A Batalha de Tarawa foi um confronto militar travado no contexto da Guerra do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, sendo travada entre os dias 20 e 23 de novembro de 1943 no Atol de Tarawa, fazendo parte da Operação Galvanic, a invasão americana das Ilhas Gilbert. Cerca de 6 400 japoneses, coreanos e americanos morreram na batalha, a maioria na pequena ilhota de Betio, no sul do atol.
A batalha em Tarawa foi a primeira grande ofensiva americana na região central do Pacífico. Foi também a primeira vez na guerra que as forças armadas dos Estados Unidos sofreram séria oposição de defensores japoneses durante um desembarque anfíbio. Ações anteriores deste tipo haviam sofrido pouca ou nenhuma resistência,Morison p. 15 mas desta vez os 4 500 japoneses na ilha, bem supridos e bem preparados, resistiram ferozmente e lutaram até o último homem, impondo grandes baixas aos americanos. Os Estados Unidos sofreram perdas enormes em outras campanhas também, como por exemplo em Guadalcanal, mas a quantidade alta de mortos em Tarawa ficou notório por ter acontecido em uma pequena área e em um espaço de tempo curto de apenas 76 horas.
A batalha por Tarawa segue controversa até os dias atuais. Acadêmicos e historiadores questionam a necessidade e o valor estratégico desta invasão, afirmando que talvez o custo de vidas não tenha valido a pena no quadro geral da guerra.
Contexto Decisões estratégicas americanas miniaturadaimagem|esquerda|Tropas americanas sendo levadas para Tarawa Com o objetivo de preparar bases aéreas capazes de apoiar operações no meio do Oceano Pacífico, das Filipinas até as ilhas principais do Japão, os Estados Unidos planejaram assumir o controle das Ilhas Marianas. Esta região, contudo, era muito bem defendida. A doutrina naval da época sugeria que para apoiar uma ofensiva insular terrestre era necessário enfraquecer as defesas costeiras e proteger a força de invasão, e isso seria conquistado ao assumir o controle de regiões próximas ao alvo desejado. Ilhas próximas capazes de apoiar tal esforço perto das Marianas eram as Ilhas Marshall, a nordeste de Guadalcanal. Tomar as Ilhas Marshall iria fornecer uma base para lançar uma ofensiva contra as Marianas, mas para chegar lá era necessário passar pela ilha de Betio, no lado oeste do Atol de Tarawa, nas Ilhas Gilbert. Assim, para eventualmente invadir as Marianas, era necessário antes tomar Tarawa.
Após a conquista de Guadalcanal, a 2ª Divisão de Fuzileiros havia se retirado para a Nova Zelândia para descansar e se recuperar. As unidades desfalcadas foram preenchidas e os homens se recuperaram de malária e outras doenças que os haviam enfraquecido durante a luta nas Ilhas Salomão. Em 20 de julho de 1943, o comando das forças armadas dos Estados Unidos ordenou que o almirante Chester W. Nimitz começasse a preparar planos para uma operação ofensiva nas Ilhas Gilbert. Em agosto, o almirante Raymond Spruance foi para a Nova Zelândia para se encontrar com o comandante da 2ª Divisão de Fuzileiros, o general Julian C. Smith, e iniciaram os planos de invasão.
Preparações japonesas miniaturadaimagem|Mapa da ilha de Betio. Localizado a 3 900 km do sudoeste de Pearl Harbor, Betio era a maior ilha no Atol de Tarawa. A ilhota, plana no extremo sul de uma lagoa, era onde estava grande parte da presença militar japonesa. Em um formato de triangulo, a ilha tem apenas 3,2 km e tem pelo menos 730 metros de largura. Um longo cais foi construído na parte saliente da costa norte que poderia desembarcar suprimentos facilmente, com recifes rasos cercando a ilha. A costa norte tinha uma grande lagoa, enquanto as partes sul e oeste tinham águas profundas abertas para o oceano.
