José Zanine Caldas (Belmonte (BA), 25 de abril de 1919 — Vitória (ES), 20 de dezembro de 2001) foi um arquiteto, designer, artista, paisagista, e maquetista, além de também atuar como professor no Brasil e no exteriorBARTHOLOMEU, Clara. José Zanine Caldas e sua contribuição na Arquitetura e Design. 2016. Nasceu em Belmonte, no estado da Bahia e é principalmente conhecido pela sua obra em madeira e pelo cuidado, respeito e preservação da natureza, podendo ser considerado um dos pioneiros arquitetos e designers no Brasil a propor projetos que pensavam sobre a importância da ecologiaFACO, Luciane Costa. O surgimento do conceito de preservação ambiental na metodologia de projeto de produto em design: Pioneirismo de Zanine Caldas no Brasil. 2012..
Sua atuação profissional é vasta e em diversos campos. Apesar de ter convivido com os principais arquitetos modernos do período, sua obra não se enquadra a um movimento/estilo determinado.
Seus projetos arquitetônicos mais conhecidas são os conjuntos de residências feitas no morro da JoatingaRIMI, Paula. A madeira na obra de José Zanine Caldas: residências no Rio de Janeiro entre 1968-1976. 2021., no Rio de Janeiro. Como designer, podemos citar dois períodos importantes em sua carreira: a criação da Fábrica Moveis Artísticos Z e a proposta de móveis desenvolvidos em Nova Viçosa, no sul da Bahia, com os quais visava denunciar o desmatamento da floresta amazônica e mostrar, para as gerações futuras, o tamanho das árvores que o Brasil já teve.
Biografia
Primeiros anos e formação José Zanine Caldas nasceu em Belmonte, na Bahia, no dia 25 de abril de 1919. O sul da Bahia enriqueceu muito com a produção de cacau entre os anos de 1890 e 1930 e, com isso, grandes casarões dos donos da produção de cacau foram erguidos no centro da cidade. Zanine morava em um desses casarões, pois seu avô, José Gomes de Oliveira, era o Coronel da cidade. Sua mãe, Palmyde Gomes Zanine Caldas era a filha do Coronel e seu pai, Euclides Zanine Caldas, era o médico da cidade.
A família da sua mãe era proprietária de muitas terras. Já a família de seu pai era de origem humilde, sua avó era lavadeira em Salvador, lavava e passava as roupas dos marinheiros que aportavam no porto. Zanine tinha uma enorme admiração pelo seu pai.
Duas outras características importantes a serem destacadas sobre Belmonte, é que ela tem um grande rio, o Jequitinhonha, que era usado como transporte no território brasileiro, ligando Minas Gerais ao Oceano Atlântico. Sendo assim, as trocas com o sudeste do Brasil, onde se localizavam os maiores centros econômicos do país, eram feitas pelo rio. Apesar disso, a maior troca de produtos acontecia com a Europa, atravessando o oceano atlântico.
Zanine vivia nessa cidade pequena, em que os grandes produtores de cacau possuíam riqueza e encomendavam rosas e produtos da Europa e a população, pela dificuldade em encontrar produtos prontos e por saber fazer seus próprios objetos, produzia suas próprias casas e os utensílios necessários para o dia-a-dia, a partir dos materiais encontrados na região: a madeira, a palha, a terra, a concha.
Quando atingiu a idade para cursar o Grupo Escolar, Zanine mudou-se para Pitangueiras, no interior de São Paulo, onde já viviam seus pais. Quando ele fez 15 anos, sua mãe se mudou para São Paulo e foi lá que Zanine aprendeu a desenhar com um alemão que se chamava Brakman e que ensinava todos os tipos de desenho.
Trabalho como desenhista Em São Paulo, a partir do conhecimento adquirido com seu professor Brackman, Zanine fez placas para publicidade. Em 1938, seu professor de desenho sugeriu a Zanine que trabalhasse como desenhista de arquitetura na empresa Severo e Villares, que era um dos maiores escritórios de arquitetura do Brasil.
