Diamantina é um município brasileiro no estado de Minas Gerais, Região Sudeste. Localiza-se no Vale do Jequitinhonha, na região central mineira, e ocupa uma área de , sendo que estão em perímetro urbano. Tem uma população estimada de habitantes em 2025.
Fundada no início do século XVIII, Diamantina teve sua origem ligada à descoberta de diamantes na região, o que impulsionou seu desenvolvimento e a transformou em um importante centro de mineração. O município preserva até hoje um conjunto arquitetônico colonial, com casarões, igrejas e ruas de pedra que refletem seu passado histórico. Em reconhecimento à sua importância cultural e histórica, Diamantina foi declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1999.
Localizada na Serra do Espinhaço, Diamantina possui uma geografia marcada por montanhas, vales e rios, oferecendo uma paisagem natural exuberante. O município tem um clima tropical de altitude, com temperaturas amenas ao longo do ano e um período chuvoso concentrado nos meses de verão. Essas características tornam a região propícia para o ecoturismo e atividades ao ar livre.
Diamantina é conhecida por suas tradições culturais e eventos, como a Vesperata, onde músicos se apresentam das sacadas dos casarões históricos, criando uma atmosfera única. Outras festas populares incluem o Carnaval de rua e celebrações religiosas, que reforçam a identidade cultural de Diamantina. No seu legado, Diamantina é a cidade natal de Juscelino Kubitschek, um dos presidentes mais célebres do Brasil, e onde viveu Chica da Silva, uma escrava alforriada que se tornou um símbolo de ascensão social no período colonial.
História Período pré-colonial As datações mais recuadas em sítios arqueológicos na região de Diamantina foram obtidas a partir de vegetais carbonizados, encontrados em fogueiras localizadas em grutas próximos a córregos da bacia do rio São Francisco. No sítio Lapa do Caboclo foram obtidas duas datas (10.560 Antes do Presente e 10.380 Antes do Presente), enquanto no sítio Lapa do Peixe Gordo, uma datação de 10.210 AP foi gerada em uma fogueira a cerca de 30 centímetros de profundidade. Assim, Diamantina apresenta datações praticamente contemporâneas às observadas em sítios arqueológicos da região de Lagoa Santa, onde foram encontrados Luzia e outros remanescentes ósseos humanos, além de diversos materiais arqueológicos relacionados ao povoamento humano das Américas em fins do Pleistoceno.
Além dos restos de alimentos e de fogueiras, nos sítios arqueológicos mais antigos também foram encontrados antigos instrumentos feitos em pedra, quase sempre utilizando como matéria-prima o quartzo ou o quartzito. Feitos a partir de lascamento de pedaços dessas rochas, alguns desses instrumentos formavam antigas pontas de projétil, percutores e vários tipos de lâminas. Ferramentas feitas a partir de madeira e ossos de animais, apesar de provavelmente frequentes entre esses grupos humanos, não foram encontrados nos sítios devido aos processos de decomposição desses materiais.
Outro indício da presença humana pré-colonial em Diamantina são as pinturas e grafismos rupestres, identificados em dezenas de grutas e abrigos de caverna ao longo da Serra do Espinhaço. Apesar de conhecidas desde meados do século XIX, quando foram citadas em um romance escrito por Joaquim Felício dos Santos em 1868, jurista natural de Serro, só foram objeto de estudo arqueológico a partir da década de 1970. Muitas das pinturas e gravuras rupestres encontradas foram feitas com pigmentos vermelhos e, em menor medida, amarelos, brancos e pretos, representando cervídeos e peixes. Embora menos frequentes, algumas das grutas também contam com pinturas antropomórficas.
Entre 1200 e 680 anos Antes do Presente, um outro processo de ocupação ocorreu na região de Diamantina. Também identificados nas grutas e abrigos de caverna, esses sítios contam com diversos instrumentos feitos em pedra, restos de alimentação e sepultamentos humanos de grupos indígenas agricultores. Ao contrário de ocupações contemporâneas identificadas em outras regiões de Minas Gerais, não foram encontrados vasilhas ou fragmentos de cerâmicas nos sítios arqueológicos dessas populações. Dos 90 sítios arqueológicos já identificados em Diamantina, 72 correspondem ao período pré-colonial. Além disso, em outros 10 sítios arqueológicos foram identificados testemunhos materiais de ocupações pré-coloniais e históricas, o que indica que as centenas de grutas e abrigos seguiram servindo de acampamentos provisórios para garimpeiros, caçadores e coletores de sempre-vivas em tempos recentes. Em outro sítio arqueológico, batizado de “Lapa da Contagem 1”, antigos vestígios de garimpeiros foram encontrados por arqueólogos em 2017, lembrança do período em que as serras de Diamantina foram exploradas intensamente por brasileiros e portugueses em busca de ouro e diamantes.
Antes da chegada dos colonizadores portugueses, no século XVI, o território que atualmente constitui o estado de Minas Gerais era habitado por grupos indígenas etnicamente diversos. Na região do Vale do Jequitinhonha e áreas próximas, há o registro de etnias como Kaposo (Copoxós), Panyame (Panhames), Malali (Malales) e Monoxó, com fontes indicando sua presença ainda na primeira metade do século XIX. Contudo, o processo de colonização portuguesa na região fez com que boa parte dos nomes das populações que habitavam o centro-norte de Minas Gerais não chegasse até os dias atuais, tendo em vista as mortes causadas por doenças e guerras contra os indígenas. Populações falantes de idiomas tupi-guarani também foram descritas pelos portugueses como habitantes dos arredores do Jequitinhonha, como os Abaetés e Caetés. Além disso, há registro da presença de grupos relacionados ao tronco linguístico Macro-Jê, como os Kayapós, Kariris e Xakriabás.
