Sebastião da Rocha PitaO sobrenome "Pita" é preferível consoante o FO-43, tal que Eça de Queirós, Rui Barbosa, Filinto Elísio, Teófilo Braga etc. (Salvador, 3 de maio de 1660 — 2 de novembro de 1738) foi um advogado, historiador e poeta luso-brasileiro.

Biografia Nascido no ano de 1660 na Bahia, hoje cidade de Salvador, Sebastião da Rocha Pita foi um importante historiador e poeta do século XVII. É autor de, dentre outras, uma importante obra intitulada História da América Portuguesa (1730), produzida em um período em que a capacidade de contar a História de Portugal e do império luso-brasileiro compunha um quadro de preocupações centrais de um reino atribulado em legitimar-se frente a outras nações — onde o domínio da história e sua forma de escrita como iniciativa institucional congregaria em si essa função. Como um historiador de prestígio, compunha a ordem de letrados na Academia Real de História Portuguesa (1720-1736), ocupando o cargo de acadêmico supranumerário. No cenário brasileiro, foi membro e um dos fundadores da Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) participando ativamente como poeta e historiador nas atividades realizadas nessa congregação, que pode ser concebida como um local privilegiado para se pensar e formular a história da América Portuguesa, em um período no qual “ o movimento academicista ajudou a desencadear uma nova percepção sobre o estatuto político do território colonial, estimulando assim, a reflexão sobre a natureza dos laços que prendiam a América ao Reino: amarras simultaneamente jurídicas, familiares, linguísticas, econômicas e culturais."KANTOR, Iris, Esquecidos e Renascidos. Historiografia acadêmica luso-brasileira (1724-1759). São Paulo: Hucitec; Salvador: Centro de Estudos Baianos/UFBA, 2004, P.16 Formado na Escola de Jesuítas da Bahia e mestre em Artes, o nome de Rocha Pita figura na listaMORAIS, Francisco. Estudantes Brasileiros na Universidade de Coimbra (1772-1872). Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. LXII (1940) de nomes de brasileiros formados na Universidade de Coimbra elaborada por Francisco Morais, tendo ido aos 16 anos. A formação em Portugal era um costume daqueles que tinham um prestígio social na ´colônia e que compunham assim, o quadro de letrados brasileiros. Ostentou ainda o título de coronel do regimento privilegiado de ordenanças, foi fidalgo da casa real, cavaleiro da ordem de Cristo e vereador em Salvador. Pai de três filhos, com Ana Cavalcanti, morre em 1738, na cidade de Cachoeira, onde desde o casamento fixou residência.

Rocha Pita e sua importância para a História da Historiografia Brasileira

Compreendendo a Historiografia Brasileira como um ramo da disciplina da História que dedica-se ao estudo sistemático das formas pela quais a história foi pensada, sistematizada e trabalhada ao longo dos anos - não restringindo-se somente ao cenário brasileiro, mas visando o alcance de uma tradição da língua portuguesa — a importância de Rocha Pita como historiador e poeta é manifesta. Pita compunha um quadro amplo de homens letrados,tanto em Portugal quanto no Brasil. Segundo o Padre Rafael Bluteau, em seu importante dicionário Vocabulario Portuguez e Latino: “República das letras se chamam coletivamente todas as pessoas doutas, & aplicadas ao estudo das ciências, de cujas obras se faz menção em uns livrinhos, que nos vêm de Holanda, também chamados República das letras”( BLUTEAU, Rafael. Vocabulário português e latino. Lisboa: Colégio da Artes da Companhia de Jesus, Pascoal da Silva, vol. 7, p. 268. Nesse sentido, Rocha Pita figura no quadro dos letrados que “adquiriam reconhecimento como fieis súditos prestadores de real serviço” (SILVA, Taíse Tatiana Quadros da. Poder e episteme na erudição histórica do Portugal setecentista: uma abordagem do programa historiográfico da Academia Real da História Portuguesa (1720-1721) Acessível em: http://www.ichs.ufop.br/rhh/index.php/revista/article/view/60 j205) e ainda ocupava o lugar no “rol dos varões ilustres por armas, letras ou por virtudes”(SILVA, Taíse Tatiana Quadros da. Poder e episteme na erudição histórica do Portugal setecentista: uma abordagem do programa historiográfico da Academia Real de História Portuguesa (1720-1721)p.205-206. Acessível em: http://www.ichs.ufop.br/rhh/index.php/revista/article/view/60 j205) como um acadêmico, uma vez que fazia parte da Academia Real de História Portuguesa. Joaquim Manoel de Macedo, médico e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, refere-se a Rocha Pita como importante nome em busca de uma historiografia nacional: “Até o fim do século XVIII o Brasil, embora já tivesse historia, ainda não tinha historiador, os dois Peros, Caminha e Gandavo, deram luz a seu berço, mas não podiam escrever senão dois autos, o do nascimento ou da descoberta e o do baptismo da Terra de Santa Cruz. Depois, e durante duzentos annos, a historia do Brasil foi e ainda é a provação da maior paciência, e o tormento da crítica a procural-a em cartas e diarios de navegadores … nas chronicas de ordens religiosas, em narrativas de viagens… Muitos elementos; todos, porém, dispersos, confusos, e comprometidos por invenções absurdas, por creações imaginarias e pelas sombras de periodos historicos quasi sem uma estrella na prolongada noite. No século XVIII surgiu como aurora o já velho Rocha Pita, brasileiro de nascimento e de amor, peregrino de cabellos brancos a estudar linguas e visitar capitaes da Europa em demanda de esclarecimentos, e de testemunhos documentaes da vida e das cousas do Brasil, ainda peregrino na patria a correr de uma em uma as capitanias da então colonia portugueza e, após investigações laboriosissimas e consciencioso estudo, a revelar-se o primeiro historiador do Brasil.”(Revista do IHGB, Tomo 41, Parte II, 1878, p.480-481)Além disso em vários de seus escritos é notável uma grande preocupação com a história, mestra da vida - aquela que ensina com as experiências passadas uma maneira de prever ou antecipar o futuro, porém com uma característica marcante de uma complexificação da experiência — não significa apenas simplificar e orientar o passado, antes, ter contato com o passado como uma necessidade subjetiva: “Os anos passados, ó leitor discreto, as mudanças do tempo e da fortuna, os estrondos marciais, as pretensões das coroas, o temor do aumento das monarquias, o ciúme do poder dos vizinhos, as políticas dos Estados, os interesses das repúblicas e a comoção geral que introduziram novas e várias cenas no teatro da Europa, me trouxeram ao pensamento a memória dos princípios, progressos e fins das antigas monarquias e os motivos dos seus aumentos das suas declinações e das suas ruínas.” PINTO, Nilton de Paiva. A poesia de Rocha Pita na Academia Brasílica dos Esquecidos. Dissertação de mestrado defendida na UFMG.A obra História da América Portuguesa deve ser compreendida em um amplo contexto de racionalização crescente que perpassa o século XVIII. Neste contexto, a esfera racional é marcada pelas noções de individualidade, razão e crítica. Um momento de atualização da vida intelectual portuguesa, onde os letrados, que representavam “os vetores que possibilitavam a transferência para a colônia da tradição da cultura letrada européia”(ALCIDES, Sérgio, Estes Penhascos: Cláudio Manuel da Costa e a paisagem de Minas, São Paulo: HUicitec:2003), buscam na erudição a capacidade de contar sua própria história, baseados, principalmente, na crítica e inicialmente a serviço de um Estado e da religião. Podemos vislumbrar um processo de escrita que segue as regras da erudição da Academia Real de História Portuguesa, onde a história atua duplamente, com as funções de: narrar e dar notícias. Assim, combina-se um estilo de escrita que em suas descrições exalta a natureza como uma forma legítima de defesa do território — abordagem política e não taxonômica — seguindo uma metodologia que segue os princípios de autoridade, verdade e testemunho. A sua obra foi publicada na forma impressa, circulando tanto na colônia quanto na metrópole. Rocha Pita foi o segundo brasileiro a ter sua obra impressa em Portugal.

