Surfer Rosa é o álbum de estreia da banda de rock alternativo norte-americana Pixies, lançado em março de 1988 pela gravadora independente 4AD.O anterior trabalho dos Pixies, Come on Pilgrim, foi um EP, não um LP. O álbum distingue-se pelas referências pouco habituais a temas como mutilação ou voyeurismo, pela produção lo-fi, e pelo som único da bateria, que deve muito ao engenheiro de som Steve Albini. Este álbum continua muitos dos temas abordados no anterior trabalho dos Pixies, incluindo letras em espanhol, e referências a Porto Rico.
Por causa do estatuto independente da 4AD, a distribuição nos Estados Unidos foi feita pela Rough Trade Records. Surfer Rosa falhou os tops no Reino Unido (RU), e "Gigantic" foi o único single a ser retirado do álbum. Embora só tenha atingido o 93º posto no top de Singles do RU, Surfer Rosa foi re-editado nos EUA pela Elektra Records em 1992. Apesar do pouco sucesso nos tops, Surfer Rosa foi certificado com Ouro em 2005 pela Recording Industry Association of America.
Embora não tenha tido sucesso comercial, Surfer Rosa é frequentemente citado como um dos favoritos da crítica musical, e é habitualmente colocado em listas profissionais de melhores álbuns rock de todos os tempos. Muitos artistas de rock alternativo, incluindo Billy Corgan e PJ Harvey, citaram o álbum como fonte de inspiração. Kurt Cobain, do Nirvana, admitiu em diversas ocasiões que o Surfer Rosa constituiu uma importante inspiração para o Nevermind, e em 1993 contratou Albini para a gravação do In Utero.
Antecedentes Antes do lançamento do EP de estreia dos Pixies Come on Pilgrim em Outubro de 1987, Ivo Watts-Russell, patrão da 4AD, sugeriu que o grupo regressasse ao estúdio para um álbum de longa duração. O plano original seria gravar o novo material nos estúdios da Fort Apache, onde a banda produziu The Purple Tape e Come on Pilgrim. Contudo, Gary Smith, produtor das duas anteriores gravações, exigiu o pagamento de prémios resultantes de futuros álbuns dos Pixies que fossem gravados nos Estúdios da Fort Apache. A razão para tal era que ele tinha pago as sessões de gravação da banda sozinho e não tinha recebido dinheiro com Come on Pilgrim. Os Pixies não concordaram com as suas exigências, e começaram a procurar um novo produtor e estúdio.Frank, Josh; Ganz, Caryn. "Fool the World: The Oral History of a Band Called Pixies." Virgin Books, 2005. ISBN 0-312-34007-9. p. 75
A conselho de um colega da 4AD, Watts-Russell tentou contratar Steve Albini, líder dos Big Black, como engenheiro e produtor de gravação. Após ter enviado uma cassete de Come on Pilgrim a Albini, o manager dos Pixies, Ken Goes, convidou-o para um encontro em casa do baterista Dave Lovering poucas semanas após o lançamento do Come on Pilgrim. Aí, discutiram o som da próxima gravação e como esta seria feita. De acordo com Albini, "[a banda e eu] fomos para o estúdio logo no dia seguinte." Paul Kolderie, que tinha trabalhado nos estúdios da Fort Apache Studios com Smith, recomendou o estúdio de Boston Q Division a Albini.Frank, Ganz, 2005. p. 76 Este facto criou tensão entre Smith e Kolderie, e este mais tarde afirmou que "o Gary quase me matou por causa da sugestão, ele pensou que eu estava a tentar ficar com o projecto."Frank, Ganz, 2005. p. 77
Gravação e produção Os Pixies entraram na Q Division em Dezembro de 1987,O exacto dia do começo da gravação de Surfer Rosa é desconhecido. e alugaram por dez dias um estúdio para gravar o álbum. Para tal, a 4AD destinou à banda 10 000 dólares.Sisario, 2006. p. 46 Albini recebeu 1 500 dólares e não teve qualquer royalty;Albini, Steve. "Não lhe chamam o Martin Hannett dos Anos 90 sem razão." Forced Exposure #17. 1991. Tal justificou-se pelo facto de Albini o ter recusado, já que o via como "um insulto para a banda."Azerrad, Michael. Our Band Could Be Your Life: Scenes from the American Indie Underground, 1981-1991. Little, Brown and Company, 2001. ISBN 0-316-78753-1, p. 344 Jon Lupfer da Q Division foi o assistente de estúdio. O processo de gravação durou todos os dez dias a completar, com as misturas das vozes extra a serem adicionadas subsequentemente em estúdio. Albini planeou fazer a mistura da gravação "noutro sítio", mas de acordo com Lupfer, "Ele estava descontente com essa possibilidade."Frank, Ganz, 2005. p. 83
