Crítica do valor é uma corrente teórica alemã surgida nos anos 1980, que elabora uma crítica radical da sociedade capitalista para além do ponto de vista marxista tradicional chamada Wertkritik. A crítica do valor parte de uma reinterpretação da crítica do capitalismo de Marx, com ênfase nas suas categorias básicas como “valor”, “mercadoria” e “trabalho”. Ela nasceu como uma corrente no interior da esquerda alternativa organizada em torno do teórico alemão Robert Kurz e da revista Crítica marxista (Marxistische Kritik). Os primeiros textos da então chamada “crítica fundamental do valor” remontam a meados da década de 1980. Aos poucos, a crítica do valor, como passou a ser chamada na década de 1990, rompe com o “ponto de vista da luta de classes” e da ontologia do trabalho para se afirmar como uma corrente teórica pós-marxista. A ênfase renovada na lógica do valor e no caráter fetichista das relações sociais leva a uma análise da “socialização pelo valor” como “fim em si mesmo”, que resgata o conceito de “sujeito automático” esboçado por Marx em O Capital. Outro aspecto central das formulações iniciais da crítica do valor é a crítica da ontologização das categorias modernas como “trabalho”, “economia” e “política”.

Crítica marxista (1986-89) Um ponto central da argumentação da crítica do valor é a sua teoria da crise, apresentada pela primeira vez no ensaio A crise do valor de troca. Força produtiva ciência, trabalho produtivo e reprodução capitalista, de Robert Kurz, publicado no primeiro número da revista Marxistische Kritik. Esse primeiro número conta também com o ensaio de Ernst Lohoff, A categoria trabalho abstrato e seu desenvolvimento histórico. Em Trabalho abstrato e socialismo (MK n. 3, 1987), Robert Kurz expõe a sua interpretação da teoria do valor de Marx em contraste com as teorias de H. G. Backhaus, Isaak I. Rubin e Alfred Sohn-Rethel. Ele demonstra, igualmente, que o chamado socialismo real jamais superou a lógica do trabalho abstrato. No volume 6 da MK, a posição crítica do valor se diferencia do marxismo acadêmico neorreformista em Tudo sob controle no navio a pique. Superacumulação, crise da dívida e “política”, de Robert Kurz, e da ideologia keynesiana em Consumo estatal e falência estatal. A absorção de trabalho vivo como fundamento do ciclo de crise capitalista, de Ernst Lohoff. Ainda no contexto da antiga “crítica marxista”, destaca-se a série de quatro artigos de Peter Klein sobre a Revolução de Outubro que, em 1991, seria reeditada como livro: As ilusões de 1917. O antigo movimento operário como auxiliar do desenvolvimento da democracia moderna. Uma síntese do projeto da “crítica fundamental do valor” elaborada por Robert Kurz na forma de manifesto foi publicada pela editora Imk, em 1988, com o título Em busca do objetivo socialista perdido. Em O fetiche da luta de classes. Teses sobre a desmitologização do marxismo (MK n. 7, 1989), de Kurz e Lohoff, finalmente, ocorre uma ruptura decisiva com a antiga posição marxista.

A revista Krisis - contribuições para a crítica da sociedade da mercadoria (1990-2010) Em 1990, a revista Crítica marxista muda de nome para Krisis. A numeração, no entanto, sugere a continuidade entre as duas revistas. Assim, pode-se ler no Editorial de Krisis 8/9: “Como não lutamos mais sob a bandeira do marxismo, tendo demolido esse edifício antes tão esplendoroso ... se continuássemos a nos ater a um nome que agora faz parte da história apenas criaria confusão... Queremos ressaltar com a continuidade de numeração que não houve alteração do conteúdo com a mudança de nome e que a ‘Krisis’ continuará com a abordagem da crítica do valor”), se continuássemos a nos ater a um nome que agora faz parte da história apenas criaria confusão”. O primeiro número da Krisis [n.8/9] assinala a consolidação da mudança de perspectiva com o ensaio de Robert Kurz “Quarta-feira de cinzas do marxismo. O canto do cisne da esquerda e a crítica da economia política”. No mesmo número, Johanna W. Stahlmann, em A quadratura do círculo. Mecanismo de funcionamento e colapso da economia planejada soviética, elabora a primeira análise das contradições internas dos “mercados planejados” a partir do conceito de concorrência negativa. Esta também será a base da interpretação da derrocada do “socialismo de caserna” feita por Robert Kurz no livro O colapso da modernização, de 1991. Neste longo ensaio, que é até hoje um dos seus escritos de maior repercussão, Kurz descreve o colapso do socialismo do Leste não como a vitória do da democracia de mercado do Ocidente, mas como o início do processo de uma crise global fundamental que deve alcançar os países centrais da economia mundial. Também em 1991, em Krisis 10, aparece a contribuição decisiva de Robert Kurz para a ruptura com o conceito ontológico de trabalho: A honra perdida do trabalho. O socialismo dos produtores como impossibilidade lógica.

Outros temas recorrentes nos primeiros anos do grupo Krisis são a economia política da crise da unificação alemã, que mereceu dois livros de Kurz, A vingança de Honecker (1991) e O retorno de Potemkin (1993), e a análise da emergência do novo radicalismo de direita na Alemanha como parte da crise das instituições democráticas, que se tornam cada vez mais selvagens com o agravamento da crise. Essas análises foram reunidas no volume Os bebês de Rosemary: a democracia e seus radicais de direita (1993), com contribuições de Robert Kurz, Ernst Lohoff, Norbert Trenkle, Gaston Valdivia e Johanna W. Stahlmann. Nesse contexto de formação da crítica do valor, o correu uma incorporação progressiva da problemática de gênero, que até então não desempenhava um papel significativo na elaboração da crítica do valor. Particularmente importante aqui é o papel do ensaio de Roswitha Scholz, O valor é o homem. Teses sobre a socialização pelo valor e a relação entre os sexos, publicado em Krisis 12 (1992), que rompe com uma concepção monista da “socialização pelo valor” e estabelece o princípio da cisão estrutural do valor para avançar numa redefinição fundamental da relação entre capitalismo e patriarcado. Outra contribuição importante no número 12 da revista, dedicado ao problema de gênero, é a de Ernst Lohoff, Sexo e trabalho. Sobre a crítica da ontologia do trabalho no debate feminista.

