Joana Baptista Vasconcelos (Paris, 8 de novembro de 1971) é uma escultora e artista de instalação portuguesa, conhecida por esculturas monumentais e instalações imersivas que descontextualizam objetos do quotidiano.
Vasconcelos trabalha à escala monumental em crochet feito à mão, bordado e têxteis, em azulejos pintados à mão e em objetos domésticos de produção em série, como tachos de aço inoxidável e talheres de plástico. As suas esculturas e instalações abordam a condição feminina, a sociedade de consumo, a devoção popular e a identidade nacional portuguesa, frequentemente através do humor e da ironia.
Em 2012 tornou-se a primeira mulher e a mais jovem artista a expor individualmente no Palácio de Versalhes e, em 2013, representou Portugal na 55.ª Bienal de Veneza com Trafaria Praia, o primeiro pavilhão flutuante do certame. A retrospetiva I'm Your Mirror, apresentada em 2018 no Museu Guggenheim de Bilbau, fez dela a primeira artista portuguesa com uma exposição individual naquele museu, e expôs desde então nas Galerias Uffizi, em Waddesdon Manor e no Museu Picasso de Málaga. Alcançara projeção internacional em 2005, na 51.ª Bienal de Veneza, com A Noiva (2001–2005), um lustre cujos pendentes de cristal são substituídos por tampões higiénicos.
Dirige em Lisboa um atelier com várias dezenas de colaboradores e, desde 2012, a Fundação Joana Vasconcelos. As suas exposições estão entre as mais visitadas alguma vez dedicadas a um artista português vivo e a receção crítica tem sido diversa.
Biografia Infância e formação Joana Vasconcelos nasceu em Paris, em 1971, filha de pais portugueses então exilados em França por oposição ao Estado Novo. Após a Revolução dos Cravos de 1974, a família regressou a Portugal, fixando-se em Lisboa quando a artista tinha cerca de três anos.
Cresceu num meio ligado às artes: o pai, Luís Vasconcelos, era fotojornalista, a mãe estudou artes decorativas na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, a avó era pintora e uma tia era poetisa. Frequentou o liceu francês de Lisboa e, mais tarde, a Escola Artística António Arroio; pratica karaté desde criança.
Entre 1989 e 1996 formou-se no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, onde frequentou o Curso Básico de Desenho (1989–1994), o Curso Básico de Joalharia (1991–1995) e o Curso Avançado de Artes Plásticas (1994–1996); em 1991–1992 completou o primeiro ano do curso de Design do IADE. No início do percurso passou pela Galeria 111, onde contactou com artistas como Júlio Pomar, Paula Rego e Graça Morais. Vive e trabalha em Lisboa.
Carreira Primeiros trabalhos e reconhecimento Vasconcelos começou a expor em meados da década de 1990. Obras como Flores do Meu Desejo (1996), Sofá Aspirina (1997), Cama Valium (1998), Loft (1996–2010) e www.fatimashop (2002), uma carrinha Piaggio transformada em loja ambulante de imagens luminosas de Nossa Senhora de Fátima, fixaram as estratégias que viria a desenvolver: a apropriação de objetos domésticos, devocionais e de produção em série e a sua ampliação, acumulação ou deslocação de contexto. Venceu o Prémio EDP Novos Artistas em 2000 e o prémio Fundo Tabaqueira Arte Pública em 2003.
Projeção internacional (2005–2011) Em 2005 participou na 51.ª Bienal de Veneza, na exposição do Arsenale Always a Little Further, com curadoria de Rosa Martínez, onde apresentou A Noiva, um lustre com cerca de seis metros de altura cujos pendentes de cristal são substituídos por tampões higiénicos.As fontes divergem quanto ao número de tampões: o atelier da artista indica cerca de 14 000, enquanto o National Museum of Women in the Arts refere 25 000. A obra, colocada junto de trabalhos das Guerrilla Girls, deu-lhe visibilidade internacional, mas motivou também reparos: numa recensão da bienal, Susanne König considerou que a associação entre as duas propostas assentava numa leitura demasiado imediata do feminino.
