Ajuricaba (Aldeia de Mariuá, hoje Barcelos, séc. XVII - Rio Amazonas, setembro de 1727) foi líder da nação indígena dos manaus, no início do século XVIII. Revoltou-se contra os colonizadores portugueses, negando-se a servir como escravo. Deste modo, se tornou um símbolo de resistência e liberdade, além de ser considerado uma figura heroica para os cidadãos de Manaus, cidade cujo nome provém da etnia.

Etimologia Na língua nheengatu, ayurikawa designa um certo tipo de abelha, "que vive em grandes colmeias, muito irritável e brava, de onde o nome de caba." Caba, aqui, vem de kawa, vespa em nheengatu.Dicionário por Marcel Twardowsky Avilao, verbete "ayurikawa" (ver nota etimológica).

História Ajuricaba nasceu no território do atual estado do Amazonas. Passou muitos anos afastado de sua aldeia, mas foi obrigado a retornar ao convívio dos demais após o assassinato do seu pai, cacique dos manaus, pelas mãos dos invasores portugueses. Os manaus tinham um acordo com as lideranças portuguesas, onde eles permitiriam o comércio de membros de outros povos indígenas como escravos para os portugueses. Ajuricaba seria contra tal acordo de comércio de escravos. Desentendimentos posteriores levaram à morte do cacique, seu pai.

Assumindo o posto que foi de seu pai, Ajuricaba, observando a "traição" portuguesa, procurou os holandeses, que viviam mais ao norte, onde hoje é o atual Suriname. Os holandeses eram inimigos de Portugal e logo se associaram ao plano dos indígenas. Bem armados, os manaus enfrentavam os portugueses, atacando as missões do Rio Negro, resistindo e impedindo a ação das "tropas de resgate". Essas tropas portuguesas agiam em busca de escravizados indígenas dentro de sua área de influência, pois estavam em gradativa perda de mão de obra, devido à epidemia de varíola. Portanto, os portugueses temiam que outros povos indígenas da região seguissem o exemplo dos manaus, abrindo o caminho para uma invasão no vale do Rio Negro. Ajuricaba, sendo um forte líder dessa rebelião, fez com que mais tropas de resgate fossem enviadas pelo Governador Manuel Braga, que recorreu à Lisboa e ao rei de Portugal. Só pelo missionário José de Souza que foi possível fazer uma aliança com Ajuricaba, garantindo cinquenta escravizados resgatados. No entanto, as negociações de paz não duraram, e os portugueses começaram uma "guerra justa" contra os manaus em 1723. Para isso, usaram de justificativa, além da aliança com holandeses, alegações de que os manaus mantinham práticas de canibalismo e incesto, algo que nunca foi comprovado por nenhuma fonte.

A morte Maia da Gama, após organizar uma força de ataque contra o povo manau, assim descreve a morte de Ajuricaba:Após quatro anos de conflitos, em 1727, Ajuricaba foi preso e enviado a Belém, e de lá iria para Lisboa, onde seria vendido como escravizado. Durante a viagem, preso em ferros, Ajuricaba e seus homens tentaram lutar por sua liberdade com os soldados da canoa onde estavam. Falhada a tentativa, Ajuricaba, acorrentado, atirou-se à água, preferindo o suicídio à escravidão. Outro indígena preso seguiu seu exemplo, mas não teve seu nome registrado. Entretanto, a Guerra dos Manaus continuou, só se encerrando por volta de 1728 e 1730, com os colonos portugueses conseguindo exercer domínio pela região e derrotar definitivamente a nação manau, por meio de massacre e escravização.Sem Nome, "Guerra dos Manaus". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/guerra-dos-manaus/. Publicado em: 05 de abril de 2022.

Legado Apesar de não haver registro nas fontes históricas, diz-se que Ajuricaba rebelou com os portugueses após as filhas dos Tucanos e Barés, que o desejavam, serem desonradas e mortas pelos colonos. Essa interpretação contrapõe a aliança dos manaus com os holandeses, dita principalmente por fontes portuguesas, mantendo uma visão colonial que pode ser parcial ou tendenciosa. Além disso, é possível que Ajuricaba tivesse um filho, Cacunaca, que foi morto com ele nas águas do Rio Negro.

O suicídio de Ajuricaba foi considerado heroico tanto por seu próprio povo quanto pelos portugueses e sua figura ficou na memória popular repercutindo em diversas rebeliões e enfrentamentos de líderes indígenas contra os colonizadores. Há uma lenda sobre a sua morte, em que diz que as águas do Rio Negro, Solimões e Branco não se misturam como um marco do mito, em tributo ao cacique. Segundo a narrativa, esse fenômeno natural existe para demarcar o lugar exato em que o guerreiro, em um último ato de resistência contra os colonizadores, se atirou acorrentado às águas, preferindo a morte à escravização. Essa narrativa integra a tradição oral amazonense na qual se defende a liberdade de seu povo e fim do domínio colonial.

