Marliéria é um município brasileiro no interior do estado de Minas Gerais, Região Sudeste do país. Localiza-se no Vale do Rio Doce e pertence ao colar metropolitano do Vale do Aço, estando situado a cerca de a leste da capital estadual. Ocupa uma área de aproximadamente , sendo que está em área urbana, e sua população foi estimada em habitantes em 2025.

A área da atual cidade pertenceu originalmente a Maria José da Fonseca Lana, que recebeu as terras de presente de seu pai Lizardo José da Fonseca Lana, comandante do quartel local (Onça Pequena). O povoamento teve início após a instalação de cinco choupanas às margens do ribeirão Onça Grande, onde mais tarde foi construída uma capela dedicada à Nossa Senhora das Dores. Em 1901, a localidade foi elevada a distrito subordinado a São Domingos do Prata, do qual se emancipou em 1953.

Marliéria tem boa parte de seu território demarcado pelo Parque Estadual do Rio Doce (PERD), maior reserva de Mata Atlântica de Minas Gerais e um dos maiores sistemas lacustres do mundo, sendo o município considerado porta de entrada para a reserva ecológica. O PERD foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do turismo rural e ecológico local, que é fortalecido pela presença de pousadas, propriedades rurais e áreas de camping e corresponde a uma das principais fontes de renda municipais, ao lado da agropecuária.

Cachoeiras e mirantes também estão entre os principais atrativos rurais, bem como as construções de valor histórico no perímetro urbano, a exemplo da Igreja Matriz, da Capela Santo Antônio e dos casarões no Centro de Marliéria que preservam a arquitetura original. O artesanato e eventos festivos, tais como a festa do Judas, a "Romaria Ecológica" no aniversário do PERD e as comemorações religiosas do dia de Nossa Senhora das Dores, padroeira municipal, são algumas das principais manifestações culturais.

História

thumb|esquerda|Praça JK e Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores O comandante do quartel local (Onça Pequena), responsável pela administração das terras da atual cidade, era o alferes Lizardo José da Fonseca Lana, que doou parte de sua propriedade a sua filha Maria José da Fonseca Lana. As terras de Maria seriam a sesmaria da Onça Grande, onde posteriormente instalaram-se cinco choupanas às margens do ribeirão Onça Grande, surgindo então um arraial. Em 1865, instalou-se na localidade o médico Germano de Souza Baltar, que obteve lucro com seus serviços e com o passar do tempo adquiriu boa parte das terras da região.

Germano de Souza Baltar foi o responsável pela doação de três alqueires para a Igreja Católica em nome de Nossa Senhora das Dores para a construção de uma igreja dedicada à santa. A obra foi abandonada após Germano se mudar da localidade, no entanto foi retomada em 1885. Ao redor do templo em construção o povoamento continuou a se desenvolver, passando a ser conhecido como arraial de Nossa Senhora das Dores de Babylônia. Essa denominação foi uma sugestão do professor José Belisário, primeiro mestre-escola da localidade, e se deve à padroeira e à localização aos pés de uma serra coberta de musgos e bromeliáceas, semelhante aos Jardins Suspensos da Babilônia.

O povoamento foi elevado a distrito com a denominação de Babilônia pela lei nº 32, de 6 de junho de 1901, subordinado a São Domingos do Prata, passando a se chamar Marliéria pela lei estadual nº 843, de 7 de setembro de 1923. Seu nome atual é uma homenagem a Guido Marlière, explorador e pesquisador francês que ajudou a pacificar os nativos botocudos na região do rio Doce. Pelo mesmo decreto, perdeu espaço para a criação do distrito de Jaguaraçu. Dom Helvécio Gomes de Oliveira, arcebispo de Mariana, ficou maravilhado com as florestas locais nas ocasiões em que esteve em Marliéria, em 1931 e 1935. Na segunda estadia, visitou a Lagoa Nova, atual Lagoa Dom Helvécio, onde já existia uma capela. Atendendo à sugestão do bispo, em março de 1936, o então governador Benedito Valadares e seu secretário da agricultura Israel Pinheiro ordenaram a demarcação de , entre Timóteo e Marliéria, para então ser criado o Parque Estadual do Rio Doce (PERD) pelo Decreto-lei nº 1.119, de 14 de julho de 1944. O PERD foi a primeira unidade de conservação de Minas Gerais.

