Cracolândia (por derivação de crack, crack+lândia = terra do crack) é a denominação comum para uma população em situação de rua, composta, na sua maioria, por dependentes químicos e traficantes, geralmente de crack, que costuma ocupar uma determinada área no centro da cidade de São Paulo.
A Cracolândia já se localizou em diversos locais, como nas imediações das Avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero, Rua Mauá, Estação Júlio Prestes, Alameda Dino Bueno e da Praça Princesa Isabel, uma área onde historicamente se desenvolveu intenso tráfico de drogas e prostituição. A chamada "Praça do Cachimbo" (esquina da Rua Helvetia com Alameda Cleveland), no bairro de Campos Elíseos, também era um ponto frequente de reunião de usuários de drogas e coincide parcialmente com a região da Boca do Lixo e da Luz.
Em 2019, grande parte dos frequentadores da Cracolândia não eram oriundos do estado de São Paulo, com 34,5% sendo migrantes de outras unidades federativas do Brasil e 1% de outros países.
Histórico
Surgimento thumb|esquerda|O antigo Terminal Rodoviário da Luz, ao fundo, e Praça Júlio Prestes, à frente, em 1975
A Cracolândia surgiu a partir da década de 1990. O pesquisador Bruno Paes Manso relata dois motivos coincidentes que permitiram a formação da Cracolândia: o antigo Terminal Rodoviário da Luz já era um ponto de venda de drogas tradicional da cidade, um comércio acobertado por policiais civis locais, de modo que havia alta oferta dos produtos. A demanda veio de chacinas nas periferias de São Paulo, que forçaram os consumidores, chamados de "noias", a se exilarem no Centro, um ponto seguro.
O fechamento progressivo do Hospital Psiquiátrico do Juquery, símbolo do modelo asilar no Brasil, e a formação da região são fenômenos que se entrelaçam na história recente das políticas públicas de saúde mental e assistência social. O Juquery, fundado no final do século XIX, abrigou por décadas milhares de pessoas com transtornos mentais, dependência química e outras vulnerabilidades sociais. Com o avanço do Movimento antimanicomial e a Reforma psiquiátrica, a partir dos anos 1980 e especialmente após a Lei 10.216/2001, iniciou-se o processo de desinstitucionalização, que resultou no fechamento de alas e na liberação de muitos internos para a sociedade.
No entanto, a transição do modelo asilar para o cuidado em liberdade não foi acompanhada por uma rede de suporte social e de saúde mental suficientemente estruturada. Muitos ex-internos do nosocômio, sem vínculos familiares ou acesso a moradia e trabalho, acabaram em situação de rua. Esse contexto coincidiu com a degradação urbana do centro de São Paulo e a chegada do crack nos anos 1990, fatores que contribuíram para a formação da Cracolândia como território de concentração de pessoas em extrema vulnerabilidade, muitas delas com histórico de institucionalização..
Assim, o paralelo entre o fechamento do Juquery e a Cracolândia revela um desafio central da reforma psiquiátrica brasileira: a liberdade sem suporte pode se transformar em abandono. A ausência de políticas integradas de saúde mental, assistência social e moradia fez com que parte dos antigos internos dos hospitais psiquiátricos migrasse para as ruas e, posteriormente, para espaços como a Cracolândia. O fenômeno evidencia que a superação do modelo manicomial exige não apenas o fechamento de instituições, mas a construção efetiva de redes de cuidado e inclusão social, sob pena de perpetuar a exclusão em novos territórios urbanos.
Tentativas de controle A administração do prefeito José Serra, do PSDB, fechou bares e motéis ligados ao tráfico de drogas e à prostituição, retirou moradores de rua e aumentou o policiamento para inibir o consumo de drogas no local em 2005. Centenas de imóveis foram declarados de utilidade pública, em uma área de 105 mil metros quadrados, e estão sendo desapropriados. O objetivo do programa é tornar a área atrativa a investimentos privados, abrindo espaços para empresas do setor imobiliário.
