Faits divers (pronuncia-se fé-divér; em francês, literalmente, "factos diversos") é uma expressão de jargão jornalístico e, por extensão, um conceito de teoria do jornalismo que designa os assuntos não categorizáveis nas editorias tradicionais dos veículos (política, economia, internacional, desportos). Tais excertos tornam-se noticiosos por apresentarem casos inexplicáveis e excepcionais.

São factos desconectados de historicidade jornalística, ou seja, referem-se apenas ao seu carácter interno e seu interesse como facto inusitado, pitoresco. Geralmente são acontecimentos trágicos, tais como crimes e acidentes, delitos descritos em poucas linhas. Mas a lista de possibilidades pode ser muito maior. "Drama passional, roubo de uma ponte de 40 metros, aparição da Virgem Maria, confissão perturbadora de um transexual, descoberta dos restos de quatro ocupantes de um disco voador nos Estados Unidos; todos os dias nossos jornais reservam um lugar, mais ou menos importante, para este tipo de informação tão diferente quanto curiosa."DION, Sylvie. O “fait divers” como gênero narrativo. 2007. Acessado em 18 de abril de 2011.

O fait divers sempre despertou um grande interesse no público geral, estando sempre presente nos diversos veículos de informação. Uma das explicações para tamanha popularidade está no fato da nossa sociedade estar enraizada em uma cultura romanesca, que busca dar sentido à realidade articulando fatos do quotidiano a partir de relações espelhadas na estrutura de um romance literário. Os faits divers contribuem com essa forma de estruturar o mundo, pois apresentam fatos pitorescos, apelando para o imaginário da sociedade, que busca um sentido maior nestes, como se dá nos romances, em que as conexões carregam um sentido mais amplo, gradualmente revelado na narrativa.

Histórico thumb|left|Capa da obra O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas A história do fait divers se confunde com a do romance-folhetim, aquele divulgado por partes nos rodapés de jornais. Ambos surgiram na França do século XIX, com o “surgimento da imprensa popular a um tostão”.DION, 2007

Para atingir as classes subalternas, a imprensa fazia uso de uma receita: os estabelecimentos de estereótipos, uma “massa de sentimentos” e "modelos de heróis",MEYER, 1996 o que gerava uma identificação do público.

Os folhetins ganharam espaço por volta de 1840 na França, com Alexandre Dumas e Eugène Sue, com obras como O Conde de Monte Cristo e Os Mistérios de Paris, que estabeleceram os paradigmas dessa literatura, abordando "dramas da vida cotidiana e contextos históricos".NADAF, 2002 Porém, a realidade francesa mudou, ocasionando o surgimento do folhetim de 3.ª geração: começam os romances da "desgraça pouca é bobagem" devido à experiência francesa com a Comuna de Paris e com a Guerra Franco-Prussiana, que aproximaram a população da violência. Foi então que os folhetins passaram a dividir a página com os faits divers, que nada mais eram do que o folhetim da vida real.

As classes populares se alfabetizaram com os folhetins e para que as outras partes do jornal também pudessem ser lidas, tiveram que ser adequadas ao padrão linguístico do folhetim: fala entrecortada, cheia de suspense, exclamativa. Essa necessidade da notícia surgiu porque o próprio folhetim oferecia ao leitor um conhecimento de mundo que lhe permitia ter curiosidades não supridas apenas pela ficção. Assim foi necessário apresentar-lhe a realidade - em forma de fait divers.

Estrutura segundo Roland Barthes O fait divers se relaciona com fatos excepcionais ou insignificantes, porém essa constatação não é satisfatória e nem abrange, de fato, a força desse gênero de notícia. Segundo Roland Barthes, o fait divers "procederia de uma classificação do inclassificável, seria o refugo desorganizado das notícias informes". .

Uma das principais características do fait divers é seu aspecto imanente, que faz dele uma informação total, ou seja, que pode ser compreendida sem a necessidade de um contexto. Segundo Barthes, "não é preciso conhecer nada no mundo para consumir um fait divers; ele não remete formalmente a nada além dele próprio". Sem duração e sem contexto, o fait divers proporciona um ser imediato, total. Constitui-se, portanto, de uma estrutura fechada.

Outra característica que completa a definição do fait divers é seu caráter articulado. Sempre há dois termos que se relacionam para produzir um fait divers. Barthes constata que "se pode presumir que não há nenhum fait divers simples", já que o simples não é insigne. Só a relação da informação com um fator inusitado faz começar um fait divers. Evidente que há sempre uma estrutura articulada quando se trata de notícias, contudo, a articulação relativa ao fait divers é interior à narrativa pontual, não necessitando ser transportada para um mundo externo, ou seja, não necessitando de um contexto incluso.

Barthes ainda procura organizar as relações concernentes ao fait divers, dividindo-as em "relação de causalidade" e "relação de coincidência".

Relação de causalidade A relação que une os dois termos pode ser de causa, que é conhecida ou inexplicável.

Causa conhecida Quando conhecida, a causa pode ser espantosa e por ser tão aberrante, constitui um fait divers. Um exemplo é a notícia "Mulher é presa por atacar loja que não tinha nuggets", o espanto está no fato de ela não ser presa por roubar a loja, mas por causa dos nuggets. Porém, a causa também pode ser normal, esperada. Nessas situações, o destaque é dado às dramatis personae, ou seja, aos personagens, e não à motivação do ato.

Causa inexplicável Também pode ocorrer de não se saber imediatamente o que provocou o acontecimento. Esses casos podem ser divididos em prodígios e crimes.

