commoldura|Ilustração de estante de sala de leitura. A sala de leitura constitui-se em um ambiente que pode ser instalado em diversos contextos, como em escolas, bairros, condomínios, igrejas, organizações não governamentais, organizações privadas ou outros, onde há a possibilidade de estabelecer um envolvimento maior não apenas com a leitura, mas também com atividades lúdicas, projetos culturais, produção artística e intelectual do público participante, bem como a expansão do próprio ato de ler, realizando-o de maneira mais crítica, ativa e compartilhada, buscando contribuir para a formação de sujeitos leitoresFEITOSA, Márcia Soares de Araújo. O ambiente e as interações na sala de leitura em escolas públicas de São Paulo: histórico, limitações e perspectivas para a constituição de leitores neste início de século XXI. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. 2019. https://doi.org/10.11606/T.48.2020.tde-05122019-154118. Disponível em:https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-05122019-154118/publico/MARCIA_SOARES_DE_ARAUJO_FEITOSA_rev.pdf Acesso em: 30 out. 2020. .
No contexto brasileiro, é comum que haja uma confusão entre as terminologias Biblioteca Escolar e Sala de Leitura, visto que ambas são tratadas como sinônimos. No entanto, há uma diferença entre os dispositivos, uma vez que a Sala de Leitura não possui um acervo caracterizado para uma sala de leitura específica e não necessita da atuação de um bibliotecário, assim como existe uma mobilidade de tal ambiente, podendo, inclusive, constar dentro das bibliotecas.
História no Brasil O desenvolvimento de espaços destinados ao aprimoramento da leitura no Brasil surge na década de 1980 em decorrência das necessidades sociais que avolumavam-se na época, como a crescente massa urbana e a falta de profissionais capacitados para atuar no mercado, explicitando ainda mais os baixos níveis educacionais, de leitura e de letramento. Logo, partir da década de 1980, mais especificamente no ano de 1988, a Fundação de Assistência ao Estudante (FAE), ao lado do Ministério da Educação e Cultura (MEC), criam o Projeto Sala de Leitura, estabelecendo como público alvo as crianças e os jovens, além de manter o desejo de abranger todo o país com o incentivo à leitura, realizando, para isso, a distribuição de livros de literatura e livros didáticos, principalmente em escolas públicas de Ensino Fundamental de São PauloCOPES, Regina Janiaki; SAVELI, E. de L. Programas, Projetos e Campanhas de Incentivo à Leitura: uma visão histórica. In: Arquivos do 15º Congresso de Leitura do Brasil. 2019. Disponível em:http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem07pdf/sm07ss11_07.pdf . Acesso em: 30 out. 2020. .
Embora diferente da Biblioteca Escolar, mas não dissociado a esta, o Projeto Sala de Leitura, que ampliou o uso do termo face ao setor, possui uma origem proveniente de uma escola e de uma biblioteca infantil, do mesmo modo em que caminhou, em seus fundamentos, ao lado de outros projetos, como o Plano Trienal do Programa Escola-Biblioteca, que previa metas entre os anos de 1976 e 1978PREFEITURA DE SÃO PAULO. Trajetória do Programa Sala e Espaço de Leitura. 45 anos Sala e Espaço de Leitura - Cronologia. São Paulo, 2017. Disponível em: http://portal.sme.prefeitura.sp.gov.br/Portals/1/Files/45577.pdf. Acesso em: 30 out. 2020. para expandir o alcance do programa. Na década de implantação das salas de leitura, 1980, o projeto encarregado em dar seguimento às atividades somou diversos avanços para as bases do ambiente de leitura. Alguns exemplos são as cinco participações na Bienal Internacional do Livro, 225 unidades instaladas e mais de 200 mil alunos atendidos, assim como houve um distanciamento dos ideais da Biblioteca Escolar e a apreciação da leitura passou a ser o núcleo motivador do projeto.
