O crioulo de Ano-Bom, também conhecido como anobonense ou língua anobonesa e, pelos seus falantes, como Fa d'Ambô, Fa d'Ambu, Fá d'Ambô, Fá d'Êmbô e Fla d'Ambu (literalmente "Fala de Ano-Bom", em português) é uma língua crioula de base portuguesa falada na ilha de Ano-Bom, província da Guiné Equatorial.
A língua é falada por cerca de 5 600 a 6 600 falantes, sendo aproximadamente 6 000 nativos da ilha de Ano-Bom e os demais vindos da diáspora da ilha para o território continental da Guiné Equatorial. Ainda que a maior parte dos falantes da língua saiba ler e escrever, por muito tempo a língua não foi escrita, apenas falada. O primeiro relato de sua escrita é de 2008, já com o uso do alfabeto latino numa gramática descritiva da língua.
Diferentemente de outras línguas crioulas, que passaram por processos de descrioulização numa tentativa de forçar sobre elas uma língua oficial, não há relatos de acontecimentos semelhantes com o Fa d'Ambô, que desde que se tem registro foi respeitado como língua independente. Em Ano-Bom, a maior parte de seus falantes a tem como língua materna e a usam no dia a dia, e por isso a língua se encontra em situação estável e sem probabilidade de extinção.
O crioulo de Ano-Bom é uma língua crioula por ter surgido a partir do contato forçado entre colonizadores de Portugal e Espanha e os povos escravizados africanos que eram levados para a ilha de Ano-Bom. A base da língua é o português, enquanto a gramática da língua é fortemente influenciada por diversas línguas da família Níger-Congo, com eventuais influências, especialmente no léxico, do espanhol e do francês, ambas sendo línguas oficiais da Guiné Equatorial e de outras regiões próximas.
Etimologia Fa d'Ambô significa literalmente, em português, a Fala de Ano-Bom, ou seja, a língua de Ano-Bom, e se refere à Ilha de Ano-Bom, onde essa língua surgiu e é falada majoritariamente até os dias de hoje.
A partícula Fa, ora escrita como Fá, é um substantivo que se originou da forma verbal fala ['fɑlɑː], que por sua vez surgiu do verbo em português "falar". A partícula d- é uma contração da preposição "de" do português e, finalmente, Ambô é a palavra, em Fa d'Ambô, para se referir à Ano-Bom. Logo, Fa d'Ambô pode ser traduzido livremente como "Fala de Ano-Bom"
Classificação esquerda|miniaturadaimagem|275x275px|Mapa em espanhol de Ano-Bom Quanto ao processo de crioulização, a língua politicamente dominante que forçou o contato linguístico foi o português, língua românica derivada da família indo-europeia.
As línguas que influenciaram a crioulização, ou seja, as faladas pelos povos politicamente dominados, eram muitas. Os principais relatos apontam para a língua falada no Reino de Benim do século XV, de onde boa parte dos escravos da ilha de Ano-Bom partiram. Portanto, sua origem remonta à língua edo, do grupo edoíde pertencente à família nígero-congolesa. Porém, no século XVI, o Reino do Benim dominava uma região ocupada pelo povo itsekiri, falantes de uma língua muito próximo ao iorubá, também da família nígero-congolesa. Além disso, há relatos de influência da língua kikongo, falada no antigo Reino do Congo e também pertencente à família nígero-congolesa.
Além disso, devido à eventual dominação espanhola da região e ao intenso contato com os franceses, tanto o espanhol quanto o francês serviram de superestrato para a língua, influenciando-a posteriormente à sua formação na região da Ilha de Ano-Bom, especialmente através de empréstimos lexicais.
Distribuição
miniaturadaimagem|Mapa da região do Golfo da Guiné|289x289px O Fa d'Ambô é falado majoritariamente na Ilha de Ano-Bom, isolada do continente por aproximadamente 360 quilômetros, mas há também registros de falantes na região continental da Guiné Equatorial e na província de Bioco Norte, principalmente após as diversas migrações internas dentro do país. Em Malabo, capital do país, existem cursos voltados ao aprendizado do Fa d'Ambô. Internacionalmente, há relatos da língua falada em comunidades de imigrantes de Ano-Bom no Camarões, Gabão e Espanha.