Em 2007, a Prefeitura de São Paulo, sob a administração de Gilberto Kassab do DEM, lançou um programa denominado Projeto Nova Luz para promover a reconfiguração e requalificação da área. Entre as medidas propostas, destaca-se a renúncia fiscal referente ao Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) visando estimular a reforma de fachadas dos imóveis de valor venal inferior a 300 mil reais.
Críticos do programa, no entanto, assinalam o seu caráter higienista, destacando que a recuperação de edifícios, praças, parques e avenidas não é acompanhada de ações voltadas aos grupos mais vulneráveis que vivem ou trabalham na área – que estão sendo sumariamente expulsos. Os sem-teto são retirados, o trabalho dos catadores de material reciclável é dificultado e os usuários e dependentes de crack (muitos dos quais crianças e adolescentes), impedidos de se reunir no local, são obrigados a perambular pelos bairros vizinhos, em bandos, sem rumo.
Deslocamentos thumb|Viciados em crack reunidos no local do antigo Terminal Rodoviário da Luz, ao lado da Praça Júlio Prestes, em 2010 thumb|Aglomeração de usuários de crack na rua General Osório, Luz, em 2012 thumb|Reportagem de 2022 da Voice of America sobre a Cracolândia
Ao longo dos anos, a Cracolândia passou por diversas migrações, com movimentos de dispersão ou concentração: Anos 1990: concentração entre a Rua dos Protestantes e Rua dos Gusmões, a sudeste da Praça Júlio Prestes (vizinha da área onde até 1982 funcionou a Rodoviária da Luz)Souza, Felipe. "Como nasceu a Cracolândia, bairro dos barões do café que virou problema 'sem solução' de São Paulo". BBC News Brasil, 18/08/2023.. 1997: realização da primeira grande operação policial, "Tolerância Zero", promovendo dispersão. Durante os próximos anos, os usuários ficaram dispersos na região ao sul da Praça Julio Prestes, entre as Avenida São João, Avenida Duque de Caxias e Avenida Cásper LíberoNasser, Marina Mattar Soukef. «Cracolândia como campo de gravitação», Ponto Urbe [Online], 21: 2017.. Março de 2005: após a operação "Limpa", o território anterior é reduzido aproximadamente pela metade, com migração para leste da Avenida Rio Branco. 2008: migração para região a oeste da Praça Julio Prestes, principalmente na área das Alameda Dino Bueno, Alameda Cleveland, Rua Glete, Rua Helvétia e Praça Princesa Isabel. 2012: ocorre a operação "Sufoco", dispersando os usuários. 2013-2016: implementação do programa social "De Braços Abertos", e fluxo retorna para abrangência semelhante à de 2008. Maio de 2017: após demolições pela Prefeitura, usuários se dispersam para áreas vizinhas. 2022: operação "Caronte" na Praça Princesa Isabel causa dispersão para diversas áreas vizinhas. Agosto de 2023: concentração na Rua dos Gusmões. 2023-2025: o fluxo migra para a Rua dos Protestantes e, após novas operações, para a Praça Marechal Deodoro, com dispersões frequentes para ruas do entorno da Santa Cecília e Campos Elíseos.
Entre 2020 e 2025, a região deixou de ser um ponto fixo e passou a migrar por diferentes ruas e bairros do centro de São Paulo. Até 2022, a concentração principal estava nas imediações da Estação Júlio Prestes, especialmente nas ruas Helvétia, Gusmões e Vitória. Com operações policiais intensificadas, houve dispersão dos usuários para ruas adjacentes, como a Rua dos Protestantes, que se tornou o novo epicentro em 2023, chegando a reunir até 400 pessoas em determinados momentos. Em 2025, após uma grande operação policial, o fluxo migrou para a Praça Marechal Deodoro, na região de Santa Cecília, próximo ao bairro de Higienópolis. A presença de barracas e comércio informal indicou a consolidação de um novo polo, embora com menor concentração de pessoas do que em anos anteriores. A cada intervenção, o padrão se repetiu: dispersão seguida de reagrupamento em outro ponto do centro, evidenciando a resiliência do fenômeno.
