Libindo Martins Ferrás (Porto Alegre, 13 de setembro de 1877 — Rio de Janeiro, 9 de agosto de 1951) foi um pintor e professor brasileiro.

Desde jovem envolvido com a arte, em 1908 participou da fundação do Instituto de Artes da UFRGS, e a partir de 1910 foi o primeiro diretor da sua Escola de Arte, permanecendo no cargo por mais de duas décadas. Desenvolveu uma bem sucedida carreira como professor, e como pintor, dedicado ao gênero da paisagem, fez muitas exposições individuais e coletivas, foi muito elogiado pela crítica e encontrou um mercado receptivo, mas depois de sua aposentadoria em 1937 mudou-se para o Rio de Janeiro e caiu na obscuridade. Hoje é tido como um dos principais artistas de sua geração no estado do Rio Grande do Sul e um dos melhores paisagistas, além de ter desempenhado um papel fundamental para a estruturação da Escola de Arte e a consolidação do ensino artístico em nível superior no estado.

Biografia Libindo Ferrás nasceu em Porto Alegre em 13 de setembro de 1877, em tradicionais famílias gaúchas, filho de Diogo Alves Ferrás, general de brigada e engenheiro militar, e Libinda Martins. Seu pai era filho de um juiz e latifundiário de Cachoeira do Sul, e sua mãe era neta do Visconde do Serro Azul, militar e uma das maiores fortunas do estado.Vargas, Jonas Moreira. Entre a Paróquia e a Corte: uma análise da elite política do Rio Grande do Sul (1868-1889). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2007, p. 68Bordignon, Rodrigo. Elites políticas e intelectuais no Brasil: condições de diversificação e estratégias de carreira (1870-1920). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015, p. 347 Teve como irmãos Diogo, Maria, Manuel, falecido na infância, e Maria Manuela."Titulares do Império". In: Anuário Genealógico Brasileiro, 1941 (III): 426-435

Desde muito jovem interessou-se pelas artes.Dallegrave, Suzete. "Ciências e Artes no Rio Grande do Sul". Pioneiro, 4 de dezembro de 1976, p. 10 Recebeu lições de Ricardo Albertazzi, mas inicialmente dedicou-se à pintura em caráter amador. Inaugurou sua carreira expondo no início de 1896 pequenas telas na vitrine da casa comercial Ao Preço Fixo. Uma delas foi notada por Olinto de Oliveira, que em sua coluna no jornal Correio do Povo, embora assinalasse o caráter amador da obra, percebeu que ali havia um talento fora do comum, incentivando o autor. Porém, nesta época ainda não imaginava tornar-se um pintor profissional, estando em meio a estudos preparatórios para o curso de Engenharia. Damasceno, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1971, pp. 403-407

Em 1897 estava no Rio de Janeiro, onde deveria prosseguir seu curso na Escola Politécnica, mas antes de completar um ano abandonou as aulas e embarcou para a Itália. Lá pouco se sabe o que fez. Eduardo Guimarães disse que o artista visitou muitas cidades italianas, demorando-se especialmente em Roma, Turim, Milão e Nápoles, onde teria recebido lições de vários mestres e entrado em contato com os famosos museus e monumentos locais.

Em janeiro de 1899 já estava de volta no Rio, e começava sua vida profissional como funcionário dos Telégrafos, nomeado para Porto Alegre.Frantz, Ricardo André Longhi. "Adendos para a biografia de Libindo Ferrás". Academia.edu, 2024, pp. 20-38 Em julho estava de volta ao Rio, deixando algumas obras para o Salão Nacional, e sendo chamado de "distinto paisagista", autor de "valiosas telas"."Seguiu para Porto Alegre...". In: Rua do Ouvidor, 1899; II (62): 7 Em 1902 ilustrou a capa de Via Sacra, o primeiro livro de Marcelo Gama.Serra, Victoriano. "Marcello Gama". Dom Casmurro, 7 de setembro de 1940, p. 5

