José da Silva Pais (na grafia antiga, José da Silva Paes) (Lisboa, — Lisboa, ) foi um militar, cartógrafo, engenheiro, arquiteto, urbanista e administrador colonial português.

Começou a destacar-se no período da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714), mostrando valor em diversas batalhas como engenheiro e comandante. Depois participou de projetos de infraestrutura e fortificações em Lisboa e nos Açores e colaborou com o Conselho Ultramarino no desenvolvimento de projetos de construção para o Brasil, sendo então designado em 1734 para o governo interino da Capitania do Rio de Janeiro, onde trabalhou como engenheiro e administrador, organizando um grande projeto de reforma nas fortificações da cidade. Foi enviado em 1736 para a Colônia do Sacramento para socorrê-la do assédio espanhol, mas ali por várias razões sua atuação foi infrutífera.

Recebendo instruções para se dirigir ao Rio Grande do Sul como comandante militar, fundou em 1737 o Presídio do Rio Grande, uma colônia militar com uma fortaleza e outras benfeitorias, instalou outras defesas na região e deu início ao processo de povoamento com colonos civis. Voltou brevemente ao Rio de Janeiro em 1738 e em 1739 assumiu o governo da Ilha de Santa Catarina, onde permaneceria até 1749, com um hiato entre 1743 e 1745, quando teve de colaborar novamente em Sacramento. Durante sua permanência em Santa Catarina, construiu diversas fortificações importantes, criou o plano geral da nova capital, a Vila de Nossa Senhora do Desterro, projetou edifícios administrativos e a igreja, fomentou a produção agrícola e o comércio, e deu início ao povoamento com colonos açorianos. De volta a Lisboa, continuou assessorando o Conselho Ultramarino em vários projetos.

Tinha uma visão clara do potencial das regiões do sul para o engrandecimento do Império Português, e foi um ativo colaborador na criação das estruturas ideológicas, militares, administrativas, geopolíticas e materiais para garantir a presença portuguesa no Prata, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Seus bons serviços lhe valeram muitos elogios e diversas promoções, chegando ao posto de general, assim como o título de cavaleiro fidalgo da Casa Real e a admissão na Ordem de Cristo como cavaleiro. Tinha uma grande cultura para os padrões de sua época, interessando-se por várias áreas do conhecimento. Nascido em uma família obscura, ao longo de sua carreira demonstrou méritos que o colocaram na posição de um dos principais agentes da Coroa Portuguesa no Brasil de sua geração.

Família Silva Pais nasceu na freguesia de Nossa Senhora das Mercês, em Lisboa, no dia 6 de outubro de 1679, sendo batizado no dia 25 de outubro, filho de Clara Maria da Silva, lisboeta, e Roque Gomes Pais, natural de Viana do Castelo. Seus avós paternos foram Antônio Gomes da Silva e Antônia de Vilas Boas, e os maternos, Sebastião Ribeiro de Teive e Francisca da Silva. Pouco se sabe sobre sua família. Eram plebeus mas tinham uma situação econômica confortável. Seu pai foi proprietário do Engenho Boa Vista na Capitania de Itamaracá, e seu avô paterno foi um piloto dos navios da carreira do Brasil.Dorenkott Jr., Charles. José da Silva País: The Defense and Expansion of Southern Brazil, 1735-1749. University of New Mexico, 1972, pp. 23-25Piazza, Walter F. O Brigadeiro José da Silva Paes, estruturador do Brasil Meridional. Florianópolis: Editora da UFSC, 1988, p. 23 O avô materno em 1638 contratou com o Conselho da Fazenda "o fornecimento de trigo de boa qualidade para o apresto das naus da Índia",Bellotto, Heloísa Liberalli et alii. Instrumento de pesquisa dos documentos manuscritos avulsos referentes ao Reino existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. Arquivo Histórico Ultramarino, 2018, p. 266 e em 1646 arrendou as saboarias de sabão branco de Lisboa por 3 mil cruzados pelo prazo de 27 anos.Wagner, Mafalda de Noronha. A casa de Vila Real e a conspiração de 1641 contra D. João IV. Colibri, 2007, p. 260 O pai foi assassinado a tiros no Engenho Boa Vista em 1687, a mando de Leão Falcão de Melo. Uma devassa foi aberta para investigar o crime, concluindo que o motivo foi vingança: "e ele o confessava em sua vida que se quatorze vezes ressuscitara tantas o tornara a matar, sendo a causa umas dívidas que tiveram sobre a compra do dito Engenho pelo querer o dito Leão Falcão por ter sido de seus sogros e não querer que o morto o comprasse".Projeto Resgate - Pernambuco (1590-1826). "Carta do desembargador sindicante da capitania de Pernambuco". Biblioteca Digital Luso-Brasileira, 2002-2012 Freitas, Décio. República de Palmares: pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. UFAL, 2004, pp. 82-83

