Secos & Molhados é o álbum de estreia do grupo homônimo, lançado em agosto de 1973. Unindo a poesia de autores como Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira e João Apolinário, pai do idealizador do grupo João Ricardo, com danças e canções do folclore português e de tradições brasileiras, traz as músicas mais famosas do trio, tais como "Sangue Latino", "O Vira", "Assim Assado" e "Rosa de Hiroshima". O disco, assim como a própria banda, surgiu em meio a um tempo de censura e do Regime Militar no Brasil, ao que também retrata a liberdade de expressão, o racismo e as guerras. Um fenômeno de vendas para a época, é o LP mais famoso dos Secos e Molhados, aquele que os projetou no cenário nacional e vendeu mais de 1 milhão de cópias pelo país (mais de 1500 só na primeira semana).

O disco inovou o estilo musical da música popular brasileira com um som mais pesado que o usual e com o uso de maquiagem forte na capa, que remete ao glam rock, e desenvolveu gêneros como o pop psicodélico e o folk. Além de receber certificação de disco de platina em 1997 da ABPD pelo relançamento em CD, o quinto lugar na Lista dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil em 2007 e a 97.ª posição no "Los 250: Essential Albums of All Time Latin Alternative - Rock Iberoamericano" da Al Borde de 2008 provam que o disco continua a ser popular e criticamente admirado nos dias de hoje.

Álbum Contexto e antecedentes O Secos e Molhados começou de um projeto de João Ricardo, onde fez diversas apresentações com outros instrumentistas até encontrar Ney Matogrosso, que teria a voz mais adequada para interpretar grande parte do repertório do grupo, que já estava composto. Na época, Ney vendia suas obras na Praça da República e mexia com teatro, pintura e artesanato e foi introduzido pela compositora e amiga comum Luhli. Ricardo havia visto uma placa em Ubatuba de um armazém que vendia secos e molhados e criou o nome da marca, "um nome que não determina coisa alguma, que se abre para todos os gêneros". O trio começou a se apresentar na Casa da Badalação e Tédio, casa noturna anexa ao Teatro Ruth Escobar, acompanhados do baterista Marcelo Frias, do baixista Willi Verdaguer e do guitarrista John Flavin e suas apresentações já recebiam muita audiência. O sucesso do conjunto chamou a atenção do empresário Moracy do Val, que começou a empresariá-los e os apresentou aos executivos da gravadora Continental para tentarem gravar um disco. Na época, a gravadora era uma das principais companhias fonográficas nacionais e disputava mercado com outras empresas multinacionais.

Assim, o grupo emergiu e criou um disco em uma época de Regime Militar e de rígida censura. Como escreve José Roberto Zan, "Em 1973, momento em que o regime ditatorial militar do Brasil mostrava sua face mais violenta, a banda Secos & Molhados surgia como fenômeno de mercado, vendendo milhares de discos e atraindo milhares de pessoas aos seus shows." Em 1963, o governo federal havia baixado o decreto-lei número 314, subordinando a lei de imprensa, que no Brasil abrangia o rádio, a televisão e as agências de informação, à Nova Lei de Segurança Nacional. Em 13 de dezembro de 1968, o governo baixou o Ato Institucional no. 5 que instituiu a censura no Brasil.cf. Maklouf, 1984, pgs. 142-3 A arbitrariedade do regime atingiu seu ápice quando o Presidente Emílio Garrastazu Médici assinou uma exposição de motivos secreta que facultava ao Ministro da Justiça a aplicação do artigo 9.º do AI-5, em que no parágrafo 2.º do artigo 152 da Constituição autorizava a "suspensão de liberdade de reunião, associação, censura de correspondência, da imprensa, das telecomunicações e diversões públicas". Em 1976, foram divulgados os seguintes dados da censura referentes à música popular: de 30 518 composições analisadas, 292 tinham sido vetadas.Maklouf, 1984, p.144.

