A Batalha do Metauro, travada em 207 a.C., perto do rio Metauro, na península Itálica (moderna província de Marcas), foi uma batalha da Segunda Guerra Púnica, na qual o comandante cartaginês Asdrúbal, irmão de Aníbal, foi derrotado e morto pelos exércitos romanos combinados dos cônsules Marco Lívio Salinador e Caio Cláudio Nero.

Antecedentes No outono do ano 208 a.C., Asdrúbal levou suas tropas pela Gália, tendo escapado dos romanos na Península Ibérica oriental seguindo os vales altos do rio Tejo e do rio Ebro. A fama subsequente de Cipião Africano parece ter obscurecido o fato de que ele deixara Asdrúbal escapar depois da Batalha de Bécula e, em consequência, permitiu que seu país ficasse mais exposto ao perigo do que em qualquer outra ocasião desde que Aníbal cruzara os Alpes.

Citando O'Connor Morris: "Ele deve ter sabido — pois os rumores haviam se espalhado aos quatro ventos — que o objetivo de Asdrúbal era deixar a Península Ibérica e cooperar com seu irmão na península Itálica: o primeiro objetivo do general romano, consequentemente, deve ter sido certificar-se de que Asdrúbal não o enganaria; se não estava suficientemente forte para atacar o inimigo, certamente deveria ter encalçado seu avanço para os Pirenéus e não tê-lo deixado chegar à Gália intacto e sem ser vigiado. Ele não fez nada parecido; cometeu um imenso engano e simplesmente não é verdade que tenha sido obrigado a confrontar os cartagineses com grande força no Ebro, pois Magão Barca e Asdrúbal Giscão, quando Asdrúbal partiu, deslocaram-se, o primeiro para as ilhas Baleares e o outro para a Lusitânia, a centenas de milhas distante; eles eram claramente incapazes de enfrentar os romanos na Península Ibérica".

A marcha pela Gália e a travessia dos Alpes É uma infelicidade que nossos estudiosos antigos não tenham comentado mais aprofundadamente essa marcha feita por Asdrúbal, a segunda maior realizada pela "ninhada do leão", os filhos de Amílcar Barca, que por tanto tempo ameaçaram e aterrorizaram Roma. Foi uma jornada épica digna de seu irmão. Escapando de Cipião Africano , deixou os romanos vigiando em vão os desfiladeiros dos Pirenéus enquanto ele, a sua infantaria cartaginesa, seus aliados ibéricos, a cavalaria númida e os laboriosos elefantes africanos moviam-se a oeste, passando pela baía de Biscaia e o grande oceano acinzentado que poucos homens mediterrâneos jamais haviam visto. Antes de partir para a Gália reuniu-se com Magão Barca, e este seu irmão mais jovem foi para as ilhas Baleares a fim de levantar uma força daqueles formidáveis fundeiros que mais tarde cruzariam o mar rumo à península Itálica. Os três filhos de Amílcar Barca, assim foi planejado, iriam então encontrar-se pela primeira vez em muitos anos e executar a vingança sobre Roma que os votos feitos ao seu pai e aos enfumaçados altares de Cartago havia muito demandavam.

Aníbal e Asdrúbal sabiam que, com sua situação em declínio na Península Ibérica, o ano de 207 a.C. deveria ser decisivo na guerra contra Roma. Somente pela união de seus exércitos e a total derrota dos romanos — algo mais devastador até mesmo do que em Canas (216 a.C.) — poderia ser atingido o objetivo da longa guerra. Desde o início, o grande empreendimento iria mostrar-se arriscado e, numa posterior reflexão, quase impossível. Comandando o centro da península Itálica, os romanos tinham o benefício de linhas internas de comunicação e eram capazes de posicionar suas forças de modo que uma parte mantivesse os olhos sobre Aníbal ao sul enquanto a outra vigiasse o norte e a esperada chegada de Asdrúbal. Naqueles dias de comunicações primitivas, o grande obstáculo entre os dois irmãos era a extensão territorial da península.