Os então distritos de Marliéria e Jaguaraçu foram emancipados pela lei estadual nº 1.039, de 12 de dezembro de 1953, instalando-se em 1º de janeiro de 1954. Pela lei nº 863, de 2 de maio de 2006, houve a criação do distrito de Cava Grande. Com cerca de 4 mil habitantes ao começo da década de 2010, o município desenvolveu-se com base na agropecuária e, de forma mais recente, no turismo rural e ecológico, tendo em vista investimentos em pousadas, propriedades rurais, a presença do Parque Estadual do Rio Doce e a proximidade com os municípios da Região Metropolitana do Vale do Aço (RMVA).

Geografia thumb|esquerda|Formação rochosa próxima à cidade thumb|esquerda|Lagoa Dom Helvécio, no Parque Estadual do Rio Doce. A área do município, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de , sendo que constitui a zona urbana. Situa-se a 19º42'44" de latitude sul e 42°43'56" de longitude oeste e está a uma distância de 192 quilômetros a leste da capital mineira, fazendo parte do colar metropolitano do Vale do Aço juntamente com outras 23 cidades (além dos quatro municípios principais). Seus municípios limítrofes são Timóteo a norte, Jaguaraçu a noroeste, São Domingos do Prata a oeste, Dionísio a sul, Córrego Novo e Pingo-d'Água a sudeste e Bom Jesus do Galho a leste.

De acordo com a divisão regional vigente desde 2017, instituída pelo IBGE, o município pertence às Regiões Geográficas Intermediária e Imediata de Ipatinga. Até então, com a vigência das divisões em microrregiões e mesorregiões, fazia parte da microrregião de Ipatinga, que por sua vez estava incluída na mesorregião do Vale do Rio Doce.

Relevo, hidrografia e meio ambiente De forma geral, 60% do território marlierense é composto por áreas montanhosas, enquanto que 30% são zonas onduladas e os 10% restantes são planos. A altitude máxima encontra-se a metros acima do nível do mar, no Pico do Machado, enquanto que a altitude mínima está na divisa com o município de Dionísio, com 320 metros. Já o ponto central da cidade se encontra a .

O município é considerado a porta de entrada para o Parque Estadual do Rio Doce (PERD), cuja portaria está localizada próxima à comunidade de Santa Rita. A unidade de conservação abriga a maior reserva de Mata Atlântica de Minas Gerais, além de constituir um dos maiores sistema lacustres do mundo, estendendo-se ainda pelos municípios de Dionísio e Timóteo. A biodiversidade também é notável, comportando 325 espécies de aves e 77 espécies de mamíferos, inclusive espécies em extinção, como onça-pintada, macuco e mono-carvoeiro. Ademais, Marliéria conta as áreas de proteção ambiental (APAs) do Jacroá e do Belém, que aliadas a áreas de preservação dos municípios vizinhos, constituem um corredor ecológico entre outras regiões do Vale do Aço ao PERD.

O complexo do Parque Estadual do Rio Doce abrange cerca de 40 lagoas naturais, dentre as quais se destaca a Lagoa Dom Helvécio, também conhecida como Lagoa do Bispo, que possui de área e alcança de profundidade, uma das mais profundas do país. Além das lagoas, o rio Doce banha Marliéria em um dos limites do parque estadual e do território municipal, que também é cortado por diversos pequenos cursos hidrográficos, a exemplo dos ribeirões da Conceição, do Belém e do Turvo e dos córregos Antunes, Celeste e Santo Antônio. O ribeirão Onça Grande, por sua vez, é o principal leito que banha o perímetro urbano.

