Bernarda Carvalho de Rezende, a Dina Mangabeira (Bocaiúva, 20 de agosto de 1923 — Belo Horizonte, 11 de fevereiro de 2000), foi uma poetisa, escritora, cronista e trovadora brasileira. Esteve vinculada a diversas academias de letras em Minas Gerais, como a Academia Feminina Mineira de Letras, e publicou, entre outras obras, os livros No Palco Real da Vida (1986) e À Sombra do Passado (1990).COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras. São Paulo: Escrituras, 2002. p. 158. Em 2025, sua família publicou postumamente A Lógica da Minha Saudade, redigido entre 1999 e 2000. Representou uma voz significativa da literatura feminina mineira do século XX, contribuindo para a legitimação da participação feminina nas academias literárias regionais e preservando a memória cultural do norte de Minas Gerais.
Biografia
Primeiros anos e formação Bernarda Carvalho nasceu em 20 de agosto de 1923, na fazenda Morro Agudo, zona rural de Bocaiúva, no norte de Minas Gerais. No entanto, registros biográficos e publicações literárias citam frequentemente a sua naturalidade como sendo de Montes Claros. Essa contradição de informações sobre o local de nascimento foi gerada intencionalmente, tratando-se de uma escolha literária da autora: enquanto a pessoa física Bernarda Carvalho era natural de Bocaiúva, sua persona artística e pseudônimo "Dina Mangabeira" assumiu Montes Claros como sua cidade natal literária.
Ela era filha de Antônia Pereira da Fonseca e Manoel José de Carvalho (conhecido como Neco Mangabeira), que era fazendeiro. O sobrenome literário e familiar "Mangabeira" possui forte ligação com a história econômica regional, originando-se do ofício de seu avô paterno, Herculano José de Carvalho (conhecido como Cula Mangabeira). Durante o período do ciclo da borracha, que também impulsionou a economia em regiões do interior de Minas Gerais e do Nordeste, a produção não se restringia às seringueiras amazônicas: Cula Mangabeira dedicava-se à extração e industrialização do látex (ou leite) da mangaba em fazendas do norte mineiro e da Bahia, comercializando-o para diversas fábricas de borracha. Natural de Tremendal, Herculano casou-se com dona Mariana Santos Carvalho. Ao se transferir para Montes Claros, Cula Mangabeira atuou como comerciante e fazendeiro, destacando-se como um dos pioneiros do bairro Santo Expedito. Em prol do desenvolvimento e da educação local, ele doou uma área de 5.000 metros quadrados no respectivo bairro para que fosse construído o Grupo Escolar Clóvis Salgado.
A região de Bocaiúva onde a autora nasceu situa-se numa área de transição entre Cerrado e Caatinga, com formação histórica ligada ao antigo "Curato de Macaúbas" (1710-1720) e economia baseada na criação de gado, preservando manifestações culturais tradicionais como Folia de Reis, Catira e Congado, elementos que posteriormente permearam sua obra poética.
Aos dois anos de idade mudou-se com os pais e irmãos para Montes Claros, cidade onde passou a infância e cursou os estudos primários e o ensino normal, concluindo a formação correspondente ao segundo grau completo. Formou-se professora de 1º Grau em 1943 e lecionou no Instituto Norte Mineiro de Educação, em Montes Claros, de 1945 até 1948.
Vida familiar Casou-se em 1946 com Ailton Rosa Rezende, funcionário do Banco do Brasil. Com o matrimônio, ela mudou legalmente seu nome, adotando o sobrenome do marido e passando a assinar Bernarda Carvalho de Rezende. Dois anos depois, deixou o magistério para se dedicar exclusivamente à família e aos quatro filhos do casal, entre eles Adalberto Carvalho de Rezende. Durante este período, manteve-se intelectualmente ativa, desenvolvendo sua vocação literária de forma gradual.
