thumb|250px|right|A Arca da Aliança chegando à Etiópia com Menelique I. Igreja de Santa Maria de Sião de Axum thumb|250px|Capela onde estaria guardada a Arca da Aliança, em Axum
O Kebra Negast ou Kebra Nagast (), em português Glória dos Reis, é um livro que conta a história lendária da origem da Dinastia salomónica dos Imperadores da Etiópia. Escrita em gueês há mais de 700 anos, é considerada por muitos membros da Igreja Ortodoxa Etíope e do movimento Rastafari como uma obra de inspiração divina.
O texto foi redatado por volta do , na mesma época em que chegava ao trono da Etiópia a dinastia de Salomão, que justificava seu poder com base na tradição bíblica.*Manuel João Ramos. O Destino Etíope do Preste João: A Etiópia nas Representações Cosmográficas Europeias Narra a história do encontro entre Maqueda, rainha de Sabá, com o rei Salomão, de cuja união nasce , primeiro imperador da dinastia etíope (Negusa Negast, ou "Rei dos Reis"). Também conta como a Arca da Aliança teria sido trazida à Etiópia, onde até hoje estaria localizada na Igreja de Santa Maria de Sião, em Axum.
O Kebra Negast estabelece a dinastia real etíope como herdeira da tradição israelita e teve um papel muito importante na conformação da cultura do país, uma nação cristã cercada pelo mundo árabe islámico.
Sinopse O texto, composto de 117 capítulos,Texto baseado na tradução de E. A. Budge (1932) começa com uma assembleia de 318 sacerdotes ortodoxos que discutem em que consiste a grandeza dos reis (cap. 1 e 2). Um certo Gregório começa um relato que se inicia com Adão e termina com a construção da Arca da Aliança por Moisés (cap. 3 a 17). A Arca é, segundo o texto, uma cópia da morada (Sião) de Deus no céu, feita de madeira e coberta de ouro, dentro da qual foram guardadas as Tábuas da Lei (cap 17).
Após alguns comentários dos sacerdotes, toma a palavra o arcebispo Domício, que conta que encontrou um livro na Catedral de Santa Sofia (situada em Istambul, atual capital da Turquia) que diz que o mundo pertence ao imperador de Roma (Constantinopla) e ao Imperador da Etiópia (cap. 19). O mesmo arcebispo passa a narrar o ponto principal da obra: a história do encontro entre a rainha Maqueda e o rei Salomão, o nascimento do herdeiro Menelique e a vinda da Arca da Aliança à Etiópia.
Maqueda, "rainha do Sul", escuta do mercador Tamarim notícias sobre o glorioso reino do sábio e justo Salomão, e decide viajar a Jerusalém para visitá-lo (cap. 22 a 25). Encantada pela sabedoria do rei israelita, Maqueda declara: "De agora em diante não cultuarei o sol, mas sim o criador do sol: Jah, o Deus de Israel" (cap. 28). Um dia, a rainha decide voltar a sua terra e o rei, grande amante das mulheres, a engana e seduz (cap. 30). Nessa noite, Salomão tem um sonho premonitório em que vê um sol que brilha sobre Israel mudar-se para o sul, até a Etiópia, onde brilha ainda mais intensamente (cap. 30). No dia seguinte Maqueda começa sua viagem de volta à sua terra, mas antes recebe de Salomão um anel (cap. 31).
Na viagem à Etiópia, a rainha dá à luz um filho, Menelique (chamado Bayna-Lekhem no livro) (cap. 32). Aos doze anos, o garoto descobre que é filho do rei Salomão, e pede à mãe licença para visitá-lo, mas a rainha não permite, dizendo-lhe "eu sou teu pai e tua mãe, não queiras saber mais!" (cap. 32).
O jovem era formoso e tinha a mesma aparência do rei. Aos vinte e dois anos, já treinado nas artes da guerra e cavalaria, decide novamente visitar o pai. Tanto insiste que a mãe lhe dá permissão, encarregando o mercador Tamarim de guiá-lo na viagem (cap. 33). Para que Salomão reconheça Menelique, Maqueda põe no dedo do filho o anel que o rei lhe havia dado em Jerusalém, e pede-lhe que traga um pedaço do manto que cobre Sião (o tabernáculo da Arca da Aliança) como relíquia (cap. 33).
