O Espelho (em russo, Зеркало, transl.:Zerkalo)) é um filme soviético lançado em 1975, do gênero drama, dirigido por Andrei Tarkovski. O roteiro foi escrito por Tarkovski e Alexander Misarin, enquanto a fotografia é de Georgy Rerberg, a montagem é de Liuba Feiginova, e a trilha sonora é de Eduard Artemev.

Considerado um clássico do cinema soviético e do cinema mundial, foi eleito o 9º melhor filme de todos os tempos pela revista britânica Sight & Sound em 2012 na votação dos diretores e 19º na votação dos críticos de cinema.

O filme é autobiográfico. O personagem principal é o poeta moribundo Alexei, que é mostrado quando criança e adolescente, enquanto na idade adulta apenas sua voz é ouvida. Todos os eventos são apresentados a partir de seu ponto de vista. A narrativa, desprovida de um enredo convencional, se desenrola em torno de suas memórias e sonhos, entrelaçados com imagens de arquivo de eventos históricos: a Guerra Civil Espanhola, o lançamento dos primeiros balões estratosféricos soviéticos, a Grande Guerra Patriótica (1941-1945) e o conflito de fronteira na Ilha Damansky (1939).<ref> A fim de vencer os obstáculos para a liberação do filme, foi necessário seguir algumas recomendações da Mosfilm, para aproximá-lo dos padrões do realismo soviético]. Assim, ampliou-se a inserção dos fragmentos de imagens de arquivo que permeiam a narrativa (a partida para o exílio de espanhóis em fuga da ditadura franquista; as crianças espanholas, órfãs e refugiadas da Guerra Civil, enviadas em navios e trens à União Soviética e a outros países; os balões soviéticos sobrevoando a URSS; o Exército Vermelho no Sivash, durante a Ofensiva de Melitopol, em 1943 (v. The assault on “little Stalingrad” and the creation of the Sivash bridgehead, Military Review, 3 de novembro de 2023), a libertação de Varsóvia, em 1945, etc. (v. Fabiano Maisonnave, Exílio de crianças espanholas na Guerra Civil guia documentário, Folha de S.Paulo, 21 de setembro de 2003; Natasha Synessios, Mirror, New York: Tauris, 2001, apud Pablo Alberto Lanzoni, Efeitos atmosféricos: o silêncio na filmografia de Andrei Tarkovski; Porto Alegre, UFRS, 2016, p.104.</ref> A narração não linear é acompanhada por uma leitura em off dos poemas de Arseny Tarkovski, pai do diretor.Mirror. Por Sam Ishii-Gonzales, sensesofcinema.com, março de 2014. A mãe do diretor, Maria Vishnyakova, faz o papel de Maria, a mãe do protagonista, já idosa.Andrei Tarkovsky’s The Mirror. Por Jeremy Robinson, sabzian.be, 2011.

As conexões entre a narrativa e o contexto político soviético acabaram por provocar o rebaixamento do filme na classificação oficial, dificultando a sua distribuição, na URSS. Todavia, mais tarde, seria reconhecido como o melhor filme de Tarkovski e um dos melhores filmes de todos os tempos.

Em outubro de 2021, o Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (CPC-UMES), por meio da CPC-UMES Filmes, em parceria com a Versátil Home Vídeo, iniciou a venda do filme, em formato Blu-ray, no Brasil .

Enredo Num contexto mais amplo, O Espelho retrata os pensamentos e as emoções de Alexei (Ignat Daniltsev) e o mundo que o rodeia. A estrutura do filme é descontínua e não cronológica, sem um enredo convencional, e combina as memórias da infância com metragens da actualidade. O filme alterna três diferentes momentos: antes, durante e depois da guerra, com muitos elementos autobiográficos, pois Alexei passa pelos mesmos problemas, alegrias e tristezas que o realizador, Andrei Tarkovski, passara desde a infância.

O filme começa quando o filho de Alexei, Ignat (também interpretado por Ignat Daniltsev), liga um aparelho de televisão e assiste à demonstração de um método de tratamento médico aplicado a um jovem gago, que finalmente consegue dizer sem interrupção: "Eu posso falar". Na cena seguinte, no campo, ainda antes da guerra, acontece um diálogo entre Maria (Margarita Terekhova), a mãe de Alexei, e um médico (Anatoli Solonitsyn) que parece ter-se perdido no caminho para o vilarejo de Tomshino. O exterior e o interior da casa de campo do avô de Alexei são mostrados. A cena seguinte mostra um celeiro em chamas. Depois, numa sequência de sonho, Maria aparece, lavando os seus longos cabelos.