A criação do disco Secos & Molhados de 1973 também acompanhou um tempo de mudança no consumo de produtos fonográficos no país. A década de 1960 e década de 1970 experimentaram no Brasil um percentual significativo em relação à compra de vinis. No início, o formato compacto do LP era o mais vendido e, ao longa da década, se tornou o produto mais comercializado. A música gravada fez com que a indústria fonográfica registrasse forte expansão, atraindo novos e grandes investimentos.cf. Morelli, 1988, p.42. Assim, "buscando alternativas para conquistar público num mercado aquecido e disputado por grandes empresas multinacionais, a Continental, uma das maiores gravadoras de capital nacional, diversificava seu catálogo dando espaço a novos grupos e compositores, mesmo que isso gerasse, num curto prazo, algum prejuízo."

Segundo alguns autores, uma das justificativas da gravadora em contratar o Secos e Molhados foram as novidades canalizadas pelo empresário Moracy do Val à gravadora, "ávida por algum sucesso que lhe desse retorno financeiro e, acima de tudo, agregasse-lhe prestígio por gravar uma produção artística, aos olhos dos 'formadores de opinião', de caráter mais refinado." Walter Franco teria sido outro músico da gravadora considerado "difícil" pelo público. Tudo se deu principalmente porque, em 1973, o Secos e Molhados apresentava-se numa das salas do Teatro Ruth Escobar, e, ganhando enorme sucesso com o público, atraiu a atenção dos empresários do meio musical e rapidamente surgiu o convite para a gravação do primeiro álbum.cf. Neves, 1978, p. 8.

Gravação O produtor Moracy do Val iniciou uma incansável estratégia de trabalho ao agendar apresentações e enviar fitas-demo dos ensaios do Secos e Molhados para as gravadoras. De todas as solicitadas, apenas a Continental apostou no conjunto, graças à Moracy, que era dirigente de um jornal interno da empresa e conhecido por algumas pessoas importantes da gravadora. Com a chance de gravarem o primeiro álbum do grupo, os músicos iniciaram várias sessões de ensaios de preparação antes de entrarem em estúdio, o que ocorreria entre os meses de maio e junho de 1973.É desse tempo que datam as primeiras apresentações do Secos e Molhados na TV, nos programas Mixturasom, Papo Pop e Band 13.

Apesar de seu catálogo de discos ser mais voltado para a música regional e sertaneja, a empresa Continental resolveu apostar na novidade. No entanto, não liberou muito dinheiro por conta do futuro incerto da banda. Em maio de 1973, o trio gravou as 13 canções que compõem o LP, começando no dia 23. Realizadas no Estúdio Prova, em São Paulo, as gravações do disco se deram em seis horas diárias durante quinze dias, gravadas "precariamente" em 4 canais do estúdio. João Ricardo fez a direção musical enquanto Moracy se encarregou de ser o produtor. Os arranjos foram assinados pela própria banda, com exceção da faixa "Fala", que contou com a participação de Zé Rodrix. Rodrix dedilhava seu teclado moog após a orquestra e os outros instrumentos cessarem, técnica que só pode ser ouvida nos CDs relançados do grupo já na década de 1990, pois no vinil original esta música continha 15 minutos a menos.

Marcelo Frias participou como baterista e também saiu na capa do disco, contudo desistiu logo depois de sua realização. Gérson Conrad relata que "convidamos os músicos [de apoio] para se tornarem membros oficiais do grupo, mas só o Marcelo aceitou. Depois, receoso, ele preferiu seguir como músico contratado, mas a foto [da capa do disco] já havia sido feita." No ano seguinte, por divergências e falta de interesse em continuar, não participou de nenhuma das gravações do segundo álbum do Secos e Molhados.

