O pão-por-Deus é um peditório ritual feito por ocasião do Dia de Todos-os-Santos, associado às práticas relacionadas com as refeições cerimoniais do culto dos mortos no "Dia dos Finados".Tem designações diferentes consoante a região onde se pratica (por exemplo, "bolinhos, bolinhos" no centro de Portugal) Na Galiza o peditório tem o nome de migalho (migallo).Real Academia Galega Don José Cornide y su 'Catálogo de palabras gallegas'.Boletín n.º 309-320 -(Martínez-barbeito, Carlos.) No Tenerife tem o nome de "Pan por Dios" ou “Los Santitos”.“Los Santitos” y el “Pan por Dios” tracciones a recuperar en Canarias Finados prevalece en Canarias con entidad propia Em Florianópolis tem o nome "Finadinho"Bruxas são personagens do folclore de Florianópolis ou pão por Deus.Que mané Dia das Bruxas! Em Ponta das Canas, doce é no dia do pão-por-deus

História O peditório do pão-por-Deus está associado ao antigo costume que se tinha de oferecer pão, bolos, vinho e outros alimentos aos defuntos. Era costume "durante o ano, nos domingos e dias festivos se oferecerem por devoção pichéis, ou frascos de vinho, e certos pães, que eram colocados numa toalha estendida sobre a sepultura do defunto, e uma vela acesa."Elucidario das palavras, termos e frases, que em Portugal antigamente se usaram..., Volume 1. pg 202 Também se colocava pão, vinho e dinheiro no caixão do defunto para a viagem. No cânone LXIX do II Concílio de Braga do ano 572, proibia-se que se levassem alimentos à tumba.La presencia bizantina en Hispania, siglos VI-VII: la documentación arqueológica pg595

Os peditórios para as almas realizam-se ao longo do ano, em Janeiro pelos caretos,PROJECTO FESTAS DE INVERNO EM TRÁS-OS-MONTES. MAPEAMENTO DE FESTAS. DISTRITO DE BRAGANÇA durante a quaresma canta-se às almas santasAlmas Santas e faz-se um peditório (pedir as janeirinhas, pedir as maias, pedir os reizinhosTeofilo Braga.O povo Portuguez nos seus costumes são peditórios que tal como os dos caretos se inserem no ciclo dos peditórios rituais que têm lugar ao longo do ano)IELT. Mapeamento de festas.MUSEU IBÉRICO DA MÁSCARA E DO TRAJE- INVENTÁRIO DA COLECÇÃO MUSEOLÓGICA.Porto 2010Freguesia de Monfortinho. Tradições e Costumes como o do de "andador de almas", que pedia esmolas pelas almas.As alminhas em Portugal e a devolução da Memória. Estudo, Recuperação e Conservação

Nos Açores, acreditava-se que uma alma podia azedar o pão. Para que tal não acontecesse, o pão da primeira fornada, "o pão das almas", era colocado numa cadeira na rua à porta de casa, coberto por um pano, para que a primeira pessoa que passasse o levasse para si ou desse a alguém necessitado.[.http://www.culturacores.azores.gov.pt/ficheiros/pca/2012115122825.PDF o culto dos mortos e o mês das almas]

Peditório Em Portugal no dia 1 de Novembro, Dia de Todos-os-Santos, as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o Pão-por-Deus (ou o bolinho) de porta em porta. O dia de pão-por-Deus, ou dia de todos os fiéis defuntos, era o dia em que se repartia pão cozido pelos pobres.