Após o ataque à Ilha de Makin, conduzido pelo então coronel Evans Carlson, em agosto de 1942, os comandantes japoneses ficaram cientes da vulnerabilidade e da importância estratégica das Ilhas Gilbert. O 6º Regimento da Kaigun Rikusentai ("Forças especiais de desembarque") foi para Tarawa, no início de 1943, para reforçar as defesas por lá. O comando era do almirante Tomonari Saichiro, um experiente engenheiro que orquestrou a construção de sofisticadas estruturas defensivas em Betio. Quando chegaram, o 6º Regimento Yokosuka se tornou uma guarnição e sua identificação de unidade passou a ser 3ª Base especial de Força de Defesa. O principal objetivo de Tomonari no seu esquema de defesa era deter as tropas atacantes ainda na água ou aniquila-los nas praias. Uma enorme quantidade de casamatas e ninhos de metralhadora foram construídos, com excelentes posições de tiro com boa visão da praia. Já no interior da ilha estava o posto de comando e uma enorme quantidade de abrigos, feitos para proteger as tropas de bombardeios aéreos. Contudo, não havia muitas estruturas defensivas no interior, com os estrategistas japoneses antecipando que a batalha seria ganha ou perdida nas praias. Uma vez que a costa fosse sobrepujada, as posições em terra firme não eram adequadas para uma luta prolongada. miniaturadaimagem|esquerda|Mapa do Atol de Tarawa Os japoneses trabalharam por quase um ano fortificando as defesas em Tarawa. Para apoiar estes projetos de construção, foram levados para a ilha cerca de 1 247 novos trabalhadores, junto com 970 homens do batalhão de construção da marinha. Cerca de 1 200 destes homens eram conscritos coreanos. A guarnição principal na ilha era de combatentes da marinha imperial japonesa. A inteligência militar americana afirmou que a unidade Kaigun Rikusentai de especialistas navais japoneses eram homens bem treinados, disciplinados, mais tenazes e tinham melhor liderança que as unidades do exército imperial. Esta tropa em Tarawa tinha uma força total de 1 112 homens. Outra unidade que os auxiliava tinha 1 497 bons combatentes. Sua liderança estava nas mãos do comandante Takeo Sugai. Eles possuíam quatorze tanques Type 95 para as defesas.Wright Tarawa 1943: The Turning of the Tide p. 10
Nas defesas costeiras estavam cerca de quatorze canhões pesados, incluindo obus de Vickers de 8 polegadas, comprados dos britânicos durante a Guerra Russo-Japonesa, seguros atrás de pesadas fortificações de concreto. Estas armas deveriam dificultar a aproximação do inimigo nas praias e proteger a entrada da lagoa na região norte. Havia mais de 500 casamatas construídas pelo atol, feitas de toras e areia, muitas delas reforçadas com cimento. Quarenta peças de artilharia foram colocadas em posições estratégicas pela ilha. Uma pequena base aérea foi também construída no centro da ilha. Toda a região era interconectada por trincheiras, permitindo as tropas japonesas se mover entre as suas posições sob cobertura. Como o alto-comando militar acreditava que as defesas costeiras iriam segurar um ataque e proteger a lagoa, foi antecipado que a principal força de invasão dos Estados Unidos viria pelas praias do sul e do oeste. O almirante Keiji Shibazaki, um experiente oficial, substituiu o almirante Tomonari em 20 de julho de 1943 e assumiu o comando da ilha. Ele antecipou que um ataque americano iria acontecer em breve. Shibazaki continuou então com o extenso programa de preparações das defesas. Ele encorajava suas tropas, dizendo que "seria necessário um milhão de homens e cem anos para conquistar Tarawa".
