Operação Urano () foi o nome de código da operação estratégica soviética de contra-ofensiva realizada entre 19 e 23 de Novembro de 1942 (a primeira vez que o alto comando soviético dá um nome a uma operação), durante a Segunda Guerra Mundial, que levou ao cerco do 6.º Exército alemão, dos 3.º e 4.º Exércitos romenos, e parte do 4.º Exército Panzer alemão. A operação, inserida na Batalha de Estalinegrado, tinha por objectivo destruir as forças alemãs que se encontravam em Estalinegrado e em seu redor. O planeamento da Operação Urano começou em Setembro de 1942, e foi desenvolvido em simultâneo com outros planos para cercar e destruir o Grupo de Exércitos Central alemão e as forças alemãs no Cáucaso. O Exército Vermelho tirou vantagem da fraca preparação do exército germânico para enfrentar o Inverno, e do facto de as forças posicionadas a sul da União Soviética terem atingido o seu limite, perto de Estalinegrado, e estarem a utilizar o apoio das fracas tropas romenas para lhes proteger os flancos; os pontos de partida das ofensivas foram estabelecidas ao longo da secção frontal directamente oposta às forças romenas. Estas forças do Eixo não tinham o equipamento pesado necessário para fazerem frente aos blindados soviéticos.
Devido à grande dimensão da frente criada pela ofensiva de Verão alemã, cujo objectivo era conquistar os campos petrolíferos do Cáucaso e a cidade de Estalinegrado, as forças alemãs, assim como outras do Eixo, foram forçadas a proteger vários sectores da frente para além dos inicialmente previstos. Esta situação foi ainda mais exagerada pelos alemães ao decidirem reposicionar várias divisões mecanizadas desde a União Soviética até à Europa Ocidental. Para além do mais, as unidades posicionadas naquela zona estavam exaustas após meses de combates, em particular aquelas que participaram nos confrontos em Estalinegrado. Os alemães só podiam contar com o 48.º Corpo Panzer, que tinha a força de uma simples divisão panzer, e com a 29.ª Divisão Panzergrenadier como reserva de apoio aos aliados romenos nos flancos do 6.º Exército alemão. Em comparação, o Exército Vermelho tinha mobilizado mais de um milhão de tropas com o objectivo de dar início à ofensiva em Estalinegrado. O movimento das tropas soviéticas não foi, no entanto, fácil, em especial no que concerne à dificuldade de esconderem a sua operação, e ao facto de ser habitual as unidades soviéticas chegarem atrasadas devido a problemas logísticos. A Operação Urano foi adiada, inicialmente, do dia 8 para 17 de Novembro e, posteriormente, para 19 de Novembro.
Às 07h20, hora de Moscovo, de 19 de Novembro, as forças soviéticas do lado norte do flanco do Eixo em Estalinegrado, começaram a sua ofensiva; as forças a sul, começaram a 20 de Novembro. Embora as forças romenas tivessem conseguido repelir os primeiros ataques, no final de 20 de Novembro, o 3.º e 4.º Exércitos romenos estavam em debandada, devido ao movimento do Exército Vermelho que conseguiu penetrar, sem confrontos, nas divisões de infantaria alemãs. As reservas alemãs não foram fortes o suficiente para desviar as forças mecanizadas soviéticas da frente, enquanto o 6.º Exército não reagiu com a rapidez suficiente para mobilizar as forças blindadas alemãs em Estalinegrado e posicioná-las para fazer frente à ameaça iminente. No dia 22 de Novembro, as forças soviéticas reuniram-se na cidade de Kalach, cercando homens a leste do rio Don. Em vez de tentar quebrar o cerco, o Chefe-de-Estado alemão, Adolf Hitler, decidiu manter as forças do Eixo em Estalinegrado, e reabastecê-las por via aérea. Entretanto, os comandantes soviéticos e alemães começaram a preparar os seus próximos movimentos.