Seguiram-se a Trienal de Echigo-Tsumari, no Japão (2006), a exposição Contaminação na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2008) e a participação na coletiva Un Certain État du Monde? A Selection of Works From the François Pinault Foundation Collection, no Garage Center for Contemporary Culture, em Moscovo (2009). Em 2010 apresentou I Will Survive na Haunch of Venison, em Londres (21 de julho a 25 de setembro), e a antológica Sem Rede no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, que teve grande adesão de público.
Em junho de 2011, a instalação Contaminação (2008–2010) abriu a exposição coletiva The World Belongs to You, no Palazzo Grassi, em Veneza; a obra integra a Coleção Pinault.
Versalhes e o Pavilhão de Portugal (2012–2013) thumb|Obra de Joana Vasconcelos instalada em Versalhes, 2012 Em 2012 expôs no Palácio de Versalhes, no âmbito do programa de arte contemporânea iniciado em 2008, depois de Jeff Koons, Takashi Murakami, Xavier Veilhan, Bernar Venet e Lee Ufan. Foi a primeira mulher e a mais jovem artista a receber o convite. Com curadoria de Jean-François Chougnet e patente de 19 de junho a 30 de setembro de 2012, a exposição distribuiu-se pelos aposentos reais e pelos jardins, com obras como Marilyn na Galeria dos Espelhos, Perruque na Câmara da Rainha, Lilicoptère, um helicóptero Bell 47 revestido a penas de avestruz, folha de ouro e cristais Swarovski, e três Valquírias na Galeria das Batalhas. Segundo o Portuguese American Journal, que cita o Le Figaro, a mostra terá recebido cerca de 1,6 milhões de visitantes, sendo apontada como a exposição de arte mais visitada da região de Paris em cinquenta anos.
Dias antes da abertura, A Noiva foi excluída da mostra por decisão de Catherine Pégard, presidente do estabelecimento público do palácio, que invocou a ausência da obra do projeto inicial, a diversidade cultural do público do palácio e o entendimento de que "o castelo não é uma galeria". Vasconcelos respondeu que o tampão continua a ser "um objeto proibido pela sociedade"; a peça viria a ser exposta nesse ano no Centquatre, em Paris.
thumb|Trafaria Praia, o cacilheiro convertido em Pavilhão de Portugal na 55.ª Bienal de Veneza, 2013 Em 2013 representou Portugal na 55.ª Bienal de Veneza com Trafaria Praia, com curadoria de Miguel Amado, patente de 1 de junho a 24 de novembro. Um cacilheiro desativado foi convertido em pavilhão nacional, o primeiro pavilhão flutuante da Bienal: o casco exibe um painel de azulejos pintados à mão com 60 metros, produzido pela Viúva Lamego, com um panorama contemporâneo de Lisboa, enquanto o interior alberga um ambiente azul de crochet e luz, a Valquíria Azulejo. No mesmo ano apresentou uma exposição no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, de 23 de março a 25 de agosto.
Exposições museológicas (2014–2020) thumb|O Museu Guggenheim de Bilbau durante I'm Your Mirror, 2018 A Time Machine, na Manchester Art Gallery (2014), seguiu-se um conjunto de exposições institucionais na Europa e na Ásia, entre as quais Textures of Life, no ARoS Aarhus Kunstmuseum (2016–2017), para a qual criou a Valkyrie Rán, hoje na coleção do museu.
Em 2018 apresentou a retrospetiva I'm Your Mirror no Museu Guggenheim Bilbau (29 de junho a 11 de novembro), com curadoria de Enrique Juncosa e Petra Joos, tornando-se a primeira artista portuguesa a expor individualmente naquele museu. A mostra reuniu cerca de trinta obras e incluiu Egeria, uma Valquíria criada para o átrio do edifício. A exposição viajou depois para o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto (19 de fevereiro a 24 de junho de 2019), onde foi vista por cerca de 585 mil pessoas, e para o Kunsthal Roterdão (20 de julho a 17 de novembro de 2019). Maximal, a sua primeira exposição individual num museu alemão, teve lugar no Max Ernst Museum, em Brühl, em 2019.
Em 2020 criou a obra específica Valkyrie Mumbet para a inauguração do MassArt Art Museum, em Boston, a 22 de fevereiro, na que foi a sua primeira exposição individual num museu dos Estados Unidos. A peça integra a série das Valquírias, dedicada a mulheres associadas aos lugares que as acolhem, e homenageia Elizabeth Freeman, mulher escravizada cuja ação judicial de 1781 contribuiu para o fim da escravatura no Massachusetts.