Casou-se em Lisboa em 8 de maio de 1704 com Máxima Teresa da Silva (em alguns documentos citada como Máxima Teresa de Brito), filha de Antônia Maria de Brito e Luís Antunes Viana, capitão de mar e guerra, que auxiliou a carreira do genro tomar ímpeto, e através do direito da filha, lhe transmitiria o Hábito da Ordem de São Tiago. Tiveram os filhos Antônia Teresa de Brito, Clara Joaquina da Silva Pais, Luís Manuel da Silva Pais, Roque da Silva Pais, Maria Luísa da Silva Pais e José da Silva Pais. As filhas casaram com funcionários da Coroa e os filhos foram militares.Abril, Victor Hugo. Governadores interinos: cotidiano administrativo e trajetórias no Rio de Janeiro. Universidade Federal Fluminense, 2015, pp. 181-184 Luís Manuel foi capitão de Infantaria em Santa Catarina,Carvalho, Lygia Feu de. "Registros de Cartas, Portarias, Instruções, Provisões, Nombramentos e Sesmarias Relativas à Colônia - Rio Grande do Sul". In: Revista do Archivo Publico Mineiro, 1928, p. 47 comandante da Guarda do Norte no Rio Grande,"Documentos sobre a perda do Rio Grande de S. Pedro". In: Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, 1869 (XXXII): 323-326 governador interino da Capitania do Rio Grande de São Pedro,Mello, Barão Homem de. "Documentos relativos à história da Capitania, depois Província, de S. Pedro do Rio Grande do Sul". In: Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, 1877 (XL): 229-230 e por muitos anos governador da Fortaleza de São José da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, quando foi promovido a coronel.Tupper, Maria Clara Ziese de Oliveira. Cariocas três e quatro centãos. Biblioteca Nacional, 1966, p. 91Almeida, Manuel Lopes de. Notícias Históricas de Portugal e Brasil (1751-1800). Universidade de Coimbra, 1964, p. 146 Roque teve foro de fidalgo, ajudou o pai em Santa Catarina e foi capitão de Infantaria no Rio de Janeiro.Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, Volumes 50-51. Leuzinger & Filhos, 1936, p. 267 José foi tenente de Cavalaria e morreu em combate na campanha do Prata.

Em 1705 Silva Pais solicitou, justificando seus serviços já prestados, que fosse transferido para a Ordem de Cristo, muito mais prestigiada, mas a mudança foi negada, pois seu avô havia sido um piloto de navios, sendo considerado incompatível com a dignidade da Ordem que um membro tivesse um ancestral próximo dedicado a um ofício mecânico.Silva, Augusto da. A Ilha de Santa Catarina e sua Terra Firme: Estudo sobre o governo de uma capitania subalterna (1738-1807). Universidade de São Paulo, 2007, p. 103

Carreira em Portugal

Estudou no colégio dos jesuítas de Lisboa e depois recebeu uma sólida formação na Aula de Fortificação e Arquitetura Militar de Lisboa, formando-se engenheiro militar em 1701.Neves, Décio Vignoli das. Vultos do Rio Grande, da cidade e do município, Volume 1. Pallotti, 1981, p. 17 Provavelmente foi aluno de Manuel de Azevedo Fortes, engenheiro-mor do Reino, mas de qualquer modo manteve estreito contato com ele.

