miniatura|260px|Fachada da antiga Previdência do Sul. Theodor Alexander Josef Wiederspahn, mais conhecido como Theo Wiederspahn (Wiesbaden, 19 de fevereiro de 1878 — Porto Alegre, 12 de novembro de 1952) foi um arquiteto, engenheiro e construtor alemão naturalizado brasileiro.
Filho de um carpinteiro e construtor, em sua juventude na Alemanha recebeu instrução qualificada em construção, arquitetura e decoração, começou sua vida profissional aos 14 anos como aprendiz de Phillip Mauhs, trabalhou na empresa de Josef Strecke e depois passou a auxiliar o pai, mas a convivência com ele era difícil, levando-o a procurar emprego em um escritório de arquitetura. Na Alemanha produziu dezenas de obras de variado caráter, revelando gosto tanto pelo experimentalismo de vanguarda como por estilos históricos, e no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, onde se fixou em 1908, desenvolveu a parte principal da sua carreira.
Sua fase áurea coincidiu com um período de prosperidade econômica regional, quando trabalhou no principal escritório de engenharia e construção de Porto Alegre, dirigido por Rudolf Ahrons, criando em conjunto vários prédios majestosos e ricamente decorados, de linhas ecléticas, que permanecem entre os principais marcos arquitetônicos da cidade. Com o fechamento da empresa em 1915, passou a desenvolver uma carreira independente, mas enfrentou dificuldades de várias ordens e faliu duas vezes. Não obstante, era um trabalhador incansável, e pôde erguer centenas de outras edificações na capital e em várias cidades do interior, de variados tipos e funções, das escolas e igrejas às residências populares, dos palacetes burgueses às grandes indústrias e casas comerciais, muitas delas também de grande significado social, histórico e artístico, contribuindo decisivamente para renovar o panorama arquitetônico estadual. Com o passar dos anos seu estilo evolui e se torna mais despojado e funcional, aproximando-se gradativamente da estética Déco e da Nova Objetividade. Casou duas vezes, deixando cinco filhos.
Depois de um período de obscuridade, sobrepujado pela escola modernista, cuja avassaladora influência levou à derrubada de dezenas de suas obras ecléticas, voltou a ser apreciado, e hoje, pela quantidade, qualidade, variedade e novidade de seus projetos e soluções construtivas, sua posição como um dos principais expoentes da história da arquitetura do Rio Grande do Sul está solidamente consagrada. Muitas das suas obras sobreviventes foram tombadas ou inventariadas.
Biografia Alemanha Theo Wiederspahn vinha de uma família oriunda de Soden, cujos primeiros registros datam de 1529. Seu pai, Heinrich Josef Wiederspahn, iniciou a vida como carpinteiro, e em 1863 casou-se com Christine Luise Koop, estabelecendo-se em Mainz como empregado na carpintaria Bembé. Ali nasceriam os seis primeiros filhos do casal: Emilie, Alexander, Jakob, Johann, Karl e Margarethe. Após a Guerra Franco-Prussiana de 1870-71, mudaram-se para Saarburg, onde nasceram Alfred, as gêmeas Johanne e Marie, e um natimorto. Heinrich dedicou-se à construção, abrindo uma olaria, mas a região não havia sido pacificada. Os franceses reclamavam-na, as guerrilhas eram frequentes e a olaria foi incendiada. Percebendo que ali não havia segurança, Heinrich foi obrigado a partir, mas quando preparava a viagem também sua casa foi incendiada, quando morreram cinco dos seus filhos. A família remanescente voltou para Mainz, Heinrich retomou seu emprego com Bembé e