A língua munduruku é uma língua indígena brasileira em situação vulnerável, falada por cerca de pessoas, segundo o Censo Demográfico do Brasil de 2010. Ela é falada pelo povo Munduruku, habitante das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, principalmente nos estados do Pará, Amazonas e norte do Mato Grosso. O povo Munduruku vive majoritariamente em regiões de florestas, às margens de rios navegáveis. Estão localizados em áreas como o vale do rio Tapajós e seus afluentes, a bacia do rio Madeira e a terra indígena Apiaká.
A língua pertence ao tronco linguístico tupi e forma, junto com a língua curuaia, a família linguística munduruku.
O linguista Gomes (2006) destaca:
“É evidente o avanço da língua portuguesa entre os índios, que se tornam mais e mais bilíngües a cada dia. Temos notícias de que a situação dos Mundurukú que vivem na área do Rio Madeira e nas periferias das cidades banhadas pelo Tapajós é de perda da língua indígena, mas essa não é a situação majoritária, uma vez que a primeira língua das crianças da maioria da população é o Mundurukú, e o bilingüismo só se instala depois de garantido o uso dela (por volta dos 10 anos de idade), sobretudo em decorrência do aprendizado do Português na escola. Entre si, os índios que vivem nas aldeias do vale do Rio Tapajós só falam Mundurukú, mesmo que na presença de não-índios. Há escolas de ensino fundamental instaladas em quase todas as aldeias, e cursos promovidos pela FUNAI e pelo MEC têm dado formação de ensino médio aos índios, que começam a assumir o próprio direcionamento desse tipo de educação formal."
Fonética e fonologia
Inventário fonológico
Consoantes O munduruku apresenta 17 fonemas consonantais. +Fonemas consonantais (em AFI)bilabialalveolarpalatalvelarglotalnasalmnŋoclusivap bt dtʃ dʒkʔfricativasʃhaproximantewjtepeɾ
Vogais O munduruku apresenta 5 fonemas vocálicos, orais e nasais. +Fonemas vocálicos (em AFI)anteriorcentralposteriorfechadai ĩmédiae ẽə ә̃o õabertaa ã
Tons O munduruku é uma língua tonal, ou seja, a entonação é utilizada de modo a diferenciar palavras, seja em seu significado ou em sua função gramatical. Assim, a intensidade do tom de cada morfema muda de acordo com cada palavra, como observado nos exemplos a seguir.
"i2hi2" (inverno) ≠ "i2hi3" (macaco da noite)
"i3yu4" (salgado) ≠ "i3yu3" (leve)
As palavras em munduruku para “inverno” e “macaco da noite” têm a mesma grafia, mas são diferenciadas pelo tom utilizado em cada morfema. O mesmo ocorre entre as correspondências em munduruku para “salgado” e “leve”.
O munduruku apresenta 4 tons distintos. O tom 1 é o tom mais alto. Ele é pouco comum e é utilizado, principalmente, em palavras ou partículas que enfatizam o termo ou mostram abundância, e que geralmente têm sentido de “muito” ou de superlativo. O tom 2 e tom 3 são os tons médio e baixo, respectivamente, sendo ambos mais baixos que o tom 1, mas o tom 2 mais alto que o 3. O último tom é o tom 4, que representa a laringalização acompanhada de tom 3. É o tom mais baixo de todos, marcado pela vibração lenta das pregas vocais, em que somente a parte anterior das cordas vocais vibram. Estrutura da sílaba A sílaba em munduruku é composta por um núcleo vocálico obrigatório e um de quatro acentos fonêmicos (três de altura e um de laringealização). Também pode ter um início ou coda. Nenhum encontro consonantal é permitido. Assim, as sílabas permitidas são CV, CVC, V e VC (com V sendo o mais raro).
Início O início nesta língua pode ser qualquer um dos 16 fonemas consonantais que contrastam quanto à maneira e ao ponto de articulação:
(1) oclusivas surdas /p, t, k, tʃ, k, ʔ/
(2) paradas sonoras /b, dʒ/
(3) fricativas /s, ʃ, h/
(4) nasais /m, n, ŋ/,(5)
(5) sonorantes /w, y, r/
Coda O único segmento não permitido na coda é /tʃ/. Observe que CVj e CVw e não CV.V são considerados sílabas CVC por uma variedade de razões; uma é que exigiria postular um novo padrão de sílaba limitado a CVu e CVi, sem outras vogais ocorrendo na posição de coda. Também há um contraste fonético entre /i, u/ como núcleos vocálicos e /y, w/ como codas, sendo o primeiro distintamente vocálico e o último consonantal.
