Carnaval é um festival do cristianismo ocidental que ocorre antes da estação litúrgica da Quaresma. Os principais eventos ocorrem tipicamente durante fevereiro ou início de março, durante o período historicamente conhecido como Tempo da Septuagésima (ou pré-quaresma). O Carnaval normalmente envolve uma festa pública e/ou desfile, combinando alguns elementos circenses, máscaras e uma festa pública de rua. As pessoas usam trajes durante muitas dessas celebrações, permitindo-lhes perder a sua individualidade cotidiana e experimentar um sentido elevado de unidade social.Bakhtin, Mikhail. 1984. Rabelais and his world. Translated by H. Iswolsky. Bloomington: Indiana University Press. Original edition, Tvorchestvo Fransua Rable i narodnaia kul'tura srednevekov'ia i Renessansa, 1965.
O consumo excessivo de álcool, de carne e outros alimentos proscritos durante a Quaresma é extremamente comum. Outras características comuns do carnaval incluem batalhas simuladas, como lutas de alimentos; sátira social e zombaria das autoridades e uma inversão geral das regras e normas do dia à dia.
O termo Carnaval é tradicionalmente usado em áreas com uma grande presença católica. No entanto, as Filipinas, um país predominantemente católico romano, não comemora mais o Carnaval desde a dissolução da festa de Manila em 1939, o último carnaval no país. Nos países historicamente luteranos, como, por exemplo, a Suécia, a Noruega e a Estônia (entre outras nações), a celebração é conhecida como Fastelavn, e em áreas com uma alta concentração de anglicanos e metodistas (como a Grã-Bretanha e o sul dos Estados Unidos), as celebrações pré-quaresmais, juntamente com observâncias penitenciais, ocorrem na terça-feira de carnaval. Nas nações eslavas ortodoxas orientais, o Maslenitsa é celebrado durante a última semana antes da Grande Quaresma. Na Europa germanófila e nos Países Baixos, a temporada de Carnaval tradicionalmente abre no 11/11 (muitas vezes às 11:11 a.m.). Isto remonta à celebrações antes da época de Advento ou com celebrações de colheita da Festa de São Martinho.
O Carnaval moderno, feito com desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspiraram no Carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas. Já o Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio e Helsinque.
Etimologia As etimologias populares afirmam que a palavra vem da expressão do latim tardio carne vale, que significa "adeus à carne", simbolizando o período de jejum que se aproxima. No entanto, esta interpretação não é apoiada por filológos.
A expressão carne levare, do italiano, é uma possível origem, que significa "remover a carne", uma vez que a carne é proibida durante a Quaresma.
História
Origens thumb|Festa do Navigium Isidis, comemorada na Roma Antiga em homenagem a deusa Ísis. thumb|Nerto, deusa germânica da fertilidade.
Entre os antigos egípcios haviam as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos antigos, os bacanais; na Roma Antiga, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes regozijos. Os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno, marcada pelo adeus à carne, visto que, a partir dela, se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome em latim "carnis levale" o indica.
Outros estudiosos defendem a origem do nome romano para a festa do Navigium Isidis ("navio de Isis"), onde a imagem de Ísis era levada à praia para abençoar o início da temporada de velejamento. O festival consistia em um desfile de máscaras que seguia um barco de madeira decorado, possivelmente a origem dos carros alegóricos dos carnavais modernos.Di Cocco (2007) Capítulo II, pgs.23–40Valantasis (2000) p.378
Do ponto de vista antropológico, o carnaval é um ritual de reversão, no qual os papéis sociais são invertidos e as normas de comportamento são suspensas."Vitaberna". Jansimons.nl. Acessado em 13 de maio de 2014. Na Antiguidade, os povos consideravam o inverno como um reino de espíritos que precisavam serem expulsos para que o verão voltasse. O Carnaval pode ser considerado assim como um rito de passagem da escuridão para a luz, do inverno ao verão: uma celebração da fertilidade, a primeira festa de primavera do ano novo."Wat is carnaval?" | Fen Vlaanderen. Fenvlaanderen.be. Acessado em 13 de maio de 2015.
Várias tribos germânicas celebravam o retorno da luz do dia. O inverno seria afastado, para se certificar de que a fertilidade poderia retornar na primavera."Carnaval". Meertens.knaw.nl. Acessado em 13 de maio de 2015. Uma figura central desse ritual era, possivelmente, a deusa da fertilidade Nerto. Além disso, há indicações de que a efígie de NertoTácito, Germânia 9.6: Germânia 40: Trans. Alfred John Church and William Jackson Brodribb, The Agricola and Germany of Tacitus. Londres: Macmillan, 1868, OCLC 776555615 ou Frey era colocada em um navio com rodas e acompanhada por uma procissão de pessoas disfarçadas de animais e homens vestidos de mulheres.Davidson, Hilda Ellis (1990). Gods and Myths of Northern Europe. Penguin Books. ISBN 0-14-013627-4.Eduardo Fabbro, M.A., "Germanic Paganism among the Early Salian Franks". University of Brasilia, The Journal of Germanic Mythology and Folklore, Volume 1, Issue 4, agosto de 2006 A bordo do navio, um casamento seria consumado como um ritual de fertilidade.
