Português cabo-verdiano é o nome que é dado à variedade de português falada em Cabo Verde.

Estatuto e estado Enquanto que o crioulo é a língua materna de quase toda a população, o português é a língua oficial. O crioulo é, portanto, usado coloquialmente, no dia a dia, enquanto que o português é usado em situações oficiais, no ensino, nos meios de comunicação social, etc. O português e o crioulo vivem uma situação de diglossia.

Obviamente, o português falado em Cabo Verde não é uniforme. Existe um continuum que revela vários aspectos: o maior ou menor grau académico, a maior ou menor exposição à língua portuguesa, a maior ou menor frequência do uso da língua portuguesa, etc.

Até 2013, quando fundou-se a Academia Caboverdiana de Letras, não existia instituição ou algum organismo que regia o uso da língua portuguesa em Cabo Verde. Assim, até 2013, existiam conceitos empíricos acerca do que era «correcto» ou «incorrecto» sobre o modo de falar, conceitos esses que resultaram de: modelos consensuais entre a maioria da classe culta e/ou que tem maior exposição ao português; modelos consensuais entre académicos, professores da língua, etc.; a partir do momento em que certos fenómenos linguísticos ocorrem de um modo sistemático e regular, esses fenómenos já não podem ser considerados como desvios à norma ou idiolectos, mas sim, a expressão genuína de uma variedade específica de uma comunidade;

Outro fenómeno é que se por um lado o português em Cabo Verde desenvolveu uma certa especificidade, por outro lado, durante os vários anos de colonização, os modelos paradigmáticos eram do português europeu, e até hoje as obras de referência (gramáticas, dicionários, manuais escolares, etc.) são originárias de Portugal. Nisto, há dois movimentos de sentido oposto que ocorrem em simultâneo: de um lado o português falado em Cabo Verde caminha para um desenvolvimento de características próprias, e; por outro lado as normas europeias do português continuam a fazer uma pressão que trava um desenvolvimento mais rápido de uma variante tipicamente cabo-verdiana.

Características thumb|250px|Um cartaz governamental alertando sobre a desparasitação nas escolas, na Ilha do Sal. Apesar de serem mínimas, existem características que são suficientes para diferenciar o português cabo-verdiano do português europeu. Devido às dimensões do território, não se pode dizer que haja divisões dialectais no português falado em Cabo Verde, constituindo o português cabo-verdiano, no seu todo, uma das variedades do português no seio do universo da lusofonia. Contudo é ainda uma modalidade do português que necessita de mais estudos descritivos que forneçam um panorama mais completo de suas singularidades. Diferentemente doutras variedades do português (como o português de Angola, por exemplo), em que há comprovada influência do português brasileiro (especialmente no léxico), não se sabe ao certo qual seria a influência do português do Brasil na modalidade do português falada em Cabo Verde.

