A Linha do Tua foi uma ligação ferroviária de via estreita que ligou Foz Tua, na Linha do Douro, até à cidade de Bragança, na região portuguesa de Trás-os-Montes. A linha teve 134 quilómetros de extensão e acompanhava o percurso sinuoso do vale do rio Tua desde a sua foz no rio Douro até Mirandela. A partir daí, atravessa o planalto transmontano a uma altitude cada vez maior, passando pela estação a maior altitude do país, Rossas (Santa Comba de Rossas) até à descida em Bragança. A linha está encerrada, estando prevista a reabertura do troço Mirandela–Brunheda.
A linha foi construída em duas fases. O troço entre a foz do Tua e Mirandela foi inaugurado em 1887. A construção dos restantes 80 km até Bragança foi adiada por razões financeiras, tendo sido concluído apenas em 1906. O primeiro estudo do traçado foi realizado em 1878. A construção e exploração do tramo entre Tua e Mirandela foi concessionada à Companhia Nacional de Caminhos de Ferro, propriedade de Tristão Queirós. As obras tiveram início em outubro de 1884 e a execução dos primeiros vinte quilómetros na garganta granítica do Tua foi extremamente difícil e complexa. Este tramo foi aberto ao público em 27 de setembro de 1887, realizando-se a cerimónia oficial de inauguração dois dias depois e na presença do rei Luís I. A concessão da exploração e construção do segundo tramo entre Mirandela e Bragança foi atribuída em 1902 a João Lopes da Cruz, que a trespassou à Companhia Nacional. O primeiro comboio chegou a Bragança em 26 de Outubro de 1906 e o troço final foi inaugurado oficialmente em 1 de Dezembro do mesmo ano.
Durante a crise dos transportes ferroviários na década de 1930, a situação financeira da Companhia Nacional foi-se sucessivamente degradando. A lei de 1945 nacionalizou e integrou todas as companhias ferroviárias na Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses (CP), a qual passou a explorar toda a rede ferroviária portuguesa. Em 1968 foi inaugurada uma variante na cidade de Bragança. Na linha funcionaram locomotivas a vapor até à década de 1980. Na década de 1950 foi no Tua que circularam pela primeira vez automotoras da série 9300.
Em inícios da década de 1980, o governo e a CP planearam o encerramento de grande parte das linhas secundárias em Portugal. Entre dezembro de 1991 e janeiro de 1992 foi encerrado o troço entre Mirandela e Bragança. Em Julho de 1995 foi inaugurado o Metropolitano de Mirandela, assegurando o serviço de passageiros na linha entre Mirandela e Carvalhais e, a partir de Outubro de 2001, entre Mirandela e a foz do Tua. Em 2007, foram anunciados planos para construir uma barragem no vale do Tua, que levaria à submersão dos primeiros quilómetros da Linha. Em 2007–2008 ocorreu uma onda de acidentes que levou, em conjunto com o desinvestimento na linha e da decisão governamental de prosseguir com a construção da Barragem de Foz Tua, ao encerramento do troço entre Tua e Cachão, em Agosto de 2008. A albufeira da barragem submergiu 16 quilómetros da linha, cortando a sua ligação à rede ferroviária nacional. A construção motivou protestos de várias organizações ambientalistas e movimentos cívicos da região.
Caracterização
A Linha do Tua é uma linha ferroviária de via estreita em bitola métrica com um comprimento total de 133,8 quilómetros que liga a Estação do Tua à cidade de Bragança. Juntamente com as linhas do Corgo, Tâmega, e Sabor, é uma das afluentes da Linha do Douro. Inicialmente denominada Linha de Mirandella, o nome atual tem origem no facto de acompanhar o traçado do rio Tua. No total, a linha possui 10 túneis, 4 viadutos e 17 pontes.
