Djerba, Jerba ou Yerba ( ou Jarbah), também chamada no passado Gerba, Girba, ou, em , Los Gelves, é uma ilha situada na costa mediterrânica do sul da Tunísia, com de área. É a maior ilha costeira do Norte de África e situa-se a sudeste do golfo de Gabès, barrando a entrada do golfo de Boughrara. Tem cerca de 20 por 25 km e 150 km de costa. Em 2004, a ilha tinha habitantes. Houmt Souk, a capital e única verdadeira cidade, tinha então habitantes.

Segundo a lenda, Djerba foi visitada por Ulisses. Os cartagineses tiveram ali diversos entrepostos comerciais, os romanos fundaram várias cidades e desenvolveram a agricultura e o comércio portuário. Passou depois pelo domínio dos vândalos e dos bizantinos antes de ser uma possessão árabe. Desde os anos 1960 que é um destino turístico popular, pelas suas praias que alguns consideram as melhores do Mediterrâneo. Apresenta algumas características culturais únicas na Tunísia, como o facto duma parte da população ser ibadita, de ser um dos últimos locais onde ainda se fala na Tunísia, da presença outrora importante duma comunidade judaica, cuja origem, segundo a tradição, remonta à destruição do Templo de Salomão.

A ilha está ligada ao continente na extremidade sudoeste por um ferryboat que liga Ajim a Jorf e a sudeste por uma estrada que atravessa o estreito muito pouco profundo entre El Kantara e a península de Zarzis. A construção mais antiga desta última via pode remontar ao final do

Em 2023, 11 anos após a candidatura, Djerba foi incluída na lista do Património Mundial com o nome de "Djerba: Testemunho de um padrão de assentamento num território insular", por se considerar que cumpre o critério de seleção (v).

Toponímia Desde a Antiguidade que Djerba é identificada por alguns como a ilha dos Lotófagos (comedores de lotos), descrita na Odisseia de Homero, o que está na origem de por vezes os habitantes da ilha serem chamados lotofágitas (ou Lotófagos; do grego antigo Λωτοφάγων νῆσος). Segundo o historiador e geógrafo tunisino Salah-Eddine Tlatli , até ao a ilha teve diversos nomes. No Périplo de Pseudo-Cílax, uma obra grega do ou aparece com o nome de Braquion (Βραχείων) ou "ilha dos baixios". Heródoto chamou-lhe Phlâ, Políbio, Teofrasto e todos os autores usaram o nome Meninx (Μῆνιγξ), que é também o nome de um sítio arqueológico situado no sudeste da ilha. Meninx ("terra das águas que se afastam") teria sido igualmente o nome dado à ilha pelos cartagineses, uma menção ao facto das marés de Djerba serem as mais altas do Mediterrâneo, um mar onde as marés são geralmente quase impercetíveis.

O topónimo atual surge pela primeira vez no final do período romano. Gerba ou Girba foi o nome dado ao que é hoje Houmt Souk, a capital da ilha. Antes disso, Ptolomeu, no , tinha mencionado o nome de Gerra, provavelmente uma deturpação inadvertida de Gerba. A primeira referência a Girba é de Sexto Aurélio Vítor (), que relata que a cidade teve a honra de ter sido a terra natal de dois imperadores romanos.

Geografia Localização thumb|288px|Aspeto típico da costa meridional de Djerba

A ilha depende administrativamente da província de Médenine e situa-se a cerca de 500 km de Tunes por estrada (300 km em linha reta) e a pouco mais de 100 km de Gabès. As parte mais próximas do continente são Ajim, a sudoeste, onde o estreito tem dois quilómetros de largura, e El Kantara, a sudeste, onde o estreito tem seis quilómetros. El Kantara dista menos de 30 km de Zarzis. Na costa oriental, a praia de Mezraya (ou Sidi Mahrez) forma a península de Ras R'mal, um dos locais turísticos mais importantes da ilha.

