Dandara dos Palmares é uma personagem literária criada por João Felício dos Santos no romance histórico Ganga-Zumba, publicado em 1962, sendo essa a primeira ocorrência conhecida de uma personagem com esse nome associada ao Quilombo dos Palmares. O historiador Antônio Barros de Aguiar considera Dandara um dos sujeitos criados pelo romance e ausentes das fontes históricas utilizadas para o estudo de Palmares. As historiadoras Ynaê Lopes dos Santos e Silvia Hunold Lara situam igualmente no romance de 1962 o aparecimento da Dandara.

Na versão original de João Felício dos Santos, Dandara é uma mulher mestiça levada para Palmares, que posteriormente se torna esposa de Ganga Zumba, diferindo substancialmente da guerreira negra e companheira de Zumbi que se consolidaria em representações posteriores. Ao longo das décadas seguintes, a personagem foi sucessivamente reformulada pela literatura, pelo cinema e por movimentos sociais, tornando-se uma figura da memória pública e símbolo da resistência à escravatura e da luta das mulheres negras, particularmente no âmbito do movimento negro brasileiro. Em 2019, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, juntamente com o de Luiza Mahin, por determinação da Lei n.º .

Criação literária e evolução da personagem

A caracterização de Dandara não permaneceu estável desde sua criação literária. A personagem foi sucessivamente reformulada por diferentes obras, adquirindo ao longo do tempo atributos, relações familiares e funções narrativas que não estavam presentes em sua versão original. No romance de 1962, surge ligada a Ganga Zumba e sem o perfil de comandante militar que posteriormente lhe seria atribuído; nas adaptações cinematográficas e recriações posteriores, passou gradualmente a ser representada como guerreira, companheira de Zumbi e símbolo da resistência negra e feminina. A sucessiva reformulação dessas representações contribuiu para a incorporação de Dandara à memória de Palmares como personagem histórica, apesar de sua ausência nas fontes seiscentistas conhecidas.

Ganga-Zumba (1962) O historiador Márcio de Sousa Soares situa a criação de Dandara numa tradição mais ampla de representações literárias de Palmares. O quilombo já havia sido evocado por Castro Alves no poema Saudação a Palmares, escrito em 1870 e publicado postumamente em Os Escravos, e transformado em matéria de romance por Jayme de Altavila em O Quilombo dos Palmares, de 1932. Ganga-Zumba retomou essa tradição de representação heroica e romantizada, combinando o romance histórico com elementos de realismo mágico, uma sacralização de Palmares e uma representação idealizada da África.

Nesse quadro, Dandara surge inicialmente como personagem coadjuvante. Soares observa que João Felício dos Santos a apresenta como uma escrava "mulata de olhos verdes", filha de um homem branco e de uma mulher negra cabinda, atribuindo-lhe uma origem onomástica ligada a uma suposta divindade iorubá que não corresponde ao panteão conhecido desses povos.

A Dandara criada por Santos difere substancialmente da imagem de guerreira que posteriormente se tornou dominante. A personagem surge pela primeira vez já na parte final do romance, depois de um ataque de palmarinos a um povoado. No regresso a Palmares, os atacantes levam consigo diversos escravos, entre os quais Dandara. Integrada progressivamente na comunidade, ela acaba por se tornar a principal esposa de Ganga Zumba.

No romance, Dandara é descrita como mestiça — no texto, "mulata" —, filha de uma escrava negra com um proprietário branco. Sua caracterização contém diversos elementos sexualizados, não correspondendo ainda à figura de comandante militar presente nas representações posteriores.

João Felício também atribui ao nome da personagem uma origem mítica. No romance, Dandara é associada a uma figura apresentada como divindade iorubá e caçadora, numa narrativa sobre maternidade, violência e incompreensão. Para o historiador Gabriel Pedrosa, essa construção confere à personagem uma aparência de ancestralidade, embora combine referências iorubás com o universo de Palmares, cuja formação histórica estava ligada sobretudo a populações de origem banto.

Ganga Zumba (filme)

A adaptação cinematográfica de Ganga-Zumba, dirigida por Cacá Diegues, foi realizada a partir de 1963, com Luíza Maranhão no papel de Dandara. A Cinemateca Brasileira registra a produção em 1963–1964 e o lançamento comercial no Rio de Janeiro em março de 1964. A versão cinematográfica é igualmente bastante diferente da guerreira posteriormente associada ao nome. No filme, Dandara é inicialmente uma escrava da fazenda de Piancó. Quando um grupo de fugitivos encontra a comitiva do proprietário, ela chega a alertar o senhor da presença de Cipriana, outra escrava que acompanha os fugitivos. Um dos palmarinos pretende matá-la por considerá-la uma traidora, mas Antão — personagem que se revelará Ganga Zumba — intervém e leva Dandara consigo.

Soares identifica nessa adaptação uma primeira transformação importante da representação visual de Dandara. A personagem descrita no romance como mestiça de olhos verdes passou a ser interpretada pela atriz negra Luíza Maranhão, alterando a forma pela qual Dandara passou a ser visualmente identificada. O filme foi realizado no contexto do Cinema Novo e das discussões políticas e culturais do início da década de 1960, nas quais Cacá Diegues concebia o cinema como instrumento de transformação social.

Segundo Soares, Ganga Zumba teve circulação comercial restrita no Brasil após o início da ditadura militar, mantendo-se sobretudo como referência entre intelectuais e artistas politicamente engajados. Pedrosa observa que a circulação inicial de Ganga Zumba se concentrou nos cinemas cariocas, estendendo-se posteriormente a outras capitais, embora ressalve não dispor de informações suficientes para avaliar de forma ampla sua difusão pelo território brasileiro. Décadas depois, Silvia Hunold Lara atribui a Quilombo (1984) papel importante na ampliação da presença de Dandara no imaginário coletivo brasileiro.

