Lizzie Andrew Borden (Fall River, 19 de julho de 1860 – Fall River, 1 de junho de 1927) foi uma mulher norte-americana acusada de assassinar brutalmente seu pai, Andrew Borden, e sua madrasta, Abby Durfee Gray, com golpes de machado em 4 de agosto de 1892, em Fall River, Massachusetts. Em 1893, Lizzie foi julgada e absolvida após um julgamento amplamente acompanhado pela imprensa, e ninguém mais foi condenado pelo crime.
O caso tornou-se uma das causas célebres mais conhecidas da era vitoriana nos Estados Unidos, influenciado pela intensa cobertura midiática e pelas circunstâncias misteriosas do crime. Lizzie tornou-se uma figura recorrente no folclore e na cultura popular norte-americana, e a identidade do verdadeiro autor dos assassinatos permanece em debate até hoje.
Primeiros anos
Lizzie Andrew Borden nasceu em 19 de julho de 1860, em Fall River, Massachusetts, filha de Sarah (Anthony) Borden, nascida Morse (1823–1863) e Andrew Jackson Borden (1822–1892). Ela foi a terceira filha do casal; antes dela nasceram Emma Lenora e Alice Esther, que morreu de hidrocefalia com um ano e dez meses de idade.
Seu pai, Andrew Borden, era de ascendência inglesa e galesa. Cresceu em condições muito modestas e passou por dificuldades financeiras na juventude, apesar de vir de uma família rica e influente. Prosperou com a fabricação e a venda de móveis e caixões e, posteriormente, tornou-se um próspero empresário do setor imobiliário.
Vida adulta Andrew Borden passou a integrar a direção de várias fábricas têxteis e possuía um patrimônio considerável em imóveis comerciais. Também era presidente do Union Savings Bank e diretor da Durfee Safe Deposit and Trust Co. Na época de seu assassinato, seu patrimônio era avaliado em US$ 300.000 (equivalentes a US$ 10,8 milhões em 2025).
Apesar de sua riqueza, Borden era conhecido por sua frugalidade; a residência dos Borden ainda não tinha encanamento interno, embora instalações desse tipo já fossem comuns entre as famílias ricas. A casa ficava em uma área de classe alta, mas imigrantes estavam se mudando para lá e os moradores mais ricos de Fall River geralmente viviam no bairro mais elegante, chamado The Highlands, que ficava mais distante das áreas industriais da cidade.
Lizzie e sua irmã Emma tiveram uma criação relativamente religiosa e frequentaram a Igreja Congregacional Central. Quando jovem, Lizzie participava ativamente das atividades da igreja, incluindo dar aulas na escola dominical para filhos de imigrantes recém-chegados. Também participava de organizações religiosas como a Sociedade de Esforço Cristão, da qual foi secretária-tesoureira, e de movimentos sociais da época como a União Cristã de Temperança Feminina. Ela também era membro da Ladies' Fruit and Flower Mission.
Andrew Borden havia se casado com Abby Durfee Gray (1828–1892) três anos após a morte da mãe de Lizzie, quando sua filha mais nova tinha seis anos. Mais tarde, Lizzie afirmou que chamava a madrasta de "Sra. Borden" e disse não ter certeza se as duas mantinham uma relação cordial. Lizzie acreditava havia muito tempo que Abby havia se casado com seu pai por causa de sua riqueza.
Em 1890, os Borden contavam com Bridget Sullivan, uma empregada doméstica de 25 anos que havia emigrado da Irlanda. Em seu depoimento no julgamento de 1893, ela afirmou que as irmãs adultas Lizzie e Emma raramente comiam com o pai e a madrasta.
Em maio de 1892, Andrew matou pombos em seu celeiro com uma machadinha, acreditando que eles transmitiam infecções e doenças. Lizzie havia construído recentemente um abrigo para os pombos, e é relatado que ela ficou abalada com a morte das aves, embora essa versão tenha sido contestada. Uma discussão familiar em julho de 1892 levou as duas irmãs a tirarem férias prolongadas em New Bedford. Elas retornaram a Fall River uma semana antes dos assassinatos, e Lizzie decidiu passar quatro dias em uma pensão local antes de voltar à residência dos Borden.