A linha foi construída em duas fases diferentes. O primeiro tramo construído tem início na Estação do Tua, partilhada com a Linha do Douro, e termina em Mirandela, acompanhando o leito do Rio Tua pela margem esquerda. Nas proximidades deste troço não existem praticamente aglomerados populacionais de relevo. Nos quilómetros que se seguem à estação do Tua, a linha ganha altitude e atravessa uma sequência de vários túneis e viadutos ao longo de escarpas graníticas e terreno bastante difícil e acidentado. Ao km 21,2, a Estação de Brunheda marca a transição para terreno relativamente plano. À época de construção, esta estação tinha um papel importante no escoamento da produção local de azeite e vinho. Aos 54,1 km situa-se a Estação Ferroviária de Mirandela. Inaugurada em 1887 no centro da cidade de Mirandela, a sua grande dimensão é pouco comum em vias estreitas. Situava-se aqui o principal depósito de material circulante, onde estiveram baseadas várias locomotivas a vapor.
A partir de Mirandela, o traçado afasta-se do rio Tua e ganha cada vez mais altitude. Nos 28 km que separam Mirandela e Macedo de Cavaleiros a linha aumenta de altitude de 208 para 537 m e continua a ganhar altitude ao longo do percurso por Sendas (657 m) e Salsas (789 m) até culminar na Estação de Rossas, a estação de caminho de ferro de maior altitude em Portugal, a 849 m de altitude na Serra da Nogueira. A partir deste ponto, o traçado volta a descer, passando por Sortes (800 m) e terminando na cidade de Bragança (670 m), a 80 km de Mirandela.
Planeamento e construção
A Linha do Tua insere-se num período de desenvolvimento dos caminhos de ferro de via estreita em Portugal, iniciado em 1882, e que também incluiu as linhas do Dão, Vouga, Tâmega, Corgo e Sabor. A linha foi construída em duas fases. O troço entre a foz do Tua e Mirandela foi inaugurado em 1887. A construção dos restantes 80 km até Bragança foi adiada por razões financeiras, tendo sido concluída apenas em 1906.
Entre as EstaçõesExtensãoInauguraçãoEncerramentoReaberturaTua – Cachão41,866 km 29 de Setembro de 1887 22 de Agosto de 2008 Cachão – Mirandela12,226 km 29 de Setembro de 1887 Mirandela – Carvalhais4,046 km2 de Agosto de 1905 15 de Dezembro de 1991 28 de Julho de 1995Carvalhais – Romeu8,970 km2 de Agosto de 1905 15 de Dezembro de 1991 Romeu – Macedo de Cavaleiros15,666 km15 de Outubro de 190515 de Dezembro de 1991 Macedo de Cavaleiros – Sendas14,060 km18 de Dezembro de 1905 17 de Dezembro de 1991 Sendas – Rossas13,420 km14 de Agosto de 1906 17 de Dezembro de 1991 Rossas – Bragança23,514 km31 de Dezembro de 1906 17 de Dezembro de 1991
Troço entre Tua e Mirandela
Planeamento Após a inauguração do troço da Linha do Douro entre o Porto e Pinhão, em 1878, surgiram divergências sobre o percurso que a linha deveria tomar em direção a Espanha. Alguns engenheiros defendiam que a melhor opção era prosseguir pelo rio Douro até à fronteira de Barca d'Alva, enquanto outros defendiam que deveria acompanhar o rio Tua em direção a norte e atravessar a fronteira em Bragança. Em Setembro do mesmo ano, o engenheiro e antigo ministro das obras públicas João Crisóstomo de Abreu e Sousa apresentou um relatório sobre o transporte ferroviário em Portugal, onde estava projectada uma linha de Bragança a Beja, passando pela foz do Rio Sabor.
thumb|left|Percurso nas proximidades do apeadeiro de São Lourenço na década de 1910. O troço entre Tua e Mirandela acompanha o acidentado vale do rio Tua. O primeiro estudo de traçado para a Linha do Tua foi realizado em 1878 pelo engenheiro militar João José Pereira Dias e pelo condutor Bernabé Roxo, sob a coordenação do engenheiro Sousa Brandão. O traçado proposto percorria o rio Tua pela margem direita. Mais tarde foi realizado um novo estudo, da autoria do engenheiro António Xavier de Almeida Pinheiro, desta vez pela margem esquerda, solução que acabou por ser a adoptada. No entanto, a urgência e as dificuldades no terreno levaram a que este estudo fosse pouco preciso e fossem necessárias várias correções durante a construção.
