Sílvia Serafim Thibau (Rio de Janeiro, - Niterói, ) foi uma jornalista e escritora brasileira.
Biografia Filha de Augusto Serafim, auxiliar de Oswaldo Cruz, foi casada com o médico Ernesto Thibau Júnior, e mãe de três filhos, Mauro, Cláudio e Roni (fruto de seu relacionamento com Armando Menezes).
Dedicava-se à escrita jornalística e atuou em diversos periódicos, como O Jornal, Gazeta de S. Paulo e Fon-fon. Ligada às artes, Sylvia era simpatizante do socialismo e do movimento feminista. Escreveu diversos ensaios sobre literatura, romance, poemas, crônicas sob pseudônimos Cinderella, Petite Source, Mariposa Doirada, dentre outros. Era uma das únicas, caso não a única, mulher com um suplemento inteiro em um grande jornal da época. Comandava o suplemento dominical Para a mulher no lar, em O Jornal, de Assis Chateaubriand.
Como consequência do assassinato que cometeu, teve a sua ampla produção artística e política esquecida e apagada, apesar de sua relevância na época. Sua intensa produtividade literária e perfil emancipado para a época - como o desquite em 1929 - tornaram Sylvia uma figura-alvo de tensões conservadoras, como amplamente noticiado pelo jornal carioca Crítica.
Assassinato do irmão de Nelson Rodrigues O jornal Crítica aponta um suposto adultério cometido por Sylvia Serafim com o médico e cientista Manuel Dias de Abreu (1891-1962), posteriormente conhecido como o inventor da abreugrafia, acusação que jamais foi comprovada.Paixão e morte na virada do século Observatório da Imprensa, 10 de maio de 2005 Na verdade, Sylvia havia feito um processo depilatório experimental que deu errado e queimou suas pernas, com o jornal sugerindo o adultério a partir disso. A matéria de capa do jornal no dia 26 de dezembro de 1929, "Entra hoje em juízo nesta capital um rumoroso pedido de desquite! Há uma grande ansiedade pública em conhecer os motivos da separação do casal Doutor Tibau Junior", sugeria que o verdadeiro motivo de seu desquite seria o adultério. Nela, Sylvia é retratada pelo ilustrador Roberto Rodrigues como se acariciada pelo médico. Sylvia havia estado na redação do jornal na noite anterior (Natal de 1929), e conversado com o próprio Roberto, que chegou a prometer que não publicaria a matéria.
No dia seguinte, foi até a loja Espingarda Mineira, comprou uma arma e seguiu para a redação do jornal procurando por Mário Rodrigues.BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa Brasil - 1900-2000. Mauad Editora, 2007. Págs. 68-71 Na redação, na ausência de Mário Rodrigues, solicita uma audiência com Mário Filho, que também não estava. Quem estava era novamente Roberto. Ambos entram em um gabinete. Não há testemunha sobre o que teriam conversado, mas após algum tempo Sylvia termina por atirar em sua barriga, a queima-roupa, perfurando o intestino. Roberto morreria três dias depois. Na redação estava o irmão da vítima, Nelson Rodrigues, então com 17 anos.Nelson Rodrigues. Almanaque Brasil O crime marcaria a vida de Nelson, que posteriormente declarou que "o meu teatro não seria como é, nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto."
O processo criminal foi acompanhado por uma feroz campanha promovida pelo jornal, que chamava a ré de "literata do Mangue" e "cadela das pernas felpudas". Seu julgamento foi o primeiro no Brasil a ser transmitido ao vivo pelo rádio, e se tornou palco de uma disputa político-ideológica entre grupos conservadores/reacionários e grupos feministas/progressistas. O advogado de defesa, Clóvis Dunshee de Abranches, alegou que Sílvia havia sido caluniada. Ao passo que o advogado de acusação, Max Gomes de Paiva, sugeriu que Sylvia “trocou sua condição de anjo do lar pela profissão de jornalista, para satisfação de sua vaidade”. Mais do que o assassinato em si, para Crítica o crime maior de Serafim era ser jornalista. O assassinato apenas corroborava isso, como deixam claro em diversas matérias: “como classificar uma mãe que desmancha seu lar para escrever contos nos jornaes?”. Conforme Sergio Schargel, doutor pela UERJ e seu bisneto, em sua tese sobre o caso "Grupos conservadores e reacionários passaram a utilizar o caso como símbolo da decadência moral que, segundo eles, era o resultado de uma sociedade que começava a conceder maiores liberdades às mulheres".