A tensão dentro da família Borden também vinha aumentando durante 1892; as filhas adultas ressentiam-se das doações de imóveis feitas por Andrew aos vários ramos da família de Abby. Depois que a irmã da madrasta recebeu uma casa, Lizzie e Emma exigiram um imóvel para alugar, a casa onde haviam vivido até a morte da mãe; elas a compraram do pai por um dólar. Em julho, revenderam o imóvel ao pai por US$ 5.000 (equivalentes a US$ 179 mil em 2025).
John Vinnicum Morse, tio materno de Lizzie e Emma, visitou a casa dos Borden em 3 de agosto de 1892. Andrew o convidou a ficar por alguns dias para discutir assuntos comerciais.
Todos os moradores da casa haviam ficado gravemente doentes durante vários dias antes de sua visita. Posteriormente, um amigo da família especulou que a doença havia sido causada por carne de carneiro deixada no fogão para ser usada nas refeições ao longo de vários dias. Abby temia envenenamento, dado que Andrew não era bem-visto em Fall River.
Assassinatos de Andrew e Abby Quinta-feira, 4 de agosto de 1892
Morse chegou na noite de 3 de agosto e dormiu no quarto de hóspedes. Andrew, Abby, Morse e Sullivan tomaram café da manhã juntos na manhã seguinte; depois, Andrew e Morse foram para a sala, onde conversaram por quase uma hora. Morse saiu por volta das 8h48 para comprar um par de bois e visitar sua sobrinha em Fall River. Planejava retornar à casa dos Borden para almoçar ao meio-dia. Andrew saiu para sua caminhada matinal algum tempo depois das 9h.
Uma das tarefas habituais de Lizzie e Emma era limpar o quarto de hóspedes, mas naquela manhã Abby subiu entre 9h e 10h30 para arrumar a cama. Segundo a perícia, Abby estava de frente para quem a atacou quando foi atingida. O primeiro golpe atingiu a lateral de sua cabeça, causando um corte pouco acima da orelha, o que a fez virar-se e cair de bruços, causando contusões no nariz e na testa. Ela então foi golpeada várias vezes, recebendo mais dezessete golpes na parte de trás da cabeça, e acabou morrendo.
Andrew retornou por volta das 10h30. Sua chave não abriu a porta, então ele bateu. Sullivan foi destrancar a porta, mas encontrou-a emperrada, e soltou um palavrão. Ela testemunhou ter ouvido Lizzie rir imediatamente depois disso; ela não viu Lizzie, mas afirmou que a risada vinha do topo da escada. O episódio chamou atenção pois Abby já estava morta naquele momento e seu corpo teria ficado visível para qualquer pessoa no segundo andar. Mais tarde, Lizzie negou estar no andar superior e testemunhou que seu pai havia perguntado onde Abby estava, ao que ela respondeu que um mensageiro havia entregue a Abby um recado pedindo que ela visitasse uma amiga doente.
Sullivan afirmou que tirou as botas de Andrew e o ajudou a calçar os chinelos antes de ele se deitar no sofá para tirar uma soneca, um detalhe desmentido pelas fotografias da cena do crime, que mostram Andrew usando botas. Ela testemunhou que estava em seu quarto no terceiro andar, descansando após limpar janelas pouco antes das 11h10, quando ouviu Lizzie chamar do andar de baixo: "Maggie, venha rápido! Meu pai está morto. Alguém entrou e o matou."
Andrew estava caído sobre um sofá na sala do andar térreo, atingido dez ou onze vezes por uma arma semelhante a uma machadinha. Um de seus olhos havia sido aberto ao meio, o que sugeria que ele estava dormindo quando foi atacado. O fato de os ferimentos ainda estarem sangrando sugeria que o ataque havia ocorrido pouco antes. O médico da família, Dr. Bowen, veio de sua casa, que ficava do outro lado da rua, e constatou a morte de ambas as vítimas. Os detetives estimaram que a morte de Andrew ocorreu aproximadamente às 11h.