Núcleo O núcleo silábico é limitado a apenas uma vogal.
Acento O acento é considerado uma característica de toda a sílaba, e não apenas do núcleo. Um acento ocorre com cada sílaba. Observe que a carga funcional do acento é leve - apenas cerca de 40 pares lexicais com acentos contrastivos foram encontrados, e poucos contrastes gramaticais são marcados apenas pelo acento.
Escrita
Alfabeto e ortografia O alfabeto munduruku possui 22 grafemas. A seguir estão representados os grafemas do alfabeto em munduruku, seguidos de sua representação fonética e explicação de sua pronúncia. Os caracteres sem explicação têm pronúncia igual a do português.
A a (/a/) B b (/b/) C c (/tʃ/) - pronúncia como o t em tia (tchia) D d (/d/) E e (/e/) G̃ g̃ (/ŋ/) - não há correspondência no português (pronúncia de gng) H h (/h/) - pronúncia como o rr em correndo I i (/i/) J j (/dʒ/) - pronúncia como o d em dia K k (/k/) - pronúncia como o c em carro M m (/m/) N n (/n/) O o (/o/) - pronúncia como o ô em ônibus - também possui como alofone /u/ P p (/p/) R r (/ɾ/) - pronúncia como o r em cara S s (/s/) T t (/t/) U u (/ə/) - não há correspondência em português (vogal entre o e e) - também possui como alofone /ɨ/ W w (/w/) - representa o u em português (assilábica), pronúncia como o u em Paraguai X x (/ʃ/) - pronúncia como o x em xícara Y y (/j/) - representa o i em português (assilábica), pronúncia como o i em ioiô ’ (/ʔ/) - pausa glotal, pronúncia como o ’ em ã’ã (para negar alguma coisa)
As vogais orais ⟨a⟩, ⟨e⟩, ⟨i⟩, ⟨o⟩ e ⟨u⟩ recebem o til (~) para representar as vogais nasais ⟨ã⟩, ⟨ẽ⟩, ⟨ĩ⟩, ⟨õ⟩ e ⟨ũ⟩.
Morfossintaxe
Nome
Pronomes pessoais Em munduruku, os pronomes pessoais funcionam como prefixo, ou seja, são anexados ao início dos verbos. Eles podem variar de acordo com a frase em questão e com a transitividade e os objetos do verbo. A tabela a seguir contém os pronomes pessoais utilizados em munduruku com verbos intransitivos. +Pronomes pessoais em munduruku para verbos intransitivosPessoa e númeroPronome pessoal (prefixo)Significado1ª singularo-eu, me2ª singulare-tu, você3ª singularo'-ele, ela1ª plural exclusivooce-nós, nos (excluindo você)1ª plural inclusivoa-nós, nos (incluindo você)2ª pluralepe-vós, vocês3ª pluralo'- ipeles, elas Assim, os pronomes pessoais você e eles/elas em munduruku, por exemplo, juntos ao verbo "kap" (passar), seriam, respectivamente, "ekap" (você passou) e "o’kap ip" (eles/elas passaram).
Relações de posse (pronomes possessivos) É possível estabelecer relações de posse entre os nomes (coisa possuída) e as pessoas do discurso (possessores) com a utilização de pronomes possessivos. Em munduruku, os pronomes possessivos são representados por prefixos para os nomes. Esses pronomes se alteram de acordo com o nome em questão, como observado nas tabelas a seguir.
Nomes inalienáveis: não é possível removê-los ou separá-los de seu possessor. Nomes alienáveis: é possível removê-los ou separá-los de seu possessor. +Pronomes possessivos para nomes inalienáveis iniciados por vogalPessoa e númeroPronome possessivo (prefixo)Significado1ª singularw-meu, minha2ª singular -de você3ª singulary-dele, dela3ª referencialj-sua própria1ª plural exclusivaoc-nossa (excluindo você)1ª plural inclusivawuy-nossa (incluindo você)2ª pluraley-de vocês3ª pluraly- ipdeles, delas Exemplo: "a'õ" (voz) -> "ja’õ" (sua própria voz) +Pronomes possessivos para nomes inalienáveis iniciados por consoantesPessoa e númeroPronome possessivo (prefixo)Significado1ª singularo-meu, minha2ª singulare-de você3ª singulari-/t-*dele, dela3ª referencialje-sua própria1ª plural exclusivaoce-nossa (excluindo você)1ª plural inclusivawuy-nossa (incluindo você)2ª pluraley-de vocês3ª plurali-/t- ip*deles, delas *Se o nome começa com d ou n, estes se transformam em t-. Caso contrário, é adicionado o i-.
