thumb|right|220x220px|A bandeira da Córsega, símbolo da identidade nacional. miniaturadaimagem|Pasquale Paoli que representa a identidade da Córsega

Na história de Córsega, a geografia e orografia tiveram consequências maiores que em outros lugares. A grande ilha mediterrânea é uma "montanha no meio do mar", atravessada de noroeste a sudeste por um formidável relevo cujas montanhas superam por vezes os 2,5 km de altitude. O ponto mais alto da ilha alcança os 2706 m no Monte Cinto, cujo pico fica somente a 28 km do mar, mostrando o grande declive da ilha.

Esse relevo sempre dividiu Córsega em duas partes à nordeste e sudoeste da ilha: a Alta Córsega, chamada historicamente de "Banda de dentro" pois se encontra antes das montanhas (pegando como referência a Itália) ou Cismonte, e a Corse-du-Sud, chamada historicamente de "Banda de fora", além das montanhas ou Pumonte.

Os vilarejos que se dispersam pelas montanhas (muitos acima dos 1000 m de altitude) ficavam no inverno sem ligações com o resto da ilha por conta de nevascas que podem durar até semanas. Isto causava (junto com as montanhas) uma barreira que dividia as duas regiões. Além disto, os íngremes vales eram por vezes sem estradas de ligação com outros vales dentro da própria Banda, o que deixava o interior corso com pouca influência com o restante do mundo.

Se por um lado estas características do terreno deixaram mais difícil o trabalho dos invasores, deixaram bastante lenta a penetração e acostumando os corsos a fazer pequenas guerrilhas para resistir por séculos, por outro lado contribuíram a deixar sempre baixa a densidade de população e a separar os corsos entre eles.

A Alta Córsega, virada para a Península Itálica, sofreu maior influência italiana, que no plano político-social e linguístico, enquanto a parte sudoeste manteve uma originalidade maior, mas tendo um menor progresso político, pelo menos até a invasão francesa. Enquanto as áreas de montanhas tinham uma maior tendência a conservar as tradições locais, as cidades costeiras foram fundadas por invasores. Ocasionando a criação do anarquismo nas aldeias e empurrando a população do interior a fazer justiça com as próprias mãos, e a difundir o fenômeno do banditismo.

A grande divisão orográfica acabou por criar na ilha fronteiras sociais, linguísticas e de ideais políticos. Tais fronteiras ao longo da história, mesmo com poucas variações, acabaram criando as atuais subdivisões administrativas, que permanecem até hoje. A grandes dimensões da ilha (quase 8800 km ²) mesmo não garantindo autonomia, foi suficiente para criar um desejo de independência nos corsos. Localizada em uma posição estratégica no Mediterrâneo, a Córsega acabou atraindo o interesse em outros povos que aos poucos chegariam à ilha como comerciantes ou como conquistadores. Os fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, pisanos, aragoneses, genoveses e, por fim, os franceses (que com o Tratado de Versalhes de 1768 obrigaram os genoveses a ceder a ilha, e depois a invadiram), foram os dominadores da ilha, deixando ao povo local poucos períodos de independência.

Os primeiros habitantes

thumb|right|250px|Menires alinhados na localidade megalítica de Palaghju, perto de Sartena. thumb|right|250px|Casteddu d'Araghju, Corse-du-Sud. Devido às glaciações, o nível médio do Mediterrâneo se abaixou e se criaram diversas pontes naturais permitiram a passagem da fauna (e talvez do homem) da península Itálica ao arquipélago sardo-corso, passando pelas ilhas toscanas e atravessando um pequeno trecho de mar. Entre 12 e 14 mil anos atrás, o clima começou a sua evolução e levou o Mediterrâneo à sua forma atual, e a Córsega assumiu o aspecto atual insular. Remontam a cerca de 9000 anos a.C. as primeiras localidades paleolíticas de pedras e esboços de escultura achadas na Córsega, na região de Porto-Vecchio. Um esqueleto feminino (a dame de Bonifacio) datado do VII milênio a.C. foi achado perto da cidade homônima. O neolítico se concluiu por volta de 1800 a.C. na Córsega.

