O Elevador da Glória é o terceiro álbum de estúdio da banda portuguesa Rádio Macau, lançado em Novembro de 1987 pela EMI-Valentim de Carvalho. Representa o apogeu comercial e artístico do grupo, tendo-se tornado o álbum mais vendido da sua carreira e levado a banda ao topo das tabelas portuguesas. O trabalho ficou marcado pelo êxito do single "O Anzol", que alcançou a 9ª posição nas tabelas radiofónicas nacionais e se tornou uma das canções mais reconhecíveis da música portuguesa dos anos 80.
O título do álbum referencia o Elevador da Glória, o funicular lisboeta que liga a Baixa ao Bairro Alto, transformando-o numa metáfora poética sobre ascensão social e artística que se tornou icónica da música portuguesa dos anos 80.
Contexto e produção
Após a complexidade conceptual do álbum anterior Spleen (1986), os Rádio Macau optaram deliberadamente por uma abordagem mais directa e acessível. Segundo declarações de Flak, a banda "quis fazer um disco mais simples", privilegiando o regresso das guitarras ao primeiro plano e abandonando as experimentações com sintetizadores mais elaboradas.
O álbum foi gravado nos prestigiados Estúdios de Paço d'Arcos durante o mês de Setembro de 1987, com produção de Flak e Amândio Bastos. A formação contou com uma alteração significativa: Alberto Garcia substituiu Emanuel Ramalho na bateria, trazendo uma abordagem rítmica diferente que se adequava ao novo direccionamento musical da banda. O processo de masterização foi concluído a 30 de Outubro de 1987.
Faixas "O Elevador da Glória" (Flak, Pedro Malaquias) - 4:38 "Cidade Fantasma" (Flak, Pedro Malaquias) - 4:12 "O Holandês Voador" (Flak, Pedro Malaquias) - 3:06 "O Homem a Quem Chamaram Cavalo" (Flak, Pedro Malaquias) - 2:36 "Aos Meus Amores" (Flak, Pedro Malaquias) - 5:17 "O Anzol" (Flak, Pedro Malaquias) - 3:11 "A Luz Azul" (Flak, Pedro Malaquias) - 4:38 "Os Kiromantes" (Flak, Pedro Malaquias) - 4:39 "O Corsário" (Flak, Pedro Malaquias) - 4:27 "Santa Guernica" (Flak) [instrumental] - 3:56
Recepção crítica e comercial
O Elevador da Glória obteve uma recepção excepcionalmente positiva tanto da crítica especializada quanto do público. A imprensa musical portuguesa deu amplo destaque ao trabalho, consolidando os Rádio Macau como protagonistas da cena musical nacional.
Comercialmente, o álbum levou a banda ao topo das tabelas portuguesas e tornou-se o mais vendido da sua discografia. O single "O Anzol" manteve-se em rotação radiofónica durante décadas, permanecendo como uma das canções mais reconhecíveis da música portuguesa. Em 1987, ano do lançamento, a banda realizou cerca de 60 concertos, demonstrando a intensa procura do público.
Controvérsia de plágio
Uma das histórias mais conhecidas associadas ao álbum relaciona-se com as alegadas semelhanças entre "O Anzol" e "Just Like Heaven" dos The Cure. Ambas as canções foram lançadas praticamente em simultâneo - "Just Like Heaven" a 5 de Outubro de 1987 e O Elevador da Glória em Novembro do mesmo ano.
As semelhanças musicais são evidentes, particularmente nas introduções e na progressão de acordes de ambas as composições. Flak defendeu-se das acusações, alegando que "O Anzol" foi gravada e masterizada antes do lançamento da canção dos The Cure. Numa entrevista ao Diário de Notícias, afirmou ter "factos que provam que não se tratou de plágio".
Apesar da polémica nunca ter resultado em consequências legais, permanece como um dos casos mais documentados de alegado plágio na música portuguesa dos anos 80. A controvérsia, longe de prejudicar o sucesso da canção, contribuiu para a sua notoriedade duradoura.
Temáticas e letras
As letras do álbum, maioritariamente da autoria de Pedro Malaquias, revelam uma sofisticação literária notável. A temática central gira em torno da experiência urbana lisboeta, transformando elementos quotidianos da cidade numa linguagem poética de grande eficácia comunicativa.
A faixa-título exemplifica esta abordagem: o Ascensor da Glória torna-se metáfora da ascensão social e artística, com o percurso entre a Baixa e o Bairro Alto simbolizando a transformação entre anonimato e estrelato. "Cidade Fantasma" constrói uma atmosfera onírica de suspensão temporal, enquanto "O Anzol" desenvolve uma meta-reflexão sobre originalidade e criação artística.
Ficha técnica
Rádio Macau Xana - voz e guitarra Flak - guitarras e produção Alex - baixo Alberto Garcia - bateria Filipe Valentim - teclados
Produção Produtores: Flak e Amândio Bastos Engenheiro de som: Amândio Bastos Gravado: Estúdios de Paço d'Arcos, Setembro de 1987 Editora: EMI-Valentim de Carvalho
Arte Arranjo gráfico: Álvaro Rosendo Fotografia: Álvaro Rosendo
Legado
O Elevador da Glória permanece como uma obra de referência da música portuguesa, frequentemente citado entre os álbuns essenciais dos anos 80 nacionais. O seu impacto transcendeu o âmbito puramente musical, com a expressão "elevador da glória" a integrar o vocabulário cultural português como metáfora para ascensão e reconhecimento.
A obra consolidou os Rádio Macau como pioneiros na fusão entre as linguagens do rock alternativo internacional e a sensibilidade cultural portuguesa, estabelecendo um modelo que influenciaria dezenas de bandas posteriores.
Catálogos EMI-Valentim de Carvalho - LP EMC 1621
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