Durante o processo, Albini usou técnicas de gravação pouco habituais. Para a voz de Kim Deal em "Where Is My Mind?" e "Gigantic", Albini deslocou o equipamente de estúdio e fez a gravação numa casa-de-banho para conseguir um eco mais realista. De acordo com John Murphy, marido de Deal na altura, "Albini não gostava do som do estúdio."Frank, Ganz, 2005. pp. 80–1 Albini mais tarde afirmou que as gravações podiam ter sido concluídas numa semana, mas "acabámos por tentar experimentar outras situações basicamente para queimar tempo e para ver se alguma coisa boa surgia." Um exemplo foi a "Something Against You", onde Albini filtrou a voz de Black Francis através de um amplificador de guitarra para "uma textura totalmente enraivecida e violenta."
Apanhados em estúdio A faixa "You Fuckin' Die!" é a gravação de uma conversa mantida entre Francis e Albini. Em algumas versões do álbum surge como "Untitled" ou então é colocada no início de "Vamos". De acordo com Lupfer, "era algo que ele [Albini] iria fazer para tentar conseguir algum apanhado de estúdio." Quando Deal ia a sair do estúdio para ir fumar um cigarro, ela disse "Se alguém toca nas minhas coisas, mato-o" (no original "If anybody touches my stuff, I'll kill ya.") Francis respondeu com "Eu mato-te, morres, se alguém tocar nas minhas coisas" (original "I'll kill you, you fucking die, if anybody touches my stuff"). A faixa inicia-se neste ponto, com Francis a explicar a conversa a Albini, cuja voz não se consegue ouvir.Francis, Black. Lyrics. "Vamos." Surfer Rosa. LP. 4AD 1988. Lupfer mais tarde admitiu que Albini sabia "perfeitamente o que se estava a passar."Frank, Ganz, 2005. p. 79
"I'm Amazed" começa com Deal a contar a história sobre um dos seus antigos professores a Francis, e este acaba a gozá-la.Francis, Black. Lyrics. "I'm Amazed." Surfer Rosa. LP. 4AD 1988. Albini mais tarde descreveu estes apanhados em Surfer Rosa: "Estão na gravação para sempre por isso penso que eles agora estão obrigados a dizer que os aceitam, mas honestamente não sei se essa ideia teria surgido se eu não o tivesse feito. Há alturas em que situações como essas são engraçadas e eu senti que ficavam bem no álbum."Frank, Ganz, 2005. p. 80
Música Como o Come On Pilgrim, Surfer Rosa possui uma mistura de vários estilos musicais. Canções pop como "Broken Face", "Break My Body" e "Brick is Red" surgem incluídas com outras mais lentas e melódicas, como a "Where Is My Mind?." O álbum inclui material mais pesado (“I’m Amazed”, esta bem marcada por um som achicanado, e “Something against you”, com muita distorção nas vozes, ambas revelando a faceta punk da banda), bem como a típica dinâmica "quiet-loud" da banda. O líder e principal compositor Black Francis escreveu grande parte do material, com excepção feita a "Gigantic," que foi escrita em colaboração com Kim Deal. "Gigantic" é também a única canção que Deal fez a voz principal numa faixa para um álbum dos Pixies.
200px|thumb|Pixies ao vivo em 2004. O conteúdo lírico de Surfer Rosa inclui examinações de mutilação em "Break My Body" e "Broken Face", enquanto que são feitas referências a super-heróis em "Tony's Theme". O voyeurismo surge em "Gigantic", e as letras de cariz surrealista encontram-se em "Bone Machine" e "Where Is My Mind?". Também são feitas referências a Porto Rico nas letras em espanhol de "Oh My Golly!" e "Vamos." Esta última faixa já havia sido incluída anteriormente em Come on Pilgrim, e aparece no Surfer Rosa como uma versão regravada do original. Muitos dos temas explorados em gravações anteriores são assim revisitados em Surfer Rosa.
