A mitologia tupi-guarani compreende o conjunto de narrativas sagradas, concepções cosmológicas, tradições religiosas e entidades sobrenaturais presentes entre os povos pertencentes ao tronco linguístico tupi-guarani da América do Sul. Embora apresente grande diversidade regional, esse conjunto de tradições compartilha diversos elementos culturais e religiosos, resultado de origens históricas comuns e de séculos de intercâmbio entre diferentes povos indígenas, podendo ser divididas, não sem muitos pontos de intersecção, entre mitologia tupi e mitologia guarani.

As tradições tupis-guaranis foram preservadas principalmente por transmissão oral e desempenharam papel fundamental na organização social, na educação, na espiritualidade e na relação com o ambiente natural. O conhecimento atual sobre essas crenças deriva tanto de registros históricos produzidos desde o século XVI quanto de estudos etnográficos realizados entre os séculos XIX e XXI.

Definição O termo "mitologia tupi-guarani" é utilizado para designar o conjunto das tradições míticas associadas aos povos falantes de línguas da família tupi-guarani. Esses povos incluem os guaranis (kaiowá, mbya, nhandeva, etc.) e os tupis (tupinambás, tupiniquins, temiminós, etc.), com diversos outros grupos distribuídos pelo Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia, Uruguai e regiões vizinhas.

Entretanto, não existe uma mitologia única e uniforme para todos os povos tupis-guaranis. Muitas narrativas, divindades e práticas religiosas apresentam importantes diferenças locais, sendo mais adequado compreender a mitologia tupi-guarani como um conjunto de tradições relacionadas entre si.

Características gerais

As cosmologias tupis-guaranis costumam apresentar uma visão integrada entre os mundos humano, natural e espiritual. Animais, plantas, rios, montanhas e fenômenos atmosféricos frequentemente possuem significados religiosos e podem ser associados à atuação de entidades sobrenaturais.

Outro elemento recorrente é a importância da palavra sagrada, dos cantos rituais e da tradição oral como meios de preservação do conhecimento ancestral.CADOGAN, 1959, p. 25-26.

Uma característica marcante da mitologia dos povos tupis-guaranis é a ausência de ídolos, de templos e de sacrifícios de animais, à maneira de outras sociedades pré-colombianas e do Velho Mundo, apresentando uma religiosidade altamente espiritualizada, levando muitos a crer que os nativos não possuíam religião.NAVARRO, E. A. Terra sem mal, o paraíso tupi-guarani. Cultura Vozes, v. 89, n. mai./ju 1995, p. 61-71, 1995.

Essa incompreensão da religiosidade tupi-guarani alcançou inclusive nomes recentes como o do folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, que, ao discorrer sobre deidades como TupãCASCUDO, 1988, p. 764. e Coaraci,CASCUDO, 1988, p. 233. por exemplo, afirmava que os indígenas eram psicologicamente impossibilitados de conceber o divino e desprovidos de culto e devoção religiosa, os mesmos argumentos usados por cronistas e religiosos cristãos do século XVI como o historiador Pero de Magalhães Gândavo e o padre jesuíta Fernão Cardim, ambos portugueses.

Cosmologia Embora existam numerosas variações regionais, as tradições tupis-guaranis geralmente descrevem o universo como uma realidade composta por diferentes planos ou níveis de existência.MELLO, Flávia Cristina de; SOARES, Jules Batista; KERBER, Leandro de Oliveira. Astronomia e educação intercultural: experiências no ensino de astronomia e ciências em escolas indígenas. In: I SNEA – SIMPÓSIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM ASTRONOMIA, 2011, Rio de Janeiro: Sociedade Astronômica Brasileira, 2011.

Muitas narrativas tratam da criação do mundo por seres divinos ou ancestrais míticos e da existência de regiões celestes habitadas por entidades sobrenaturais. Em várias tradições, a ordem do cosmos depende da manutenção do equilíbrio entre os seres humanos, a natureza e as forças espirituais.RIBEIRO, Rhuan Guilherme Tardo; CRUZ, Renato Souza da; DUARTE, Bruna Marques. A cosmologia do povo Guarani e Kaiowá e suas relações com o ensino de ciências: educação escolar indígena e diversidade. Macapá: VII Congresso Brasileiro de Etnomatemática (CBEm), 2024. p. 3.