Registado no século XV como o dia em que também se pagava um determinado foro:"Pagardes o dito foro em cada um ano em dia de pão por Deus". O dia primeiro ou da festa de Todos-os-Santos era denominado nos documentos jurídicos do século XV "Dia de pão por Deus".Elucidario das palavras, termos e frases, que em Portugal antigamente se usaram..., Volume 1Teófilo Braga, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições - II, p 170-171 {| class="toccolours" style="float: right; margin-left: 0em; margin-right: 3em; font-size: 100%; background:#c6dbf7; width:20em; max-width: 50%;" cellspacing="5"

| style="text-align: left;" | Bolinhos e bolinhósPara mim e para vós, Para dar aos finadosQue estão mortos e enterrados À bela, bela cruzTruz, Truz! A senhora que está lá dentroSentada num banquinho Faz favor de s'alevantarPara vir dar um tostãozinho. Se dão doces: Esta casa cheira a broa, Aqui mora gente boa.Esta casa cheira a vinho, Aqui mora um santinho. Se não dão doces: Esta casa cheira a alhoAqui mora um espantalho. Esta casa cheira a untoAqui mora algum defunto |- | style="text-align: right; font-size: 90%;" |A canção ródia da andorinha

É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o santoro. O santoro é uma espécie de pão bento, um bolo comprido que se dá em dia de Finados ou de Todos-os-Santos e que é do feitio de uma tíbia.Cândido de Figueiredo, Novo dicionário da língua portuguesa p.1798 Já pedir o "santorinho", que começava nos últimos dias do mês de Outubro, era o nome que se dava à tradição em que crianças sozinhas, ou em grupo, de saco na mão iam de porta em porta para ganhar doces. Em Trás-os-Montes pede-se o “pão das almas”.Alexandre Parafita. Se és alma do outro mundo, diz ao que vens!

As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, tremoços, amêndoas ou castanhas que colocam dentro dos seus sacos de pano, de retalhos ou de borlas.Saca de retalhos, c. 1900 Museu Dr. Joaquim Manso | Nazaré Aprenda a fazer uma bolsa de pano a retalhos e guarde lá desde o pão ao feijão Em algumas povoações da zona centro e Estremadura chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’ ou ‘Dia do Bolinho’. Os bolinhos típicos são especialmente confecionados para este dia, sendo à base de farinha e erva-doce com mel (noutros locais leva batata-doce e abóbora) e frutos secos como passas e nozes.

São vários os versos para pedir o pão-por-Deus. Assim se diz:

Ou então:

Como não é muito aceitável rejeitar o bolinho às crianças, as desculpas eram criativas:

A quem lhes recusa o pão-por-Deus roga-se uma praga em verso ou deixa-se uma ameaça enquanto se foge em grupo e entre risos:

O termo caneca podia ser substituído por tranca ou cavaca (um pedaço de lenha). Pão, pão por deus à mangarola,encham-me o saco, e vou-me embora.Se não ficarem satisfeitos dizem: O gorgulho gorgulhote, lhe dê no pote,e lhe não deixe, farelo nem fareloteTeófilo Brága. O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, Volume 2. As festas do calendário popular Na primeira metade do século XX as crianças quando iam pedir o pão-por-deus , acompanhadas por um adulto, levavam uma Coca iluminada: Dae pão-por-Deus Que vos deu Deus P'ra repartirC'os fieis de DeusPelos defuntos De vo'meces… Quando o peditório é infructuoso:Tranca me dáes fujo p'rá ruaE seja tudo P'l'amor de DeusVersos dos Açores:Revista dos Açores, Volume 1 Sociedade Auxiladora das Lettras Açorianas "Nesta mesma cidade de Coimbra, onde hoje [ano de 1963] nos encontramos, é costume andarem grupos de crianças pelas ruas, nos dias 31 de Outubro e 1 e 2 de Novembro, ao cair da noite, com uma abóbora oca e com buracos recortados a fazer de olhos, nariz e boca, como se fosse uma caveira, e com um coto de vela aceso por dentro, para lhe dar um ar mais macabro."Manuel de Paiva Boléo, Universidade de Coimbra. Instituto de Estudos Românicos. Revista portuguesa de filologia - Volume 12 - Página 745 - 1963 -

"Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós», e o grupo traz uma abóbora esvaziada com dois buracos a figurarem os olhos de um personagem e uma vela acesa dentro […]" Renato Almeida, Jorge Dias. Estudos e ensaios folclóricos em homenagem a Renato Almeida. Ministério das Relações Exteriores, Seção de Publicações, 1960As crianças e os adultos que participam nos peditórios representam as almas dos mortos que «neste dia erram pelo mundo», quando pedem pão para para partilhar com as almas. O pão por Deus é uma oferenda que se faz às próprias almas.[Ernesto Veiga de Oliveira. Festividades cíclicas em Portugal - Pg 189] Em Barqueiros, concelho de Mesão Frio, à meia-noite do dia 1 para 2 de Novembro arranjava-se uma mesa com castanhas para os parentes já falecidos lá irem comer durante a noite “não devendo depois ninguém tocar nessa comida, porque ela ficava babada dos mortos”.Dia de Todos os Santos. ASSOPS

Na freguesia de Vila Nova de Monsarros, Anadia, as crianças faziam os "santórios", recebiam fruta e bolos e cada criança transportava uma abóbora oca com figura de cara, com uma vela dentro.Freguesia de Vila Nova de Monsarros. Lendas e Costumes

"Em Roriz não se chama pão por Deus, nem bolinhos, nem santoros a comezaina que se dá aos rapazes no dia de Todos os Santos ou de Finados. O que os rapazes vão pedir por portas, segundo lá dizem, é — os fieis de Deus."[Pimentel, Alberto. Espelho de portuguezes - Volume 2 - Página 1191]

Nos Açores dão-se “caspiadas” às crianças durante o peditório, bolos com o formato do topo de uma caveira, claramente um manjar ritual do culto dos mortos.

Com o passar do tempo, o Pão-por-Deus sofreu algumas alterações, os meninos que batem de porta em porta podem receber dinheiro, rebuçados ou chocolates. Esta atividade é também realizada nos arredores de Lisboa. Antigamente relembrava a algumas pessoas o que aconteceu no dia 1 de Novembro de 1755, aquando do terramoto de Lisboa, em que as pessoas que viram todos os seus bens serem destruídos na catástrofe, tiveram que pedir "pão-por-Deus" nas localidades que não tinham sofrido danos.

O pão-por-Deus é o pão, ou oferenda, que se dá aos mortos, o Molete ou Samagaio (Sabatina, Raiva da criança) o pão, ou oferendas que se dá quando uma criança nasce.Vir à luz —práticas e crenças associadas ao nascimento António Amaro das Neves Revista de Guimarães, n.º 104, 1994, pp. 51-81 [Actas / International Colloquium on Luso-Brazilian Studies - Volume 1 - Página 162]

Nesta data em Inglaterra pedia-se o "soul cake" (bolo das almas),The Golden Bough : A Study in Magic and Religion pg383 que, supõe-se, terá dado origem à tradição do trick or treat nos Estados Unidos.Diary Of Ancient Rites, A Guide For the Serious Practitioner pg247 Na Bretanha equivale ao rito do "bara ann anaon" ou pão dos mortos.The Golden Bough: A Study in Magic and Religion pg 380-384

Depois do peditório-alimentar os mortos

"lenha das almas", "lenha das almas" ou "pau das almas" A lenha é recolhida ou roubada num ritual em que participam os jovens solteiros e depois é leiloada ou vendida em hasta pública no largo das aldeiasdia de Todos os Santos canhoto dos Santos O "canhoto" ou "fogueira dos santos" é aceso no adro da igreja e à volta do fogo a população bebe vinho e come castanhas, no tradicional "magusto dos santos" quase em silêncio.A Animação das Festas de Inverno do Concelho de Bragança. Os Caretos na escola e reavivar das tradições O magusto dos santos Segundo Leite de Vasconcelos na noite de Todos os Santos, em Barqueiros, era tradição preparar, à meia-noite, uma mesa com castanhas para os mortos da família irem comer; ninguém mais tocava nas castanhas porque se dizia que estavam “babada dos defuntos”. É também costume deixar um lugar vago à mesa para o morto ou deixar a mesa cheia de iguarias toda a noite da consoada para as "alminhas". Já na consoada as almas vão comer as iguarias postas num prato fora de casa com uma luz ao lado para as alumiar. Aparecem na forma de borboletas: brancas se estão em bom lugar, pretas se estão em mau lugar.