Sylvia acabaria absolvida por cinco votos a dois, todavia excedera o "métron" da sociedade da época e sua "húbris", miticamente, ditaria seu destino. "Uma Ruptura" e "Achas que devo hesitar", crônicas dela, publicadas em 1929 sobre a mulher em casamentos fracassados, dividida entre seu coração e a segurança e o que era "de bom tom", deixavam patente o drama que ela viveria: o envolvimento romântico com um jovem oficial aviador, Armando Serra de Menezes, seis anos mais jovem e com quem teria um filho. A transferência do tenente para Curitiba, a insistência de Sylvia nesse amor malsinado, levando-a a segui-lo até o Paraná e a temerária compra de um diploma falso de bacharel em Direito, conduzi-la-iam, novamente, às páginas policiais e por fim à prisão e ao desespero, culminando no suicídio no Hospital de Custódia em 1936 aos 33 anos.Paixão e morte na virada do século. Observatório da Imprensa, 10 de maio de 2005
Escritos literários, jornalísticos e políticos: apagamento de Sylvia intelectual Conquanto fosse relativamente famosa à época, o envolvimento no assassinato terminou por apagar a sua produção intelectual. Sylvia entrou para a história como assassina, e teve seus escritos esquecidos. Dois de seus livros estão disponíveis na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mas Ramos de coral está perdido. Era uma das poucas mulheres com um suplemento inteiro em um jornal de grande porte, O Jornal, sobre o qual escrevia sobre os mais variados temas. De tópicos que reeditavam papéis tradicionais de gênero -- maternidade, matrimônio, moda, espaços "mundanos possíveis", sobre o qual refere Marialva Barbosa -- a artigos progressistas sobre trabalho intelectual feminino, produção literária de mulheres, direitos trabalhistas e feminicídio, sua obra permanece praticamente inédita. Apenas de 2020 para cá começaram a surgir críticas sobre a sua produção e a resgatar o seu papel enquanto intelectual, não somente assassina, com artigos publicados por pesquisadores.
Em seus artigos jornalísticos, Sylvia se destacou como uma das vozes femininas mais articuladas de seu tempo sobre emancipação e trabalho intelectual. Em A mulher na literatura e em O trabalho intellectual feminino, Serafim dialoga com autoras brasileiras e internacionais, incluindo Virginia Woolf, para pensar a emancipação feminina. Neste último, abre com uma citação bíblica da primeira epístola a Timóteo — "a mulher deve aprender em silêncio com toda sujeição" — para rejeitá-la logo em seguida, chamando-a de "injusta" e questionando as "ideias absurdas e mesquinhas" que ainda acorrentavam o pensamento feminino em 1929. Em outro artigo, intitulado Feminista e publicado em A Gazeta, afirma que "sob a reprovação quasi que geral, a feminista é no entretanto a mulher mais verdadeira e nobremente mulher."
Representações O assassinato de Roberto entrou para a memória coletiva e recebeu ampla cobertura e repercussão em diversas mídias. Nelson Rodrigues dedica diversas crônicas de seu livro O reacionário ao impacto do assassinato de seu irmão em sua vida, e Ruy Castro amplia a discussão em O anjo pornográfico. O crime de Silvia Thibau também foi encenado como um episódio do programa Linha Direta, da Rede Globo, exibido em 7 de junho de 2007. Letícia Spiller fez o papel da jornalista e Eriberto Leão representou Roberto Rodrigues.
A tragédia foi contada também na peça A vida como ela é, espetáculo sobre a vida e obra de Nelson Rodrigues encenado em 2010A Vida Como Ela É volta ao cartaz. Gazeta do Povo - Caderno G, 11 de agosto de 2010, e serviu ainda de inspiração para o romance Sylvia não sabe dançar (2012), de Cristiane Lisbôa.Filha em situações libertinosas com o próprio pai...até que ponto vai uma carícia? - Livraria da Folha
As versões divergem em alguns pontos, tanto mais considerando as ficções.
Obras publicadas Fios de prata, sinfonia da dor, 1930 Ramos de coral (poemas de coração de mãe), 1931 Manual de civilidade, 1935Fundação Biblioteca Nacional - Catálogo antigo Sylvia teria escrito ainda um quarto livro, um romance tendo seu filho mais novo como protagonista, cujo manuscrito nunca foi localizado.
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