Menelique viaja a Israel passando pela região de Gaza, onde os habitantes o reconhecem como filho de Salomão por sua grande semelhança física com o rei (cap. 34). Ao chegar a Jerusalém, Salomão o recebe com muitas honras, cedendo seu próprio trono para que se sentara (cap. 36). O filho pede um pedaço do manto do tabernáculo e dá o anel ao pai, mas este responde "por que me dás este anel? Já havia descoberto que tu tens minha aparência e és de fato meu filho" (cap. 36). Tamarim transmite uma mensagem de Maqueda ao rei, em que a rainha pede que Salomão designe Menelique como rei da Etiópia e o envie de volta. Salomão insiste que Menelique passe a morar com ele em Jerusalém mas, após uma conversa, o filho convence o pai de que tem de voltar a sua mãe (cap. 37).
Salomão decide que Menelique retorne a sua terra acompanhado dos filhos primogênitos de seus nobres (cap. 38). Numa cerimônia em Jerusalém, Menelique é consagrado Rei da Etiópia com o nome de David (cap. 39). Irritados por ter que abandonar sua terra, os jovens nobres roubam a Arca da Aliança, pondo uma cópia de madeira em seu lugar, sem que Menelique soubesse (cap. 45 e 46). Graças à ajuda do arcanjo Miguel, a viagem até a Etiópia é muito rápida, com as carruagens flutuando no ar (cap. 52). Em Gaza, os filhos dos nobres de Israel lhe contam a Menelique que trouxeram a Arca, justificando seu feito como sendo a vontade de Deus, o que deu grande alegria a Menelique (cap. 53). Salomão descobre o engano e, enfurecido, parte com seu exército a seu encalço (cap. 57 e 58), mas Menelique já vai longe e a perseguição fracassa. O rei retorna aos braços da sua rainha, a filha do faraó do Egito, que o convence a adorar os ídolos da sua terra (cap. 64 e 65).
Na capital etíope, Menelique e a Arca são recebidos festivamente pelo povo na capital Dabra Maqueda (Axum)(cap. 84 e 85), e a rainha Maqueda abdica do trono em seu favor (cap 86). O novo rei empreende várias campanhas militares, das quais sempre sai vencedor (cap 94). E assim Domício conclui a narrativa dos manuscritos que encontrou em Santa Sofia, e os sacerdotes reunidos celebram o fato de que o Kebra Nagast mostra toda a honra que cabe ao Rei da Etiópia em relação aos outros regentes da terra, e como o povo da Etiópia fez por merecer a glória de ter a Arca (Sião; cap. 95). Segue-se uma série de profecias sobre Jesus (cap 96-112) que termina com a profecia de que a Etiópia prevalecerá sobre Roma e que o reino dos judeus em Jerusalém será extinto (cap. 113 a 117).
Ver também Igreja Ortodoxa Etíope Império de Axum Igreja de Santa Maria de Sião
Bibliografia Manuel João Ramos. O Destino Etíope do Preste João: A Etiópia nas Representações Cosmográficas Europeias In: Fernando Cristóvão (coord.) Condicionantes Culturais da Literatura de Viagens: Estudos e Bibliografias. Lisboa, Cosmos - Centro de Estudos de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Letras, 1998, pp. .235-259. Lincoln Etchebéhère Júnior e Thiago Pereira de Sousa Lepinski. Cristandade Oriental: a Igreja Etíope na Idade Média. Revista Mirabilia. N. 9, 2009
Ligações externas Texto completo do Kebra Nagast traduzido por E. A. Wallis Budge (1932) Texto completo do Kebra Nagast traduzido por E. A. Wallis Budge em formato pdf (1932) Kebra Nagast no sítio Ethiopia, Jewel of Africa
Categoria:Cultura da Etiópia Categoria:Igreja Ortodoxa Etíope Categoria:Arca da Aliança