A Amazônia, ao longo dos anos 1970, foi cenário de diversas produções cinematográficas e teatrais, tanto nacionais quanto estrangeiras. Em 1974, Ajuricaba foi personagem central da peça A Paixão de Ajuricaba, poema dramático que narra a resistência dos povos indígenas ao colonialismo, tendo o cacique como personagem principal. Oswaldo Caldeira, em 1977, produz o longa metragem dramático Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia. O filme, filmado na própria floresta Amazônica, narra a resistência do cacique Ajuricaba à presença dos colonizadores portugueses na região. A narrativa de Ajuricaba é construída de maneira não linear, intercalando alguns momentos da segunda década do século XVIII ao tempo presente, dinâmica que realça uma certa continuidade histórica.

Ajuricaba, por ter se tornado símbolo de resistência e coragem, foi incorporado no imaginário do estado do Amazonas e homenageado em diversas músicas, como é o caso do Festival de Parintins, no Bumbódromo, onde o Boi Garantido (vermelho) desfilou com a toada Herói Ajuricaba no ano de 1996 :

Ah, Ah, Ah, Ah

Ajuricaba, líder da taba

Da tribo dos Manaó

Ajuricaba, morubixaba

Da tribo dos Manaó

He, he, he, he

Bravura e coragem sobrevivem

Nas veias do povo baré

Valentes de grandes conquistas

Exemplo de raça e de fé

Ô, ô, ô, ô

E a vida do nosso guerreiro

Repousa no encontro dos rios

Rio negro e rio mar, ah ah

Posteriormente, o Boi Garantido voltou a homenagear o líder indígena numa outra toada, nomeada Cacique Ajuricaba, no ano de 2018:

Em combate a bravura de um líder da grande nação

Manaó!

Que resistiu à prisão

Liberdade, o bem maior contra a dominação

Manaó!

Que resistiu à prisão

Liberdade, o bem maior contra a dominação

Eu prefiro a morte do que a escravidão

Esta terra é minha, esta terra é nossa

Me lanço no encontro das águas

Me recebam, ó seres encantados dos rios

Para minha imortalização

Ajuricaba sou eu

Ajuricaba é a selva

Ajuricaba é meu rio

E a resistência eterna

Ajuricaba também foi homenageado pelo rapper cearense Don L, no álbum Roteiro pra Ainouz (Vol. 2), em uma espécie de manifesto onde são citados momentos históricos e heróis da resistência de povos oprimidos e marginalizados. A citação ao herói indígena ocorre na oitava faixa do álbum , nomeada A Volta da Vitória:

Será filho da vitória e seus ancestrais

Heróis como nós pela liberdade

Um brinde por Amaro

Um brinde por Aleixo

Um brinde por Ajuricaba, guerrilheiro

Sim chapa descendemos desses sonhos

E nunca morremos

Homenagens

Em 1965, o município de Ajuricaba, no estado do Rio Grande do Sul, inspirou-se na história de Ajuricaba para emancipar-se de Ijuí. Simboliza, então, o "homem que luta pela liberdade". Em 1996 e, mais recentemente em 2018, Ajuricaba foi tema de apresentação nos Festivais de Paratins. Em 2013, Foi fundado um Moto Clube na cidade de Manaus, estado do Amazonas com o nome de Ajuricabas Moto Clube (AMC17) em homenagem a Ajuricaba. Em 2019, a Rede Amazônica promoveu um especial para o público escolher sabores, costumes, lugares e personalidades em homenagem aos 350 anos da cidade de Manaus. Houve uma votação online para escolher "a personalidade que é a cara de Manaus", sendo Ajuricaba o vencedor, com 46% dos votos. Em dezembro de 2020, foi publicada pelo estúdio amazonense Black Eye uma história em quadrinhos chamada Ajuricaba, escrita pelo jornalista Ademar Vieira, desenhos de Jucylande Júnior e arte final de Tieê Santos.

Ver também Guerra dos Manaus Escravidão Indígena no Brasil

Manaus (povo indígena de Ajuricaba)

Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia (Filme)

Revolta de Mandu Ladino

Nheçu

Bibliografia David Graham Sweet. A Rich Realm of Nature Destroyed: The Middle Amazon Valley, 1640-1750. PhD thesis, University of Wisconsin, 1974. Décio de Alencar Guzmán 1997. Historias de brancos: memória, historiografia dos índios Manao do rio Negro (séculos XVIII-XX). Dissertação (mestrado), Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,1997. Link: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000129151 Márcio Souza. História da Amazônia: Do período pré-colombiano aos desafios do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2019. Nádia Farage. As Muralhas dos Sertões. Os povos indígenas no rio Branco e a colonização. Rio de Janeiro, Paz e Terra; ANPOCS, 1991.

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