Fragmentos de Um Filme Esmola, A Sagrada Família (1972–1977) é um filme português de longa-metragem da autoria de João César Monteiro.
Trata-se de uma ficção caracterizada por uma irreverência provocatória,A minha certidão – Auto-retrato de João César Monteiro. A confissão é feita neste libelo da sua irreverência, qualidade adquirida desde criança mal-educada, durante uma « infância caprichosa e bem nutrida». Contra a vontade do pai, que desejava em vão que o bem-amado filho seguisse uma carreira eclesiástica, tratou este de seguir por outros caminhos. Faleceu o infeliz pai de repentino ataque cardíaco depois de dissipar «toda a fortuna na satisfação de brutais apetites», deixando o pobre rapaz à mercê do fado, entregue «sem um chavo» às costumadas rabinices, que, graças a Deus e ao seu inquestionável talento, haviam de o salvar própria de toda a obra do autor, uma reflexão auto-biográfica em torno de um alter-ego, que será tema de filmes futuros. Monteiro alinha com o movimento do Novo Cinema português, iniciado nos anos sessenta. A obra é precedida por uma outra, uma longa-metragem falhada: Quem espera por sapatos de defunto.
O filme, produzido pela cooperativa Centro Português de Cinema, teve ante-estreia em 1975, no Congresso dos Escritores, em Lisboa e chamava-se, por essa altura, A Sagrada Família. O título definitivo, assim como a montagem final, datam de 1977.Jorge Leitão Ramos, Dicionário 20 Anos de Cinema Português, Diário de Lisboa, 26-06-1981.
Grande parte das sequências deste filme foram rodadas em espaços de um edifício de habitação na Rua da Ilha do Príncipe nº 7, em Lisboa, projectado pelo arquitecto Jorge Ferreira Chaves. Este lugar foi posteriormente usado como decors de outros filmes portugueses.
Ficha sumária Argumento: João César Monteiro Textos de: Ésquilo, James Joyce, Francis Ponge, André Breton Diálogos: João César Monteiro Realização: João César Monteiro Produção: CPC – Centro Português de Cinema Financiamento: Fundação Calouste Gulbenkian Exteriores: Lisboa e Serra da Arrábida Rodagem: 1972 / 1973 Formato: 16 mm p / b Género: ficção (comédia burlesca) Duração: 72 min.
Sinopse João Lucas é um fulano bizarro que quase nunca sai da cama, palco das suas brincadeiras com a filha, de melosas e intermináveis carícias com Maria, a esposa, que, de vez em quando, tem crises amorosas intensas e patéticas. As receitas domésticas são trazidas por ela, que trabalha numa fábrica alemã de chapéus-de-chuva.
O quotidiano é filmado em 8 mm pela filha do casal. O pé-de-meia de Maria é, por vontade de João, quase todo gasto nessa brincadeira. Mas ele está-se nas tintas. Num encontro de família em sua casa, imóvel, empoleirado num banco com uma máscara de porco, provoca o sogro, que o critica impiedosamente, enquanto a filha filma, passarinhando de um lado para o outro. Vai longe de mais o sogro com seus azedumes. O João explode, salta do banco e põe as visitas na rua.
Entretanto lá vai fazendo pela vida, sem nunca sair da cama: apaziguando a mulher, que se achega rastejando por entre as suas pernas, com místicas doçuras, cultivando estáticos prazeres do sexo. Maria insiste com o João, procurando dar vida à relação amorosa, mas em vão. Deseperada, saca de um revólver, descarrega o tambor no peito do marido, e desaparece deixando a filha a sós com o cadáver.
Todo este melodrama é preenchido com trechos magistrais de música clássica e ópera (João César Monteiro é um melómano e não perde uma oportunidade de mostrar isso nos filmes que faz), aqui entremeados com quadros estáticos em que longos monólogos são debitados por Maria ou por uma voz over (voz sobreposta à imagem) lendo passagens, num estilo recitado e monocórdico, de textos literários célebres, prática corrente também em certos filmes de Manoel de OliveiraManoel de Oliveira: a sedução do texto literário – artigo de João Francisco Marques na Biblioteca Digital do Instituto Camões, revista nº 11-13, pp 82/89A cidade cinemática de João de Deus: Espaço, cenário e estética na obra de João César Monteiro – artigo de Paulo Cunha em Compós desde O Passado e o Presente, o primeiro filme produzido pelo Centro Português de Cinema, facto que não é simples coincidência.