Fonética Na fonética, a variante de Cabo Verde é bastante próxima da de Portugal. Apresentam-se em seguida as diferenças mais evidentes. Consoantes O som «l»No português cabo-verdiano o som «l» é dental [l̪], ou seja, é pronunciado com a ponta da língua a tocar os dentes incisivos superiores, ficando a língua na posição horizontal. É similar ao som «l» do castelhano, do francês ou do alemão.O som «l» no português europeu é alveolar [l͇], ou seja, é pronunciado com a ponta da língua a encostar os alvéolos, bem atrás dos dentes incisivos superiores, ficando a língua curvada, com uma concavidade virada para cima. É similar ao som «l» do inglês ou do catalão.O facto de esse «l» ser pronunciado com a língua curvada faz com que a parte posterior da língua se aproxime do véu palatino, e por isso, alguns autores consideram que o «l» português se trata de um «l» velarizado [ɫ] (não confundir com «l» velar [ʟ]). O som «rr»O som «rr» têm a mesma variabilidade que no português europeu. Ou é pronunciado «com a ponta da língua» (mais frequente nas ilhas do Sul), ou é pronunciado «no fundo da garganta» (mais frequente nas ilhas do Norte). Com «a ponta da língua» pretende-se dizer uma consoante vibrante, alveolar, múltipla [r]. Com «no fundo da garganta», dependendo do falante, tanto pode ser uma consoante vibrante, uvular [ʀ], pode ser uma consoante fricativa, uvular, sonora [ʁ], ou pode ser uma consoante fricativa, velar, sonora [ɣ]. As consoantes «b», «d» e «g» intervocálicasAlgumas obras clamam que as consoantes «b», «d» e «g» no português europeu, quando intervocálicas, são pronunciadas como fricativas [β], [ð], [ɣ]. Em C. Verde são sempre pronunciadas como oclusivas [b], [d], [ɡ]. Vogais e ditongos «A» átonoNo português europeu, há certos casos em que o «a» átono é pronunciado aberto [a]:- quando resulta etimologicamente da contracção de dois «aa» («sadio», «Tavares», «caveira», etc.);- quando existe um encontro entre um «a» em fim de palavra e um «a» em início de palavra («minha amiga», «casa amarela», «uma antena», etc.);- quando o «a» é seguido de «l» + consoante («alguém», «faltou», etc.);- outros casos mais difíceis de explicar («camião», «racismo», etc.)No português cabo-verdiano existe a tendência para fechar esses «aa»:- «vadio», «caveira», pronunciados com «a» fechado [ɐ];- «minha amiga», «uma antena» sempre com «a» fechado [ɐ];- «alguém», «faltou», pronunciados com «a» fechado [ɐ];Note-se no entanto, que no registo culto, certos «aa» são pronunciados abertos [a]: «baptismo», «fracção», «actor», etc. «O» inicial átonoEm Cabo Verde, o «o» inicial átono é pronunciado sempre fechado [o]. «E» inicial átonoEm Portugal o «e» escrito inicial átono é pronunciado como «i» [i]. Em Cabo Verde, dependendo das palavras (e dos falantes) ora é pronunciado como «e» fechado [e], ora como «i» [i]. Provavelmente, a tendência natural será de pronunciar como «e» fechado [e] (paralelamente ao «o» inicial), sendo a pronúncia como «i» [i] resultante da pressão do português europeu. Muitos falantes em Cabo Verde distinguem claramente na pronúncia certos pares de palavras: «eminência \ iminência», «emita \ imita», «emigrante \ imigrante», «elegível \ ilegível», «emergir \ imergir», etc. «E» átono antes do grupo «s» + consoante, em início de palavraEm Portugal, o «e» átono antes do grupo «s» + consoante, em início de palavra, é pronunciado como «e mudo» [ɨ]. Em Cabo Verde, esse «e» não é pronunciado de todo, começando a palavra por uma fricativa palatal surda «ch» [ʃ] («estado», «espátula», «esquadro»), ou por uma fricativa palatal sonora «j» [ʒ] («esbelto», «esganar»). O som «e mudo»Muitos falantes cabo-verdianos têm dificuldade em pronunciar o som «e mudo» [ɨ] (revelar, medir, debate), sendo no entanto essa dificuldade colmatada em dois resultados diferentes: os falantes das ilhas do Sul pronunciam frequentemente como «i» [i]; os falantes das ilhas do Norte pura e simplesmente não o pronunciam (ver ponto 7, mais adiante);Em todo o caso, nunca se verifica a pronúncia paragógica de um «e mudo» depois das consoantes finais «l» e «r», como em Portugal. Em Cabo Verde nunca se pronuncia «normale», «barrile», «cantare», «bebere». «I» e «u» átonosEm Cabo Verde não se verifica a dissimilação existente em Portugal de dois sons «i» ou de dois sons «u». As palavras «medicina», «vizinho» são efectivamente pronunciadas «me-di-ssi-», «vi-zi-», e não «me-de-ssi-», «ve-zi-» como em Portugal. As palavras «futuro», «Sofia», são efectivamente pronunciadas «fu­tu­», «su-fi-», e não «fe-tu-», «se-fi-» como em Portugal. «I» e «u» átonos outra vezOs falantes das ilhas do Norte praticam frequentemente a queda das vogais orais fechadas (escritas «e», «i», «o», «u») quando estas são átonas.Tanto este ponto como o mencionado no ponto 5 são considerados erros de pronúncia. Ditongos «ei» e «ou»No português europeu padrão o ditongo escrito «ei» é pronunciado «âi» [ɐj], enquanto que o ditongo escrito «ou» é pronunciado «ô» [o]. Em Cabo Verde esses ditongos são pronunciados como a escrita faz prever: o ditongo escrito «ei» é pronunciado «êi» [ej] e o ditongo escrito «ou» é pronunciado «ôu» [ow].Do mesmo modo, o ditongo nasal escrito «em» é pronunciado «ẽi» [ẽj], e não «ãi» [ɐ̃j] como no português europeu padrão. «E» tónico antes de palataisParalelamente ao ponto anterior, o «e» tónico antes de sons palatais («lh» [ʎ], «nh» [ɲ], «ch» [ʃ], «j» [ʒ]) é pronunciado com «e» fechado [e]. Ditongo «ui»O ditongo «ui» na palavra «muito» não é pronunciado nasal ([uj] e não [ũj]).