Exemplo: "dao" (perna) -> "tao ip" (perna deles/delas), "ba" (braço) -> "iba" (braço dele/dela) +Pronomes possessivos para nomes alienáveisPessoa e númeroPronome possessivo (prefixo)Significado1ª singularwe-meu, minha2ª singulare-de você3ª singularce-dele, dela3ª referencialje-sua própria1ª plural exclusivaoce-nossa (excluindo você)1ª plural inclusivawuy-nossa (incluindo você)2ª pluraleye-de vocês3ª pluralce- ipdeles, delas Exemplo: "kobe" (canoa) -> "eyekobe" (canoa de vocês)
Afixação e derivação no nome Alguns nomes em munduruku derivam de outros já existentes, pelo processo de afixação, o qual altera o conteúdo semântico dos nomes. De acordo com sua classificação de posse, os nomes em munduruku podem levar prefixos e/ou sufixos no processo de derivação, como observado a seguir.
Inalienavelmente possuídos: prefixo possessivo obrigatório + radical + sufixos facultativos Alienavelmente possuídos: prefixo possessivo facultativo + radical + sufixos facultativos Não-possuíveis: radical + sufixos facultativos
Os prefixos que os nomes podem receber no processo de afixação em munduruku indicam posse e são representados pelos pronomes possessivos.
Já os sufixos podem indicar diminutivo ("-’it’it"), aumentativo ("-xixi"), plural ("-yũ"), inteiro ("-bun"), defunto ("-’ũm") ou podem ser particularizantes ("-in"). Há algumas regras quanto à utilização desses sufixos nos nomes, indicadas a seguir:
"-’it’it" e "-xixi" são mutuamente exclusivos, ou seja, não podem existir na mesma palavra, como em "ayacat’it’it" (moça - mulher no diminutivo) e "kobexixi" (canoa grande). "-in" só ocorre quando existe pluralizador ("-yũ"), como em "pun kobeyũin" (uma das canoas). "-bun" só ocorre com substantivos temporais, como em "iximabun" (a noite inteira). "-’ũm" só ocorre com substantivos de pessoa, substantivos que significam animal ou palavras com o nominalizador pessoal "-at" ou nominalizador de pessoa habitual "-ukat", como em "ite’ũm" (ele defunto). "-’ũm" sofre reduplicação quando o referente é plural, como em "iteyũ’ũmũm" (eles defuntos).
Verbo
Tempo, aspecto e modo O tempo, aspecto e modo dos verbos em munduruku podem ser percebidos pelo uso das partículas temporais, aspectuais e modais (TAM). Essas partículas representam passado recente ("juk/cuk"), iminência ("buk/puk"), imperativo polido ("juy/cuy") ou hipótese ("kuka/ka").
Passado: A partícula "juk/cuk" indica que uma ação aconteceu em um passado muito próximo ao momento em que a frase foi dita, o que faz com que o verbo associe-se ao tempo verbal passado. Um exemplo do uso dessa partícula é em “Õn cuk oajẽm.” (Acabei de chegar.)
Iminência: Já a partícula "buk/puk" indica que a ação expressa pelo verbo está prestes a acontecer e, por isso, é muitas vezes associada ao aspecto verbal imperfectivo. A partícula está presente em “Xen puk õn.” (Eu estou indo dormir agora.)
Imperativo polido: "Juy/cuy" é uma partícula que “implica ordem ou sugestão, mas de caráter extremamente polido, educado, dando margem, inclusive, a uma recusa”. Está relacionada ao modo verbal imperativo e é utilizada em “Okpot kay buk cuy ag̃ oxi.” (Minha mãe, por favor, olhe o meu filho para mim.)
Hipótese: Por fim, a partícula "kuka/ka" está associada ao modo verbal subjuntivo e estabelece a relação de condição entre orações. É utilizada em frases condicionais, nas quais vem após a partícula "pima/bima", que possui sentido de “se”. Um exemplo do seu uso é em “Õn wãtaxipi pima acã kuka pig̃ag̃am oju g̃u.” (Só se eu estivesse doente, eu não iria pescar.)
Além das partículas TAM, é possível, ainda, evidenciar o aspecto do verbo de acordo com o sufixo "-m". Caso esse esteja presente nas formas verbais, o aspecto é imperfectivo. Caso contrário, o aspecto é perfectivo.
Reduplicação