A Coluna da Morte foi uma unidade militar na Revolta Paulista de 1924, integrante das forças tenentistas em armas contra o presidente do Brasil, Artur Bernardes. Comandada por João Cabanas, um oficial da Força Pública de São Paulo, ela partiu em campanha em 19 de julho de 1924, combatendo forças legalistas em São Paulo e Paraná até o final de abril de 1925, quando seu comandante deixou as forças revolucionárias. Os integrantes da coluna continuaram a lutar como parte da Coluna Miguel Costa-Prestes. A denominação de “Coluna da Morte” nunca foi oficial, e entre os revolucionários ela era chamada de “o batalhão” ou, após agosto de 1924, o “5.º Batalhão de Caçadores”, subordinado à 3.ª Brigada, comandada por Miguel Costa.
A coluna inicialmente tinha 95 homens da Força Pública (o “exército estadual” paulista), crescendo ao longo do tempo pela incorporação de voluntários civis e prisioneiros. Sua primeira missão foi na Estrada de Ferro Mogiana, como parte das campanhas no interior. Legalistas comandados pelo general Martins Pereira ameaçavam tomar Campinas e cortar o acesso ao interior dos revoltosos na cidade de São Paulo. Aplicando os princípios da guerra psicológica e guerra de movimento, Cabanas conquistou Mogi Mirim e derrotou forças numericamente superiores da Força Pública de Minas Gerais e “batalhões patrióticos” irregulares.
Após a retirada do grosso dos revolucionários da capital paulista, em 28 de julho, a “Coluna da Morte” foi encarregada de defender a retaguarda dos revoltosos à medida que eles transitavam pela Estrada de Ferro Sorocabana até o rio Paraná. No caminho, ela sabotou a infraestrutura ferroviária para retardar o avanço legalista e teve várias escaramuças com as tropas que seguiam no seu encalço. Ao final de outubro, com os revolucionários assentados no extremo oeste do Paraná, a Coluna da Morte defendia o flanco no rio Piquiri. Seu maior feito na campanha do Paraná foi em Formigas, em 21 de janeiro de 1925, quando abriu uma picada pela mata e desferiu um ataque surpresa à retaguarda dos legalistas que atacavam Catanduvas. A coluna não foi destruída pela ofensiva legalista final contra Catanduvas, em 27 de março, e participou da retirada dos revolucionários até o Paraguai, mas João Cabanas, já muito doente para prosseguir, deixou o comando, um ato execrado por seus companheiros.
As façanhas da coluna tiveram grande repercussão no imaginário popular e na imprensa governista, criando um mito ao redor de Cabanas. Líder carismático para sua tropa, justiceiro para os simpatizantes e intimidatório para os inimigos, Cabanas foi caracterizado pelos governistas como um chefe truculento, responsável por violências contra a população e o patrimônio público. No exílio ele publicou o livro A coluna da morte sob o comando do tenente Cabanas, no qual reagiu às acusações e apresentou uma imagem positiva de justiceiro e revolucionário. Sua importância como chefe militar foi reconhecida pelos legalistas à sua época e historiadores posteriores.
Organização miniaturadaimagem|João Cabanas (primeiro à esquerda) nos combates em São Paulo antes da formação da coluna|esquerda
A “Coluna da Morte” foi uma de três forças enviadas ao interior paulista pelos revolucionários tenentistas, comandados pelo general Isidoro Dias Lopes, que controlavam parte da cidade de São Paulo. Enquanto a guerra urbana era travada contra os legalistas, mais reforços legalistas convergiam a São Paulo vindos do Rio de Janeiro, Santos, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. No interior, os revolucionários já controlavam Itu, Jundiaí, Campinas e Rio Claro em 9 de julho. Ao longo do mês, consolidaram seu poder no triângulo São Paulo-Campinas-Sorocaba e projetaram-se para Bauru e Araraquara. A aproximação de diversas forças legalistas no interior ameaçava sitiar os revolucionários na capital paulista, pondo fim à revolução. Dessa forma, entre 17 e 19 de julho o capitão do Exército Otávio Muniz Guimarães foi enviado à Estrada de Ferro Paulista e Noroeste, o capitão da Força Pública Francisco Bastos à Estrada de Ferro Sorocabana e o tenente da Força Pública João Cabanas à Estrada de Ferro Mogiana.