Capa Fazendo jus ao nome do grupo, um então fotógrafo do jornal carioca Última Hora, chamado Antônio Carlos Rodrigues, produziu uma mesa de jantar com produtos vendidos em armazém (nome genérico para secos e molhados), onde vemos broas, linguiças, cebolas, grãos de feijão, vinho barato da marca Único, etc. O nome do grupo, em cima da mesa, em letras roxas brilhantes, alude à placa que João Ricardo teria visto numa visita à Ubatuba e que lhe deu a ideia para o nome do conjunto. Dentro das bandejas, estão as cabeças de Ney Matogrosso, João Ricardo, Gérson Conrad e Marcelo Frias (baterista que não aceitou integrar o grupo)."Frias decidiu continuar apenas como músico de apoio por não ter a obrigatoriedade de se apresentar maquiado tal qual os outros integrantes e por não desejar fazer parte de uma banda com probabilidades de sucesso incerto".

Rodrigues já havia antes fotografado a cabeça de sua mulher servida num prato na revista Fotoptica, inspirado por meninas na praia com o rosto pintado e, por trabalhar no mesmo jornal que João Apolinário, pai de João Ricardo, não demorou em conhecer o grupo. "Eu ainda não conhecia o grupo e quando fiquei sabendo do nome, montei uma mesa no meu estúdio com vários secos e molhados, coloquei a cabeça deles ali e os maquiei", contou em entrevista à revista Bizz. No estúdio fotográfico, demoraram uma madrugada para a sessão de fotos da capa. Por debaixo da mesa estavam sentados em cima de tijolos. "Ficamos lá a madrugada inteira, sentados em cima de tijolos", conta João Ricardo, "e fazia um frio horroroso debaixo da mesa"."A Maior das Capas". Folha Ilustrada, 30/03/2001. Ney Matogrosso lembra que "Em cima queimava, por causa das luzes [...] comprei os mantimentos no supermercado, a toalha foi improvisada com plástico qualquer, a mesa era um compensado fino que nós mesmos serramos para entrarem as cabeças." Segundo João, "Tinhamos fome e estávamos duríssimos, fomos tomar café com leite. Não sei por quê, mas não me lembro de termos comido os alimentos da mesa."

Alguns autores notam que já na capa do disco existe uma cena e um comprometimento antropofágico, com as cabeças sobre bandejas numa mesa "para o deleite gastronômico dos ouvintes". A capa integrou uma exposição em junho de 2008 no Centro Cultural da Espanha, em Miami, que reuniu as 519 melhores capas do pop e rock latino-americano. Em 1995, a banda Titãs produziu o clipe da música "Eu Não Aguento" com a introdução do baixo de "Sangue Latino" e com a cabeça de seus integrantes à mesa, em pratos. Em 2001, o jornal Folha de S.Paulo a elegeu como a melhor capa de long play de toda a história da música popular brasileira.

Estilo Gêneros e influências O próprio nome do grupo, Secos e Molhados, que também é o nome do álbum, atesta que seu gênero é uma mistura de tudo. No disco, há a incorporação da musicalidade da MPB da época e toques de rock and roll, baião, jazz, pop e rock progressivo. Durante os anos 70, além de Raul Seixas, alguns grupos tiraram um som marginal à tendência progressiva dominante. O mais bem-sucedido [...] foi o Secos e Molhados [...]"</ref> É possível encontrar nas canções do disco "características do glam rock (maquiagem e postura) e do folclore português, poesia brasileira e portuguesa, engajamento, elementos rítmicos e instrumentais da música latino-americana e do rock nos arranjos de guitarras e sintetizadores, exuberâncias performáticas com referências explícitas à androginia e à sexualidade, de forma transgressora e, ao mesmo tempo, passível de ser entendida e admirada." Em 1974, contudo, João Ricardo contestava o título de progressivo e as comparações que alguns jornalistas faziam entre o grupo e Alice Cooper. Segundo ele, "É uma coisa completamente estúpida: enquanto eles são americanos, refletem a decadência de uma sociedade superdesenvolvida, e nós somos brasileiros, um país subdesenvolvido, com toda a sorte de preocupações, principalmente em não cometer os erros já cometidos."Nunes, 2003, p.144.