A Terra foi criada pelos deuses para a criação de seus filhos, havendo, assim, uma relação de parentesco entre os seres celestes e os habitantes terrenos, com os humanos dirigindo-se às deidades como a um avô (Tamoï/Xe Ramoï/Nhane Ramõi) ou avó (Nhane Jari), pai (Monã, Nhanderu ou Nhamandu) ou mãe (Nhandeci), irmão mais velho (Nhande Ryke'y/Quaraci) ou irmão mais novo (Tyvyra'i/Jaci).

O próprio nome de Pindorama (“Região das Palmeiras”), denominação do território tupi-guarani que depois seria o Brasil, teria origens míticas: vem da palmeira (pindó ou pindoba), a mesma sobre a qual, durante o dilúvio, se abrigou o herói Tamanduaré, ancestral dos tupinambásMAGALHÃES, 1935, p. 312 (nota de rodapé).MÉTRAUX, 1950, p. 102 (nota de Estevão Pinto).; já para os guaranis o nome pode ser associado às cinco palmeiras azuis (pindový) eternas, uma em cada ponto cardeal e uma no centro do mundo (Yvy Mbyté, “Meio da Terra”), que o criador Nhanderu plantou para servir de sustentação e base para o mundo.CALOVI, Ricardo. Colunatas vegetais: palmeiras e a cenografia urbana em Porto Alegre. 2009. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Programa de Pós-Graduação em Arquitetura (PROPAR), Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009. p. 19.

Ibaque

O IbaqueDIAS, Gonçalves (1857). Os Timbiras. Canto segundo. In: DIAS, Gonçalves. Os Timbiras. [S. l.]: Wikisource, [s. d.]. ou IbacaACADEMIA DE CIÊNCIAS DA BAHIA. Memória V: 2015. Editor: Roberto Figueira Santos. Salvador: Academia de Ciências da Bahia, 2016. 166 p. ISBN 978-85-65535-07-6. DOI: 10.5281/zenodo.10614348. (em tupi: Ybak ou YbakaNAVARRO, 2013, p. 515.WIKTIONARY. Ybaka. Wiktionary: the free dictionary, [S. l.], [s. d.].; em guarani: YvagaWIKTIONARY. Yvaga. Wiktionary: the free dictionary, [S. l.], [s. d.].; em nheengatu: IwakaWIKTIONARY. Iwaka. Wiktionary: the free dictionary, [S. l.], [s. d.].) é o Céu, descrito tradicionalmente como o espaço ilimitado e indefinido onde se movem os astros e as constelações, mas vai muito além de um elemento físico: é nele que fica localizada a Morada dos Deuses.

A Morada dos Deuses se localiza na faixa esbranquiçada da Via Láctea, conhecida como Caminho da Anta (Tapi'i Rape) pela maioria das etnias tupis-guaranis.AFONSO, Germano Bruno. Mitos e estações no céu tupi-guarani. ’Ciência e Cultura,’ [s. l.], v. 58, n. 4, out./dez. 2006.

Na mitologia tupi, Monã levou Irãmajé, o único sobrevivente do grande incêndio seguido do dilúvio, para o Céu para poupá-lo enquanto ele destruía a primeira humanidade tomada pelo mal, trazendo-o, depois, de volta para repovoar o mundo. Na mitologia guarani, as almas dos virtuosos da primeira humanidade, aniquilada no dilúvio de Jeupié, foram levados ao Céu e, posteriormente, reencarnaram como guaranis quando o mundo foi refeito, o que continua até hoje.

Terra sem Males

Um dos conceitos mais conhecidos das tradições religiosas tupis-guaranis é o da Terra sem Males (Yby Marã E'yma em tupi, Yvy Marã Ey em guarani).

Descrita em diferentes tradições como um lugar de abundância, perfeição e ausência de sofrimento geralmente situado numa ilha no oceano Atlântico a leste, a Terra sem Males desempenhou papel importante em movimentos religiosos e migratórios registrados entre diversos povos tupis, guaranis e outros grupos relacionados. Diferentemente de um paraíso exclusivamente pós-morte como o Guajupiá, algumas tradições a concebem como um lugar real e acessível por meio da purificação espiritual, de migrações rituais ou da intervenção divina.CLASTRES, 1978, p. 97-98.CADOGAN, 1959, p. 57-58.

O casal supremo do panteão guarani, Nhanderuvuçu e Nhandeci, tem seu lar nesse paraíso.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 104, 151.