Em 1939, o Brasil passou por uma grande crise econômica, consequência de uma crise mundial que teve como seu maior exponente a conhecida Quebra da Bolsa de Nova York. No Brasil, ela se deixou fortes marcas na produção do café, principalmente de São Paulo, que tinha o produto como sua principal fonte de renda. Foi o momento em que aconteceu a queima dos sacos de café. Em meio a essa crise, Zanine decidiu sair de São Paulo.
Trabalho como maquetista Zanine se mudou para o Rio de Janeiro, provavelmente no ano de 1939. Lá arranjou um emprego para fazer maquetesExposição de “Maquettes” de arquitetura. Diário de Notícias, 17 dez. 1944.. Seu patrão se chamava Benício. Ficou nesta empresa por dois anos.
Esse foi um momento conturbado na história do Brasil, pois foi durante o Golpe de Estado de Getúlio Vargas (novembro de 1937 até outubro de 1945). Houve grandes modificações econômicas e políticas, um período de autoritarismo, anticomunismo, centralização do poder e incentivo ao nacionalismo.
Vários amigos de Zanine, vinculados ao Partido Comunista (PC), foram caçados. Nessa época Zanine ainda não fazia parte do partido, porém foi a revolta pelo que aconteceu que o fez entrar para o PC. Acreditamos que este tenha sido o momento em que Zanine se relacionou com grande parte dos arquitetos modernos do Brasil que eram filiados ao PC.
E devido às mudanças políticas e econômicas que aconteceram, Zanine e um primo seu abriram a empresa de maquetes Maquete Studio. Inicialmente sediada no Rio de Janeiro, em uma travessa da Avenida D. Pedro II. Depois foram para a rua do Itamaraty. Após dois anos, seu primo saiu da sociedade.
Entre os primeiros projetos cuja maquete foi feita no Maquete Studio podemos citar o aeroporto de Congonhas e como alguns dos principais clientes de Zanine os arquitetos Oscar Niemeyer, Lucio CostaCOSTA, Lucio. Lucio Costa. Registro de uma vivência. 1995., Eduardo Kneese de Mello, Maurício e Marcelo Roberto (MMR associados), Assis Brasil, Jorge Moreira, Henrique Mindlin, Oswaldo Bratke e Alcides da Rocha Miranda.
Enquanto fazia maquetes, decidiu fazer faculdade de pintura e passou na Escola Nacional de Belas Artes em 1944. Não concluiu o curso pois não sentia que estava desenvolvendo suas habilidades. Zanine não possui formação acadêmica superiorÁrvore, arquitetura. Cidade, diploma: o ABC de Zanine. Acervo José Zanine Caldas.CALDAS, José Zanine. A Competência Esquecida... Jornal do Brasil, 25 out. 1987.COSTA, Eng. Ralderes Bonifácio. Falso arquiteto. Jornal do Brasil, 23 jul. 1986.. Segundo ele "O homem do interior, como não está apegado a certos princípios preestabelecidos, tem sempre que apelar para a sua própria inteligência ao resolver problemas estéticos. Ao fazer o encaixe de duas vigas de madeira não utiliza a técnica aprendida nas universidades, mas sim aquela que lhe parece mais acertada para o caso. Por isso seu espírito está sempre aberto para as inovações. Todas as casas que projeto são feitas dentro desse espírito arquitetônico"AYALA, Walmir. A Arte de habitar. Jornal do Brasil, 2 abr. 1969.
Zanine manteve seu escritório no Rio de Janeiro até 1948, quando se mudou para São José dos Campos, no estado de São Paulo, porque estava com problemas de saúde, pressão baixa e hérnia inguinal.
A empresa continuava indo muito bem graças à inventividade de Zanine que, além de fazer o trabalho rápido e bem, inovou na maquete, usando o compensado naval para a confecção das mesmas. Para isso ele contou com o apoio do IPT (Instituto de Pesquisas Técnológicas), encomendou ao seu amigo Rubens de Mello, engenheiro responsável pelo desenvolvimento de novos materiais, um compensado fino, com milímetros de espessura, que pudesse ser usado em maquetes.