Sua produção pictórica nesta fase chamou a atenção de vários críticos, mas a partir de uma matéria publicada em 1903 por Arthur Pinto da Rocha, diretor da Gazeta do Comércio, onde Libindo é descrito como um grande talento, mas pouco aplicado, inconstante e dispersivo, ocupando-se em várias distrações fora da arte, Athos Damasceno, em seu clássico Artes Plásticas no Rio Grande do Sul, publicado em 1971, deu força a esta imagem, dizendo:

"O festejado diletante das tintas ainda não conseguira então acertar o passo e era meio às cegas que andava e desandava na busca de seu caminho. Tal como dissera Pinto da Rocha, ora privava com Euclides, ora convivia com Apeles e, de permeio, pedalava a bicicleta, jogava o florete ou procurava distrair-se no tabuleiro do xadrez com reis e rainhas, cavalos e peães. Por muito tempo – mais de dez anos – fará Libindo essa despreocupada boêmia, fugindo aos compromissos da arte e visitando as Musas da palheta apenas de passagem. [...] Em 1910, entretanto, vê-se o amador inconstante obrigado a levar a sério sua vocação. Escolhido e nomeado para exercer as funções de diretor da Escola de Artes recém-criada no Conservatório de Música de Porto Alegre, não tem Libindo Ferraz outro remédio senão devotar-se à arte, já não apenas como pintor mas ainda como professor e administrador".

A grande autoridade de Damasceno tornou seu texto a referência biográfica básica para a historiografia posterior sobre o artista, que não se preocupou em investigar melhor essa narrativa, mas pesquisas recentes demonstraram que aquela imagem pouco lisonjeira não é exata. Há documentação na imprensa que o mostra exercendo atividade artística constante entre sua volta da Europa em 1899 e 1910, com produção abundante, fazendo várias exposições individuais e coletivas em Porto Alegre e no Rio, sempre bem recebidas, além de dar aulas e fundar a revista ilustrada Pampa (1905), da qual assumiu a direção artística.

Em 1908 foi convidado pelo presidente do estado Carlos Barbosa para participar da fundação do Instituto de Belas Artes (IBA). Em 1909 foi fundado no IBA um Conservatório de Música, e em 1910, por iniciativa de Libindo, foi criada no Instituto uma Escola de Arte. Libindo foi no mesmo ato indicado primeiro diretor e professor da Escola.Bispo, A. A. "Centenário do Instituto de Artes da UFRGS e Licenciatura em Música à Distância". In: Revista Brasil-Europa, 2008; 116 (6) O projeto original previa o ensino teórico e prático das Artes Plásticas, abrangendo Desenho, Arquitetura, Escultura, Artes Aplicadas e Ofícios. Nesta função permaneceria até a incorporação da Escola à Universidade de Porto Alegre, em 1936.

Na fundação do Instituto estava implícito um ambicioso projeto civilizatório apoiado e em parte financiado pelo governo que incluía a criação de uma rede de escolas e conservatórios pelas principais cidades do Rio Grande do Sul. Essa rede pertencia à mantenedora, representada pela Comissão Central do Instituto Livre de Belas Artes, na qual Libindo tinha um assento. Apesar da boa vontade, o projeto enfrentou obstáculos multiplicados e levou muito tempo para se estruturar. Nos primeiros tempos só pôde ser ministrada a disciplina de Desenho. Aos poucos foram introduzidas as disciplinas de Perspectiva e Anatomia. A disciplina de Pintura só foi introduzida em 1926, enquanto a Escultura, a História da Arte e a Arquitetura, só depois de Libindo deixar a casa. thumb|Alunos e professores do Instituto de Artes em 1925. Libindo Ferrás é o segundo a partir da direita.