A área de Djerba é cerca de . Nas imagens por satélite, a forma da ilha assemelha-se a um dente molar gigante, em que as penínsulas de de Ajim, Ras Terbella e Bine El Oudiane representam as raízes. O comprimento máximo é e a maior largura . As suas costas estendem-se por 125 km, seguindo um traçado muito irregular. As três penínsulas marcam os pontos mais próximos do continente, que está separado da ilha por dois canais: o de Ajim, a sudoeste, com cerca de 4 km de comprimento e 2 km de largura, e o de El Kantara, com cerca de 12 km de comprimento e 6 km de largura (4 km na sua parte mais estreita). No canal de Ajim existem duas ilhotas: Elgataia Kbira et Elgataia Sghira.

Outrora ligada ao continente, a regularidade da topografia e a geologia de Djerba é em tudo semelhante ao do resto do litoral do sul da Tunísia. Praticamente toda a ilha é plana, com altitude média de 20 metros, tendo o seu ponto mais alto a 53 metros, a colina de Dhahret Guellala. A ilha apresenta um desnível de 15 metros em 15 km e a topografia é "em escada", alternando com setores elevados e outros em depressão cuja superfície é modelada por uma geomorfologia dunar. O litoral é caracterizado por costas baixas e praias, na sua maior parte arenosas, que se estendem principalmente entre Ras R'mal e Borj El Kastil. Flaubert chamou a Djerba a "ilha das areias douradas", devido à areia fina e dourada. A água doce é rara e não há qualquer curso de água.

Djerba está rodeada de baixios. A batimetria nas proximidades da ilha é quase sempre inferior a -10 metros e a isóbata de -5 metros só aparece nas cartas marítimas a mais de 10 km das costas sul e norte. Ao largo da costa meridional, a existência de diversos oueds (correntes marítimas) que sulcam os canais de Ajim e de El Kantara, está na orgem da existência de alguns locais onde a profundidade ultrapassa os 20 metros.

Clima thumb|Mulheres carregando água, numa fotografia de 1960

thumb|Dunas

O clima de Djerba é do tipo mediterrânico, com tendência para semiárido, pois encontra-se no cruzamento das massas de ar mediterrânicas e saarianas. A temperatura anual média é 19,8 °C, as médias mensais pouco ultrapassam os 30 °C e não descem abaixo de 8 °C. No verão, a média máxima chega aos 30,7 °C, mas o calor é atenuado pela brisa marítima, enquanto que no inverno as médias mensais são superiores a 12 °C. O escritor francês Emmanuel Grevin escrevia na década de 1930 a propósito das particularidades do clima de de Djerba:

No seu romance histórico Salammbô, Gustave Flaubert coloca na boca de , o protagonista a seguinte descrição de Djerba: «ilha coberta de pó de ouro, de verdura e de pássaros, onde as laranjeiras são altas como cedros […] onde o ar é tão doce que impede de morrer».

Em relação a precipitação, com de média anual, Djerba é a região mais chuvosa da Tunísia a sul de Sfax. Em média, os dias com chuva chegam a ser 40. Mais de 60% da chuva concentra-se entre setembro e dezembro, com um máximo em outubro (28% do total anual).

Todavia o essencial da pluviometria anual pode repartir-se apenas em três ou quatro chuvadas mais fortes. A estação seca começa em abril e é raro que chova no verão. A humidade e o orvalho noturno são dois fatores vitais para a flora da ilha. A direção dos ventos dominantes muda conforme as estações. De novembro a maio, predominam os ventos de oeste, sendo depois substituído entre março e meados de junho pelo siroco, um vento quente vindo do Saara, que geralmente se faz acompanhar de turbilhões e poeira. No verão predominam os ventos frescos de leste.

História Antiguidade left|thumb|Túmulos púnicos em Souk el Guebli, Djerba

Desde a Antiguidade que os historiadores mencionam Djerba, que identificam como a primeira ilha onde, na Odisseia de Homero, Ulisses e os seus companheiros encalham enquanto andam perdidos no mar no regresso da Guerra de Troia (). Por ter provado o lotos, «um fruto doce como o mel que mergulha todos os que o provam nas delícias de um feliz esquecimento que que apaga todas as preocupações da existência», Ulisses «que esse fruto milagroso tinha mergulhado numa feliz amnésia» resiste a deixar a ilha dos lotofagitas (comedores de lotos).