Morfologia e sintaxe Na morfologia não se notam grandes diferenças em relação ao português europeu, notando-se no entanto a preferência pelo uso de certas formas. A sintaxe deixa transparecer algumas estruturas do crioulo que são transpostas para o português. O tratamento da 2.ª pessoa em Cabo Verde é muito mais simples. Em Portugal existem diferenças de tratamento que são expressas pelo uso de «tu», «você», «o senhor», «Sr. Dr.» (ou qualquer outro título profissional), tratar a pessoa pelo nome próprio mas usar a 3.ª pessoa (p. ex.: «O Manuel fazia-me isso, p. f.?»), etc., que correspondem a vários níveis de intimidade, níveis de respeito, níveis hierárquicos, etc.Em Cabo Verde existem só dois níveis de tratamento da 2.ª pessoa: «tu» (tratamento de intimidade, familiar ou coetâneo) e «você» (tratamento de respeito) que pode ser usado indistintamente de «o senhor» ou «a senhora». Em crioulo não existe uma forma específica para o futuro. O futuro em crioulo é ocasionalmente expresso com o verbo auxiliar «ir». Possivelmente essa característica reflete-se no fato de os cabo-verdianos preferirem usar o futuro composto em português: «eu vou fazer» (em vez de o futuro simples «eu farei»).Paralelamente, o mesmo acontece com o condicional (futuro do pretérito na nomenclatura gramatical brasileira). Os cabo-verdianos preferem usar a forma composta em português: «se chovesse eu não ia sair» (em vez de «se chovesse eu não sairia»). Contudo, faltam ainda estudos para a comprovação dessas hipóteses, uma vez que, em outros países de língua portuguesa (Brasil e Portugal, por exemplo), as formas analíticas de futuro são também muito comuns. É frequente o uso da interrogativa na negativa, sobretudo quando se oferece qualquer coisa: «Não queres uma xícara de café?»; «Não precisas da minha ajuda?». Em crioulo não existem artigos definidos. De modo que, às vezes, o artigo é pouco usado ao falar português. Ex.: «Pedro foi» (em vez de «O Pedro foi»). A primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação não é pronunciada com «a» aberto (mesmo se a ortografia implica tal!). «Cantámos», «louvámos», «brincámos» pronunciados com «a» fechado [ɐ]. Por não existir, em crioulo, flexão verbal a nível de pessoa é que o uso dos pronomes pessoais é obrigatório. Deve ser por isso que no português falado em Cabo Verde a omissão do pronome pessoal é pouco frequente. Ex.: «Eu desço as escadas» mais frequentemente que «Desço as escadas»). Também por a flexão ser fraca é que em crioulo a ordem das palavras é mais rígida. O crioulo não permite a flexibilidade, as inversões e a troca de ordem das palavras que o português permite.Na fala do dia-a-dia não é natural a um falante cabo-verdiano, ao falar português, usar inversões ou troca de ordem das palavras. Por ex., o que em Portugal poderia ser enunciado «espero eu que um dia lá chegues», a um falante cabo-verdiano sairia mais natural ser enunciado «eu espero que tu chegues lá um dia».No entanto, isso não impede de modo algum que a nível literário seja usada a flexibilidade atrás mencionada. Não se nota em Cabo Verde certos erros frequentes em Portugal, como por exemplo «póssamos», «tu fizestes», «tu hades fazer», «dei-te a ti», etc.

Léxico e semântica