Jorge Ben é o sexto álbum de estúdio do cantor, compositor e guitarrista brasileiro Jorge Ben. Foi lançado em novembro de 1969 pela Philips Records. O álbum marcou sua primeira gravação por uma grande gravadora desde 1965, quando sua primeira passagem pela Philips terminou devido a diferenças criativas. Faz parte da lista dos 500 maiores discos da música brasileira, uma votação realizada pelo podcast Discoteca Básica em 2022.

Ben gravou o disco ao lado do produtor Manoel Barenbein, do grupo vocal e de percussão Trio Mocotó e de uma seção orquestral com arranjos de José Briamonte e Rogério Duprat. O repertório foi composto por Ben durante os anos anteriores, em que ele se apresentava de forma independente e desenvolvia seu estilo singular baseado no samba. Para esta gravação vibrante, ele incorporou elementos de música psicodélica e soul, enquanto suas letras bem-humoradas tratavam da vida cotidiana, de romances com mulheres, da identidade afro-brasileira e da autoconsciência. A capa icônica de Guido Alberi também refletiu influências psicodélicas, com uma ilustração pop art de Ben cercado por símbolos da cultura brasileira contemporânea.

O álbum Jorge Ben representou um retorno comercial para o artista e trouxe vários sucessos, incluindo duas de suas gravações mais famosas: “Que Pena” e “País Tropical”. Desde então, a crítica tem associado o disco aos movimentos musicais samba rock e Tropicália. Em 2008, o álbum foi lançado pela primeira vez nos Estados Unidos, pela Dusty Groove America.

Contexto Jorge Ben iniciou sua carreira profissional de gravações pela Philips Records em 1963, quando o selo lançou seu álbum de estreia, Samba Esquema Novo, que provocou imediata comoção entre os fãs. Na tentativa de capitalizar o sucesso, a gravadora pressionou Ben a gravar rapidamente novos discos com músicas no mesmo estilo e versões de canções de outros artistas como preenchimento. O resultado foram três álbuns em apenas 18 meses — o que tensionou sua relação com a Philips, encerrada após o último desses lançamentos, Big Ben (1965).Caz, Greg (15 December 2011). "Brute Force: A Look At Jorge Ben's Recorded Work". Revive. Okayplayer. Archived from the original on 24 September 2018. Retrieved 23 September 2018.

Nos anos seguintes, Ben atuou como artista independente. Seu único álbum nesse período, O Bidú: Silêncio no Brooklin (1967), foi lançado pelo pequeno selo paulistano Artistas Unidos e teve baixas vendas. Durante esse tempo, ele continuou aperfeiçoando seu estilo singular baseado no samba, gravou alguns singles e compôs canções que foram interpretadas por artistas consagrados como Os Mutantes, Wilson Simonal e Elis Regina. Esse reconhecimento chamou a atenção da Philips, agora sob a direção de André Midani (ex-Odeon). Em 1969, Ben foi recontratado, com o apoio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, que prometeram promovê-lo sempre que possível.

Gravação e Produção O álbum Jorge Ben foi gravado nos estúdios C.B.D. (Rio de Janeiro) e Scatena (São Paulo). Ben selecionou canções compostas nos dois anos anteriores e contou com o acompanhamento do Trio Mocotó, grupo vocal e percussivo que ele conheceu nos clubes paulistanos do fim dos anos 1960. A Philips contratou o pianista José Briamonte para arranjar a maioria das faixas, enquanto Rogério Dupratde Souza, Tárik (19 November 1969). "Discos". Veja (in Portuguese). p. 12. assinou os arranjos de “Barbarella” e “Descobri que Eu Sou um Anjo”. Segundo a Verve Records, o disco foi produzido com efeitos sonoros de ponta para a época.

Música

A sonoridade do álbum é marcada pelo que o crítico Greg Caz descreveu como o “samba de batida firme em 4/4” — um ritmo que inspiraria o movimento underground do samba-rock e caracterizaria o trabalho de Ben por toda a década seguinte.