Já nos anos 1990 havia mais de 300 salas de leitura em funcionamento, incorporando agora as escolas que não possuíam um ambiente de leitura adequado, como as Escolas Municipais de Ensino Infantil (EMEIs). São instituídas também mais participações e parcerias culturais, como ao lado do Itaú Cultural, da Cinemateca e conversas com escritores, da mesma forma em que as participações na Bienal Internacional do Livro e a expansão dos acervos continuavam a ocorrer. Entre os anos 2000 e 2010 as salas de leitura já se mostravam consolidadas e ativas, gerando novas associações com os Centros de Educação Infantil (CEIs) e Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos (CIEJAs), do mesmo modo em que foi criado o Programa Minha Biblioteca e os cursos para educadores, como o Programa Círculo de Leituras, em parceria com o Instituto Tomie Ohtake.
Em 2009, especialmente no dia 18 de fevereiro, a Resolução SE 15 consolidou o Projeto Sala de Leitura nas escolas públicas estaduais de São PauloSANTOS, P. S. Biblioteca escolar e sala de leitura: um longo caminho para universalização. Biblioteca Escolar em Revista, [S. l.], v. 6, n. 2, p. 28-47, 2018. Disponível em:https://www.revistas.usp.br/berev/article/view/143688 . Acesso em: 9 nov. 2020., consolidando todos os avanços conquistados pelo projeto no decorrer dos anos. Com a Resolução ativa, 604 municípios foram atendidos e o acesso a diferentes materiais foi permitido aos alunos, ou seja, livros, catálogos, vídeos, CDs, DVDs, jornais e outrosGOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Sala de Leitura. Educação. São Paulo, 2017. Disponível em: https://www.educacao.sp.gov.br/sala-leitura . Acesso em: 30 out. 2020. passaram a ser itens do cotidiano escolar de diferentes estudantes.
A última atualização do Projeto Sala de Leitura foi feita em 2017 e, através de seu histórico, torna explícito que o caminho de diversas crianças e jovens foi reconstruído a partir da interação com a leitura, salientando a importância de tais ambientes face à formação dos sujeitos.
Mediadores O indivíduo responsável por mediar a sala de leitura é o Professor Orientador de Sala de Leitura, que participa do processo de expansão e curadoria de tais ambientes desde o surgimento do espaço. Como o próprio nome menciona, o Professor apresenta-se como o profissional que detém mais capacidade para agir na sala de leitura, uma vez que conhecer e participar ativamente das atividades escolares auxilia no entendimento das necessidades educacionais dos alunos.
Antes de ser intitulado como Professor Orientador de Sala de Leitura, o profissional já foi conhecido também como Professor Encarregado da Sala de Leitura, podendo, atualmente, ser indicado pelo diretor da escola em questão caso o professor se enquadre no perfil estipulado pela Resolução SE 15, que demanda, de preferência, um profissional formado em Letras, com experiência educacional de três anos e que seja um docente associado à Secretaria de Estado da Educação, na condição de readaptado.
Nota-se que, apesar de desempenharem um papel que pode movimentar a sala de leitura, os Bibliotecários não são tratados como os mediadores centrais para tais ambientes, ressaltando-se a diferença entre a sala de leitura e a Biblioteca Escolar; mas ao mesmo tempo há a desvalorização do potencial mediador do bibliotecário, que não demanda ser, obrigatoriamente, contratado para atuar nas salas de leitura.
Em um contexto generalista, o responsável pela sala de leitura deve estar preparado para agir ao lado de seu público, estar apto a desenvolver atividades lúdicas, fazer bom aproveitamento do espaço da sala, estimular a troca coletiva de ideias, naturalizar a leitura como ato de prazer e evidenciar as belezas dos livros. Toda mobilização do Professor Orientador de Sala de Leitura resultará não só na formação de sujeitos protagonistasPIERUCCINI, I. Mediação e protagonismo cultural: a Estação Memória. In: GOMES, H. F. ; NOVO, H. F. N. et al., orgs. Informação e protagonismo social. Salvador: EDUFBA, 2017. p. 59-76., mas também na construção de salas de leitura como ambientes únicosLEITE, Ana Carolina dos Santos Martins. O lugar da sala de leitura na rede municipal de ensino de São Paulo. In: CONGRESSO DE LEITURA DO BRASIL. 2009. Disponível em:http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem11/COLE_3254.pdf . Acesso em: 01 nov. 2020. .