Em 1701 já era capitão, sendo um dos primeiros a se voluntariar quando o rei D. Pedro II ordenou que a frota fosse preparada para um eventual envolvimento do país na Guerra da Sucessão Espanhola, alistando-se em 12 de fevereiro e inspecionando os navios ancorados no Tejo. Seguindo para a praça de Olivença, nas funções de ajudante-engenheiro, foi encarregado de reforçar as fortificações, ali permanecendo até 1702. Em meados deste ano Portugal entrou na Guerra. Em 1703 atuou em Abrantes para determinar o local conveniente para construir-se uma ponte ligando a província da Beira ao Alentejo.Dorenkott Jr., pp. 29-34

Voltou a Lisboa em 1704 para casar-se e logo partiu para outras missões. Portugal foi invadido pelo exército espanhol e em maio todo o Alentejo estava dominado e Lisboa estava ameaçada. Silva Pais desempenhou um papel importante na contra-ofensiva liderada pelo Marquês das Minas, sendo incumbido de enfrentar o inimigo em Vila Verde, quando financiou de seu próprio bolso soldados e equipamentos. Destacou-se também no assédio do Castelo de Monsanto, arriscando a vida várias vezes, e seus conhecimentos de engenharia foram valiosos para a conquista da fortaleza. Em agosto de 1705 foi-lhe outorgado o título de cavaleiro fidalgo da Casa Real. Expedicionou no vale do Rio Águeda e nos arredores de Ciudad Rodrigo e participou do assédio de Salvaterra, novamente se destacando ao indicar os melhores pontos para instalar as baterias, e após os primeiros bombardeios o forte se rendeu. Depois participou do ataque de Sarça, supervisionando a destruição de trincheiras e fortificações e incendiando os suprimentos inimigos. Chegando notícias de que os espanhóis iriam desferir um novo ataque em larga escala, o Marquês das Minas ordenou-lhe que fosse defender o vale do Tejo, sendo bem sucedido. Encarregou-se de espionar as posições inimigas em Rosmaninhal e Malpica e no assédio de Badajoz, obtendo informações valiosas. Quando foi dada ordem de retirada de Badajoz, cobriu a retaguarda. Em 1706 o exército português recebeu importante reforço dos aliados e passou a uma nova ofensiva. Silva Pais colaborou na conquista de Alcântara, Almaraz, Zaragoza, e estacionou em Madri com os exércitos portugueses e aliados à espera do arquiduque Carlos, mas isso foi um erro, pois neste meio tempo os franceses se reorganizaram e avançaram, e espocaram rebeliões populares contra o domínio Habsburgo. Logo foi ordenada a retirada de Madri. Silva Pais tentou resistir em Cuenca no comando de 330 soldados, mas foi inútil.Dorenkott Jr., pp. 34-39

Mais tarde lutou em Alcalá de Henares, conseguindo recuperar muitos equipamentos. Em 1712 reforçou as defesas de Campo Maior e foi-lhe creditado o sucesso da resistência da praça aos ataques. Em novembro foi assinado um armistício, mas as tensões continuavam altas, acompanhando a inspeção das fortalezas do Minho, Alentejo, Beira e Trás-os-Montes, ao fim da qual foi encarregado do comando da fortaleza de Ouguela. Apesar de alguns revezes, sua atuação geral na Guerra foi considerada muito positiva, valendo-lhe a patente de sargento-mor, firmando sua reputação tanto como militar quanto como engenheiro.Dorenkott Jr., pp. 38-42 Em 1713, foi nomeado coronel de Engenheiros.

Depois da Guerra terminar em 1714, fez nova solicitação para sua transferência para a Ordem de Cristo, sendo desta vez aprovada por alvará régio de 12 de janeiro de 1716, reconhecendo seus bons serviços, com direito a uma tença de 12 mil réis, mas em caráter não hereditário. Segundo Ana Cristina Araújo, "e grande gala fazia na ostentação pública desse tão sofrido merecimento, pois, para usar em ocasiões especiais, guardava numa arca um hábito de cavaleiro de Cristo em rubis e diamantes, avaliado em 180 mil réis, uma cruz de ouro, estimada em 20 mil réis, e o respectivo cordão, também em ouro, no valor de 16 mil réis".Apud Silva, pp. 103-104