Asdrúbal invernou na Gália, bem ao oeste, onde não havia qualquer amigo de Roma ou de Massília, e então provavelmente cruzou o rio Ródano comodamente acima, perto de Lugduno. Embora não fosse segredo que Asdrúbal pretendia reunir-se ao seu irmão na península Itálica, nenhuma tentativa, em qualquer caso, poderia ser feita para detê-lo, uma vez que ele tivesse cruzado os Pirenéus e penetrado na Gália. Massília estava distante e os chefes gauleses estavam, como nunca, hostis a Roma. Segundo Lívio, apesar de Asdrúbal ter escapado da Batalha de Bécula com não mais do que quinze mil homens é provável que ele tenha chegado aos Alpes com quase o dobro desse número. Aníbal, bem distante, ao sul, devia ser capaz de reunir um exército de quarenta a cinquenta mil homens, a maioria, porém, de tropas de qualidade bem baixa.

Na primavera de 207 a.C., assim que a neve derreteu, Asdrúbal partiu: ele não demorou nem um pouco, como seu irmão havia feito, e nem aparentemente foi incomodado por tribos hostis. Cruzando o território dos arvernos seguiu provavelmente o curso do rio Isère e quase certamente não tomou a difícil rota seguida por Aníbal. Tanto Lívio quanto Apiano afirmam que ele o fez, mas parece muito improvável, uma vez que a bacia do Isère segue pelo passo do Monte Cenis e o historiador romano Varrão parece, sem dúvida, descrever o desfiladeiro de Asdrúbal como sendo distinto do de Aníbal, e ao norte dele. O passo do Monte Cenis corresponde perfeitamente à descrição, e a ideia de que Asdrúbal tenha seguido as pegadas do irmão não é mais do que metáfora. Em todo caso, como Lívio aponta, as tribos alpinas que antes pensaram ter Aníbal intenções quanto ao seu pobre território já haviam tomado conhecimento da "Guerra Púnica, devido à qual a Itália estivera em chamas por onze anos, e perceberam que os Alpes não eram mais do que uma rota entre duas poderosíssimas cidades em guerra uma com a outra (…)". Logo, não havia motivos para atacarem os cartagineses em marcha, nem enganá-los com informações que poderiam levá-los a altos e traiçoeiros desfiladeiros. Asdrúbal rumou para a península Itálica no tempo exato de um ano, com uma segurança que se traduz pelo fato de nenhum contratempo ter sido atribuído à sua expedição.

Os romanos estavam bem cientes de que aquele ano era crucial. A república fortaleceu-se e, sem dúvida, revestiu-se de tão nobre disposição que, mesmo após gerações, isso foi rememorado como inspiração. Embora a notícia de que Asdrúbal estava em marcha tenha produzido cenas em Roma remanescentes do pânico inspirado por Aníbal nos primeiros estágios da guerra, o senado nunca hesitou em tomar medidas sábias e sensíveis para defender o Estado. Os homens já estavam então acostumados com a guerra, enrijecidos e treinados a ponto de enfrentarem todas as vicissitudes. Em alguns aspectos, também poderiam confortar-se com a situação geral: Cornélio Cipião (futuro "Africano"), indubitavelmente, obtivera a vantagem na Península Ibérica; não havia ameaça na Sardenha, e a guerra na Sicília havia finalizado satisfatoriamente. O aliado de Aníbal, Filipe V da Macedônia, permanecia na defensiva na Grécia e preparava-se para negociar a paz; por todo o Mar Mediterrâneo, a marinha romana navegava triunfante.

Os aliados romanos farejaram a mudança dos ventos e aqueles que antes haviam se mostrado covardes ou traiçoeiros agora tinham aprendido a lição. Logo, era com alguma confiança que, a despeito da dupla ameaça de Aníbal e Asdrúbal, os romanos encaravam aquele ano. Prova disso, e de seu poderio humano disponível, é dada pelo fato de que não menos de vinte e três legiões tinham sido recrutadas. Dessas, somente oito foram requisitadas para serviço fora do país: duas na Sicília, duas na Sardenha e quatro na Península Ibérica. As quinze restantes ficaram todas na Itália, representando setenta e cinco mil cidadãos romanos aos quais se somava uma igual quantidade de aliados. Não é surpresa, contudo, Lívio observar que o número de jovens aptos para o serviço estivesse começando a decair.