Clima thumb|direita|Rio Doce na divisa com Pingo-d'Água, abaixo da Ponte Queimada. O clima marlierense é caracterizado, segundo o IBGE, como tropical quente semiúmido (tipo Aw segundo Köppen), com diminuição de chuvas no inverno e temperatura média anual em torno dos , tendo invernos secos e amenos (raramente frios) e verões chuvosos com temperaturas altas. O mês mais quente, fevereiro, tem temperatura média de , sendo a média máxima de e a mínima de . E o mês mais frio, julho, possui média de , sendo e as médias máxima e mínima, respectivamente. Outono e primavera são estações de transição. O índice pluviométrico é de aproximadamente , sendo julho o mês mais seco e dezembro o mais chuvoso. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Marliéria é o 103º colocado no ranking de ocorrências de descargas elétricas no estado de Minas Gerais, com uma média anual de 7,8093 raios por quilômetro quadrado.

Durante a época das secas e em longos veranicos em pleno período chuvoso são comuns registros de queimadas em morros e matagais, inclusive nas dependências do Parque Estadual do Rio Doce. Entre os dias 20 e 24 de setembro de 2019, um incêndio consumiu hectares da reserva entre Marliéria e Timóteo, o maior dos últimos anos, sendo controlado com ajuda das chuvas. Além das queimadas ocasionais, Marliéria também é afetada pela poluição atmosférica gerada nas usinas siderúrgicas do Vale do Aço. Por outro lado, o município ocasionalmente é atingido por tempestades com chuvas fortes e rajadas de vento, sobretudo na primavera ou com o choque de frentes frias com altas temperaturas. Tempestades de granizo não são comuns, mas algumas das maiores e mais recentes ocorreram em 12 de junho de 2009 e 20 de setembro de 2012, destelhando casas e estabelecimentos e deixando a cidade sem energia elétrica por algumas horas. Em episódios de chuvas constantes podem ocorrer enchentes nas margens do ribeirão Onça Grande.

Demografia

Em 2022, a população foi estimada em habitantes pelo censo daquele ano, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2010, a população era de habitantes. Segundo o censo de 2010, habitantes eram homens e habitantes mulheres. Ainda segundo o mesmo censo, habitantes viviam na zona urbana e na zona rural. Da população total em 2010, habitantes (27,82%) tinham menos de 15 anos de idade, habitantes (62,06%) tinham de 15 a 64 anos e 406 pessoas (10,12%) possuíam mais de 65 anos, sendo que a esperança de vida ao nascer era de 75,3 anos e a taxa de fecundidade total por mulher era de 2,4. thumb|esquerda|Igreja Católica do distrito de Cava Grande

Em 2010, a população marlierense era composta por brancos (30,78%), 582 negros (14,51%), 82 amarelos (2,04%), pardos (52,64%) e um indígena (0,02%). Considerando-se a região de nascimento, eram nascidos no Sudeste (97,89%), 48 no Nordeste (1,19%) e nove no Centro-Oeste (0,23%). habitantes eram naturais do estado de Minas Gerais (97,37%) e, desse total, eram nascidos em Marliéria (53,60%). Entre os 106 naturais de outras unidades da federação, a Bahia era o estado com maior presença, com 35 pessoas (0,87%), seguido pelo Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, cada um com nove residentes do município (0,23% cada).

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de Marliéria é considerado médio pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), sendo que seu valor é de 0,657 (o 2964º maior do Brasil). Considerando-se apenas o índice de educação o valor é de 0,537, o valor do índice de longevidade é de 0,838 e o de renda é de 0,629. De 2000 a 2010, a proporção de pessoas com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo reduziu em 59,6% e em 2010, 85,2% da população vivia acima da linha de pobreza, 10,9% encontrava-se na linha da pobreza e 3,9% estava abaixo e o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade social, era de 0,412, sendo que 1,00 é o pior número e 0,00 é o melhor. A participação dos 20% da população mais rica da cidade no rendimento total municipal era de 46,0%, ou seja, 7,6 vezes superior à dos 20% mais pobres, que era de 6,0%.