A DFV (Deutscher Fussball Verband der DDR; em português, Associação Alemã de Futebol da RDA) era o órgão que administrava o futebol da Alemanha Oriental.

Seleção

thumb|right|270px|Lance do histórico jogo entre as Alemanhas na Copa de 74. Martin Hoffmann é observado pelos adversários Franz Beckenbauer (5) e Berti Vogts (2), com Wolfgang Overath (12) ao fundo A Seleção Alemã Oriental de Futebol jogou pela primeira vez em 21 de setembro de 1952, em amistoso contra a Polônia. Embora fosse razoavelmente respeitada em seu tempo, não foi tão prestigiada pelos próprios dirigentes da RDA; a preferência era preparar atletas de esportes individuais, onde havia maior margem de segurança para um retorno em resultados positivos, com o doping não raramente sendo frequente.

No futebol profissional, acabou ofuscada pelo maior sucesso da vizinha capitalista, tendo classificado-se apenas para uma Copa do Mundo, justamente a de 1974, realizada na Alemanha Ocidental. Mais do que isso, ambas foram sorteadas para o mesmo grupo, e numa partida tensa, os orientais surpreenderam ao derrotar os favoritos ocidentais, por 1 a 0 - gol de Jürgen Sparwasser. Há quem imagine que os anfitriões teriam facilitado, para fugir do grupo mais difícil da segunda fase, que conteria Brasil e Países Baixos, mas tal suposição é refutada pela grande rivalidade nas diferenças políticas das Alemanhas, que só haviam se reconhecido mutuamente em 1972.

Também dois anos antes, nas Olimpíadas de Munique, ambas se enfrentaram na segunda fase e a RDA venceu a RFA por 3 a 2 no campo rival, e posteriormente terminaria com o bronze. Em 1982, a Alemanha Oriental conseguiu derrotar a Itália meses antes do oponente vencer a Copa do Mundo daquele ano.

A geração do final da década de 1980, contudo, era avaliada como ainda mais promissora. A base era composta por quem havia perdido a classificação à Copa do Mundo FIFA de 1986 por um único ponto a menos que França (campeã europeia e derrotada em Leipzig) e Bulgária jovens que haviam ficado em terceiro lugar no Campeonato Mundial de Futebol Sub-20 de 1987, eliminados só pela campeã Iugoslávia. A Alemanha Oriental esteve a um ponto de classificar-se à Copa do Mundo FIFA de 1990, para a qual bastaria um empate contra a Áustria. Na reta final das eliminatórias, contudo, ocorreu a queda do Muro de Berlim, possibilitando a transferência de astros ossies para o futebol capitalista, atrapalhando o foco para a partida.

"Eu estava no campo de treinamento e ele foi tomado por agentes. Jogadores estavam continuamente nos seus telefones tentando definir seus futuros", declararia Uwe Rosler sobre os treinos do Magdeburgo. Os austríacos terminaram classificados após ganharem facilmente, por 3-0, em partida na qual empresários ficavam à espreita da delegação alemã-oriental, até mesmo no banco de reservas, para acertar contratos. Ainda assim, aquela geração conseguiria posteriormente empatar em 3-3 em amistoso com o Brasil em pleno Maracanã. Foi a penúltima partida da Seleção Alemã Oriental, a cinco dias do tratado que acertou a Reunificação Alemã.

A última partida, também um amistoso (contra a Bélgica), ocorreria em 12 de setembro de 1990, já após a Copa do Mundo daquele ano (vencida pela Alemanha Ocidental) e a menos de um mês da reunificação. Curiosamente, a partida seria originalmente válida pelas eliminatórias para a Eurocopa 1992; com a reunificação, os jogos programados foram naturalmente cancelados, exceto este contra os belgas, transformado em amistoso. A conversão da partida em um amistoso ocasionou na primeira e única convocação de alguns jogadores para a Seleção, pois a maioria dos astros, negociados com o futebol capitalista, não desejava sofrer riscos de lesões em um jogo avaliado por eles como sem importância. Uwe Rosler, que viria a jogar no Manchester City, era um dos novatos que pensavam diferente:

Ao todo, 22 jogadores recusaram, sob diversas justificativas, desde não ter um passaporte a não sentir-se mais um cidadão alemão-oriental. A única exceção foi Matthias Sammer, que ainda assim precisou ser convencido: havia mudado de ideia ao notar a ausência das demais estrelas ao chegar ao campo de treinos e chegou a verificar a disponibilidade de voos para voltar naquele mesmo dia. Foi persuadido pelo técnico a liderar os novatos. "Estou feliz que não houvesse mais voos. Às vezes, sua sorte tem que ser forçada sobre você", declararia Sammer anos depois. O elenco foi composto por quatorze jogadores, dois deles goleiros. Os estreantes seriam três, incluindo o goleiro reserva e Rosler, que afirmaria que "Eu acho que todos tinham um respeito massivo por Matthias. Então ele deu meia-volta e o jeito como ele jogou foi fenomenal. Ele foi um verdadeiro capitão naquele dia". O goleiro reserva foi colocado em campo nos instantes finais apenas para poder fazer sua estreia oficial pela seleção.

O jogo seguinte das eliminatórias para a Eurocopa 1992 seria justamente contra a Alemanha Ocidental, já em novembro, no dia 14, em Leipzig. Inicialmente, ele foi mantido, mas como um amistoso para celebrar a união das seleções. Porém, distúrbios contínuos nos estádios no campeonato alemão-oriental (cujo curso continuou até o fim da temporada 1990/91) em função de um torcedor morto a bala pela polícia em uma briga na plateia fizeram com que a partida também acabasse cancelada.

Tal jogo festivo só viria a ocorrer em 21 de novembro de 2010, para marcar os vinte anos da unificação das federações. A partida, mantida para Leipzig, contou com jogadores da época para cada seleção e encerrou-se com nova vitória oriental, por uma virada de 2 a 1, com gols ossies de Olaf Marschall e Ulf Kirsten. thumb|right|250px|Réplica do segundo uniforme da Alemanha Oriental

A Seleção Alemã Oriental não se classificou para nenhuma Eurocopa, porém, conquistou uma medalha de ouro no futebol nos Jogos Olímpicos - algo que as Alemanhas Ocidental e Reunificada jamais conseguiram -, em 1976, nas Olimpíadas de Montreal. A equipe também foi prata nos Jogos seguintes, nas Olimpíadas de Moscou (resultado também não alcançado pela Ocidental e Reunificada) e ficou com o bronze duas vezes, nas Olimpíadas de 1972, em Munique, e nas de 1964, em Tóquio.

Nos jogos de 1964, seus jogadores representaram a seleção de futebol da Equipe Alemã Unida após dois jogos, ida e volta, com os jogadores da Alemanha Ocidental para decidir quem iria. Por outro lado, era a época em que o futebol olímpico foi propício para boas campanhas comunistas; atletas profissionais eram impedidos de participarem, o que fez com que tradicionais seleções capitalistas levassem equipes mais fracas. Os atletas comunistas principais, por sua vez, eram considerados oficialmente servidores do Estado e, por essa brecha, liberados para atuarem.

Seu uniforme principal consistia em camisa e meiões brancos e calças e detalhes da camisa em azul; a combinação contrária consistia no uniforme reserva (que acabaria mais consagrado, após seu uso na vitória contra a RFA na Copa). Sobre o coração ficava bordado o brasão da RDA, e, acima deste, a sigla DDR. Azul, uma cor neutra, era a cor utilizada pela Juventude Livre Alemã - braço jovem do Partido Comunista único do país -, que fiscalizou os esportes da Alemanha Oriental quando estes voltaram a ser oficialmente praticados, após a Guerra.

Clubes e campeonatos de futebol

A DDR-Oberliga (Liga Superior da RDA) era, até a reunificação alemã, em 1990, a divisão de elite de futebol da Alemanha Oriental (assim como a Bundesliga era da Alemanha Ocidental e continua sendo na Alemanha unificada). Ambas as Alemanhas reunificaram-se no final de 1990, mas com os campeonatos da ambas ainda em andamento na época, a reunificação das Ligas só se deu a partir do segundo semestre de 1991, quando começou a nova temporada na Europa. O mesmo ocorreu com a Copa FDGB, uma espécie de Copa da RDA. Com a reunificação, o nome Oberliga passou a designar algumas divisões inferiores do campeonato alemão.