Melhorias Embora seja tratada, geralmente, no contexto da Escola, uma vez que as suas origens remetem ao ambiente, a sala de leitura pode transcender esse contexto e alcançar outros setores da sociedade, especialmente os lares e as famílias que possuem membros que frequentam as escolas, principalmente as de Ensino Fundamental IFERNANDES, Fernanda. O que faz uma Sala de Leitura ganhar notoriedade dentro e fora da escola. MultiRio a mídia educativa da cidade. Rio de Janeiro, 2019. Matéria de site. Disponível em: http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/15279-o-que-faz-uma-sala-de-leitura-ganhar-notoriedade-dentro-e-fora-da-escola. Acesso em: 07 nov. 2020. . A partir da demanda não só de alunos, mas também de parcela da população, a sala de leitura precisa ser bem desenvolvida e preparada para receber os mais diversos públicos, necessitando que a comunidade escolar aja como agente de mediação do espaço neste momento. Paralelamente, algumas pesquisasINSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil. 5ª edição da Retratos da Leitura no Brasil. [Brasil], 2019. Disponível em:https://www.prolivro.org.br/5a-edicao-de-retratos-da-leitura-no-brasil-2/apresentacao/ . Acesso em: 30 out. 2020. apontam que os índices de leitura no Brasil não são positivos, evidenciando que as salas de leitura precisam enfrentar obstáculos culturais e sociais para cumprir com a sua funcionalidade.
Perante as implicações da sala de leitura, algumas medidas de melhoria podem ser sugeridas:
Utilização de banners e quadros ilustrativos com informações sobre as práticas da sala de leitura; A sala de leitura deve incentivar a participação de professores no ambiente; Promover visitas orientadas que expliquem o funcionamento da sala de leitura, bem como suas atividades que podem ser desenvolvidas a partir do próprio espaço; O espaço deve estar aberto para receber novos documentos e sugestões de seu público; Os professores podem recomendar a sala de leitura como um espaço de pesquisa para os seus alunos; As famílias podem participar ativamente das atividades desenvolvidas pela sala de leitura, bem como sugerir brincadeiras e acompanhar as crianças; Promoção do empréstimo de livros da sala de leitura para todos os membros da sociedade; Promover a interação do público com leituras ativas; Promover concursos de produção de texto, leitura encenada, saraus e outras atividades culturais; Contratação de profissionais que estejam envolvidos com os projetos da sala de leitura, assim como desejam desenvolvê-la em conjunto com o seu público. Desse modo, a expansão do uso da sala de leitura está relacionada com a participação e com o uso que os sujeitos dão ao ambiente, seja em um contexto escolar ou não. Quando as medidas de melhoria são aplicadas, a interação entre o ambiente e os indivíduos passa a ser não só a ocupação de um espaço social compartilhado, mas também um nicho de apropriação e transferência de vivências, visto que a leitura e todos os processo que a envolvem são capazes de alavancar a criatividade, o diálogo e os desafios que ocorrem em conjunto com a sociedadeBATISTA, Geisa Mara; DE OLIVEIRA, Mônica Luiza Lages. Breve história da leitura escolar no Brasil: a formação de leitores. Papéis: Revista do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens-UFMS, v. 22, n. 44, p. 64-85, 2018. Disponível em:https://periodicos.ufms.br/index.php/papeis/article/view/3148 . Acesso em: 30 out. 2020. .
Legislação da Sala de Leitura