Mario Perniola (Asti, - Roma, ) foi um filósofo italiano de reputação internacional, professor de Estética e autor de vários livros. Muitas das suas obras estão publicadas em língua portuguesa.
Biografia Mario Perniola nasceu em Asti, cidade italiana da região do Piemonte. Estudou Filosofia com Luigi Pareyson na Universidade de Turim, na qual se licenciou em 1965. Durante os seus estudos em Turim, conheceu Gianni Vattimo e Umberto Eco, formando com estes um grupo de nomes proeminentes da escola pareysoniana. De 1966 a 1969 esteve ligado à Internacional Situacionista, um movimento de vanguarda empenhado em causas políticas e sociais, fundado por Guy Debord, com quem manteve uma amizade que durou diversos anos. Tornou-se professor de Estética na Universidade de Salerno em 1976, e desde 1983 é professor catedrático da mesma disciplina na Universidade de Roma “Tor Vergata”. Foi Professor Convidado em muitas universidades e centros de investigação de renome mundial, tais como a Universidade de Stanford (EUA), a École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), a Universidade de Edmonton (Canadá), a Universidade de Kyoto (Japão), a Universidade de São Paulo (Brasil), as Universidades de Sydney e Melbourne (Austrália) e a Universidade de Singapura. Perniola escreveu diversos livros que foram traduzidos para português e para outras línguas. Foi ainda fundador e director das revistas Agaragar (1971-3), Clinamen (1988-1992) e Estetica News (1988-95). Em 2000 fundou a revista Agalma. Rivista di Studi Culturali e di Estetica, um periódico académico de Estética e Estudos Culturais, que é publicado duas vezes por ano . A extensão, relevância e amplitude dos contributos do pensamento de Perniola garantiram-lhe a reputação de uma das figuras mais importantes do mundo filosófico contemporâneo. O seu livro Miracoli e traumi dela comunicazione (2009) (Milagres e traumas da comunicação) recebeu várias distinções, entre as quais o prestigiado Premio de Sanctis http://www.fondazionedesanctis.it/index.php?option=com_content&view=article&id=80&Itemid=84. A sua produção multifacetada abrange a formulação de teorias filosóficas, escrita de livros, ensino de Estética e participação em conferências em todo o mundo. Passa o resto do seu tempo entre os muitos amigos, tanto na sua casa em Roma como na sua residência estiva nos Montes Albanos, a Sudeste de Roma.
Morreu em 9 de janeiro de 2018 em Roma.
Filosofia da literatura O período inicial da carreira de Perniola concentra-se na filosofia do romance literário e na teoria da literatura. Na sua primeira obra, Il metaromanzo (O Metaromance, 1966), que é também a sua tese de doutoramento, Perniola defende que o romance moderno, de Henry James a Beckett, tem um carácter auto-referencial. O objectivo de Perniola é demonstrar a dignidade filosófica dessas obras de literatura, que tentam recuperar uma respeitosa expressão cultural. O Prémio Nobel da Literatura Eugenio Montale elogiou Perniola por esta original reflexão crítica sobre as obras literárias Eugenio Montale, “Entra in scena il metaromanzo”. Il Corriere della Sera, October 9 1966. .
Contra-cultura Contudo, Perniola não só tem uma filiação académica como também se posiciona intelectualmente de forma antiacadémica Massimo Verdicchio, “Reading Perniola Reading. An Introduction”. Ritual Thinking. Sexuality, Death, World. With a forward by Hugh J. Silverman, New York: Humanity Books, 2001: 15.. Esta última é exemplificada pela sua atenção a expressões culturais alternativas e transgressivas. A sua primeira obra de índole antiacadémica é L’alienazione artistica (A alienação artística, 1971), na qual se alinha com o pensamento marxista, que na altura o inspirava. Perniola defende que a alienação não é uma derrota da arte, mas, ao invés, a própria condição pela qual a existência da arte se constitui como uma categoria distintiva da actividade humana Hugh Bredin, "L'alienazione artistica" by Mario Perniola, in The British Journal of Aesthetics, Winter 1972.. O seu segundo livro, I situazionisti (Os situacionistas, 1972, republicado com o mesmo título pela editora romana Castelvecchi, em 1998), materializou o seu interesse pelas vanguardas e pelo trabalho de Guy Debord Massimo Verdicchio, “Reading Perniola Reading. An Introduction”. Ritual Thinking. Sexuality, Death, World. With a forward by Hugh J. Silverman, New York: Humanity Books, 2001: 15-16.. Perniola explora os principais aspectos do Situacionismo e do pós-situacionismo, cujo arco temporal vai de 1957 a 1971, e no qual ele esteve pessoalmente envolvido entre 1966 e 1969 http://www.notbored.org/debord-26December1966a.html. São também evidenciados os aspectos conflituais que caracterizaram os membros do movimento I situazionisti, Roma, Castelvecchi, 1998, 2005.. A revista Agaragar (publicada entre 1971 e 1972) continua uma crítica pós-situacionista da sociedade burguesa e capitalista. Perniola publicou então um livro sobre o pensador francês George Bataille (George Bataille e il negativo, Milão: Feltrinelli 1977; George Bataille e o negativo). Aqui, o negativo é pensado como o motor da história.