pouco depois mudaram-se para Wiesbaden, onde nasceram Theo e mais dois filhos, Helene e Heinrich. Graças a uma substancial indenização recebida do governo alemão, o pai pôde construir edifícios para aluguel de apartamentos, cuja renda lhe deu a base para um notável crescimento financeiro nos anos seguintes, abrindo bem sucedidas empresas de construção e marcenaria e dedicando-se a outros investimentos paralelos, especialmente a especulação imobiliária, vindo a fazer fortuna.Weimer, Günter. Theo Wiederspahn: arquiteto. EDIPUCRS, 2009, pp. 17-26
Wiederspahn iniciou sua carreira profissional com 14 anos como aprendiz de pedreiro de Phillip Mauhs, com quem trabalhou até 1894, ao mesmo tempo terminando o curso médio na Fachschule für Bau-und Kunstgewerbeschule (Escola Profissional de Construção e Ofícios) de Wiesbaden. Formou-se na Koenigliche Baugewebeschule (Real Escola de Construção) de Idestein em 1896, fazendo cursos paralelos de revestimentos de interiores, serralheria e cantaria. No mesmo ano começou a trabalhar com o pai, e sua primeira obra foi o projeto de um palacete para a família, que ainda existe. Em fevereiro de 1897 assumiu o cargo de Diretor Técnico na empresa de construção de Josef Strecke, em Bonn. No mesmo ano sofreu uma queda de uma altura de 12 metros durante a demolição do palácio do príncipe eleitor, sofrendo sérios ferimentos que, por outro lado, o pouparam do serviço militar obrigatório. Desenvolveria vários projetos de palacetes e prédios comerciais para Strecke, mas quando a empresa foi reorganizada, transferiu-se para Darmastadt, a fim de matricular-se na Universidade Técnica. Sua preparação era insuficiente e a matrícula não ocorreu, mas passou a assistir as aulas como ouvinte. Pouco depois, por insistência do pai, voltou a Wiesbaden para assumir a parte técnica da sua empresa de construção e supervisionar os canteiros de obras, realizando diversos projetos para ele, que atraíram a atenção e foram muito apreciados, começando a fazer reputação.Weimer, pp. 26-37
Segundo um relato autobiográfico deixado por Wiederspahn, seu pai era autoritário, nem sempre justo e costumava jogar os filhos uns contra os outros, tornando a convivência difícil, e a tensão aumentou com o internamento da mãe em um hospital psiquiátrico. Então Wiederspahn decidiu iniciar uma carreira independente, mudando-se para Saarbrücken, onde passou a trabalhar para o escritório de arquitetura Weskalnihs. Nesta época casou-se com Pauline Markel, e com ela teria os filhos Alex, Thea, Paul e Marie Luise, mas o casamento não durou muito, e Pauline se mudou para Idstein levando as crianças. Alguns anos mais tarde casou novamente, com Maria Mina Haffner, com quem teve os filhos Heinz Willi e Hanna Gerda. Disse Wiederspahn que os problemas familiares foram o principal motivo da sua emigração para o Brasil.Wiederspahn, Theo. "Texto autobiográfico". In: Weimer, Günter. Arquitetura Erudita da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul. EST, 2004, pp. 244-264 Seu irmão Heinrich vivia no Rio Grande do Sul desde 1904 trabalhando para uma empresa belga envolvida na construção da ferrovia entre Montenegro e Caxias do Sul, e em 1908 transmitiu-lhe a notícia de que havia uma colocação para ele. Assim, em 1908 demitiu-se do emprego, renunciou à sua herança em favor dos filhos que tivera com Pauline, e partiu, chegando a Porto Alegre em maio.
Brasil Parceria com Rudolf Ahrons thumb|left|250px|A antiga Delegacia Fiscal da Receita Federal.