Prodígios São fenômenos extraordinários e inexplicáveis, como por exemplo milagres religiosos, fenômenos paranormais e discos voadores.

Crimes Nesses casos, a causa é diferida, adiada, e por isso os leitores e telespectadores acompanham o desvendar do crime diariamente. No entanto, o fait divers perde seu caráter efêmero, e esse atraso para descobrir a causa pode fazer o crime acabar no esquecimento. Consequentemente, o fait divers desaparece.

O inesperado

Desvios causais O fait diver usa muito esse recurso, pois a causa esperada é geralmente substituída por uma outra, inusitada. Geralmente ocorre uma decepção que deixa a causalidade ainda mais notável, como no exemplo dos nuggets.

Surpresa do número Ocorre quando uma causa pequena produz um grande efeito. Um exemplo disso: um tigre de brinquedo é confundido com um tigre de verdade. A causa é um simples brinquedo, mas o efeito foi uma operação policial que envolveu até o uso de helicóptero.

Milagre do índice É o índice mais discreto que soluciona o mistério. Assim, há o poder infinito dos signos que causa um sentimento de que tudo pode ser um "instrumento" para o crime e que eles estão em toda parte. Também há a responsabilidade do objeto, pois os objetos com a sua inércia produzem uma imagem de inocência. No entanto, em um crime, o objeto pode ter forte influência, como por exemplo na notícia: "Velho estrangulado pelo cordão de seu aparelho acústico". Nesse exemplo, o desvendar do crime estava justamente no aparelho auditivo, o que é inesperado.

Suspeita de acaso Segundo Roland Barthes, a causalidade é paradoxal, já que ocorre uma desproporção entre a causa e o efeito. Além disso, fica suspensa entre o racional e o desconhecido. Assim, para Barthes, toda causalidade é suspeita de acaso.

Relação de coincidência A outra relação que pode estruturar o fait divers é a relação de coincidência.

Repetição Primeiramente, a coincidência pode ser designada pela repetição de um acontecimento, como por exemplo: "uma mesma joalheria foi assaltada três vezes". Essa repetição traz geralmente uma interrogação, uma suspeita de que uma causa desconhecida esteja por trás dela. Isso faz com que a notícia se torne curiosa, dotada de certo mistério que estimula a imaginação do leitor. A crença de que "repetir é significar" está enraizada na consciência popular: a coincidência não pode ser inocente, mas deve ter um significado oculto.

Aproximação Outra relação de coincidência é a que aproxima dois termos distantes: "uma mulher põe em fuga quatro gângsteres" ou "pescadores pescam uma vaca" (exemplos do próprio Barthes). Aqui, o fait divers assume a função paradoxal de aproximar esses termos, diminuir a distância entre eles. O que torna a notícia surpreendente é exatamente essa quebra de estereótipos: ninguém espera que uma única mulher enfrente quatro gângsteres ou que pescadores pesquem uma vaca.

Cúmulo A coincidência exagerada gera ainda o cúmulo, que seria a expressão de uma situação de azar. A notícia torna-se absurda: '"Mulher ganha em loteria e morre atropelada na comemoração" ou "chefe de polícia comete um assassinato". A causalidade é revirada, torna-se simétrica: exatamente no mesmo dia em que ganha na loteria, a mulher morre; não só há um assassino, como este é o próprio chefe de polícia. Assim como a repetição tira a inocência do aleatório, o azar não pode ser um acaso neutro, deve possuir alguma significação. Logo, se ele significa, não é mais um acaso. O cúmulo, portanto, converte o acaso em signo, pois a exatidão de uma reviravolta não pode ser pensada fora de uma inteligência que a realiza. Onde ocorre uma simetria, houve, por trás, uma mão para guiá-la.

A relação de coincidência implica a ideia de destino, que é malicioso e constrói signos inteligentes que os homens são incapazes de decifrar: haveria então um deus por trás do fait divers.

Efeito O fait divers tem uma popularidade inquestionável, cuja explicação vai muito além da mera curiosidade ou diversão que proporciona, residindo, na verdade, em características mais profundas, relacionadas ao efeito provocado nos leitores ou espectadores.

Os faits divers muitas vezes aludem a tabus e proibições da época a que se referem. Assim, pela fascinação provocada por tudo aquilo que é proibido, esses fatos ganham notoriedade, ao se tornarem um meio de expor os desvios referentes à moral e de reforçar o tipo de comportamento aceito pela sociedade.

Qualquer um pode protagonizar um fait divers, o que contribui para a notoriedade dessas notícias, pois, ao ver-se no fato, o leitor se aproxima deste, tornando-o menos bizarro e mais crível. Além disso, as ocorrências tornam-se oportunidades de alcançar a fama, ganhando ainda mais notabilidade numa sociedade que associa o existir ao aparecer na mídia.

Não há um fator que ordene ou justifique os faits divers, pois estes se baseiam em relações surpreendentes e inexplicáveis, contribuindo para sua notoriedade na medida em que os fatos são superexpostos para compensar a impotência gerada pela impossibilidade de explicá-los. Além disso, tal vazio de compreensão é preenchido por explicações de cunho místico ou religioso, apelando para o imaginário e a memória coletivos, aumentando ainda mais o apelo dos faits divers.

Por fim, observa-se que as causas da notabilidade dos faits divers ligam-se à cultura romanesca da atual sociedade. Isso porque tal tipo de notícia é construído na forma de um espetáculo, como nos romances de folhetins, o que fica claro pelas semelhanças entre as plataformas, como o apelo para o imaginário, a identificação dos leitores com as "personagens" e a pretensão moralizante de tais meios.

Faits divers no Brasil