Biografia na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) dereito|thumb|Trecho da biografia escrita por João Manuel Pereira da Silva (Revista do IHGB-1849)|link=Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro A biografia de Rocha Pita foi escrita no século XIX pelo historiador João Manuel Pereira da Silva e publicada na revista do IHGB em 1849. Nesse sentido, nota-se a importância de Pita, lido no século XIX em um Instituto que reunia em si, principalmente "a tarefa de pensar o Brasil segundo os postulados próprios de uma história comprometida com o desvendamento do processo de gênese da Nação que se entregam os letrados reunidos em torno do IHBG"GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História nacional. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.1, 1988. P.6 Assim, vislumbra-se o projeto de escrita da história nacional, e nesse intuito as “qualidades e deveres para o estudo e a escrita da história”(OLIVEIRA, Maria da Glória. Fazer história, escrever história: sobre as figurações do historiador no Brasil oitocentista. Revista Brasileira de História. São Paulo. V.30. n59.p.37-52. 2010. p.39). Dessa maneira, “na biografia de Sebastião da Rocha Pita, composta por João Manuel Pereira da Silva, a fórmula seria utilizada para ressaltar as suas qualidades e, ao mesmo tempo, atenuar as graves objeções que pesavam sobre a sua História da América Portuguesa.”(OLIVEIRA, Maria da Glória. Fazer história, escrever história: sobre as figurações do historiador no Brasil oitocentista. Revista Brasileira de História. São Paulo. V.30. n59.p.37-52. 2010. p .39)

Trecho da biografia:

O poeta Embora concebido muitas vezes por uma falta de rigor em suas obras poéticas e como “poeta ocasional” alguns recentes estudos preocupam-se em resgatar a importância de Rocha Pita como poeta, a fim de ressaltar a sua importância tanto como poeta quando como historiador. Segundo Temístocles Cézar: “nem sempre ser poeta ou romancista era incompatível com ser historiador; e ir de um gênero ao outro era uma opção, não uma impossibilidade intelectual”(21 CEZAR, Temístocles. Livros de Plutarco: biografia e escrita da história no Brasil do século XIX. Métis: história & cultura, v.2, n.3, jan.-jun. 2003, p.74). Neste sentido, é importante que se compreenda a poesia de Rocha Pita inserida em uma preocupação mais ampla da Academia Brasílica dos Esquecidos em estimular uma produção poética entre os acadêmicos. Por outro lado, Afrânio Coutinho nos faz considerar entre seus poemas não àqueles escritos em honra de pessoas ilustres, como notoriamente o fez, porém mas os de "temas evidentemente ridículos e antilíricos cultivados com certo humor", os quais seriam "verdadeiros jogos literários" para demonstrar "habilidade de expressão" senão "técnica versificatória"]]Coutinho, Afrânio. A literatura no Brasil. Volume 2. Parte II. Era Barroca e Neoclássica. 4ª edição.Global Editora. São Paulo, 1997.. .

Obras Publicadas Breve Compendio, e Narraçam do Funebre Espectaculo, que na insigne cidade da Bahia, cabeça da America Portugueza, se vio na morte de ElRey D. Pedro II. de gloriosa memória, S. N. Offerecido À Majestade do Serenissimo Senhor Dom Joam V. Rey de Portugal (Lisboa: Officina de Valentim da Costa Deslandes, Impressor de Sua Majestade, 1709)