Espalhamento por outros bairros Nos últimos anos, o fenômeno da Cracolândia deixou de ser restrito ao centro de São Paulo e passou a se espalhar por diversos bairros da cidade. Segundo levantamento da Prefeitura e do governo estadual, já foram identificadas dezenas de "cenas abertas de uso" em diferentes regiões, totalizando 72 cracolândias em 47 bairros, incluindo bairros nobres e periferias.
Entre os exemplos recentes, destaca-se a tentativa de formação de uma nova cracolândia na Avenida Francisco Matarazzo, na zona oeste, que levou a Prefeitura a intensificar ações de prevenção e dispersão em 2025. Esse processo de dispersão e multiplicação de pontos de uso de crack é resultado direto das operações policiais e das políticas de repressão no centro, que acabam levando usuários a migrar para bairros como Lapa, Barra Funda, Brás, Mooca, Vila Leopoldina e até regiões periféricas.
Especialistas apontam que, enquanto não houver políticas públicas integradas de saúde, assistência social e moradia, novas cracolândias continuarão surgindo em diferentes pontos da cidade.
Impactos Sociais e de Saúde Pública A população da Cracolândia é composta majoritariamente por pessoas em situação de rua, negras e com baixa escolaridade. Segundo levantamentos recentes, cerca de 80% dos usuários não completaram o ensino fundamental, 39% vivem nas ruas e apenas 27% acessaram algum serviço de saúde no mês anterior à pesquisa. A região é marcada por altos índices de doenças infecciosas, como Tuberculose, HIV e Hepatites, além de problemas de saúde mental e violência. A Pandemia de COVID-19 agravou ainda mais a situação, expondo a precariedade das condições de higiene e a dificuldade de acesso a cuidados básicos. A criminalização do uso de drogas e a repressão policial aumentaram a rotatividade e a dispersão dos usuários, dificultando o trabalho de equipes de saúde e assistência social. A ausência de políticas integradas e de longo prazo é apontada como um dos principais entraves para a superação do problema.
Controvérsias e debates A atuação do poder público foi alvo de críticas de especialistas, ONGs e órgãos internacionais, que apontam violações de direitos e ineficácia das ações repressivas. Reportagens destacam que, apesar das operações, a Cracolândia persiste como fenômeno social, adaptando-se e migrando para novos territórios. O debate sobre gentrificação e interesses imobiliários também ganhou destaque, com denúncias de que a remoção dos usuários favorece projetos de valorização imobiliária no centro de São Paulo.
Programas sociais O período foi marcado por uma guinada das políticas públicas, com o abandono de iniciativas de redução de danos e reinserção social, como o programa "De Braços Abertos", e a adoção de estratégias mais repressivas, centradas em operações policiais e remoção forçada. A prefeitura e o governo estadual passaram a priorizar a “limpeza” do território, com ações diárias de dispersão, fechamento de ferros-velhos e comércios ilegais, e instalação de bases fixas da Polícia Militar.
Essas medidas, embora tenham reduzido a visibilidade do uso aberto de drogas em pontos tradicionais, não solucionaram o problema, apenas o deslocaram para outras áreas. Especialistas e entidades de direitos humanos criticaram a abordagem, apontando que a repressão intensificou a vulnerabilidade dos usuários e dificultou o acesso a serviços de saúde e assistência.
Recomeço (2013) O programa social batizado de Recomeço foi criado pelo Governo do Estado de São Paulo no ano de 2013, sob a administração de Geraldo Alckmin do PSDB, tendo durado até o ano seguinte, com um custo anual de cerca de 80 milhões de reais, correspondendo a um investimento por usuário atendido da ordem de R$ 1.350,00 por mês.Programa Recomeço – Uma vida sem drogas
Braços Abertos (2014–2017)