Dina Mangabeira permaneceu residindo em Montes Claros até os cinquenta anos de idade, quando seu marido foi transferido para Belo Horizonte em meados da década de 1970. Na capital mineira, seus filhos ingressaram na universidade, e Dina engajou-se em atividades sociais e comunitárias. Foi integrante da Arquiconfraria das Mães Cristãs do Brasil, organização em que, liderando uma equipe de mães voluntárias, atuava junto à paróquia e em obras sociais nos bairros carentes. Também participou ativamente da Confraternidade das Mães Cristãs em Belo Horizonte, desenvolvendo atividades sociais e culturais de caráter religioso.
Dina Mangabeira faleceu em Belo Horizonte em 11 de fevereiro de 2000, aos 76 anos, vítima de complicações decorrentes de câncer.
Carreira literária
Início da atividade A partir de 1981, Dina Mangabeira passou a colaborar como articulista em revistas e jornais de Montes Claros e de Belo Horizonte, além de expandir sua colaboração para vários jornais do interior de Minas Gerais e para o Jornal de Piracicaba, em São Paulo, publicando crônicas e artigos de opinião. Desenvolveu uma produção consistente que já demonstrava seu talento como ficcionista e sua habilidade com a linguagem simples e acessível.
Participação em academias literárias Seu reconhecimento no meio cultural levou-a a ingressar na Academia Feminina Mineira de Letras (AFEMIL), onde ocupou a cadeira de número 19, e a participar também da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG), representando o município de Montes Claros na cadeira 152. Na AFEMIL, a autora demonstrou grande engajamento com a memória literária de sua patrona, a poetisa de Paracatu Branca Adjucto Botelho. Durante as atividades na academia, Dina produziu pesquisas biográficas dedicadas à vida, família e obra poética de Branca.
Na AFEMIL, desempenhou funções de destaque na diretoria da instituição, atuando como Tesoureira por três anos (1988/1989, 1989/1990 e 1990/1991) e como 1ª Secretária por dois anos (1992 e 1993). Posteriormente, exerceu o cargo de 2ª Secretária durante a gestão da diretoria no biênio 1994/1995, presidida por Carmen Schneider Guimarães, e ocupou a função de Segunda Tesoureira no biênio 1995/1996.
Na AMULMIG, além de sua titularidade, atuou como Relações Públicas durante o biênio 1995/1996. Tornou-se também membro correspondente da Academia Montesclarense de Letras (fundada em 1966 por Alfredo Marques Vianna de Goes) e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, além de integrar o Sindicato dos Escritores do Estado de Minas Gerais.
Na seção de Belo Horizonte da União Brasileira de Trovadores (UBT), sua atuação foi igualmente expressiva, chegando a ocupar o cargo de Primeira Tesoureira na entidade no biênio 1995/1996. Dentro da estrutura da UBT/BH, que possui uma divisão simbólica de categorias literárias entre "Novatos" e "Veteranos", Dina Mangabeira participava ativamente como trovadora "novata". Seu nome literário era tão forte e consolidado que, por muito tempo, diversos colegas das academias e confrades do meio intelectual a conheceram e admiraram sem jamais saber que Dina Mangabeira tratava-se, na verdade, de um pseudônimo adotado literariamente por Bernarda. Sua participação múltipla em academias demonstrou o reconhecimento de sua qualidade como escritora e sua contribuição para legitimar a presença feminina no campo literário mineiro.
Palestras e debates literários A autora teve participação ativa em eventos de estudo e difusão literária, o que evideciava seu hábito de pesquisar e dissecar a obra de outros escritores. Em Montes Claros, proferiu uma palestra sobre o escritor e poeta Menotti Del Picchia, evento ocorrido no Centro Cultural Dr. Hermes de Paula por ocasião do primeiro aniversário de morte do autor. Além desta, também foi responsável por conferir palestras sobre a Natureza e a Primavera, sobre o Padre José de Anchieta e seus Autos (em 1996), sobre o escritor e memorialista Pedro Nava, e sobre as "Origens dos nomes das Estações do Ano".