Ao longo da década de 1990, a Krisis vai discutir o processo de crise do capitalismo a partir de diferentes aspectos e também os mecanismos de adiamento da crise fundamental a partir da expansão do capital fictício. Destaca-se aqui o ensaio de Robert Kurz, A ascensão do dinheiro aos céus. Os limites estruturais da valorização do capital, o capitalismo de cassino e a crise financeira global (1995), que constitui também um importante desenvolvimento da teoria da crise apresentada na década de 1980. O debate sobre o novo antissemitismo estrutural, sempre relacionado com uma crítica reduzida do capitalismo, que se dirige, sobretudo, ao “capital especulativo” em nome dos “postos de trabalho honestos”, também tem um lugar destacado nas páginas da Krisis, desde a contribuição de Lohoff, De Auschwitz a Bagdá. Notas sobre as admiráveis transformações do antissemitismo, de 1991, que incorpora pela primeira vez a teoria do antissemitismo de Moishe Postone, até a análise fundamental de Robert Kurz, Economia política do antissemitismo e Vizinhança desconfortável. Notas sobre a relação entre marxismo-leninismo e antissemitismo de Robert Bösch, ambos de 1995. No ano seguinte, é publicado pela editora Horlemann o volume A terceira via na guerra civil. Iugoslávia e o fim da modernização recuperadora, de Ernst Lohoff. O problema das mediações práticas da crítica social apareceu como o tema central em Krisis 18 e 19, a exemplo de Crise e libertação – libertação na crise – uma divagação pós-política, de Lohoff, e Antieconomia e antipolítica. Sobre a reformulação da emancipação social após o fim do marxismo, de Kurz. Nos volumes 20 e 21-22, por sua vez, o tema principal é a crítica do pós-modernismo como reflexo teórico do período de simulação do capitalismo de cassino, com destaque para as contribuições de Roswitha Scholz, O asselvajamento do patriarcado na pós-modernidade e Moishe Postone, Desconstrução como teoria social. Derrida sobre Marx e a nova ordem mundial, ambos em (Krisis 21-22). A contribuição de Kurz em Krisis 20, “Enófilos de todos os países, uni-vos!” vai aparecer em forma bastante ampliada no livro O mundo como Vontade e Design. Pós-modernismo, lifestyle de esquerda e estetização da crise (1999).

Em 1999, mais duas obras do Grupo Krisis, o Manifesto contra o trabalho, que logo se tornou o texto mais difundido do grupo, e o volume coletivo Fim de turno! Onze investidas contra o trabalho, com contribuições de Robert Kurz, Ernst Lohoff, Norbert Trenkle, Roswitha Scholz, Franz Schandl e Karl Heinz Wedel, entre outros. Juntamente com essa ofensiva da crítica do trabalho, Kurz publica, nesse mesmo ano, o volumoso Livro nego do capitalismo. Um canto de despedida da economia de mercado, que apresenta uma história da formação e do desenvolvimento do capitalismo até a sua crise final, passando pelas três grandes revoluções industriais. Na sequencia, apareceu outra obra importante: O sexo do capitalismo. Teorias feministas e a metamorfose pós-moderna do capital (2000), de Roswitha Scholz, que amplia e reformula suas teses originais sobre a relação entre capitalismo e patriarcado.

Nos volumes seguintes da Krisis foram abordados os processos pós-políticos de administração da crise (em Krisis 23) e teve inicio uma discussão mais sistemática da crítica do sujeito, que ganhou forma no início dos anos 1990 e teve no ensaio Dominação sem sujeito. Sobre a superação de uma crítica social redutora (1993), de Robert Kurz, um importante ponto de referência. Kurz deu prosseguimento a essa abordagem em Krisis 25 (2001) com uma crítica dos valores ocidentais do Iluminismo burguês, notadamente em Razão Sangrenta. 20 teses contra o assim chamado Esclarecimento e os “valores ocidentais, além de outros artigos que o complementaram. Mais contribuições para a crítica do sujeito apareceram nessa mesma época: Robert Bösch, Entre a onipotência e a impotência. Sobre a psicopatologia do sujeito burguês (Krisis 23); Norbert Trenkle, Negatividade interrompida. Notas sobre a crítica de Horkheimer e Adorno a Kant e ao Esclarecimento (Krisis 25); Karl Heinz Wedel, A descida do eu aos infernos. Sobre a crítica da vontade e da liberdade em Kant (Krisis 26). Essa discussão teórica vem acompanhada de uma análise paralela dos desdobramentos da administração repressiva da crise global com base na defesa dos valores ocidentais, já decifrados como uma autoafirmação da forma destrutiva do sujeito. Franz Schandl esboça essa problemática em A cruzada pós-moderna (Krisis 24). Na sequência, em Ordem da força e lógica do extermínio (Krisis 27), Lohoff investiga as transformações da guerra na história da sociedade da mercadoria e seu papel nos processos de ascensão e desintegração da ordem nacional estatal, enquanto Robert Kurz se debruça sobre as metamorfoses do imperialismo na era da globalização, no livro Guerra de ordenamento mundial, publicado em 2003 pela editora Horlemann.

A divisão do contexto da Krisis