O crítico Rodney Taylor destacou a combinação entre o acompanhamento do Trio Mocotó e os arranjos de cordas de Briamonte e Duprat, resultando em uma forma de psicodelia tropical semelhante à experimentada por Gil, Veloso e Os Mutantes. Taylor comparou “Descobri que Eu Sou um Anjo” a uma faixa perdida do álbum Forever Changes (1967), da banda Love, e observou que “Take It Easy My Brother Charles” adiciona elementos de funk.

Para o crítico Thom Jurek (AllMusic), os arranjos de Briamonte e Duprat foram essenciais na fusão entre soul norte-americano e samba, enquanto Álvaro Neder (AllMusic) associou o álbum e o posterior Fôrça Bruta (1970) à estética da Tropicália.

Letras As letras abordam romances, o cotidiano brasileiro e o futebol — em “País Tropical”, Ben canta: “Moro num país tropical… sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza”.

Ben frequentemente emprega repetições, humor e jogos sonoros. Como observou Greg Caz, para ele, “não importa tanto o significado das palavras, mas o som delas — em vez de escrever 20 versos, Jorge preferia escrever dois muito bons e repeti-los dez vezes”.

Algumas músicas demonstram consciência racial e afirmação da identidade afro-brasileira, como “Crioula”, que retrata uma mulher negra do mercado popular que se transforma em rainha do Carnaval — “filha de nobres africanos que, por engano geográfico, nasceu no Brasil em dia de Carnaval”.

Capa e Arte A capa, criada por Guido Alberi, é uma ilustração psicodélica mostrando Ben cercado por plantas tropicais, músicos de samba, mulheres superpoderosas e a bandeira do Brasil. O artista aparece com grilhões quebrados nos pulsos, um tucano no ombro e um violão com o escudo do Flamengo, seu time do coração.

O designer Pablo Yglesias descreve a arte como um “retrato de realismo mágico”, que combina símbolos da negritude e da cultura popular brasileira. As correntes rompidas simbolizam a luta contra o racismo e pela liberdade.

As notas de contracapa, escritas por Armando Pittigliani, então produtor da Philips, expressam admiração pelo artista — o mesmo que, anos antes, havia dispensado Ben do selo.

Lançamento e Recepção

O disco foi lançado em novembro de 1969 pela Philips Records, marcando o retorno comercial de Ben. Canções como “País Tropical”, “Que Pena” e “Cadê Teresa” já eram sucessos na voz de outros intérpretes antes mesmo do lançamento. O álbum surgiu em meio à efervescência da Tropicália e à ditadura militar brasileira, período de censura e repressão. Embora Ben tenha enfrentado proibições e vaias em festivais, músicas como “Charles Anjo 45” se tornaram clássicos duradouros.

Críticos como Thom Jurek destacam que Jorge Ben consolidou sua posição como figura independente entre a Jovem Guarda e a MPB, recusando alinhar-se a modismos e mantendo o samba como base criativa. Nem todas as críticas foram favoráveis: na revista Veja, o jornalista Tárik de Souza considerou que os arranjos de Briamonte sufocavam o ritmo natural do artista, embora elogiasse as intervenções de Duprat.

O disco foi relançado em CD nos anos 1990 e, em 2008, ganhou uma edição remasterizada nos Estados Unidos pela Dusty Groove America. Em 2018, a Verve/Universal Music Enterprises lançou a primeira versão em vinil nos EUA, celebrando o 50º aniversário do álbum.

Faixas Todas as músicas são de autoria de Jorge Ben:Pittigliani, Armando (1969). Jorge Ben (LP liner notes). Jorge Ben. Philips Records. R765.100L.

Créditos

Músicos

Jorge Ben – violão e voz Trio Mocotó – percussão e vocais José Briamonte – arranjos (faixas: A1–A3, A5, B1, B3–B6) Rogério Duprat – arranjos (faixas: A4, B2)

Produção

Manoel Barenbein – produção Stelio Carlini, Ary Carvalhaes, Didi, João Kibelestis, Célio Martins – engenharia de som

Arte e Design

Guido Alberi – arte da capa Lincoln – layout Armando Pittigliani – notas de contracapa Johnny Salles – fotografia

Paradas musicais +Desempenho semanal nas paradas para Jorge BenPaís — Parada (1970)PosiçãoBrasil LPs – Rio de Janeiro (Billboard)3

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