O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) é uma instituição de estudos e pesquisas em sociologia, política, filosofia, economia, antropologia e demografia. Está sediado em São Paulo.
Além de promover cursos e seminários e conceder bolsas de pesquisa nas suas áreas de atuação, o Cebrap sedia o Centro de Estudos da Metrópole (CEM), dedicado aos estudos referentes à capital paulista, e a Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), dedicada a pesquisas nas áreas de saúde pública, sexualidade e direitos reprodutivos no Brasil.
Atualmente, o Centro conta com mais de 160 pesquisadores, entre antropólogos, cientistas políticos, demógrafos, economistas, filósofos, historiadores, juristas e sociólogos, e está organizado em 17 núcleos de pesquisa.
Segundo dados mais recentes divulgados pela própria instituição, o corpo de pesquisadores é composto por 41 pesquisadores permanentes e cerca de 140 pesquisadores associados, sendo 60 destes doutoresCEBRAP. Institucional. Disponível em: cebrap.org.br/institucional.. Ao longo de sua trajetória, o centro já realizou mais de 500 projetos de pesquisa e manteve parcerias com cerca de 200 instituições nacionais e estrangeiras, o que o consolidou como referência na produção de conhecimento nas ciências humanas. Em um levantamento de 2016 conduzido pela Universidade da Pensilvânia, o Cebrap foi classificado como o 37º melhor think tank do mundo na área de políticas públicas. A instituição também é reconhecida pela combinação de métodos quantitativos — como levantamentos amostrais, georreferenciamento e análise de redes — e qualitativos, como estudos de caso, etnografias, entrevistas e grupos focais, além de produzir visualizações de dados e ministrar cursos e oficinas metodológicas. A difusão do conhecimento produzido ocorre por meio da revista Novos Estudos Cebrap, de uma biblioteca virtual com artigos e vídeos, e de seminários abertos sobre temas da conjuntura brasileira.
Histórico Foi fundado no ano de 1969, por intelectuais, a maioria dos quais professores da Universidade de São Paulo (USP) afastados da universidade pelos atos discricionários do regime instituído após o Golpe Militar de 1964. SORJ, Bernardo A construção intelectual do Brasil contemporâneo - Da resistência à ditadura ao governo FHC. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001 ISBN 85-7110-610-xFinanciado pela Fundação Ford, a injeção inicial de 145 mil dólares, fora uma oferta de Peter Bell, então presidente da fundação<ref>[http://port.pravda.ru/mundo/10-09-2009/27949-ciaguerra-0/ Leoni, Brigitte Hersant 'O Brasil do possível Rio de Janeiro/Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997. pp 154]</ref> Alguns deles eram remanescentes do grupo de estudos sobre O Capital, que faziam os seus encontros numa casa da rua Bahia, no bairro de Higienópolis, em São Paulo capital.
Posteriormente, o grupo passou a dedicar-se a estudos sobre a realidade do país, com uma postura crítica ao regime de exceção e numa linha ideológica de esquerda. Fizeram parte do grupo inicial de pesquisadores do Centro: Boris Fausto, Cândido Procópio Ferreira de Camargo, Carlos Estevam Martins, Elza Berquó, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Francisco de Oliveira, José Arthur Giannotti, José Reginaldo Prandi,BROOKE,Nigel E WITOSHYNSKY, Mary (org.) Os 40 Anos da Fundação Ford no Brasil - uma parceria para a mudança social. São Paulo / Rio de Janeiro: Editora da Universidade de São Paulo / Fundação Ford, 2002. pp 172-173 Juarez Rubens Brandão Lopes, Leôncio Martins Rodrigues, Luciano Martins, Octavio Ianni, Paul Singer e Roberto Schwarz.Intelectuais e resistência democrática, por Milton Lahuerta. Cadernos AEL, n. 14-15. IFCH, Unicamp, 2001. Temas importantes referentes à sociedade brasileira foram objeto de estudos e debates do CEBRAP destacando-se: distribuição de renda, sociedade civil, democracia. Vários dos componentes do grupo lecionaram em universidades no exterior, consolidando laços acadêmicos com pesquisadores e professores estrangeiros. Posteriormente suas pesquisas passaram a receber financiamentos internacionais. A partir de 1972 e nos cinco anos seguintes, vários dos membros do CEBRAP expressaram-se pelo semanário Opinião, que se constitui em importante fonte de pesquisa sobre os estudos do pensamento social brasileiro da época.HISTEDBR - Grupo de Estudos e Pesquisas "História, Sociedade e Educação no Brasil". Faculdade de Educação - Unicamp. Glossário. "CEBRAP"
As reuniões preparatórias para a criação do centro começaram já em 1968, na Faculdade de Higiene de São Paulo, e contaram também com a participação de docentes que não haviam sido cassados, como Juarez Brandão Lopes e Cândido Procópio Ferreira CamargoSORJ, Bernardo. Op. cit. Disponível também em: static.scielo.org.. Após as cassações de abril de 1969, prevaleceu entre os organizadores o entendimento de que a nova instituição deveria acolher todos os pesquisadores atingidos pela repressão, ainda que nem todos os convidados tenham de fato ingressado no centro. O Cebrap foi formalmente constituído em 3 de maio de 1969, com 27 signatários na ata fundacional, sob a presidência de Cândido Procópio Ferreira Camargo; em 1971, o quadro de sócios fundadores foi ampliado para 72 pessoas.