Guajupiá

O Guajupiá (Gûaîupîá ou Ûaîupîá em tupi) é o paraíso mítico "além das montanhas" (os Andes) a oeste, na direção do poente. É um lugar sagrado no pós-vida, para onde as almas dos grandes guerreiros, heróis e xamãs vão para desfrutar da felicidade eterna.

Segundo a mitologia tupi, o Guajupiá foi estabelecido por Monã, o "Avô", após a destruição da primeira humanidade tomada pelo mal, onde ele recebe apenas aqueles considerados virtuosos após a morte, enquanto as almas dos indignos vão compor o séquito de fantasmas de Anhanga e de Jurupari, pelos quais são atormentados e são usados para assombrar os vivos, testando a sua coragem. Na mitologia guarani, o povo guaraio crê que foi seu "Avô", Abaangui, quem o criou.

A crença num mundo inferior, como o Inferno, de tormento eterno é estranha aos tupis-guaranis, tendo sido trazida pelos catequizadores cristãos.

Divindades As tradições tupis-guaranis incluem uma ampla variedade de divindades, espíritos, heróis culturais e entidades associadas à natureza.

O Criador é sempre uma figura masculina, patriarcal, de nome Monã, Munhã ou Umuana (“Antigo, Velho”) entre os tupis, que também o chamam pelos títulos de “Avô” (Tamoï) e “Meu Avô” (Xe Ramoï),MÉTRAUX, 1950, p. 57. e conhecido entre os guaranis como Nhamandu (“Origem, Princípio”), por vezes igualado a Nhanderu (“Nosso Pai”), e em alguns casos o criador guarani do universo é Nhane Ramõi (“Nosso Avô”).Guarani Ñandeva - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.</ref>

Entre as deidades mais conhecidas tanto nas tradições tupis como nas guaranis encontram-se: Tupã, associado aos fenômenos atmosféricos como a chuva e o raio; Anhanga ou Anhá, descrito como um espírito ligado aos animais e às matas; Ceuci, Seîxu ou Eixu, representada pelas Plêiades, que marcam a passagem dos anos no calendário tupi-guarani; e os gêmeos astrais Quaraci ou Quaraí, o deus-Sol, e Jaci, o deus-Lua. Outra importante figura comum para os tupis e os guaranis é Curupira ou Curupi, às vezes tido como uma deidade, às vezes como uma entidade menor, feroz protetor das florestas e dos animais.

Além destas deidades que ambas as tradições têm em comum, cada uma delas também conta com deuses particulares, como Jurupari e Rudá entre os tupis, e Caraí e Jacairá entre os guaranis, entre outros.

A distribuição e a importância dessas figuras variam significativamente entre os diferentes povos tupis-guaranis. Entre os camaiurás, povo tupi-guarani do Alto Xingu, por exemplo, Quaraci e Jaci são conhecidos pelos nomes dos heróis divinos Kwat (ou Kuat) e Yaì (ou Iaê), compartilhando muitas das mesmas histórias e origens etimológicas de seus nomes.

Heróis culturais Os mitos tupis-guaranis frequentemente apresentam personagens responsáveis pela criação ou transformação de aspectos do mundo natural e da vida humana.

Esses heróis culturais podem ser associados à origem de práticas sociais, conhecimentos técnicos, elementos da paisagem ou instituições religiosas. Em muitos relatos, atuam como mediadores entre os seres humanos e o mundo sobrenatural.MÉTRAUX, 1950, p. 50.

Na mitologia tupi destacam-se os heróis da linhagem dos Maíras (como Mair-umuana, seu filho Mair-sumé e os filhos deste, Tamanduaré e Aricuté, e também Mair-atã, pai de Mair-aíra e Mucur-aíra), além de Mani e a jovem da lenda da vitória-régia, enquanto na mitologia guarani destacam-se Jeupié, Guiraipoti, Caá-Iari e, também, Sumé.

O mito das icamiabas, as amazonas brasileiras, é conhecido por grupos tupis-guaranis de diferentes regiões do Brasil, como os tupinambás (de acordo com Yves d'Évreux e Cristóbal de Acuña, ambos do século XVII), os apapocuvas (que falam, em suas lendas, de mulheres que vivem sem maridos) e os omáguas (de acordo com Philipp von Hutten no século XVI, acerca de mulheres "que não tinham nenhuma comunhão com os homens, exceto algumas vezes por ano").MÉTRAUX, 1950, p. 296 e 351. A sua contraparte masculina são os guacaris, tribo tupi também lendária da região amazônica composta apenas por homens, que se relacionam com as amazonas para manter as duas tribos vivas.