Neste período se desenvolveu uma civilização megalítica da que ficam menires. A localidade de Filitosa é reconhecida pela UNESCO como patrimônio mundial, se encontra perto de Sollacaro, próximo da foz do rio Taravo.

Sempre no sul, se desenvolveu com a chegada da Idade do Bronze, a civilização Torreana, ligada com a Nurágica na ilha vizinha, a Sardenha. Desta cultura restam numerosas torres com estrutura parecida com as dos nuragues sardos, ainda que menos imponentes. Pela natureza dos achados, da época e da localização destas, acredita-se que tal civilização seria da extensão da desenvolvida na Sardenha. Melhor organizados e armados, os Torreanos (que alguns acreditam ser o antigo povo do mar dos Shardana) ganham dos megalíticos e mandam estes para o centro e o norte da ilha. Na mesma localidade de Filitosa restam os traços da destruição cruel do assentamento precedente e um assentamento Torreano no lugar deste.

Na Idade do Ferro parece que aconteceu uma progressiva fusão entre os herdeiros das duas civilizações: começa a nascer o povo que os gregos chamarão de Κὁρυιοι, corsos. Também são achadas algumas inscrições fenícias do século IX a.C. que citam o povo do mar chamado KRSYM, assentado em Kition (Chipre).

A época clássica

miniaturadaimagem|Córsega na época Etrusca

Neste período, cada novo invasor expulsa o precedente. Chegam à ilha iberos, lígures, fenícios e gregos, enquanto os indígenas se refugiam nos montes.

A Idade do Ferro, que se iniciara na ilha por volta do século VIII a.C., termina com a entrada da Córsega na História quando foi fundada a colonos gregos de Fócia a colônia de Alalia no ano de 565 a.C., perto da atual cidade de Aleria. Os gregos chamam a ilha de Cirno.

Os gregos também resistem pouco: em 535 a.C. foram expulsos por uma coalizão Etrusco-Cartaginesa. Continuam as incursões dos gregos de Siracusa que, no século V a.C., fundam ‘’Portus Syracusanus’’ (Porto-Vecchio) e, novamente, a dos Cartagineses (século VI a.C.).

Sete séculos da Córsega romana

Lúcio Cornélio Cipião ocupa a Córsega em 259 a.C., durante a Primeira Guerra Púnica, dando início a uma dominação que durou cerca sete séculos.

Após uma série de acontecimentos internos, como a tentativa dos Romanos de ocupar a Sardenha a partir da Córsega e depois se confrontar com os corsos, a definitiva expulsão das últimas forças púnicas termina em 227 a.C.. Inicialmente os Romanos se limitaram em controlar a ilha sem planejar uma colonização.

Caio Mário funda a cidade de Mariana (Colonia Mariana a Caio Mario deducta, localizada na atual comuna de Lucciana) perto da foz do Golo em 105 a.C.. Deste momento em diante começa a colonização propriamente dita na ilha e florescem vilas rústicas e suburbanas, vilarejos de todo tipo, incluídas as termas de Orezza e Guagno.

miniaturadaimagem|Córsega na época Itália romana

Em 81 a.C. são os legionários de Sula a encontrar na Córsega um lugar para se aposentar, seguidos pelos veteranos de Júlio César. A dominação romana desenvolve-se sem grandes confrontos e, ao contrário do que aconteceu em outras províncias (a Córsega é administrativamente associada à Sardenha com reforma de Otaviano de 4 a.C.), os Romanos ganham respeito e colaboração dos chefes indígenas (a começar pelos Venacinos, tribo local de Capo Corso), reconhecendo-lhes as funções de governo local e gerando riqueza aproveitando as terras aproveitáveis das colinas e ao longo das costas.

No ano de 44 a.C. Diodoro da Sicília visita a Córsega e nota que os corsos entre eles respeitam regras de justiça e humanidade mais evoluídas que aquelas de outros povos bárbaros, estima o número populacional em cerca de 30 000 e refere que estes se dedicam a pastorear, e que marcam os gados soltos livres no pasto.

Sêneca passa dez anos no exílio na Córsega desde 41.

Em Aleria e Mariana são preparadas bases secundárias da frota imperial de Miseno. Os marinheiros corsos alistados nos portos da ilha foram os primeiros a ter a cidadania romana (com Vespasiano em 75).

