Rinoceronte de Dürer é uma xilogravura gravada pelo artista alemão Albrecht Dürer no ano de 1515. A imagem foi baseada em uma descrição escrita e em um esboço, ambos de autoria anônima, de um rinoceronte-indiano que chegou a Lisboa no início daquele ano. Este foi o primeiro exemplar vivo da espécie visto na Europa desde os tempos do Império Romano. No fim do ano, o então rei de Portugal, Manuel I, enviou o animal como presente ao Papa Leão X, porém ele morreu quando o barco em que era transportado naufragou, próximo a costa da Itália, a princípios de 1516. Não se voltaria a ver um rinoceronte vivo na Europa até à chegada de um exemplar da Índia à corte espanhola de Filipe II de Espanha em torno de 1579.
Apesar das incoerências anatómicas, o desenho de Dürer, primeiramente descrito no poemetto de Giovanni Giavomo Penni, tornou-se muito famoso na Europa e foi copiado várias vezes nos três séculos que se seguiram. Foi redesenhado por diversos autores contemporâneos e posteriores a Albrecht Dürer tal como David Kandel. Foi tomado como uma verdadeira representação de rinoceronte até ao século XVIII, sendo depois substituído por representações mais realísticas, tal como os desenhos de Clara, a Rinoceronte, que viajou pela Europa nas décadas de 1740 e 1750.
Tem sido dito em relação a este desenho de Dürer que "provavelmente nenhuma imagem de um animal exerceu uma tão profunda influência nas artes".Quoted in Clarke, p.20.
O rinoceronte
Chegada a Lisboa thumb|left|A primeira gravura que se conhece do rinoceronte é uma xilogravura que ilustra um poema de Giovanni Giacomo Penni publicado em Roma, em Julho de 1515. (Biblioteca Colombina, Sevilha). thumb|left|Xilogravura do elefante Hanno, de um folheto, publicado sob o pseudónimo "Philomathes" (Roma, c. 1514)
Em 20 de maio de 1515, um rinoceronte-indiano chegou a Lisboa, trazido do Extremo Oriente. No começo de 1514, Afonso de Albuquerque, governador da Índia Portuguesa, enviou embaixadores ao sultão Muzafar II, governante da Cambaia (atual Guzerate), para pedir permissão para a construção de um forte na ilha de Diu. A missão retornou sem nenhum acordo, porém presentes diplomáticos foram trocados, incluindo o rinoceronte. Naquela época, era habitual os governadores de diferentes países trocarem de animais exóticos entre eles, que seriam confinados em menageries. Os rinocerontes já estavam habituados a serem mantidos em cativeiro. Afonso de Albuquerque decidiu enviar a oferenda, conhecida em gujarati por ganda, e o seu tratador indiano, de nome Ocem, ao rei Manuel I. Partiu a bordo do Nossa Senhora da Ajuda,Clarke, p.16. que deixou Goa em Janeiro de 1515.Bedini, p.113. O navio, comandando por Francisco Pereira Coutinho,História do famoso rinoceronte de Albrecht Dürer , Projecto Lambe-Lambe. e outros dois navios de apoio, todos carregados de especiarias, navegaram pelo Oceano Índico, passando pelo Cabo da Boa Esperança e seguindo para norte pelo Oceano Atlântico; pararam por pouco tempo em Moçambique, Santa Helena e nos Açores.
Após uma relativamente rápida viagem de 120 dias, o rinoceronte foi desembarcado em Portugal, perto do local onde se estava a construir a Torre de Belém. A Torre seria decorada com gárgulas em forma de cabeça de rinoceronte sob corbels.Ver fotografia em Clarke, p.19. Desde o Império Romano que não se via um rinoceronte na Europa: a sua imagem estava relacionada com animais míticos, por vezes confundido nos bestiários com o "monoceros" (Unicórnio) e, assim, a chegada de um exemplar vivo causou algum sensacionalismo e emoção. No contexto renascentista, tratava-se de uma peça de Antiguidade clássica que tinha sido redescoberta, como uma estátua ou inscrição.