Um dos poucos relatos remanescentes do início da colonização foi escrito em 1555 pelo padre jesuíta João de Azpilcuelta Navarro, no qual este menciona a presença de “Tapuzas”, “Tamoyas” e “Cathiguzús” no que viria a ser o nordeste mineiro.
A fundação do arraial do Tejuco e a exploração dos diamantes thumb|esquerda|Igreja de São Francisco de Assis, cuja construção se iniciou no A origem do arraial do Tejuco remonta ao processo de expansão colonial contínuo sobre os sertões do vale do Jequitinhonha. Com a descoberta de ouro na confluência dos rios Pururuca e Grande, no início do século XVIII, a região onde hoje está Diamantina começou a atrair garimpeiros, levando a fundação do arraial em 1713. Nesse primeiro momento do povoado, há registro da construção de uma capela em homenagem ao padroeiro, Santo Antônio, nas encostas da Serra da Lapa. Segundo consta, o nome do arraial viria do tupi tyîuka, "água podre", Tejuco e Ybyty'ro'y (palavra tupi que significa "montanha fria", pela junção de ybytyra ("montanha") e ro'y ("frio").NAVARRO, E. A. Método Moderno de Tupi Antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. Terceira edição. São Paulo: Global, 2005. p.145 Outra interpretação do nome escolhido para o arraial confirma a origem tupi, significando “barro escuro” ou pântano”.
Durante as buscas por veios de ouro nos morros e vales ao norte da comarca de Serro Frio, alguns garimpeiros encontraram jazidas de diamantes. Inicialmente exploradas de forma clandestina, inclusive por oficiais da Coroa de Portugal, somente em 1729 a existência de minas de diamantes foi oficialmente reconhecida. Assim, alguns documentos do período atribuem ao português Bernardo da Fonseca Lobo a descoberta de diamantes em suas datas de mineração e, a partir de então, o arraial se tornou uma das mais desejadas áreas de garimpo da Capitania de Minas Gerais.
O controle administrativo tão intenso sobre a chamada Demarcação Diamantina não se deu logo de início, todavia. Entre 1729 e 1734, a exploração das jazidas de diamantes era permitida à particulares, mediante a cobrança de uma taxa de capitação sobre cada escravo utilizado pelos mineradores. Movidos pelos lucros do comércio diamantífero, a exploração particular colocou diamantes em demasia no mercado internacional, provocando uma queda significativa no seu preço. Esse contexto de instabilidade, além do risco real de prejuízo em virtude do contrabando, contribuiu para que o rei João V ordenasse a proibição total da mineração de diamantes em 1731, situação posteriormente revertida no ano seguinte.thumb|left|Lavagem de diamantes na Comarca do Serro Frio, por Carlos Julião, c. 1770 Em 1734, a primeira tentativa lusitana de estabelecer um controle maior e mais efetivo sobre a extração, através da demarcação do Distrito Diamantino (abarcando não só Tejuco, mas também os arraiais de Gouveia, São Gonçalo, Milho Verde, Rio Manso, entre outros) e da criação da Intendência dos Diamantes. Como forma de organizar a exploração e o comércio de diamantes, a partir de 1740 tem início o regime de contrato de extração, terceirizando a uma companhia particular a atividade. Apesar de algumas fontes indicarem o início desse sistema já em 1738, a primeira arrematação das minas em licitação teria ocorrido só em 10 de junho de 1739. Com duração de quatro anos, os contratos previam que toda a organização do trabalho ficaria a cargo dos contratantes, cabendo à Intendência dos Diamantes a fiscalização e repressão ao contrabando. O regime de contratos durou até 1771, quando um decreto determinou a criação da Junta da Administração Diamantina do Tejuco. A partir de então, toda a extração de diamantes ficaria por conta da Fazenda Real: a partir de agora, somente a Coroa de Portugal poderia extrair e venda essa mercadoria. Implementado pelo Marquês de Pombal, o decreto também criava uma série de regulamentos rígidos para o Distrito Diamantino, todos reunidos no célebre Livro da Capa Verde. thumb|esquerda|Casarões na Rua Direita
Como forma de manter o domínio total da Coroa sobre o território da Intendência dos Diamantes, o arraial do Tejuco permaneceu como uma simples capela filial ligada à Vila do Príncipe (atual Serro) até 1819, quando foi elevada à condição de sede paroquial e distrito municipal. Permanecia assim o Intendente como única autoridade local, evitando possíveis rivalidades com autoridades eclesiásticas. Apesar do aparato fiscalizador repressivo estabelecido pela Coroa Portuguesa, o arraial de Tejuco refletia a importância econômica da mineração de diamantes, sendo frequentes as menções em documentações da época a respeito da riqueza e sofisticação das elites locais. Entre os anos de 1750 e 1775, o arraial do Tejuco tinha 884 moradores livres, além de cerca de 500 casas distribuídas por 19 ruas e 7 becos. Algumas décadas depois, já no século XIX, já contava com 800 casas (ou fogos, nos documentos da época) e 6.000 habitantes.
Durante o século XVIII, Diamantina ficou famosa por ter abrigado Chica da Silva, escrava alforriada que era esposa de um dos homens mais ricos do Brasil Colonial, o contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira. Em consequência da demanda por mão-de-obra nas lavras de diamantes, o arraial do Tejuco se tornou um polo importador de africanos escravizados. Em pesquisa arqueológica recente, motivada pela reforma da Casa de Chica da Silva, foram evidenciadas cerca de 30 mil peças arqueológicas do início do século XIX, dentre as quais diversos fragmentos de cachimbos cerâmicos, tratando-se de um exemplo claro da influência material africana e afro-brasileira no cotidiano da antiga Tejuco.