Na Pré-história, o que é hoje a Tunísia eram territórios povoados por berberes com hábitos de vida do Neolítico. Vários especialistas, como e , admitiam a existência de migrações durante o entre o mar Egeu e o golfo das Sirtes (nome dado na Antiguidade ao conjunto dos golfos de Sirtes e de Gabès), onde se encontra Djerba. Ainda antes da fundação de Cartago, no , os fenícios de Tiro teriam impantado diversos entrepostos ao longo das costas do que são hoje a Líbia e a Tunísia, até Útica. Djerba fazia sem dúvida parte dessa rede de entrepostos fenícios. O Périplo de Pseudo-Cílax, escrito em meados do , contém as informações mais antigas sobre a ilha, à exceção das de Homero:

Segundo uma tradição local, os primeiros judeus de Djerba instalaram-se na ilha depois da destruição do templo de Salomão por , em . Uma das portas desse templo teria sido incorporada na sinagoga de la Ghriba, que ainda hoje existe no centro da ilha.

thumb|Mausoléu númida em Henchir Bourgou, perto de Midoun

Segundo Gsell, nessa época Djerba dependia de Cartago. Os cartagineses fundaram vários entrepostos, o mais importante deles Menix, na costa sudeste, que transformaram num lugar importante de trocas comerciais da bacia mediterrânica. Construíram também vários portos para as suas embarcações, que utilizaram para fazer escala nos seus percursos ao longo do Mediterrâneo. Além da cultura da oliveira, na Djerba cartaginesa existiam oficinas de cerâmica, diversos pesqueiros, e produzia-se o corante de púrpura à base de murex que era usado para tingir as vestes dos mais poderosos, que tornou a ilha célebre. Ponto de passagem importante nas rotas em direção ao interior do continente africano, Djerba prosperou durante cerca de meio milénio com os fenícios e cartagineses.

Os primeiros contactos da ilha com os romanos tiveram lugar durante a Primeira Guerra Púnica, no decurso de operações romanas contra Cartago. A primeira verdadeira expedição naval comandada por Cneu Servílio Cepião e Caio Semprônio Bleso foi enviada a Djerba em Uma segunda expedição, comandada pelo cônsul Cneu Servílio Gêmino, foi lançada durante a Segunda Guerra Púnica, em , no mesmo ano em que se travou a batalha do Lago Trasimeno, que opôs cartagineses e romanos em Itália.

No entanto, a verdadeira colonização romana na "região siyrtica" só se intensifica a partir do ano , depois da fase dos protetorados romanos sobre os príncipes berberes, os chamados reges inservientes. A ilha tinha então duas cidades: Meninx e Thoar.

thumb|left|Ruínas de um templo romano perto de El Kantara

Pouco tempo depois existiam três centros urbanos principais. Um deles conhecido na atualidade como Henchir Bourgou, foi descoberto perto de Midoun, no centro da ilha. Ali encontram-se vestígios duma grande cidade que remonta ao , marcados pela presença de cerâmica abundante e um imponente mausoléu que provavelmente pertenceu à família real númida. Um segundo povoado, situado na costa sudeste, foi um centro de produção de corantes à base de murex, citado por Plínio, o Velho como sendo o mais importante a seguir a Tiro, na Fenícia. As quantidades substanciais de mármore colorido ali descobertos testemunham a riqueza da cidade. O terceiro centro urbano importante, provavelmente a antiga Haribus, encontra-se na costa sul, perto da aldeia de Guellala.

Dois imperadores romanos do , Treboniano Galo e o seu filho Volusiano alegadamente nasceram em Djerba. Um decreto romano do ano 254, pouco depois da morte de ambos, menciona a ilha na expressão «Creati in insula Meninge quae nunc Girba dicitur» (tradução aproximada: "criados na ilha Meninge, que agora se chama Girba"); essa é a primeira menção conhecida do nome Girba. Em meados do foi construída uma basílica no que se torna a diocese de Girba. Dois bispos da ilha ficaram na História: Monnulus e Vicente, que assitiram, respetivamente aos concílios de Cartago, respetivamente ao de 255 e de 525. A ruínas da catedral episcopal foram identificadas perto de El Kantara, no sudeste da ilha; dali provêm um batistério em forma de cruz conservado no Museu Nacional do Bardo, em Tunes.