Assim, ele não só fazia o modelo volumétrico do projeto, mas mantinha o vazio do mesmo, criando, em alguns casos, o layout do projeto ao construir as maquetes dos móveis do interior. E foi esse o fato que o levou para a criação de uma empresa de móveis, a fábrica Móveis Artísticos ZSANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. O Móvel Moderno no Brasil. 1985.SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. O Móvel Moderno no Brasil. 1985., criada em 1948 em São José dos Campos. Nesse período ele continuou a fazer maquetes para os arquitetos modernos, sendo uma das suas últimas maquetes da empresa a do marco da celebração do quarto centenário de São Paulo, o Parque Ibirapuera – depois Zanine continuou a fazer maquetes para os arquitetos modernos, porém não era mais pela Studio de Maquetes.
Início da carreira como designer A empresa Móveis Artísticos Z foi criada em 1948 em São José dos CamposMELO, Alexandre Penedo Barbosa de. Móveis Artísticos Z (1948-1961): o moderno autodidata e seus ressortes sinuosos. 2001.. Zanine exerceria o papel de designer e organizava a produção, e tinha Sebastião Henrique da Cunha Pontes, Hellmuth Schicker e Paulo Melo como sócios para a gestão econômica e administrativa. A estratégia consistia em elaborar móveis com um preço acessível, aproveitando ao máximo o material disponível empregando mão de obra não especializada na produção.
A década de 1950 foi de notável crescimento para o país, especialmente para a cidade de São Paulo. Houve uma expansão populacional, seguida de substituição de casas e sobrados por edifícios e do crescimento da classe média na cidade.
Como material, Zanine usou o compensado laminado e colado, mesmo material que usava em suas maquetes e que tinha como características o fato de ser leve e resistente. Além disso, o material era utilizado por designers do hemisfério norte, como o finlandês Alvar Aalto (1898-1976) e o húngaro Marcel Breuer (1902-1981) e se tornou rapidamente um dos símbolos da época.
Além do compensado, eram aplicados tecidos sintéticos no estofamento, que permitiam a exploração de novas cores, que eram pregados com “tachinhas”.
As peças da Móveis Z foram um sucesso no mercado, sobretudo no início do empreendimento. A leitura correta do momento histórico vivido levou Zanine a projetar objetos desejáveis, úteis e com qualidade igual ou inclusive superior àquela que se esperava pelo preço pago.
Em 25 de janeiro de 1961 um curto-circuito disparou um incêndio na Móveis Artísticos Z. Havia já mais de meia década que Zanine tinha oficialmente renunciado à sua participação na fábrica. Em depoimento a Maria Cecília Loschiavo dos Santos (1979), Zanine afirma: “Eu abandonei a industrialização mais ou menos em 1950 e poucos. Aí parti para plantar. Como eu não podia ir para agricultura, eu parti para o negócio de jardim, de reflorestamento, de arborização. Junto com o Luís Saia, eu fui trabalhar no interior de São Paulo, nas prefeituras.” No momento do incêndio, Zanine estava já em Brasília, envolvido com a implementação do curso de Arquitetura da Universidade de Brasília, a pedido de Darcy Ribeiro, após ter realizado ali maquetes para Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, que trabalhavam no projeto e concretização da nova capital do país. Em São José dos Campos, não deixa nada: a partir de um desentendimento com os sócios, queima seus desenhos e abandona o projeto.
Início da carreira como arquiteto Há informações verbais de projetos residências feitos por Zanine em São José dos Campos, porém estes não são registrados por fotografias e desenhos. O primeiro projeto atualmente registrado e que já possuía elementos que posteriormente o tornou reconhecido como arquitetoFIGUEIREDO, Claudio. Arquitetura que não se aprende na escola. Jornal do Brasil, 4 dez. 1988. - como o reuso de materiais, o uso de madeira e o diálogo com a arquitetura tradicional - é a casa que construiu para ele e para sua esposa em Brasília, de 1963 e atualmente conhecida como casa de Zanine.CHAIM, Giselle Marie Cormier. O mestre, a madeira e a habitação: Residências de Zanine Caldas em Brasília 1963-1985. 2017.
Carreira
Evolução profissional