórias como The Memoirs of Uncle Tom (As Memórias do Pai Tomás) e foi em digressão dando palestras nos Estados Unidos e Europa. O título do romance de Stowe tem origem na casa-cabana de Hensone—Uncle Tom's Cabin Historic Site, perto de Dresden, Canadá—a qual desde os anos de 1940 passou a ser um museu. A cabana onde Henson viveu enquanto escravo já não existe, mas uma outra cabana na herdade de Riley, erradamente atribuída a Henson, foi adquirida pelo governo do Condado de Montgomery em 2006.Annys Shin, "After buying historic home, Md. officials find it wasn't really Uncle Tom's Cabin", Washington Post, 3 de Outubro de, 2010. Faz, actualmente, parte do Serviço Nacional de Parques.Official Montgomery Parks Josiah Henson Park site
American Slavery As It Is: Testimony of a Thousand Witnesses, um volume em co-autoria com Theodore Dwight Weld e as irmãs Grimké, também é uma das fontes para o presente romance.The Columbia Encyclopedia, Sixth Edition, 2001–2005. Stowe disse ter ido buscar informações a diversas entrevistas a pessoas que escaparam à escravatura durante o período em que viveu em Cincinnati, Ohio, através do rio Ohio desde o Kentucky, um estado de escravos. Em Cincinnati, o Underground Railroad tinha simpatizantes abolicionistas e ajudava os escravos a fugir pelas rotas a partir do Sul.
Stowe mencionou várias inspirações e fontes para o seu livro em A Key to Uncle Tom's Cabin (1853). Este livro de não-ficção tinha o objectivo de verificar as alegações de Stowe sobre a escravatura.The Key to Uncle Tom's Cabin, Uncle Tom's Cabin and American Culture, a Multi-Media Archive. Acesso em 20 de Abril de 2007. Contudo, pesquisas posteriores indicam que Stowe não leu muitos dos livros citados antes da publicação do seu.
Publicação thumb|upright|right|The National Era, 5 de Junho de 1851. Uncle Tom's Cabin foi publicado pela primeira vez, em forma de série semanal, durante 40 semanas, no The National Era, um jornal abolicionista, a 5 de Junho de 1851. Originalmente, seria uma narrativa curta prevista durar apenas umas semanas. No entanto, Stowe expandiu a história de forma muito significativa, e tornou-se instantaneamente muito popular, de tal forma que, quando ela falhou uma publicação, foram vários os protestos enviados para os escritórios do Era. Devido à popularidade da história, o editor, John P. Jewett, contactou Stowe propondo-lhe que a série passasse para o formato de livro. Enquanto Stowe se questionava sobre se alguém iria ler Uncle Tom's Cabin em livro, acabou por aceder à proposta de Jewett.
Convencida de que o livro seria popular, Jewett decidiu, estranhamente para a época, que ele incluiria seis páginas totalmente ilustradas pelas gravuras de Hammatt Billings na primeira edição.First Edition Illustrations, Uncle Tom's Cabin and American Culture, a Multi-Media Archive. Acesso em 18 de Abril de 2007. Publicado em livro a 20 de Março de 1852, o romance vendeu 3 000 cópias no primeiro dia, e depressa esgotou a primeira edição. Foram efectuadas mais edições (incluindo uma de luxo em 1853, com 117 ilustrações de Billings).Illustrations for the "Splendid Edition", Uncle Tom's Cabin and American Culture, a Multi-Media Archive. Acesso em 18 de Abril de 2007.
No primeiro ano da sua publicação, foram vendidas cópias de Uncle Tom's Cabin. Contudo, findo o primeiro ano, a "procura estagnou de forma inesperada.... Durante anos não foram impressas mais cópias, e se, como se alega, que Abraham Lincoln elogiou Stowe em 1862 como 'a pequena senhora que escreveu o livro que deu início a esta grande guerra,' o livro não foi impresso durante muitos anos". Jewett saiu do negócio, e só em Novembro de 1862, quando a Ticknor and Fields voltou a publicar o livro, é que a procura tornou a subir.Michael Winship, "Uncle Tom's Cabin: History of the Book in the 19th-Century United States."
A história foi traduzida para várias grandes línguas, e nos Estados Unidos tornou-se no segundo livro com mas vendas logo a seguir à Bíblia. Algumas das primeiras edições incluíam uma introdução escrita pelo reverendo James Sherman, um padre congregacional em Londres conhecido pelas suas ideias abolicionistas. Uncle Tom's Cabin também teve sucesso comercial na Grã-Bretanha, onde começou a vender em Maio de 1852, e onde vendeu cópias. Em poucos anos estavam em circulação 1,5 milhões de cópias do livro neste país, embora muitas delas violassem os direitos de autor (situação que também ocorreu nos Estados Unidos)."publishing, history of." (2007). In Encyclopædia Britannica. Acesso em 18 de Abril de 2007, de Encyclopædia Britannica Online.
Enredo
Eliza foge com o seu filho; Tom é vendido e "levado através do rio"
O livro começa com um agricultor do Kentucky chamado Arthur Shelby perante a perda da sua quinta por causa de dívidas. Mesmo acreditando que ele e a sua esposa Emily Shelby têm um relacionamento amável com os seus escravos, Shelby decide arranjar o dinheiro necessário vendendo dois deles—Uncle Tom, um homem de meia-idade com mulher e filhos, e Harry, filho da criada de Emily Shelby, Eliza—a um comerciante de escravos. Emily Shelby é contra esta ideia porque tinha prometido à sua criada que o seu filho nunca seria vendido; o filho de Emily, George Shelby, detesta a ideia de ver Tom a ir embora pois olha para ele como seu amigo e mentor.
Quando Eliza escuta o Sr. e a Sra. Shelby a falar sobre os planos para vender Tom e Harry, Eliza decide fugir com o seu filho. A história estabelece que Eliza escolheu assim pois teme perder a sua única criança sobrevivente (já havia perdido dois filhos). Eliza parte nessa mesma noite, deixando um bilhete com um pedido de desculpas à sua patroa.