Batalha 20 de novembro miniaturadaimagem|Militares americanos perto de um veículo de desembarque LVT-1 "Alligator"
A tropa americana destacada para a invasão das Ilhas Gilbert foi a maior força reunida para uma operação militar no Pacífico até então, consistindo de dezessete porta-aviões, doze encouraçados, oito cruzadores pesados, quatro cruzadores leves, sessenta e seis contratorpedeiros e trinta e seis navios de transporte. Em termos de forças terrestres, foi reunida a 2ª Divisão de fuzileiros e elementos da 27ª Divisão de infantaria do exército, contabilizando mais de 35 000 tropas."Battle of Tarawa - World War II". History.com. Página acessada em 11 de outubro de 2016.
miniaturadaimagem|esquerda|Fuzileiros americanos, na Praia Vermelho 3, se protegendo das metralhadoras japonesas Conforme a frota naval americana se aproximava de Tarawa, as defesas costeiras da ilha (os canhões de 8 polegadas) abriram fogo. As baterias dos navios de guerra americanos, como dos couraçados USS Colorado e o USS Maryland, revidaram. O bombardeio naval foi preciso. Uma disparo atingiu um estoque de munição japonês, causando uma enorme explosão. Três dos quatro grandes canhões japoneses na costa foram destruídos imediatamente.
Os Estados Unidos continuaram lançando um maciço bombardeio aéreo e naval que durou horas, causando devastação por todo o atol. Enquanto os navios grandes lançavam suas pesadas munições nas fortificações japonesas, aviões e embarcações menores se aproximavam para fornecer apoio aproximado.Rice, Strategic Battles of the Pacific p. 53 O plano era desembarcar os fuzileiros americanos nas praias do norte, divididas em três seções: a Praia Vermelho 1 no extremo oeste da ilha, a Praia Vermelho 2 no centro (a oeste do pier) e a Praia Vermelho 3 ao leste do pier. A pequena base aérea do atol, na região leste-oeste, dividia a ilha em norte e sul.
Os estrategistas americanos previam uma subida normal da maré dando uma profundidade na água de 1,52 metros acima dos recifes de coral, permitindo que os barcos de desembarque avançassem sem dificuldades. Contudo a maré não subiu como o previsto. Nas palavras de um dos observadores, "o oceano só permaneceu sentado", deixando um pequeno espaço entre a linha da água e os corais. O comandante americano, contudo, ignorou alertas para repensar seu plano de combate.Major Francs Holland em McGibbon (ed) The Oxford Companion to New Zealand Military History, p. 220 miniaturadaimagem|Tropas americanas em Tarawa As 09h00, a marinha cessou seu bombardeio a ilha e os fuzileiros começaram sua invasão, trinta minutos depois do esperado, mas o avanço foi atrasado devido a maré baixa, fazendo com que vários veículos de desembarque ficassem atolados e expostos a disparos vindos da costa.Russ Line of Departure: Tarawa p. 102 Apenas os LVT "Alligators" foram capazes de prosseguir. Com a pausa do bombardeio naval, os defensores japoneses saíram de seus esconderijos e abriram fogo contra as forças americanas que se aproximavam. Tropas japonesas nas praias do sul foram para o norte para dar auxílio e substituir aqueles mortos nos bombardeios. Os veículos anfíbios americanos eventualmente superaram os corais e adentraram nas águas rasas, com os japoneses intensificando a resistência. Vários blindados americanos nem conseguiram se aproximar da costa e aqueles que conseguiram acabaram tendo enormes dificuldades em superar os paredões de areia, deixando a infantaria presa na praia. Muitos fuzileiros tiveram de abandonar seus veículos blindados e seguiram até a praia caminhando na água, expostos ao fogo de armas pequenas dos defensores na costa. Estima-se que mais da metade dos veículos anfíbios enviados contra a praia no primeiro dia foram destruídos ou danificados gravemente.
O coronel David Shoup era o oficial mais graduado que desembarcou no primeiro dia nas praias de Tarawa, comandando todos os fuzileiros americanos em terra. Mesmo ferido por uma explosão, Shoup conseguiu liberar um pier de snipers japoneses e reuniu a primeira onda de fuzileiros que estavam encurralados no paredão da costa. Nos próximos dois dias, trabalhando sem descanso e sob constante ataque inimigo, ele comandou seus homens em investidas contra posições japonesas bem defendidas. Por suas ações em combate, ele recebeu a Medalha de Honra. miniaturadaimagem|esquerda|Soldados americanos se protegendo de disparos vindos de uma casamata japonesa