Mais difícil do que reunir tropas era encontrar homens para comandá-las. Fábio Máximo estava agora muito velho e Marco Cláudio Marcelo, a "Espada de Roma", morto. As perdas sofridas através dos anos, particularmente em Canas, eram por demais perceptíveis nas fileiras dos líderes de Roma. Após muito debate, Caio Cláudio Nero e Marco Lívio Salinador foram finalmente eleitos cônsules, o primeiro assumindo o comando do exército do sul, de frente para Aníbal em Venúsia, e o segundo, o comando do exército do norte, em Sena Gálica, na costa adriática. Quinto Fúlvio Flaco, vitorioso em Cápua, apoiou Nero com um exército em Brúcio, e um outro exército estava em Taranto. No norte, o pretor Lúcio Pórcio Lícino comandava um exército na Gália Cisalpina, enquanto Caio Terêncio Varrão (ainda popular junto ao povo, apesar da derrota em Canas) comandava a instável região da Etrúria.

Asdrúbal ruma ao sul thumb|direita|Moeda de Asdrúbal. No começo daquela primavera, Asdrúbal rumou para o sul, quase certamente antes do esperado. Se o exército que ele trouxe consigo da Península Ibérica não estava exausto como o de Aníbal, nem necessitando do mesmo tempo para descanso, também não era da mesma qualidade nem tão forte quanto o que havia causado tanto estrago aos romanos, a soberba cavalaria da África do Norte.

Mesmo assim, reforçado por vários milhares de lígures que haviam se juntado a ele e agitando uma vez mais o espírito rebelde dos gauleses cisalpinos, Asdrúbal movia-se como uma tenebrosa nuvem de tempestade pela terra da península. Cruzando o rio Pó e transpondo o desfiladeiro de Estradela, marchou contra Placência. Ali hesitou e perdeu tempo, demorando para sitiar a colônia fiel aos romanos que fechara os portões diante dele, tendo notado que, como Aníbal, ele não possuía equipamentos para executar um sítio.

Asdrúbal tem sido criticado por alguns historiadores por se demorar em Placência em vez de contorná-la e marchar adiante para se encontrar com seu irmão antes que os romanos pudessem concentrar todas as suas forças. Contudo, Placência parecia ser uma guarnição forte demais para deixar em sua retaguarda e que — talvez ainda mais importante — as tribos gaulesas locais demoraram para vir em seu favor. Ele precisava esperar até que número suficiente de lígures tivesse se juntado a ele e tantos gauleses quantos possíveis tivessem sido recrutados. Finalmente desviando de Placência, Asdrúbal marchou pelo caminho de Arímino (atual Rimini) rumo à costa oriental. Pórcio, que não tinha tropas suficientes para resistir a ele, retirou-se. Tais foram os lances iniciais daquela primavera no norte.

Aníbal, que tinha passado o inverno na Apúlia como de costume, foi primeiro para a Lucânia para levantar mais tropas e então voltou para a sua fortificação em Brúcio, sem dúvida para obter a maior quantidade possível de reservas dessa região, fiel à sua causa desde muito tempo. De acordo com Lívio, as tropas romanas de Taranto caíram sobre suas tropas recém-alistadas em marcha, em no combate que se seguiu, ele perdeu quatro mil homens, com os sobrecarregados cartagineses sendo mortos pelos legionários livres de carga.

Enquanto isso, o cônsul Cláudio Nero, com um exército de quarenta e dois mil e quinhentos homens, deslocava-se de Venúsia para barrar a marcha de Aníbal de Brúcio para a Lucânia. "Aníbal esperava", diz Lívio, "recuperar as cidades que haviam sucumbido pelo medo aos romanos", mas também tinha que marchar para o norte de modo a encontrar-se com o irmão. A confusão dos movimentos cartagineses se devia às comunicações primitivas da época: Aníbal nada mais sabia além de que Asdrúbal deveria, naquela altura, ter cruzado os Alpes, e Asdrúbal, que já se encontrava na península Itálica, não sabia nada além de que Aníbal estava em algum lugar ao sul. Os romanos, por outro lado, trabalhando com suas linhas interiores de comunicações e sistemas de suprimentos, achavam-se numa posição admirável para manter os dois inimigos separados e atacá-los um por vez com suas forças superiores.

O enfrentamento de Nero e Aníbal