Em finais de 1881, a indecisão sobre o prolongamento da Linha do Douro motivou o empresário portuense Clemente Menéres, com interesses comerciais na região de Trás-os-Montes, a dar início a uma campanha pela aprovação do caminho de ferro até Trás-os-Montes através do vale do Tua. Em 22 de junho do ano seguinte, a Câmara Municipal de Mirandela decide apresentar à Câmara dos Pares o pedido de aprovação para uma subvenção de 135 contos de réis para cobrir a garantia de juro de 5% da empresa que viesse a construir a linha. A apresentação contou com várias personalidades do Porto, entre as quais Clemente Menéres. No ano seguinte, com o apoio da Associação Comercial do Porto, a Câmara apela diretamente ao rei Luís I que aprove o projeto de construção da linha até Mirandela.
Concurso
O concurso público para a construção e exploração do caminho de ferro entre Foz-Tua e Mirandela foi autorizado por uma lei de 26 de Abril de 1883 e aberto por decreto datado de 29 de Setembro do mesmo ano. A garantia de juro foi fixada nos 5,5%, com um prazo de resgate após 15 anos, devendo a via ser construída em bitola métrica. No entanto, nesse primeiro concurso não apareceram propostas. Entretanto, em 1 de Setembro do mesmo ano entrou ao serviço o troço da Linha do Douro entre Pinhão e Tua.
Por decreto de 22 de Novembro, é anunciada a abertura de um novo concurso em 14 de dezembro. Este segundo concurso apresentava condições de resgate mais vantajosas, pois acreditava-se que tinha sido esta a razão do insucesso do primeiro concurso. No entanto, foi submetida apenas uma proposta, de Tristão Guedes Correia de Queirós, mais conhecido por Conde da Foz, o qual seria responsável pela construção da Linha do Dão. A proposta foi aceite e o contrato provisório foi assinado em 24 de Dezembro. O contrato provisório foi autorizado por uma lei de 26 de Maio de 1884 e tornou-se definitivo em 30 de Junho. Devido à dificuldade da empreitada, Tristão Queirós decide fundar uma companhia para a exploração desta e de outras linhas. Em 1 de Outubro de 1885 é fundada a Companhia Nacional de Caminhos de Ferro, à qual foi trespassada a concessão, tendo sido esta a empresa responsável pela construção e abertura do troço entre Foz-Tua e Mirandela.
Construção e inauguração
A construção do troço entre Mirandela e a foz do Tua teve início no lado de Mirandela em 16 de outubro de 1884. A empreitada foi entregue à empresa espanhola Llort & Villagelin e coordenada pelo engenheiro Diniz Moreira da Motta. Em média, trabalhavam diariamente na obra 1470 operários, 114 animais de tiro e 18 locomotivas e vagões. Os primeiros 20 quilómetros, ao longo das escarpas altas e lisas da garganta do Tua, foram de execução extremamente difícil. A rocha granítica teve que ser dinamitada por operários presos em cordas e os acidentes eram comuns. Nestes primeiros quilómetros, a via é praticamente toda assente em alvenaria de suporte.
A abertura da linha ao público dá-se em 27 de setembro de 1887. Dois dias depois, em 29 de setembro, tem lugar a cerimónia oficial de inauguração. Este primeiro tramo, com 54 km de extensão, era na época denominado Linha de Mirandela. Na cerimónia estiveram presentes o rei Luís I, o Infante Afonso, o Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, e Barjona de Freitas.REIS et al, 1996:35 A cerimónia contou com uma banda de música, vários discursos e até recitação de versos, pelo mestre escola e poeta Joaquim Melchior de Azevedo Esta foi a primeira via férrea a penetrar a região de Trás-os-Montes.
Os primeiros responsáveis pela operação da Linha do Tua foram António Xavier de Almeida Pinheiro, director da Companhia Nacional; Dinis Moreira da Mota, chefe de exploração; João Valério dos Santos, chefe de Tracção e Oficinas; João E. Chaves, chefe da Fiscalização e Estatística; Simão Marques Pinheiro, chefe do Movimento e Tráfego; António Nunes da Rocha, chefe do Serviço de Saúde.