Essa força era inicialmente composta de militares da Força Pública de São Paulo, reconhecidos à época pelo profissionalismo militar, obtido pela instrução francesa. Havia apenas infantaria e um pequeno componente de artilharia. Com o passar do tempo, o efetivo cresceu pela incorporação de civis e prisioneiros. Cabanas chamou de “bandoleiros” tanto suas tropas quanto as forças irregulares de seus oponentes, os “batalhões patrióticos” do Partido Republicano Paulista. Havia apenas um oficial regular, e mesmo alguns dos cabos e sargentos eram amadores. Cabanas iniciou a campanha como tenente e, ao final das operações do Paraná, já era tenente-coronel dentro das forças revolucionárias.
Sob o comando de Cabanas, a disciplina cotidiana de caserna foi afrouxada, mas a indisciplina em operações era punida rigorosamente. Os toques de corneta eram baseados em músicas populares brasileiras. A insígnia (caveira numa bandeira vermelha) e nome próprios (“Coluna da Morte”) reforçaram o espírito de corpo da tropa. “Coluna da Morte” nunca foi um nome formal da organização. Originalmente Cabanas referia à sua força entre os revolucionários como “o batalhão”.
Operações Campanha da Mogiana Forças na região miniaturadaimagem|Mapa com locais visitados pelos legalistas ou revolucionários na Mogiana A força de João Cabanas partiu de São Paulo às 04h00 de 19 de julho, contando com 95 homens, uma peça de artilharia de montanha, três metralhadoras e quatro fuzis-metralhadoras. Seu objetivo era afastar as forças legalistas do general Martins Pereira em Mogi Mirim, de onde ameaçavam atacar Campinas. A estratégia delineada pelo major Euclides Figueiredo, que servia no gabinete do Ministério da Guerra, era um movimento de flanco legalista: formar um destacamento rápido e "jogar isso logo sobre Mogi, descer por Jundiaí e ir cortar a retirada".
Inicialmente os revolucionários acreditavam haver apenas 300 caipiras em Mogi Mirim, recrutados por políticos locais, mas conforme o general Abílio de Noronha, eram na realidade 1 200 homens. Conforme as fontes da perspectiva da Polícia Militar de São Paulo, as forças regulares legalistas não somavam mais de 800 homens, compostos em sua maior parte do 5.º Batalhão de Infantaria (BI) da Força Pública de Minas Gerais, com contribuições menores de uma bateria do 2.º Regimento de Artilharia Montada e um pelotão (algumas dezenas de homens) do 1.º Regimento de Cavalaria Divisionário, além de legalistas da Força Pública de São Paulo, pertencentes ao 4.º Batalhão. O número de 1 200 incluiria os patriotas e policiais no eixo Pirassununga-Ribeirão Preto.
Ao chegar no mesmo dia a Campinas, o tenente Cabanas foi informado que a vanguarda legalista, o 5.º BI, sob o comando do major Amaral, estava com 800 homens em Mogi, Jaguariúna e Itapira. Entretanto, conforme Paulo René de Andrade, que escreveu do ponto de vista da Força Pública de Minas Gerais, os mineiros presentes naquele momento eram o contingente ou batalhão Amaral, sob o comando do capitão (comissionado em major) Octavio Campos do Amaral. Tratava-se de uma unidade improvisada, ainda mal armada, de destacamentos policiais do Sul de Minas Gerais. O 5.º BI era comandado pelo tenente-coronel Joviano de Mello, tinha um efetivo de 350 homens (duas companhias e uma seção de metralhadoras) e ainda não estava na região, só alcançando Ouro Fino no dia 21; em seguida, por ordens do general Martins, a 2.ª Companhia, com 120 homens, foi deixada para trás em Ouro Fino e o batalhão entrou desfalcado em São Paulo. Sua munição era irrisória, apenas dez cunhetes de cartuchos.