A sua maior exposição no Reino Unido até então, Beyond, esteve patente no Yorkshire Sculpture Park de 7 de março de 2020 a 10 de janeiro de 2021.
Trabalho recente (2021–presente) thumb|Solitário nº1 no MAAT, Lisboa Em 2023 expôs nas Galerias Uffizi e no Palácio Pitti, em Florença, com Between Sky and Heart (4 de outubro de 2023 a 14 de janeiro de 2024), com curadoria de Eike Schmidt e Demetrio Paparoni, que colocou a Royal Valkyrie na Tribuna dos Uffizi e Marilyn na Sala Bianca do Palácio Pitti. No mesmo ano apresentou Plug-in no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, com curadoria de João Pinharanda; até final de março de 2024 a mostra tinha recebido mais de 260 mil visitas.
A sua primeira exposição individual na China, Through Mountains and Seas, abriu em 2023 na Tang Contemporary Art, em Pequim, reunindo mais de trinta obras.
Ainda em 2023 concluiu, ao fim de cinco anos de trabalho, The Wedding Cake, um pavilhão escultórico cerâmico de três andares com doze metros de altura e cerca de onze de diâmetro, encomendado pela Rothschild Foundation para os jardins de Waddesdon Manor, em Inglaterra. No mesmo ano instalou a Árvore da Vida na Santa Capela do Castelo de Vincennes, em França, uma árvore de treze metros em crochet e bordado, composta por mais de cem mil elementos têxteis cosidos à mão, muitos deles cortados a partir de tecidos já existentes no atelier e executados durante os confinamentos da pandemia de covid-19.Os números divergem entre fontes: The Art Newspaper refere 110 000 peças cosidas à mão, enquanto o atelier da artista indica cerca de 140 000 folhas distribuídas por 354 ramos.
Em 2024, o recém-criado Malta International Contemporary Art Space (MICAS), em Floriana, inaugurou a sua programação com a exposição individual Transcending the Domestic (27 de outubro de 2024 a 17 de abril de 2025), que reuniu Valkyrie Mumbet, Jardim do Éden e a Árvore da Vida. No mesmo período apresentou Le Château des Valkyries no Castelo de Gottorf e no Eisenkunstguss Museum, na Alemanha (1 de maio a 3 de novembro de 2024).
Em 2025 apresentou Flamboyant no Palácio de Liria, em Madrid, a sua primeira intervenção num palácio habitado, e Flowers of My Desire no Museo Comunale d'Arte Moderna de Ascona, a sua primeira exposição pública na Suíça, com curadoria de Mara Folini e Alberto Fiz. No mesmo ano tornou-se a primeira artista portuguesa a assinar o rótulo de uma colheita do Château Mouton Rothschild, com a obra Paraíso, criada para a colheita de 2023.
Em janeiro de 2026 a Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti inaugurou Venus: Valentino Garavani através do olhar de Joana Vasconcelos, no Palazzo Mignanelli, em Roma, acompanhada de instalações em espaços públicos da cidade. A 29 de maio de 2026 abriu no Museu Picasso de Málaga a exposição Transfiguração, com curadoria de Miguel López-Remiro Forcada.
Obra Temas e método A obra de Joana Vasconcelos parte tipicamente de um objeto associado ao trabalho doméstico, à devoção popular ou ao consumo de massas e altera-lhe a escala, a quantidade ou o contexto: tachos tornam-se sapatos de salto alto, talheres de plástico tornam-se um coração de filigrana, estendais e ferros de engomar tornam-se escultura cinética. Técnicas artesanais tradicionalmente associadas ao feminino, como o crochet, o bordado, a renda e a pintura de azulejo, são usadas à escala arquitetónica, estratégia lida por parte da crítica como uma tentativa de monumentalizar e revalorizar o trabalho das mulheres. A sua obra estabelece relações com o ready-made, o nouveau réalisme e a pop art, e recorre repetidamente a referentes vernaculares portugueses: o galo de Barcelos, o coração de Viana, o azulejo, a varina, as sete saias da Nazaré e a iconografia de Fátima.