Pós-estruturalismo Nos anos 80 Perniola oferece algumas das suas mais notáveis contribuições para a filosofia continental Hugh Silverman. Ritual Thinking. Sexuality, Death, World. With a forward by Hugh J. Silverman, translated by Massimo Verdicchio, New York: Humanity Books, 2001: 9. Em Dopo Heidegger. Filosofia e organizzazione dela cultura (Depois de Heidegger. Filosofia e organização da cultura, 1982), partindo de Martin Heidegger e Antonio Gramsci, Perniola desenha uma teoria da organização social. Efectivamente, ele releva a possibilidade de serem estabelecidas novas relações entre a cultura e a sociedade no Ocidente. Uma vez que as antigas relações entre metafísica e Igreja, dialéctica e Estado e ciência e mundo profissional foram desconstruídas, a filosofia e a cultura abrem o caminho para uma superação do niilismo e do populismo que caracterizam a sociedade dos nossos tempos. Ritual thinking. Sexuality, Death, World (Pensando o ritual. Sexualidade, morte, mundo, São Paulo, Studio Nobel, 2000) é um volume em língua inglesa, composto por secções de obras publicadas em Itália durante os anos 80, La società dei simulacri (A sociedade dos simulacros, 1980) e Transiti. Come si va dallo stesso allo stesso (Trânsitos. Como se vai do mesmo ao mesmo, 1985). A teoria dos simulacros de Perniola explora a lógica da sedução que teve em Jean Baudrillard um outro atento observador. Apesar de vazia, a lógica da sedução está, não obstante, enraizada num contexto histórico concreto. Por seu turno, a simulação fornece imagens que são avaliadas como tal, prescindindo do que realmente referem ou representam. “As imagens são simulações para aquilo que elas seduzem, e no entanto a partir da sua vacuidade produzem um efeito” Hugh Silverman. Ritual Thinking. Sexuality, Death, World. With a forward by Hugh J. Silverman, translated by Massimo Verdicchio, New York: Humanity Books, 2001: 12. Perniola ilustra o papel de tais imagens numa ampla variedade de contextos sociais, estéticos e culturais. A noção de trânsito parece ser mais adequada para colher os aspectos culturais da tecnologia, que transformam a sociedade contemporânea. Trânsito — ou seja, ir do mesmo ao mesmo — evita cair na oposição dialéctica “que acabaria por precipitar o pensamento na mistificação metafísica” Verdicchio in, Ritual Thinking. Sexuality, Death, World. With a forward by Hugh J. Silverman, translated by Massimo Verdicchio, New York: Humanity Books, 2001: 18 Acerca da influência de noção de simulacro veja-se Robert Burch. “The Simulacrum of Death: Perniola beyond Heidegger and Metaphysics?”. Feeling the Difference, Extreme Beauty. Aesthetics, Politics, Death. James Swearingen & Johanne Cutting-Gray, Ed. New York-London: Continuum, 2002: 180-193; Robert Lumley. States of Emergency. Cultures of Revolt in Italy from 1968 to 1978. London-New York:Verso, 1994. Para ulteriores interpretações da noção de trânsito veja-se Hayden White, "The Italian Difference and the Politics of Culture", in Graduate Faculty Philosophy Journal, New School for Social Research, New York, 1984, 1: 117-122; Giovanna Borradori. Recoding Methaphysics. The New Italian Philosophy. Evanston: Northwestern University Press, 1988: 15-19..
Pós-humano