Investigação As primeiras respostas de Lizzie às perguntas dos policiais foram, por vezes, estranhas e contraditórias. Inicialmente, ela disse ter ouvido um gemido, um som de raspagem ou um pedido de socorro antes de entrar na casa. Duas horas depois, disse à polícia que não ouvira nada e entrara na casa sem perceber que havia algo errado. Quando perguntaram onde estava sua madrasta, ela contou que Abby havia recebido um bilhete pedindo-lhe que visitasse uma amiga doente. Também afirmou que achava que Abby havia retornado e perguntou se alguém poderia subir ao andar de cima para procurá-la. Sullivan e a vizinha Sra. Churchill estavam no meio do lance de escadas, com os olhos na altura do piso, quando olharam para o quarto de hóspedes e viram Abby deitada de bruços no chão.
A maioria dos policiais que entrevistou Lizzie disse não ter gostado de sua "atitude"; alguns disseram que ela estava calma e controlada demais. O oficial municipal Hilliard disse aos repórteres que Lizzie lhe pareceu "uma mulher muito peculiar", enquanto o policial Seaver acreditava que o crime havia sido cometido por alguém mentalmente desequilibrado; ao ser consultado, o juiz Blaisdell observou que o principal problema para os investigadores era entender "como o crime poderia ter sido cometido por uma mulher". Apesar de seu comportamento e das versões divergentes que apresentou sobre seu paradeiro, ela não foi examinada para verificar a presença de manchas de sangue. A polícia revistou seu quarto, mas a busca foi superficial; no julgamento, os policiais admitiram que não haviam feito uma busca adequada porque Lizzie não estava se sentindo bem. Posteriormente, foram criticados por sua falta de diligência.
No porão, a polícia encontrou duas machadinhas, dois machados e uma cabeça de machadinha com o cabo quebrado. A cabeça da machadinha despertou suspeitas de que fosse a arma do crime, pois o cabo parecia ter sido quebrado recentemente e a cinza e a poeira sobre a cabeça da machadinha pareciam ter sido aplicadas deliberadamente para dar a impressão de que ela estava no porão havia algum tempo. Contudo, nenhuma dessas ferramentas foi retirada da casa. Os investigadores também encontraram um balde com o que pareciam ser roupas ou trapos ensanguentados no porão, que Borden atribuiu à sua menstruação, e o balde e seu conteúdo não foram examinados mais a fundo. A empregada, Bridget Sullivan, perguntou-se por que não havia visto o balde enquanto lavava as roupas da família no início daquela semana, mas naquela altura ele já havia sido removido. Os estômagos das vítimas foram retirados durante as autópsias e examinados em busca de veneno, devido à misteriosa doença que havia acometido a família antes dos assassinatos, mas nenhum veneno foi encontrado. Moradores da cidade suspeitaram que Lizzie tivesse comprado "ácido cianídrico diluído" de um farmacêutico local. A defesa alegou que ela havia perguntado sobre o uso do ácido para limpar suas peças de pele, apesar do testemunho do médico legista local de que o ácido não possuía propriedades antissépticas.
Policiais ficaram posicionados ao redor da casa na noite de 4 de agosto, durante a qual um policial afirmou ter visto Lizzie entrar no porão com Russell, carregando uma lamparina de querosene e um balde de água suja. Ele afirmou ter visto as duas mulheres saírem do porão, após o que Lizzie retornou sozinha. Não conseguiu ver o que ela estava fazendo, mas afirmou que parecia estar inclinada sobre a pia.
Em 5 de agosto, Morse deixou a residência dos Borden e foi cercado por centenas de pessoas; a polícia teve de escoltá-lo de volta à casa. No dia seguinte, a polícia realizou uma busca mais minuciosa na casa, examinando as roupas das irmãs e apreendendo a cabeça da machadinha com o cabo quebrado. Naquela noite, um policial e o prefeito visitaram a casa, e Lizzie foi informada de que era suspeita dos assassinatos. Na manhã seguinte, Russell entrou na cozinha e encontrou Lizzie rasgando um vestido. Ela explicou que pretendia colocá-lo no fogo porque estava coberto de tinta. Nunca se determinou se era o vestido que ela usava no dia dos assassinatos.