Cabanas relata que o major Amaral enviou um telegrama ao prefeito de Campinas ameaçando cortar suas orelhas por sua postura pró-tenentista. Para compensar sua desvantagem numérica, Cabanas buscou enganar os legalistas, convencendo-os que uma forte brigada revolucionária avançaria rumo a Mogi Mirim. Ele telefonou a Ribeirão Preto declarando ter à sua disposição mil homens e seis peças de artilharia e intimando a guarnição local a aderir. Em seguida, enviou mensagens de igual teor a outros locais e disseminou a informação de que sua pequena coluna era apenas uma de várias forças revolucionárias na região. Em Campinas, destruiu as linhas telegráficas e telefônicas para o norte e ameaçou fuzilar os funcionários da Companhia Mogiana se desobedecessem.
Batalha de Mogi Mirim miniaturadaimagem|Cabanas (marcado com um X) e seu Estado-Maior em Amparo|esquerda A ferrovia estava avariada em Campinas. Os revolucionários seguiram em 20 caminhões para Jaguariúna, desembarcaram à noite e marcharam por três quilômetros na madrugada de 20 de julho. No relato de Cabanas, uma pequena tropa mineira na cidade foi derrotada, com quatro soldados mortos e 16 prisioneiros, ao custo de dois mortos e cinco feridos para os revolucionários. Os legalistas contra-atacaram sobre o rio Atibaia, sem sucesso. Em seu relato, Cabanas elogia a bravura dos combatentes legalistas, mas ressalta mais ainda a virtude do seu lado. De Jaguariúna, os revolucionários mudaram de direção para o leste e foram de trem, em segredo, a Amparo. Ali havia um destacamento da Força Pública, que não ofereceu resistência e foi incorporado à força à coluna.
À noite, a coluna virou a norte e seguiu a pé para Itapira, num trajeto de quase 30 quilômetros. Para manter o deslocamento em segredo, todos os civis no caminho foram incorporados. Cabanas dividiu a coluna em três pelotões e atacou às 10h00 de 21 de julho, com os legalistas ainda imaginando que o ataque seria em Mogi Mirim. A resistência legalista mais forte, na Cadeia Pública, foi derrotada. As fontes paulistas registram então que uma força de 400 legalistas avançava pelo leste, vinda de Jacutinga; assim, a coluna revolucionária estava ameaçada dos dois lados (com Mogi Mirim a oeste). Essa investida legalista foi derrotada numa emboscada a leste de Itapira em 23 de julho.
Pelas fontes mineiras, o 5.º BI ainda estava em Eleutério, a caminho de Itapira, quando os revolucionários (supostamente 500 homens) conquistaram a cidade. O batalhão desembarcou em Rio do Peixe e, a dois quilômetros da cidade, percebeu que um ataque seria inviável. À meia noite os mineiros receberam ordem para recuar a Sapucaí, e daí a Jacutinga, de onde foi disperso antes do dia 23: 120 homens da 1.ª Companhia em Sapucaí e depois Barão de Ataliba, 50 em Pinhal e 60 (incluindo o comando do batalhão e a seção de metralhadoras) em Jacutinga. Nesse período o coronel Monte chegou a Jacutinga com o pelotão de cavalaria e bateria de artilharia do Exército. Para Paulo René de Andrade, essa pulverização do efetivo tornou o 5.º BI vulnerável e ineficaz, e os contínuos movimentos impedem uma imagem exata dos eventos.
De Itapira, João Cabanas ordenou a sabotagem de trilhos e pontes e disseminou o boato de que atacaria Mogi Mirim pelo leste, levando o general Martins a entrincheirar essa direção. Os revolucionários deram a volta e, numa viagem de 90 quilômetros por vários meios, retornaram a Amparo e Jaguariúna para atacar Mogi Mirim pelo sul. A manobra era arriscada e seria esmagada se o general Martins percebesse a enganação. Mas os legalistas foram pegos de surpresa e, acreditando estarem sob ataque de duas direções (sul e leste), abandonaram a cidade. Essa vitória rendeu a incorporação de 60 soldados legalistas à coluna, que agora chegava a 180 homens, equivalentes a uma companhia.
Ribeirão Preto