Um dos fatores que contribuíram para a sobrevivência da instituição em seus primeiros anos, além do financiamento da Fundação Ford, foram os vínculos que parte de seus integrantes mantinha com setores mais liberais do empresariado, da política e da Igreja, sobretudo em São Paulo. Conversas conduzidas por Fernando Henrique Cardoso no Rio de Janeiro resultaram na promessa inicial de cem mil dólares por parte da Fundação Ford para viabilizar o início das atividades do centro. A proposta gerou controvérsia interna quanto aos riscos políticos e às possíveis restrições intelectuais decorrentes de um financiamento estrangeiro; o impasse foi superado quando a Fundação, por meio de seu representante no Brasil, William Carmichael, ofereceu apoio institucional sem interferência na avaliação dos projetos apresentados, solução intermediada por Bolívar Lamounier, que viria a integrar o centro pouco depois. Diante disso, Octávio Ianni — que inicialmente se opusera ao financiamento da Ford — associou-se ao Cebrap um ano após sua fundação, enquanto Florestan Fernandes optou por não aderir ao projeto.
Segundo dados compilados pela própria Fundação Ford, o escritório da entidade no Brasil chegou a financiar 70% do orçamento do Cebrap em 1969, proporção que caiu para cerca de 30% em 1975; somente nesse último ano o centro recebeu duas doações da Ford que somaram 2,4 milhões de dólaresFUNDAÇÃO FORD. Os 40 anos da Fundação Ford no Brasil. 2002. Disponível em: fordfoundation.org.. Essa relação de financiamento se estendeu de 1969 a 1976, embora nunca tenha sido suficiente para eliminar as incertezas orçamentárias enfrentadas pela instituição ao longo desse período.
O grupo inicial de pesquisadores seniores do Cebrap era composto por sete integrantes — Juarez Brandão Lopes, Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, Elza Berquó, Cândido Procópio Ferreira Camargo, José Arthur Giannotti e Octávio Ianni, este último incorporado em 1970 —, quase todos formados e/ou com atuação docente na USP e com doutorado concluído antes de 1967, o que conferia ao grupo relativa homogeneidade geracional e acadêmica. Nos anos seguintes, o quadro permanente incorporou outros pesquisadores atingidos pelas cassações, como Francisco de Oliveira e Bolívar Lamounier, em 1970, Vilmar Faria e Carlos Estevam Martins, em 1971, e Vinicius Caldeira Brandt, em 1974 — este último, ex-militante da luta armada, havia sido recém-libertado da prisão, onde fora torturado. Já na década de 1970, o economista José Serra, então exilado e radicado no Chile, também se uniu ao grupo.
O período de maior repressão vivido pela instituição ocorreu já no início do governo Ernesto Geisel, quando pesquisadores foram presos e praticamente todo o quadro de funcionários foi interrogado pela polícia; posteriormente, o prédio do centro na rua da Bahia sofreu um atentado a bomba, episódio que marcou o auge — e, ao mesmo tempo, o começo do declínio — da perseguição direta ao Cebrap. Em resposta, a direção do centro enviou, por intermédio do ministro Severo Gomes, uma carta ao presidente Geisel denunciando a perseguição sofrida — o único contato direto registrado entre a instituição e o governo militar sobre o tema.
A partir de 1971, a instituição passou a divulgar sistematicamente sua produção por meio de duas publicações periódicas, a revista Estudos Cebrap, voltada a um público mais amplo, e os Cadernos Cebrap, de circulação mais restrita e dedicados a trabalhos de formato intermediário; ambas circularam, em geral, até por volta de 1980. Dentre os trabalhos mais conhecidos produzidos por integrantes do centro nesse período estão Dependência e Desenvolvimento, de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (1967), Economia Política da Urbanização, de Paul Singer (1973), e São Paulo: Crescimento e Pobreza, de Lúcio Kowarick e Cândido Procópio Ferreira Camargo (1975). A repercussão do modelo institucional do Cebrap também estimulou a criação de centros similares em países vizinhos sob regimes ditatoriais, como a Corporación de Investigaciones Económicas para Latinoamérica (Cieplan), no Chile, em 1974, e o Centro de Estudios de Estado y Sociedad (Cedes), na Argentina, em 1976.
Grupos, núcleos e programas O Cebrap organiza parte de sua produção acadêmica em núcleos e grupos temáticos, cada um dedicado a uma área específica de pesquisa, com coordenação própria e produção bibliográfica associada.