Antecedentes Em 28 de Junho de 1942, a Wehrmacht deu início à sua ofensiva contra as forças soviéticas estacionadas do lado oposto do Grupo de Exércitos Sul, codificada com a designação de Fall Blau (mais tarde designada de Operação Braunschweig).McCarthy & Syron (2002), p. 131 Depois de penetrar nas forças do Exército Vermelho no dia 13 de Julho, as tropas alemãs cercaram e capturaram a cidade de Rostov. Na sequência da queda desta cidade, Hitler dividiu as forças alemãs a operar na extremidade sul da União Soviética, num esforço para, em simultâneo, capturar a cidade de Estalinegrado e os campos petrolíferos do Cáucaso. A responsabilidade desta tarefa foi entregue ao 6.º Exército que, de imediato, se dirigiu para o rio Volga e iniciou o seu avanço com um forte apoio aéreo da Luftflotte 4 da Luftwaffe .McCarthy & Syron (2002), pp. 135–136 A 7 de Agosto, dois corpos panzer alemães conseguiram flanquear, e cercar, uma força soviética de homens e cerca de 1000 tanques, e, a 22 de Agosto, as forças alemãs começaram a atravessar o rio Don para completar o avanço em direcção ao Volga.McCarthy & Syron (2002), p. 136 No dia seguinte, a Batalha de Estalinegrado teve início quando as tropas da vanguarda do 6.º Exército penetraram nos subúrbios da cidade.
thumb|left|Tropas alemãs a avançar na União Soviética, Junho de 1942
Em Novembro, o 6.º Exército já tinha ocupado grande parte de Estalinegrado, forçando o Exército Vermelho a recuar até à margens do rio Volga. Por esta altura, havia indícios de uma iminente ofensiva soviética cujo objectivo era destruir as forças das Wehrmacht em redor da cidade, e actividade soviética do lado oposto dos flancos do 6º Exército, para além de informações obtidas pelos interrogatórios realizados a prisioneiros soviéticos. Contudo, o comando alemão estava concentrado em finalizar a captura de Estalinegrado. De facto, o chefe do Estado-maior do Exército, general Franz Halder, tinha sido demitido em Setembro depois de ter tentado avisar sobre o perigo que se estava a desenvolver ao longo da enorme extensão dos flancos do 6.º Exército e do 4.º Exército Panzer.McCarthy & Syron (2002), pp. 137–138 No início de Setembro, o Stavka (alto comando soviético) começou a planear um conjunto de contra-ofensivas para cercar as forças alemãs no sul, lutar em Estalinegrado e no Cáucaso, e contra o Grupo do Exército Centro. O comando das operações para libertar Estalinegrado ficou entregue ao general Aleksandr Vasilevsky.
O Stavka desenvolveu duas grandes operações a serem conduzidas contra as forças do Eixo perto de Estalinegrado - Urano e Saturno -, e uma terceira operação - Marte - concebida para atacar o Grupo do Exército Centro num esforço para desviar os reabastecimentos, e para infligir o maior número de danos possível. A Operação Urano envolveu a utilização massiva de forças de infantaria e mecanizadas para envolver as forças alemãs, e outras do Eixo, em redor de Estalinegrado. À medida que a preparação para a ofensiva tinha início, os pontos de partida para os ataques eram estabelecidos desde a frente, até à retaguarda, do 6.º Exército alemão, impedindo, deste modo, os alemães de reforçarem aqueles sectores onde as unidades do Eixo já se encontravam no seu limite e em dificuldades. A ofensiva estava planeada para envolver as tropas alemãs; as forças mecanizadas soviéticas atacariam a retaguarda alemã, enquanto outro ataque seria efectuado perto do 6.º Exército alemão. Enquanto o Exército Vermelho se preparava, os comandantes alemães - influenciados pela crença de que o Exército Vermelho, ao estar a preparar um ataque ao Grupo do Exército Centro a norte, era incapaz de organizar uma ofensiva simultânea a sul — continuavam a negar a possibilidade de uma iminente ofensiva soviética.McTaggart (2006), pp. 49–50