Era considerado um grande professor, atento e sensível, disciplinado, ganhando influência sobre gerações de novos artistas. Como sensível paisagista, Libindo sempre favoreceu a pintura ao ar livre, levando seus alunos com ele a pintar pelos arrabaldes semi-rurais da capital. Sua atuação para as artes do Rio Grande do Sul e mais especificamente de Porto Alegre foi fundamental tanto no âmbito artístico e pedagógico quanto no institucional. Foi o único artista plástico entre os 25 membros fundadores da Comissão Central do Instituto Livre de Belas Artes e um dos principais responsáveis pela sobrevivência da Escola de Arte em seus primeiros anos, em que permaneceu sempre prejudicada pela falta de verbas, de mestres e de boas instalações, tornando-se respeitado como um líder e um empreendedor.Avancini, José Augusto. "A pintura de paisagem em Porto Alegre, c.1890 – c.1950". In: Valle, Arthur & Camila Dazzi (orgs.). Oitocentos - Arte Brasileira do Império à República, Tomo 2. Rio de Janeiro: EDUR-UFRRJ / DezenoveVinte, 2010, pp. 290-299

Ele foi um faz-tudo. Até 1913 foi o único professor da Escola. Até 1922 teve apenas um ou dois colaboradores, que estavam sempre em trânsito e nunca permaneciam muito tempo, e de 1922 até 1936, quando se aposentou, só contou com a colaboração permanente de um outro professor, Francis Pelichek. Tudo era precário, limitado e improvisado. Apesar disso, fez-se muito. Colaboradores temporários de renome passaram pela escola, como Pedro Weingärtner, Helios Seelinger, Eugênio Latour, Oscar Boeira e Augusto Luis de Freitas. Libindo iniciou a formação de uma biblioteca e de uma coleção de arte, a origem da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. A escola superou-se e se firmou.

Enquanto isso, consolidava sua carreira como pintor. Em 1916 expôs em Porto Alegre uma coleção de aquarelas; o evento foi noticiado no Rio de Janeiro, sendo chamado de "um dos mais apreciados aquarelistas que atualmente o Brasil possui. Não há muito tempo, o aludido pintor remeteu para Montevidéu cerca de vinte quadros, encomendas especiais feitas ao delicado pincel do moço artista, e agora colhe novo triunfo na atual exposição, já tendo vendido quase a totalidade dos seus trabalhos"."Bellas Artes". A Notícia, 29 de fevereiro de 1916, p. 3 Sua exposição de 1921 foi "concorridíssima", vendendo quase todas as obras."Rio Grande do Sul". Jornal do Comércio, 25 de abril de 1921, p. 2 Participou das comemorações do Centenário da Independência em 1922 fazendo uma individual no Palácio Piratini. "Rio Grande do Sul". Jornal do Comércio, 5 de setembro de 1922, p. 2 Em 1923 foi aceito no Salão Nacional no Rio de Janeiro, mas problemas no transporte impediram que as obras chegassem a tempo. Porém, depois apresentou-as na Galeria Jorge, recebendo elogios da crítica.Mattos, Adalberto. "Libindo Ferrás". In: O Malho, 1923; XII (1104): 12"Artes e Artistas". O Paiz, 13 de novembro de 1923, p. 2 No ano seguinte fez outra individual em Porto Alegre com 45 peças, também aprovada pela imprensa especializada. Publicando um artigo na revista O Malho do Rio, Adalberto Matos disse:

"Do Rio Grande do Sul, por carta de um amigo, chegaram-nos notícias, embora tardiamente, da mostra realizada em Porto Alegre pelo pintor Libindo Ferrás. Com satisfação vimos perfeitamente confirmadas as adjetivações às suas obras expostas na Galeria Jorge; sobre os mesmos trabalhos, nestas mesmas colunas, louvamos com alegria os seus quadros, o que aliás fizeram todos os jornais cariocas. O nosso informante nos diz com entusiasmo o que foi a exposição do artista gaúcho, onde os melhores elogios são feitos ao pintor. [...] A arte de Libindo Ferrás é bem a expressão de um filósofo patrício: 'A arte é adoração, é um requinte da vida subjetiva'. Daí dizermos sem rebuços: Libindo Ferrás é um artista porque interpreta e adora a natureza, porque é um crente na beleza e a compreende".Mattos, Adalberto. "Libindo Ferrás". In: O Malho, 1924; XXIII (1124): 8