Em Ano-Bom, a língua é falada por praticamente toda a população, sendo o espanhol utilizado majoritariamente apenas em documentos oficiais e nas escolas, onde os alunos aprendem a gramática espanhola. Na cidade de Malabo, capital da Guiné Equatorial, onde há um grande número de falantes, o uso da língua concorre com diversas outras, incluindo o espanhol, o francês, o português, algumas línguas nativas, como o fangue, e o Pichi, uma língua crioula com base no inglês derivada da língua crioula Krio.
A língua é muito próxima dos outros crioulos do Golfo da Guiné, principalmente por terem uma origem comum. São elas o são-tomense, o principense e o angolar. Mesmo que a base comum de todas essas línguas seja o português, elas sofrem influência direta do espanhol, uma vez que a Guiné Equatorial mantém, nos dias de hoje, o espanhol como língua oficial, além dos espanhóis terem exercido grande influência na formação política e histórica da Ilha de Ano-Bom, assim como de todo o país.
História esquerda|miniaturadaimagem|236x236px|Obra retratando uma expedição para Ano-Bom, 1598
Origem e formação da língua A descoberta da Ilha de Ano-Bom por navegadores portugueses marcou a chegada da língua na ilha, que até então era inabitada. A data certa ainda é muito discutida, porém todos os dados apontam para o final do século XV, provavelmente num dia de 1º de janeiro (chamado de dia de Ano-Bom), fato a partir do qual seria dado o nome à ilha. A fase de habitação, iniciada com sua descoberta, marca o início do povoamento na região da ilha, quando sua população era composta de escravizados, funcionários da Coroa Portuguesa e comerciantes da região da Guiné. Com o tempo, Portugal passou a enviar prisioneiros e judeus para povoar a ilha, a fim de puni-los e convertê-los, porém a maior parte morria no longo percurso até a ilha.
Desde sua descoberta até maio de 1777, a ilha foi uma colônia portuguesa. Após esse período colonial, o território da ilha passou a integrar a Espanha em 1777, por meio dos tratados de de São Ildefonso e de El Pardo. Esse período durou até 1968, quando a ilha foi anexada pela recém-formada República da Guiné Equatorial junto com a ilha de Bioco Norte. Com um processo colonial lento, ocasionado por diversos fatores geográficos e comerciais, a ilha foi praticamente inabitada ao longo do século XVI, com apenas a presença de representantes da Coroa portuguesa e sua guarda, que ainda assim não era constante. miniaturadaimagem|243x243px|Selo da província de Ano-Bom do período espanhol, 1907 Os escravizados que eram levados à Ilha de Ano-Bom ficavam periodicamente estabelecidos na Ilha de São Tomé, também colônia portuguesa na época, e era lá que eles tinham o primeiro contato com a língua falada na região, que já era uma língua crioula. Esse proto-crioulo foi o que originou as demais línguas crioulas da região. Por conta desse contato, os escravos levavam a língua de São Tomé para a Ilha de Ano-Bom, onde ela passou por mudanças específicas ao ponto de se tornar uma língua própria. Por todo o período colonial e de exploração das ilhas do Golfo da Guiné, muitas línguas crioulas foram formadas nessa região, especialmente nos territórios de São Tomé e Príncipe e de Ano-Bom, onde surgiu a Fala de Ano-Bom, ou Fa d'Ambô.
O proto-crioulo do Golfo da Guiné surgiu na Ilha de São Tomé na primeira metade do século XVI. Por mais que, hoje em dia, as quatro línguas originárias não sejam inteligíveis entre si, há diversas indicações de que se originaram de uma mesma língua. O proto-crioulo surgiu por volta de 1515, com a expansão do contato entre colonos e povos escravizados oriundos do Delta do Níger, que eram em maior número comparado aos falantes de português. A maior parte dos africanos eram etnicamente bantus e benineses. A primeira separação do proto-crioulo do Golfo da Guiné ocorreu por volta da metade do século XVI, com a ida forçada de alguns escravos para a Ilha do Príncipe e outros para a Ilha de Ano-Bom, enquanto um grupo de ex-escravizados fugidos e recém-chegados formavam quilombos e outro grupo seguia realizando o trabalho forçado na Ilha de São Tomé. Cada um desses quatro grupos deu origem às quatro línguas crioulas, que se diferenciaram por conta do isolamento e do diferente nível de contato com a língua portuguesa: o santome, também conhecido como forro ou são-tomense, falado na Ilha de São Tomé; o lung'ie ou principense, falado na Ilha do Príncipe; o ngolá ou angolar, falado na ponta sul da Ilha de São Tomé, onde quilombos foram formados pela comunidade angolar; por fim, o Fa d'Ambô, falado na Ilha de Ano-Bom.