Forças no terreno Forças do Eixo A Operação Braunschweig envolvia as forças alemães e outras do Eixo, distribuídas ao longo de uma frente com mais de 480 km de comprimento, e várias centenas de profundidade; a decisão de tomar Estalinegrado tinha alargado ainda mais as forças do Eixo, mobilizando tropas para leste. Por exemplo, no início de Julho, o 6.º Exército defendia uma linha de 160 km, ao mesmo tempo que participava numa ofensiva que se estendia por cerca de 40 km. O Grupo do Exército B, separado do Grupo do Exército Sul (as forças em acção no Cáucaso eram designadas por Grupo do Exército A), parecia forte em teoria: incluía o 2.º e 6.º Exércitos, o 4.º Exército Panzer, 3.º e 4.º romenos, 8.º italiano, e o 2.º húngaro.Erickson, pp. 453–454 O Grupo do Exército B incluía o 48.º Corpo Panzer, que tinha a força de uma divisão panzer enfraquecida, e apenas uma divisão de infantaria de reserva.Erickson, p. 454 Uma grande parte dos flancos alemães era apoiada por exércitos não-alemães do Eixo, enquanto as forças alemãs estavam à frente das contínuas operações em Estalinegrado e no Cáucaso.McTaggart (2006), p. 49 right|upright|thumb|General Friedrich Paulus, comandante do 6.º Exército alemão
Enquanto Adolf Hitler expressava a sua confiança na capacidade das unidades não-alemãs para proteger os flancos das forças alemãs,McTaggart (2006), p. 48 na verdade, estas unidades estavam equipadas com armamento obsoleto e artilharia puxada por cavalos e, em muitos casos, o mau tratamento dos praças pelos oficiais causava uma forte baixa do moral.McTaggart (2006), pp. 48–49 No que diz respeito às forças mecanizadas, a 1.ª Divisão Blindada romena estava equipada com cerca de 100 tanques checos Panzer 35(t), equipados com um canhão de 37 mm ineficaz contra o tanque soviético T-34. De igual forma, as suas armas anti-tanque 37 mm PaK eram antiquadas e tinham poucas munições. Só depois de muitos pedidos é que os alemães enviaram aos romenos unidades de 75 mm PaK; seis por divisão. Estas unidades foram posicionadas ao longo de uma extensa linha de frente; por exemplo, o 3.º Exército romeno ocupava uma linha de 140 km de comprimento, enquanto o 4.º Exército romeno protegia uma extensão de 270 km. Os italianos e os húngaros foram colocados no Don a oeste do 3.º Exército romeno, mas os comandantes alemães não tinham em grande consideração a capacidade daquelas unidades para o combate.
De uma maneira geral, as forças alemãs também não se encontravam em melhores condições; estavam enfraquecidas por meses de combates com o Exército Vermelho, e, enquanto o Stavka organizava novos exércitos, o alto comando alemão tentava manter as suas unidades mecanizadas existentes. Além disso, durante a ofensiva alemã, entre Maio e Novembro de 1942, duas divisões de elites motorizadas - a Leibstandarte e a Großdeutschland -, foram transferidas do Grupo do Exército A para oeste, para servir de reserva caso se verificasse o desembarque Aliado em França. O 6.º Exército também sofreu pesadas baixas durantes os combates na cidade de Estalinegrado. Em alguns casos, como o da 22.ª Divisão Panzer, o seu equipamento não era melhor que o da 1.ª Divisão Blindada romena.McTaggart (2006), pp. 50–51 Às formações alemãs era exigido que ocupassem uma extensa linha de frente; o XI Corpo de Exército, por exemplo, tinha que defender uma frente com 100 km de extensão.McTaggart (2006), p. 50
Forças soviéticas