Outro tema pouco comum é abordado neste álbum. A canção "Cactus" é narrada por um prisioneiro que pede à sua namorada que manche o seu vestido com sangue e lhe o envie. "Gigantic" é inspirada no filme de 1986 Crimes of the Heart, no qual uma mulher casada apaixona-se por um adolescente. Francis inspirou-se para escrever "Where Is My Mind?" após praticar mergulho nas Caraíbas. Ele mais tarde afirmou que tinha "este pequeno peixe a tentar apanhar-me. Eu não sei porquê, não sei muito acerca do comportamento dos peixes."
Lançamento O Surfer Rosa foi lançado no Reino Unido pela 4AD a 21 de Março de 1988, entrando para a UK Indie Chart na semana seguinte. Esteve durante 60 semanas nessa tabela e atingiu o 2º lugar. Até Agosto desse ano, estava apenas disponível nos Estados Unidos e noutros países através da importação. Apesar da editora deter os direitos da distribuição mundial dos trabalhos dos Pixies, não tinha no entanto acesso a nenhum distribuidor fora do RU. Quando a 4AD assinou um acordo de distribuição com a filial norte-americana da Rough Trade, o álbum foi lançado em vinil e cassette como parte do pack Surfer Rosa/Come On Pilgrim. Enquanto Surfer Rosa/Come On Pilgrim se mantinha apenas como CD único no RU, os subsequentes lançamentos nos EUA já eram feitos em CDs separados. Estes surgiram pela primeira vez em Janeiro de 1992, quando a Elektra Records reeditou os primeiros dois discos da banda. Após a 4AD ter readquirido os direitos de distribuição da banda nos EUA, manteve o lançamento dos CDs em separado. Surfer Rosa foi certificado com Ouro pela Recording Industry Association of America em 2005, 17 anos após o seu lançamento original.
"Gigantic" foi o único single retirado de Surfer Rosa. A canção e o seu B-side, "River Euphrates", foram regravadas por Gil Norton no Blackwing Studios em Londres, em Maio de 1988.Sisario, 2006. p. 43 Embora o single tenha sido bem recebido pela crítica,Frank, Ganz, 2005. p. 88 falhou nas vendas, e apenas conseguiu estar uma semana em 93º no top de singles do Reino Unido. Apesar da fraca performance comercial tanto de Surfer Rosa como de "Gigantic", Ivo Watts-Russell afirmou que a resposta a este álbum foi "cinco vezes" superior à encontrada por Come on Pilgrim.
Capa A capa de Surfer Rosa inclui uma fotografia em topless de uma "amiga de um amigo" da banda, em pose de dançarina de flamenco, em frente a uma parede com um crucifixo e um poster rasgado.Capa de Surfer Rosa Simon Larbalestier, que forneceu fotografias para todos os álbuns dos Pixies, decidiu criar o cenário porque "nós não conseguiamos encontrar a atmosfera natural que pretendíamos." De acordo com Larbalestier, Francis teve a ideia para a capa enquanto escrevia canções na "barra espanhola de topless"Tradução literal para "topless Spanish bar" do seu pai. Larbalestier adicionou o crucifixo e o poster rasgado, por eles "carregarem o simbolismo do Catolicismo."Frank, Ganz, 2005. p. 84 Pode-se ver semelhanças entre a fotografia de Simon Larbalestier e a série de imagens intitulada “Explosante Fixe”, produzida no início dos anos 1930 por Man Ray, artista surrealista. Comentando a capa em 2005, Francis disse que "Eu apenas espero que as pessoas a achem interessante."Wolk, Douglas. "Pixies - Surfer Rosa". Spin. Julho de 2005. O livrete inserido no álbum continua o tema, sendo constituído por fotografias da dançarina em diversas poses. Não quaisquer letras ou conteúdo escrito no livrete, para além dos créditos.