Como sua viagem demorou mais que o previsto, quando chegou a vaga que lhe haviam prometido na empresa belga havia sido preenchida, mas em setembro foi contratado pelo escritório de engenharia e construção de Rudolf Ahrons, ocupando o lugar deixado pela saída de Hermann Menschen da firma. O escritório de Ahrons era o principal da cidade,Natusch, Igor. "Theo Wiederspahn foi o arquiteto de obras majestosas da Porto Alegre antiga". Jornal do Comércio, 24/01/2020 e ali Wiederspahn respondia pelo Departamento de Projetos, permanecendo na empresa até o fim de 1915, quando a firma foi fechada em circunstâncias ainda pouco claras, possivelmente em função dos problemas gerados pela I Guerra Mundial. O período com Ahrons, marcado pela construção de edifícios imponentes, viu surgir a maioria dos projetos pelos quais Wiederspanh é mais lembrado, como a Delegacia Fiscal da Receita Federal, a Escola de Medicina,Ver nota:Cobertura modificada por João Baptista Pianca. os Correios e Telégrafos a Previdência do Sul e a Cervejaria Bopp, mas vários outros edifícios muito significativos desta etapa já não existem, como o Palácio Chaves, a Caixa Econômica Federal, várias sedes de bancos e uma série de palacetes. Como a demanda era grande, passou a contar com a assistência do arquiteto Alexander Gundlach para o detalhamento dos projetos, e do engenheiro Alfred Haessler para os cálculos estruturais do concreto. Para a parte da decoração de fachada e interiores o escritório contava com a parceria de João Vicente Friedrichs, líder de uma das mais requisitadas oficinas de decoração predial da cidade e por muitos anos o fornecedor exclusivo de Ahrons para ornamentos e esculturas, executados a partir de desenhos do arquiteto.Weimer, pp. 43-71
Carreira independente
thumb|250px|Alameda interna no antigo Hotel Majestic.
Com o fim dessa frutífera sociedade, logo no início de 1916 Wiederspahn abriu uma firma própria, que consistiu na transformação do setor de projetos de Ahrons em uma empresa independente, herdando a maior parte da antiga clientela. Nos primeiros tempos os negócios andaram bem, obtendo muitas encomendas de particulares, mas o governo e as instituições passaram a preferir outros arquitetos, retirando a principal fonte de rendimentos. Há uma série de evidências documentais mostrando que os alemães e seus descendentes, bem como os italianos, passaram a sofrer discriminação durante a guerra, e que seu acesso aos contratos era vetado.Weimer, pp. 75-102 A alegação é que a formação de Wiederspahn na Alemanha seria técnica, não acadêmica. O próprio Wiederspanh, em sua autobiografia, declarou que mesmo depois da guerra ele permaneceu incluído numa "lista negra".
Apesar das dificuldades, havia já feito renome e ainda era bastante procurado para uma variedade de projetos em Porto Alegre e pelo interior do estado. Podem ser destacados neste período o Hotel Majestic, as sedes do Clube Thurnerbund e da Sociedade Ginástica, vários escritórios, armazéns e depósitos na Rua Voluntários da Pátria, onde se concentrava o distrito industrial da capital, os palacetes de Rudolf Ahrons e Carlos Daudt, e as sedes dos bancos da Província e do Comércio em Cruz Alta. Contudo, em abril de 1917 o Brasil declarou guerra à Alemanha, desencadeando uma onda de depredações e incêndios de estabelecimentos pertencentes a alemães em Porto Alegre. Wiederspahn não foi diretamente afetado, mas relatou que a situação lhe provocou muitos desgostos. Para piorar, os dois últimos anos da guerra trouxeram uma paralisação quase total na construção civil, e neste período Wiederspahn contraiu a gripe espanhola, passando seis meses doente.
A partir de 1919 o mercado começou a se recuperar, surgindo novas encomendas importantes, como a ampliação do Palácio Chaves, que o tornou o edifício mais alto da cidade, e especialmente prédios industriais e comerciais de grandes proporções, incluindo a ampliação da Cervejaria Bopp e do Hotel Majestic, o Moinho Chaves, a fábrica de móveis de Hugo Gerdau, a metalúrgica Wallig, a seção de maltaria da Cervejaria Continental, o Hotel Esteves Barcellos, a loja de Nicolau Ely, além da construção de muitas residências e palacetes em Porto Alegre, Rio Grande, Santa Maria, Pelotas, Triunfo, Cachoeira do Sul, Estrela, Cruz Alta e várias outras cidades. Em 14 de junho de 1921 foi publicada sua naturalização brasileira."Naturalisações". A Federação, 14/06/1921 As dificuldades voltaram quando se envolveu na construção do grandioso prédio do Banco Nacional do Comércio. Havia várias partes interessadas e elas entraram em conflito, complicando e retardando o prosseguimento das obras por muitos anos, e com o advento da Grande Depressão Wiederspahn faliu, perdendo todos os seus bens. Salvou-se apenas uma chácara que possuía no bairro de Ponta Grossa, que estava em nome de terceiros, para onde ele se retirou.
Anos finais