Durante a viagem para Palmares, a personagem aproxima-se de Antão e passa a aderir ao ideal de liberdade defendido pelos fugitivos. Apesar disso, Dandara e Cipriana ocupam papéis essencialmente secundários na narrativa. Pedrosa observa que ambas são muitas vezes apresentadas como vulneráveis e dependentes dos homens do grupo; Dandara cuida de um companheiro ferido, mas não participa da luta como combatente. O historiador salienta que ela "ainda não era a heroína" da resistência feminina negra que seria criada pelas representações posteriores.

A associação inicial da personagem a Ganga Zumba permaneceu em outras obras da década. Em 1968, o álbum Edu Canta Zumbi, de Edu Lobo, incluiu a composição O Amor de Dandara Mulher de Ganga.

Movimento negro e associação a Zumbi

Antes de Quilombo, Dandara já vinha sendo ressignificada no âmbito do movimento negro brasileiro. Segundo o historiador Moritz Peter Herrmann, por volta de 1980 textos de Lélia Gonzalez e documentos como o programa de ação do Movimento Negro Unificado já apresentavam Dandara como parceira de Zumbi e como representação da participação feminina na luta pela libertação negra.

Na análise de Herrmann, a associação da personagem a Zumbi antecede, portanto, o filme de 1984. Quilombo incorporou uma transformação que já estava em curso na memória militante e lhe conferiu uma representação audiovisual de grande circulação.

Quilombo (1984)

Décadas depois, em 1984, Cacá Diegues voltou ao tema em Quilombo, baseado em obras de João Felício dos Santos e Décio Freitas, com Zezé Motta no papel de Dandara, reformulando radicalmente a personagem. Dandara deixa de ser a personagem feminina vulnerável de Ganga Zumba e surge desde o início como uma mulher negra, independente e participante ativa da resistência armada.

Uma das primeiras cenas de Quilombo já estabelece essa transformação: quando o proprietário lhe ordena que lhe entregue a espada durante uma revolta no canavial, Dandara utiliza a própria arma contra ele. Ao longo do filme, participa militarmente da defesa de Palmares, aproxima-se de Zumbi e, tal como este, opõe-se ao acordo de paz proposto por Ganga Zumba aos portugueses.

No desfecho, cercada pelas tropas coloniais após a queda do Mocambo do Macaco, Dandara recusa-se a entregar-se e lança-se de um despenhadeiro. Pedrosa observa que a cena transfere para a personagem uma tradição antiga, hoje considerada incorreta, segundo a qual Zumbi e outros palmarinos teriam preferido lançar-se de um precipício a serem capturados. A morte por suicídio que posteriormente seria repetida como elemento da suposta biografia histórica de Dandara tem, assim, uma representação cinematográfica claramente identificável.

O historiador Moritz Peter Herrmann considera que a versão de 1984 assinala uma mudança fundamental na memória da personagem: Dandara torna-se negra, revolucionária, militarmente ativa e dotada de características anteriormente concentradas na figura masculina de Zumbi. Segundo Silvia Hunold Lara, foi sobretudo a circulação de Quilombo que ampliou a presença de Dandara no imaginário coletivo brasileiro.

Feminismo negro e protagonização de Dandara A transformação de Dandara não terminou com a associação a Zumbi. Sousa Soares distingue uma etapa posterior, na qual a personagem deixa progressivamente a condição de figura feminina coadjuvante da memória de Palmares e passa a ser reivindicada como protagonista, processo que relaciona sobretudo ao crescimento e à maior visibilidade do feminismo negro brasileiro.

Segundo Soares, movimentos de mulheres negras passaram a procurar referências femininas capazes de articular simultaneamente as experiências de gênero e de raça, num contexto em que Zumbi já se encontrava consolidado como principal símbolo masculino de Palmares e da resistência negra. Dandara tornou-se, nesse processo, um emblema de uma mulher negra, autônoma e combatente, representada como participante da resistência em condições de igualdade com os homens.

Para o historiador, essa apropriação explica parte da passagem entre a personagem secundária das primeiras obras e a Dandara posteriormente celebrada como heroína em literatura, ativismo, homenagens públicas e instituições estatais.

Releituras contemporâneas

A transformação continuou nas representações do século XXI. Em As lendas de Dandara, publicado por Jarid Arraes em 2015, Dandara ocupa o centro de uma narrativa inteiramente dedicada à personagem. A obra reúne dez histórias ficcionais e desenvolve uma Dandara guerreira, estrategista e marcada pela ancestralidade africana, deslocando o foco narrativo dos líderes masculinos de Palmares para uma protagonista negra.

Estudos literários sobre a obra observam que Arraes amplia a autonomia da personagem e faz de Dandara um instrumento de representação da liberdade, da resistência de mulheres negras e da construção de memória afro-brasileira. A personagem que no romance de 1962 era sobretudo esposa de Ganga Zumba tornou-se, portanto, ao longo de sucessivas recriações, uma heroína autônoma da resistência negra e feminina.

Historicidade e historiografia

A Dandara hoje identificada pela cultura brasileira não foi localizada na documentação conhecida do Quilombo dos Palmares, distinguindo-se de personagens como Ganga Zumba e Zumbi, que, apesar das lacunas e problemas das fontes coloniais, são mencionados em documentos da época. Pedrosa considera que a primeira menção conhecida de Dandara é o referido romance de João Felício dos Santos, descrevendo o processo posterior como a transformação de uma invenção literária em personalidade histórica.