A narrativa muda para a década de 1970. Ouve-se Alexei, já adulto, conversando com a mãe, Maria, ao telefone, enquanto apenas o interior da casa é mostrado. Alexei tem um relacionamento tenso com a mãe idosa. Durante a conversa, sua mãe lhe conta que sua colega de trabalho, Lisa, havia morrido recentemente. Logo Alexei se lembra de um incidente no trabalho de Maria, durante a era Stalin: em um dia chuvoso, ela corria freneticamente para a gráfica onde trabalhava como revisora, a fim de corrigir um erro que ela teria deixado passar, nas provas de uma publicação oficial, que já estava a ser impressa. Um erro desse tipo teria graves consequências, não só para ela mesma mas também para seus colegas. Desesperada, ela é consolada por sua colega, Lisa (Alla Demidova). Acontece que não havia erro. Alívio geral. Mas. em seguida, Lisa começa uma discussão com Maria, reprovando a sua relação com o marido e culpando-a pela separação do casal.

De volta ao pós-guerra, Alexei discute com a sua ex-mulher, Natália (também interpretada por Margarita Terekhova), que, após se divorciar dele, vivia sozinha com Ignat, o filho do casal. Alexei diz que, quando se recorda de sua infância, ele sempre vê sua mãe com o rosto de Natália. Seguem-se diversas cenas de noticiários da Guerra Civil Espanhola (aparentemente, ligada a um personagem espanhol presente no apartamento) e da ascensão de um balão na URSS.

Na cena seguinte, o mesmo apartamento é mostrado, com uma estranha mulher (Tamara Ogorodnikova) sentada numa sala. Ignat lê uma carta de Alexandre Pushkin e recebe um telefonema do seu pai, Alexei. Enquanto Ignat está lendo a carta de Pushkin ao filósofo [Pyotr Chaadayev|Chaadaev, a pedido de uma mulher estranha, na mesa de chá. A campainha toca. Na soleira da porta está a idosa Maria, que, não reconhecendo o neto e achando que se enganou de apartamento, sai. Ignat então descobre que mulher desaparecera, embora a marca da condensação provocada por sua xícara de chá ainda permanecesse. Voltando à época da guerra, o adolescente Aleksei é visto em um treinamento de rifle com um instrutor severo, intercalando-se imagens de noticiários sobre o Conflito fronteiriço sino-soviético e da Segunda Guerra. Voltando à época anterior à guerra, Maria e Alexei visitam sua vizinha, para buscar produtos de higiene pessoal. A mulher apresenta Maria ao seu filho e pede que ela abata um galo, o que ela faz, constrangida. Na cena seguinte, é mostrada a reunião dos filhos com o pai (Oleg Yankovsky), após o fim da guerra. O filme retorna para a disputa entre Alexei e sua esposa Natália, no pós-guerra. Mudando novamente para o pré-guerra, imagens da casa e da paisagem circundante são mostradas, entrecortadas por uma sequência onírica que mostra Maria a levitar. Outra vez a ação muda para o pós-guerra, mostrando Alexei no seu leito de morte. A cena final se passa antes da Guerra, mostrando Maria grávida, entrecortada por cenas com Maria jovem e idosa (o papel de Maria idosa é representado pela mãe Tarkovski, Maria Vishnyakova).

O Espelho inspira-se fortemente em memórias da infância do diretor, destacando-se a evacuação de Moscovo durante a Segunda Guerra e o deslocamento da população para o campo; a ausência do pai, e a própria mãe, que trabalhava como revisora de provas, numa gráfica.

Elenco Margarita Terekhova .... Maria / Natalya Ignat Daniltsev .... Ignat/ Alyosha Larisa Tarkovskaya .... Nadezha Alla Demidova .... Lisa Anatoli Solonitsyn .... médico / pedestre Tamara Ogorodnikova .... Nanny / vizinha / mulher estranha Yuri Nazarov .... treinador militar Oleg Yankovsky .... pai Filipp Yankovsky .... Alexei com cinco anos Yuri Sventisov .... Yuri Zhary Tamara Reshetnikova Innokenti Smoktunovsky ... narrador Arseni Tarkovsky .... narrador L. Correcer E. Del Bosque

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