À época Antonina são aperfeiçoadas as vias de comunicação interna (estrada Aleria-Aiacium e, na costa leste, Aleria-Mantinum - depois Bastia - ao norte Aleria-Marianum - depois Bonifácio - e ao sul): a ilha fica quase completamente latinizada, exceto alguns enclaves nas montanhas.

Parece confirmado que a ilha foi colonizada pelos romanos, sobretudo através das distribuições de terras aos veteranos provenientes da Itália meridional - ou a soldados provenientes dos mesmos estratos sociais e étnicos os quais foram também dadas terras em particular na Sicília -, o que ajudaria a explicar algumas afinidades linguísticas existentes ainda na atualidade entre o corso meridional e os dialetos da Sicília e da Calábria. Segundo outras hipóteses mais recentes, estas influências linguísticas poderiam ter acontecido por migrações mais tardias, de refugiados da África entre o século VII e o século VIII.

Em 150, o geógrafo Ptolomeu em sua obra cartográfica fez uma descrição apurada da Córsega pré-romana, listando oito rios principais (entre os quais o Govola-Golo e o Rhotamus-Tavignano), 32 centros habitados e portos - entre os quais Centurinon (Centuri), Canelate (Punta di Canelle), Clunion (Meria), Marianon (Bonnifacio), Portus Syracusanus (Porto Vecchio), Alista (Santa Lucia di Porto Vecchio), Philonios (Favone), Mariana, Aleria -, e doze tribos autóctones (em grego, latim e a sua localização): miniaturadaimagem|Córsega em Império Romano

Kerouinoi (Cervini, Balagna); Tarabenoi (Tarabeni, Cinarca); Titianoi (Titiani, Valinco); Belatonoi (Belatoni, Sartinese); Ouanakinoi (Venacini, Capo còrso); Kilebensioi (Cilebensi, Nebbio); Likninoi (Licinini, Niolo); Opinoi (Opini, Castagniccia, Bozio); Simbroi (Sumbri, Venaco); Koumanesoi (Cumanesi, Fiumorbo); Soubasanoi (Subasani, Carbini e Livia); Makrinoi (Macrini, Casinca).

Santa Devota é, junto com Santa Júlia, uma das primeiras santas corsas que se tem notícia. É padroeira do Principado de Mônaco. Santa Júlia é padroeira da Córsega e de Bréscia, onde descansa, que foi transportada por Ansa, mulher do rei longobardo Desidério em 762. Santa Júlia é também padroeira de Livorno.

Como nos outros lugares no ocidente, a organização romana na Córsega caiu com a invasão dos vândalos que no século V, partindo da África, chegam a Roma. Aleria foi saqueada e, abandonada, termina em ruínas. Mariana foi sede episcopal na Idade Média.

A alta idade média Durante as convulsões que acompanharam o fim do Império Romano do Ocidente, a Córsega foi disputada entre vândalos e godos, aliados dos últimos imperadores romanos, até que Genserico assegurou o controle em 469.

Durante os 65 anos de dominação, os vândalos desfrutaram do patrimônio florestal da ilha para os estaleiros, e tiveram uma frota que aterrorizou o Mediterrâneo ocidental.

A potência vândala na África foi destruída por Belisário, enquanto seu general Cirilo conquista a Córsega em 534, que foi unida ao Império Romano do Oriente. Segundo Procópio, na Córsega restavam menos de 30 000 habitantes.

thumb|left|250px|Berengario se submete à Otão I da Germânia. miniaturadaimagem|Córsega na época Império romano do Oriente

No período sucessivo, godos e longobardos saqueiam a ilha, deixada indefesa pelos Bizantinos, os quais após empobrecerem a ilha devido a um excessivo peso fiscal, não a tinham protegido devidamente. Por outro lado, os próprios Bizantinos tiveram problemas na África com a invasão árabe e, em 713, os árabes realizam as primeiras incursões contra a Córsega.

Naquela altura aconteceu um notável processo de despovoamento da ilha e a formação, perto de Roma, de uma colônia corsa em Porto (Óstia).

miniaturadaimagem|Córsega na época lombardas