Tácito escreveu em sua obra Germânia: "Os germânicos, no entanto, não consideram consistente com a grandeza dos seres celestiais confinar os deuses dentro de muros, ou compará-los à forma de qualquer rosto humano. (...) Depois, o carro, as vestes e, se você quiser acreditar, a própria divindade, são purificados em um lago secreto".Trans. Alfred John Church and William Jackson Brodribb, The Agricola and Germany of Tacitus. London: Macmillan, 1868, OCLC 776555615 Tradicionalmente, a festa também era uma época para satisfazer desejos sexuais, que deveriam ser suprimidos durante o jejum seguinte.
Idade Média Em muitos sermões e textos cristãos, o exemplo de uma embarcação é usado para explicar a doutrina cristã: "a nave da igreja do batismo", "o navio de Maria", etc. Os escritos mostram que eram realizadas procissões com carruagens semelhantes a navios e festas suntuosas eram celebradas na véspera da Quaresma ou com a saudação da primavera no início da Idade Média. No entanto, a Igreja Católica condenava o que chamava de "devastação diabólica" e "rituais pagãos". Já no ano 325, o Primeiro Concílio de Niceia tentou acabar com estas festas pagãs. thumb|A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559) — Pieter Bruegel (1564-1638) — Kunsthistorisches Museum, Viena
O período quaresmal do calendário litúrgico, as seis semanas imediatamente anteriores à Páscoa, era historicamente marcado pelo jejum, estudo e outras práticas piedosas ou penitenciais. Durante a Quaresma, não haviam festas ou celebrações, e as pessoas se abstinham de comer alimentos ricos, como carne, laticínios, gordura e açúcar. As primeiras três classes eram muitas vezes totalmente indisponíveis durante o final do inverno.Gaignebet, Claude. 1984. El Carnaval: Ensayos de mitologia popular. Barcelona: Editorial Alta Fulla. Original edition: Le carnaval. Essais de mythologie populaire, Editions Payot, Paris, 1974. O Carnaval na Idade Média não durava apenas alguns dias, mas quase todo o período entre o Natal e o início da Quaresma. Nesses dois meses, as populações católicas usavam as várias férias católicas como uma saída para suas frustrações diárias.
Muitos sínodos e conselhos tentaram definir regras para o festival. Cesário de Arles (470–542) protestou por volta do ano 500 em seus sermões contra as práticas pagãs. Séculos mais tarde, suas declarações foram adaptadas como os blocos de construção do Indiculus superstitionum et paganiarum ("pequeno índice de práticas supersticiosas e pagãs"), que foi redigido pelo Sínodo de Leptines em 742. Ele condenou o Spurcalibus en februario. O Papa Gregório Magno (590–604) decidiu que o jejum começaria na quarta-feira de cinzas. Todo o evento carnavalesco era estabelecido antes do jejum, para criar uma divisão clara entre o pagão e o costume cristão. Também era costume que, durante o Carnaval, a classe dominante fosse zombada usando máscaras e disfarces.
No ano 743, o sínodo em Leptines (próximo de Binche, na Bélgica) falou furiosamente sobre os excessos no mês de fevereiro. Também a partir do mesmo período data a frase: "Quem em fevereiro, por uma variedade de atos menos honrosos, tenta expulsar o inverno, não é um cristão, mas um pagão." Livros de confissão de cerca do ano 800 contêm mais informações sobre como as pessoas vestiam-se como animais ou idosos durante as festas em janeiro e fevereiro, mesmo que isto fosse considerado um pecado.Oorsprong Carnaval: Middencommiteit Lommel . Middencommiteit.be. Acessado em 13 de maio de 2015. Também em Espanha, São Isidoro de Sevilha queixou-se, em seus escritos no século VII, de pessoas saindo pelas ruas disfarçadas, em muitos casos, como o gênero oposto.
Cristianização
Gradualmente, a autoridade eclesiástica começou a perceber que o resultado desejado não poderia ser alcançado através da proibição das tradições, o que acabou levando a um grau de cristianização da festividade. Os festivais passaram, então, a fazer parte da liturgia e do ano litúrgico. Embora formando uma parte integrante do calendário cristão, em regiões católicas particularmente, muitas tradições carnavalescas se assemelham àquelas do período pré-cristão. Acredita-se que o Carnaval italiano seja, em parte, derivado das festividades romanas antigas da Saturnalia e da Bacchanalia. As Saturnálias, por sua vez, podem ser baseadas nas festas dionisíacas da Grécia Antiga e em festivais orientais.