Diferentemente das demais línguas originárias do proto-crioulo do Golfo da Guiné, o Fa d'Ambô foi a única que, posteriormente, passou a ser falada numa região dominada pela Coroa Espanhola em 1778, sendo o principal fator que permitiu uma diferenciação maior dessa língua em relação às outras.
Fa d'Ambô antigo A primeira fase do Fa d'Ambô foi denominada de antiga, e é marcada pelas características religiosas e tradicionais, muito mais próximo da língua portuguesa do que o Fa d'Ambô que conhecemos hoje. A língua se mesclou com elementos da língua latina que eram utilizados por portugueses que habitavam a região. A diferenciação a partir do português foi iniciada pela imposição da língua aos escravos que até então nunca tinham tido esse contato, o que permitiu certos "sintomas" de suas línguas nativas na língua que eles agora estavam aprendendo de forma forçada.
Essa língua crioula era usada principalmente em cerimônias religiosas e missas, uma vez que seria uma profanação herética utilizar línguas consideradas sujas para realizar esses atos sagrados para a religião católica. Por conta desse aspecto social específico, há a denominação de "socioleto" para o Fa d'Ambô antigo ou uma variedade sociolinguística, que apenas viria a se tornar língua com o uso cotidiano dela pelos habitantes de Ano-Bom.
Na tabela a seguir estão exemplos que evidenciam a maior proximidade do Fa d'Ambô antigo com o português: +Tabela de comparaçãoFa d'Ambô antigoFa d'Ambô atualPortuguêspelesiosa [pɛlɛ'sjoːsḁ]fôomôza [foː'mozḁ]preciosa / formosajaschidayi [xɑst͡ʃi'dɑd͡ʒi̥]jastidayi [xɑsti'dɑd͡ʒi̥]castidadenosa mãi ['nosa mãj]mẽ' nõ ['mẽː 'nõː]nossa mãe / mãe nossanoso pai ['nɔsɔ 'paj]pe' nõ ['peː 'nõː]nosso pai / pai nossominyicoloyia [miɲd͡ʒik'lɔd͡ʒja]minyicoyi [miɲd͡ʒi'kɔːd͡ʒi̥]misericórdia
Fa d'Ambô atual esquerda|miniaturadaimagem|224x224px|Peixe salgado, típico do povo de Ano-Bom Por ser uma língua crioula não oficializada por nenhum Estado, o Fa d'Ambô foi por muito tempo apenas falado. A primeira escrita da língua foi por meio de estudos gramaticais descritivos a partir de 2008, onde já se impôs o uso do alfabeto latino.
Atualmente, quase todos os falantes do crioulo de Ano-Bom falam mais de uma língua, sendo também fluentes em espanhol, francês ou português, uma vez que são a línguas oficiais da Guiné Equatorial. Além de influenciar na fala, a gramática dessas línguas são ensinadas na escola, o que faz com que elas sejam mais bem descritas. Por outro lado, a gramática do Fa d'Ambô é muito pouco descrita em textos, já que os falantes nunca se preocuparam em analisar as construções sintáticas da língua.
Conforme o tempo passa, cada vez mais a fala dos jovens vai se diferenciando da fala dos mais velhos, principalmente nas regiões continentais, como em Malabo, uma vez que o contato com línguas institucionalizadas acabam gerando mudanças profundas na maneira como a língua crioula é tratada.
História da escrita Apesar de se desenvolver ao longo do século XVI, a língua só foi registrada pela primeira vez em 1888, pelo linguista especializado em línguas crioulas Hugo Schuchardt.