Quatro cidades destacavam-se no cenário futebolístico da RDA: Dresden, cidade do Dínamo Dresden (segundo maior vencedor do campeonato) e do Dresdner, equipe forte antes do comunismo e que entrou em decadência por ser vista como "burguesa", era tida como a mais fanática. Leipzig foi onde a própria Federação Alemã de Futebol fora fundada, em 28 de janeiro de 1900, e seu clube VfB Leipzig (renomeado Lokomotive após a instação do comunismo) fora o primeiro campeão alemão, três anos depois; além disso, nela ficava o Zentralstadion, que, entre 1956 e 2000, foi o maior estádio alemão, com capacidade para 100 mil pessoas e naturalmente, a casa da Seleção Alemã-Oriental, tendo sido o único estádio do antigo país a ser utilizado como sede da Copa do Mundo de 2006.FREITAS, Carlos Eduardo (junho de 2006). A história falou mais alto. Copa'06 n. 5. Pool Editora, pp. 38-41 Já Magdeburgo foi a única a conter um clube campeão europeu, o Magdeburgo, vencedor da Recopa Europeia de 1974, sobre o Milan.

A Recopa, por sinal, foi o único torneio do continente em que equipes da Alemanha Oriental conseguiram chegar à decisão: o próprio Lokomotive Leipzig e o Carl Zeiss Jena também chegaram às finais do torneio, mas acabaram como vice-campeões (em 81, para o soviético Dínamo Tbilisi; e em 87, para o holandês Ajax, respectivamente). O Magdeburgo foi também, ao lado do mesmo Carl Zeiss e do Dínamo Dresden, o maior vencedor da Copa nacional, com sete conquistas. Na campanha do vice-campeonato continental, o Carl Zeiss eliminou o Benfica, o Valencia e a Roma, goleando por 4-0 o clube em que atuava Paulo Roberto Falcão.

Apesar da falta de mais títulos internacionais, os times do país não deixavam de despertar respeito nos adversários. "Naquela época, tínhamos boas equipes, que não deviam nada às grandes do continente", chegou a declarar Jürgen Sparwasser, jogador do Magdeburgo.FREITAS, Carlos Eduardo (fevereiro de 2008). Muro abaixo. Trivela n. 24. Trivela Comunicações, pp. 44-47 De fato, na década de 1970, a liga alemã-oriental estava entre as dez melhores colocadas no ranking da UEFA, à frente inclusive do Campeonato Italiano. O Dínamo Dresden chegou a quase eliminar, nas semifinais da Liga dos Campeões de 1973-74, o futuro campeão Bayern Munique, que chegou a estar perdendo em casa por 3-2, posteriormente vencendo para 4-3 e segurando um duro 3-3 em Dresden para avançar à final - na qual ganharia o torneio pela primeira vez. Antes, o Dínamo já havia eliminado a Juventus naquela campanha.

A quarta cidade a destacar-se foi a capital, Berlim Oriental. Mesmo antes da divisão - dela e do país -, a cidade, ao contrário das demais capitais europeias, não fazia parte da elite futebolística do continente.FREITAS, Carlos Eduardo (abril de 2006). Tamanho x Tradição. Copa'06 n. 3. Pool Editora, pp. 30-33 Em 1975, a Stasi, o serviço de inteligência da RDA, resolveu apadrinhar uma pouco expressiva equipe local, o Dínamo de Berlim, cujo único título até então resumia-se à Copa da RDA em 1959. O Dínamo, originalmente, surgira na cidade de Dresden, sendo realocado para a capital na década de 1950. A mudança de cidades era comum naqueles anos, mas protestos de torcedores descontentes com tantas alterações fizeram com que tal operação se reduzisse a partir da década seguinte.

A equipe berlinense-oriental mais vitoriosa vinha sendo o Vorwärts Berlim, mas esta foi deslocada em 1971, quando era o clube mais vezes campeão da Oberliga, para Frankfurt an der Oder. Foi justamente o último deslocamento clubístico no país. O Dínamo logou passou a receber os melhores jogadores das outras equipes e também arbitragens convenientes: os impedimentos costumavam ser dados apenas aos adversários, além de contar com pênaltis duvidosos - um deles tornou-se célebre, marcado no minuto 95 de um jogo decisivo contra o Lokomotive Leipzig em 1986.