Enquadramento histórico A par disso, filme esmola por ter sido feito com pouco dinheiro (cerca de 200 contos), o quinto produzido pelo CPC (Centro Português de Cinema), apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, numa época ainda sob a vigência do Estado Novo. A lógica é esta: filme imperfeito, feito de fragmentos, de retalhos, de restos obtidos como esmola.No João, alter-ego em esboço surreal de Monteiro, protagonista deste filme feito de esmolas, encontram-se os genes de João de Deus, o pícaro herói de outros filmes seus que, inspirado pela popular figura do ideário católico português, o pobre São João de Deus, arrependido pelas ofensas ao divino, se macera ferindo o corpo, cobrindo de lama o rosto e que, dado como louco, acaba internado num hospício
A bem calculada irreverência de Monteiro tanto nos actos da vida como do cinemaA subversao social na trilogia de João Cesar Monteiro: uma análise sociológica – texto de Liliana Navarra, Universidade Nova de Lisboa (em espanhol)O Mundo ao Avesso de João César Monteiro: a imagem eidética do sagrado pervertido – texto de Francesco Giarrusso In Atas do II Encontro Anual da AIM, editado por Tiago Baptista e Adriana Martins, pp 387-397, Lisboa: AIM. ISBN 978-989-98215-0-7O regime dialógico na obra de João César Monteiro: matérias e conteúdos de uma prática subversiva – tese de doutoramento de Francesco Giarrusso em RUN, Universidade Nova de Lisboa será por certo bom investimento. Crítica social e arrojo formal, o desprezo pelo politicamente correcto, pelos equilibrados classicismos a que outros se vinculam na prática da vida e do cinema, são as apostas. A Dies Irae, ira de Deus,Fragmentos de um filme esmola – artigo de Paulo Ricardo de Almeida em Contracampo, 1972NB: Não há qualquer plano-sequência neste filme, ao contrário do que é dito no artigo supra-citado. Trata-se de um erro de classificação: há sim longos planos fixos (a câmara não se move) que conferem ao espaço cénico uma dimensão teatral a mesma do João, em tema musical de Mozart, servirá às mil maravilhas para dar consistência às personagens e para explicar as opções ideológicas e formais do autor.
A família, bem social cultivado pelo fascismo, e as liberdades estéticas praticadas na Sétima Arte pelos adeptos da Nova Vaga, a que Monteiro adere com os seus colegas do CPC, em estilo bem pessoal, serão os motivos a que ele deita mão para realizar a obra. A abjecção,Voltas e reviravoltas do abjeccionismo em Upopia 2013 prática surrealista cultivada por André Breton e explorada no cinema por Luís Buñuel, servirá de tempero. Planos fixos constantes e uma narrativa desalinhada, quebrando os cânones clássicos da exposição convencional no cinema, farão o resto.
Sabe o astuto João que é por esse lado que lá chegará. Decadência, Regeneração e Utopia em João César Monteiro – texto de Paulo Cunha,: PORTUGUESE CULTURAL STUDIES 3 Spring 2010 ISSN: 1874-6969 Torna-se reincidente.
Ficha artística Maria – Manuela de Freitas João Lucas – João Perry Criança – Catarina Coelho Esposa – Dalila Rocha Fernando Luso Soares Maria Clementina Monteiro José Gabriel Trindade SantosJosé Gabriel Trindade Santos em Centro de Filosofia de Universidade de LisboaJosé Gabriel Trindade Santos – entrevista com Anabela Mota Ribeiro na sua página pessoalTrindade Santos, ex-companheiro de vida de Manuela de Freitas (a Maria do filme e mulher do João), íntimo amigo de Monteiro e de João Bénard da Costa é figura marcante para o entendimento histórico deste filme de retalhos, feito com a conivência de solidários amigos
Ficha técnica Realizador: João César Monteiro Assistentes de realização: Margarida Gil e Solveig Nordlund Anotadora: Quenina
Imagem
Fotografia: Acácio de Almeida Chefe electricista: João Silva Electricista: Carlos Mena Adereços: João Luís
Som
Director de som: João Diogo Locução: Luís Miguel Cintra Músicas: * Mozart e Stockhausen
Montagem João César Monteiro
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Ligações externas
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