O animal foi visto por académicos e curiosos, e foram enviadas cartas descrevendo a criatura para toda a Europa. A imagem mais recente conhecida do animal ilustra um poemetto do poeta florentino Giovanni Giacomo Penni, publicado em Roma a 13 de Julho de 1515, pouco mais de oito semanas após a sua chegada a Lisboa.Giovanni Giacomo Penni, Forma e natura e costumi de lo rinocerote (...). Ver Ugo Serani, Etiopicas 2 (2006) ISSN 1698-689X para o texto original em italiano, e uma tradução para espanhol. A única cópia do poema original publicado encontra-se na Institución Colombina em Sevilha.
O animal ficou na menagerie do rei Manuel I, no Paço da Ribeira, em Lisboa, separado do seu elefante e de outros grandes animais do Palácio dos Estaus. No Domingo da Santíssima Trindade, 3 de Junho, Manuel I organizou um combate entre o rinoceronte e um jovem elefante da sua colecção, para pôr à prova a história de Plínio, o Velho que afirmava que o elefante e o rinoceronte eram inimigos.Original em latim e tradução para inglês do Capítulo 29, Livro VIII de Plínio, o Velho, Naturalis Historia. O rinoceronte avançou calmamente em direcção ao seu adversário; o elefante, pouco acostumado ao barulho da multidão que se tinha juntado para ver o espetáculo, fugiu em pânico antes mesmo de algum ataque por parte do rinoceronte.Bedini, p.118.Albrecht Dürer, The Rhinoceros, uma pintura e uma woodcut, do British Museum.
O rinoceronte é oferecido ao Papa
O rei D. Manuel decidiu oferecer o rinoceronte ao Papa Leão X. O rei fez questão de bajular o Papa para, assim, manter a garantia papal da posse exclusiva das novas terras que a sua força naval tinha estado a explorar no Extremo Oriente desde que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia em 1498. No ano anterior, o Papa tinha ficado muito satisfeito com o presente de D. Manuel, um elefante branco, também vindo da Índia, a que o Papa deu o nome de Hanno. Juntamente com outras oferendas como objectos de prata e especiarias, o rinoceronte, com o seu novo colar de veludo verde decorado com flores, embarcou em Dezembro de 1515 para uma viagem desde o rio Tejo até Roma.Bedini, p.127. O navio passou perto de Marselha, no início de1516. O rei Francisco I da França estava de regresso de Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, na Provença, e pediu para ver o animal. O navio ancorou numa ilha ao largo de Marselha,O Arquipélago de Frioul consiste em quatro ilhas. Bedini, p.128, indica Pomègues ou Ratonneau; as outras possibilidades são a pequena Ilha de If, agora ocupada pelo Castelo de If ou Tiboulain. onde o rinoceronte desembarcou para ser contemplado pelo rei francês em 24 de Janeiro.
Morte do rinoceronte
Depois de continuar viagem, o navio foi atingido por uma tempestade, naufragando, quando passava por Porto Venere, a norte de La Spezia, na costa da Ligúria. O rinoceronte, acorrentado e preso ao convés, acabou por morrer afogado. O corpo do animal foi recuperado perto de Villefranche e o seu couro regressou a Lisboa onde foi empalhado. Alguns relatos referem que o corpo empalhado foi enviado para Roma, onde chegou em Fevereiro de 1516, para ser exibido. A exibição do animal empalhado não causou a mesma sensação em Roma como tinha causado em vida, em Lisboa, embora tenha sido pintado, na época, por Giovanni da Udine e Rafael.Bedini, p.132.Gessner's Hyena and the Telephone Game, Manda Clair Jost, 2002 (PDF, 21 pages).
Se um rinoceronte empalhado chegou a Roma, o seu destino continua incerto: pode ter sido enviado para Florença pelos Medici, ou então destruído durante o saque de Roma em 1527. A sua história foi a base para o romance de Lawrence Norfolk de 1996, The Pope's Rhinoceros.Biografia de Lawrence Norfolk do Conselho de Artes da grã-Bretanha; Lawrence Norfolk, 1996, The Pope's Rhinoceros: A Novel, Harmony, ISBN 0-517-59532-X.