Paralelamente, engajou-se em debates e estudos. Em 1989, participou de debates focados na obra Corpo Molhado (romance da escritora Carmen Schneider Guimarães) e no romance autobiográfico Não Caia da Montanha, da atriz e autora Shirley MacLaine. Dedicou-se ainda à análise das críticas elaboradas pelo escritor Fillip Solleurs.
Estilo e características literárias Como poeta, destacou-se pela habilidade em compor trovas e frequentemente declamava seus próprios versos em eventos literários. Sua obra caracteriza-se pela linguagem simples e acessível, com narrativa descrita pelos críticos como vinda da "pureza de sua alma que traduz no encanto dos rincões recontados".
Em sua versatilidade literária, Dina produzia além de crônicas, contos e trovas; ela também exercia a poesia de viés laudatório e panegírico, redigindo poemas focados em biografia e homenagens – característica visível na confecção de longos poemas fúnebres e de celebração memorial voltados para figuras literárias, como o texto "O Retrato de uma Vida" em deferência à patrona Branca Adjucto Botelho.
Os temas recorrentes em sua obra incluem nostalgia da infância, regionalismo do norte de Minas, vida sertaneja, valores familiares e análise de fenômenos sociolinguísticos. Propositalmente evitava retratar violência contemporânea, focando no "bem e amor ao próximo". Entre seus poemas mais representativos está "Conexão (Bocaiúva – Montes Claros)", que exemplifica o apego às duas cidades que marcaram sua formação.
Obras publicadas
Bibliografia principal Em 1986, Dina publicou seu primeiro livro, No Palco Real da Vida, que reúne contos e crônicas editado pela Editora O Lutador, obra de estreia que já demonstrava seu talento como ficcionista. Em 1990 lançou o livro de poesias À Sombra do Passado pela Editora Arte Quintal, coletânea poética que consolidou sua reputação regional.
No final da década de 1990, a escritora preparava, com ajuda da família, três obras para publicar, mesclando poemas e prosa. Devido a problemas de saúde, porém, ela não chegou a concluir o projeto antes de falecer em 2000. Anos depois, em 2024, seus familiares publicaram o último material deixado por Dina, A Lógica da Minha Saudade, mantendo o formato original por ela previsto, incluindo apenas um epílogo escrito pelo seu marido, Ailton Rezende, relatando o período final de sua vida, e notas de edição de seu neto, Alberto Lage.
Contribuições em antologias Também participou de diversas coletâneas e antologias, contabilizando presença em pelo menos cinco coletâneas e várias antologias editadas no Rio de Janeiro, em Brasília-DF e em Belo Horizonte. Entre suas participações notórias estão as antologias Poetas Brasileiros de Hoje (1985), Valores Literários do Brasil (1986) e Clarissas de Letras (1989). Contribuiu sistematicamente com textos para publicações de diversas instituições. Especificamente, somou quatro participações em antologias da AFEMIL (com poemas e prosa), duas participações pela AMULMIG (com prosa) e três participações em antologias da UBT (com trovas). Manteve presença constante em saraus literários, palestras e encontros das academias, contribuindo para a vida cultural tanto da capital quanto do interior mineiro.
Reconhecimentos e honrarias A qualidade literária de Dina Mangabeira rendeu-lhe prêmios em diversas competições. A autora recebeu diversas menções honrosas em concursos literários, sendo duas delas em âmbito internacional e duas em âmbito nacional. Registros adicionais atestam o recebimento de três Menções Honrosas em Concursos Nacionais de Poesia, além de uma Menção Honrosa conquistada em 1992, conferida pelo Instituto de Poesia Internacional - Brasil, sediado em Porto Alegre, RS.
Consta ainda em seu histórico um Prêmio com Diploma de Seleção por um poema na Academia Internacional de Letras, Seção do Rio de Janeiro. Em 1989, foi agraciada com o Troféu Lívia Paulini, figurando como "Melhor do Ano" na Academia Feminina Mineira de Letras, prêmio também referenciado em suas biografias como Troféu "Academia Feminina Mineira de Letras". No âmbito da trova, Dina foi laureada com a Medalha UBT no Concurso Interno de 1995 e com a Medalha UBT no Concurso Junino de 1996.