A xilogravura de Dürer
thumb|Desenho a caneta e tinta do rinoceronte por Albrecht Dürer, em 1515, exposta no Museu Britânico. A legenda do manuscrito indica a data da chegada do rinoceronte a Lisboa como "1513" [sic].Clarke, legenda da placa a cores I, p.181. Valentim Fernandes, um mercador e editor gráfico de origem alemã, da Morávia, viu o rinoceronte em Lisboa pouco depois da sua chegada, e escreveu uma carta, a descrevê-lo, a um amigo de Nuremberg, em Junho de 1515. A carta original, em alemão, não chegou aos nossos dias, mas existe uma cópia em italiano na Biblioteca Nacional Central de Florença.Bedini, p.120 and fn.10. Uma segunda carta, de autor desconhecido, foi enviada de Lisboa para Nuremberg na mesma altura, com um desenho de autor desconhecido. Dürer - que estava familiarizado com a comunidade portuguesa da feitoria de Antuérpia - teve acesso à segunda carta e desenhos em Nuremberg. Sem ter sequer visto o próprio rinoceronte, Dürer fez dois desenhos a caneta, e depois uma xilogravura, invertida, a partir do segundo desenho.
A inscrição em alemão na xilogravura, com base no relato de Plínio, diz::
left|thumb|As diferentes camadas de pele de um rinoceronte-indiano são muito semelhantes às placas da armadura desenhadas por Dürer.
A xilogravura de Dürer não é uma representação precisa de um rinoceronte. Ela apresenta um animal com placas muito duras que cobrem o seu corpo como camadas de armadura, com uma gorjeira na garganta, um plastrão e rebites ao longo das costuras; também tem um pequeno corno na zona do dorso, pernas com escamas e a parte superior da coxa em forma de serra. Nenhuma destas características físicas estão presentes num rinoceronte verdadeiro.Grupo de História e de Teoria da Ciência - Rinoceronte de Dürer , Universidade Estadual de Campinas, Brasil.Rinoceronte de Dürer , Kallisti Digital Publishing, 7 de Março de 2003. É possível que uma armadura tenha sido feita para o combate com o elefante em Portugal, e que as características representadas no trabalho de Dürer sejam partes dessa armadura.Suggested by Glynis Ridley (2004), Clara's Grand Tour: Travels with a Rhinoceros in Eighteenth-century Europe, Atlantic Monthly Press, ISBN 1-84354-010-X, um estudo sobre o Clara, a Rinoceronte; contudo, não há qualquqer menção em Bedini. Em alternativa, a "armadura" de Dürer pode representar as pesadas camadas de pele espessa de um rinoceronte indiano, ou, tal como as outras imprecisões, podem ser acrescentos criativos ou fruto de um interpretação errada de Dürer.Dürer vivia perto do armourer em Nuremberg, Schmeidegasse, e, por essas altura, ele próprio desenhava armaduras; assim, este aspecto poderá ser um conceito criativo. (Clarke, p.20.) Dürer também dá uma textura escamosa ao corpo do animal, incluindo a "armadura". Esta representação pode ser uma tentativa de Dürer de reflectir o couro rude e quase desprovido de pêlos do rinoceronte indiano, que tinha verrugas - como altos a cobrir as suas pernas e ombros. Por outro lado, a sua representação da textura pode indicar a presença de dermatite causada pelo seu confinamento, durante quase quatro meses, na viagem de barco desde a Índia até Portugal.Comentário numa placa de Mammals, de Conrad Gessner, fólio 131 verso, do Humanities Media Interaction Project, Universidade de Keio, Japão.
thumb|Única cópia existente de uma impressão da xilogravura, feita por Hans Burgkmair, datada de 1515, presente na Galeria Albertina em Viena