MTV ao Vivo: Eletrodoméstico é o segundo álbum ao vivo e primeiro em vídeo da artista musical brasileira Daniela Mercury. O seu lançamento ocorreu em 3 de abril de 2003, através das gravadoras BMG e Ariola. Produzido para a série de registros ao vivo promovida pela rede de televisão MTV Brasil, o álbum teve a a produção musical assinada pela própria intérprete juntamente a Nelson Motta. Sua gravação ocorreru entre os dias 24 e 25 de janeiro de 2003 na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia, reunindo um público de aproximadamente doze mil pessoas. O show fez parte do projeto "Sua Nota É Um Show", do Governo do Estado. O repertório conta com sucessos do catálogo anterior de Mercury, além de algumas faixas inéditas e regravações de Caetano Veloso, Lenny Kravitz e Jorge Ben Jor. Participam como convidados especiais o cantor Carlinhos Brown, o rapper italiano Jovanotti, a cantora portuguesa Dulce Pontes, a cantora e atriz espanhola Rosario Flores e o grupo instrumental Olodum.
MTV ao Vivo: Eletrodoméstico recebeu análises geralmente mistas da mídia especializada; ao passo em que alguns aprovaram sua produção e o viram como uma progressão artística para a intérprete, outros, criticaram, sobretudo, seu repertório. No Prêmio Brasil DVD, foi concedorado na categoria de "Melhor DVD Musical Nacional". Quanto às vendas, o vídeo recebeu certificação de ouro pela Pro-Música Brasil (PMB). Em Portugal, obteve a quarta colocação como melhor na tabela de DVDs e foi certificado como platina pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP).
A promoção de MTV ao Vivo: Eletrodoméstico aconteceu de diversas formas, incluindo apresentações ao vivo em programas de televisão como Caldeirão do Huck e Domingão do Faustão, além da promoção limitada "0300 MTV ao Vivo Daniela Mercury", lançada pela Telemar. A cantora também saiu em turnê com o álbum, com datas no Brasil e exterior. Três singles foram lançados para também promover Eletrodoméstico: a canção "Dona da Banca" foi lançada como primeiro, enquanto "Meu Plano" foi o segundo single do disco, e "Pára de Chorar", esta gravada em estúdio e incluída apenas no CD, encerrou a divulgação do projeto.
Antecedentes e lançamento
Em 2001, Mercury lançou seu sexto álbum de estúdio, Sou de Qualquer Lugar. O disco possui uma sonoridade inspirada pela música pop e gêneros eletrônicos como o techno e dance, opostamente à seus discos anteriores, onde a maioria das canções alternavam a sonoridade entre o samba-reggae e o axé. A obra foi recebida friamente pela crítica especializada, que não apreciou a mudança sonora da cantora e a quantidade de gêneros diferentes no álbum, afirmando que Mercury soava "desnorteada". Comercialmente, o disco também não obteve grandes resultados quando comparado aos trabalhos anteriores da cantora, tendo sido certificado com ouro pela Pro-Música Brasil (PMB), após comercializar mais de cem mil réplicas no páis, sua menor venda até então. Apesar da recepção consideravelmente fraca, a regravação da música "Mutante" — originalmente gravada por Rita Lee em seu álbum Saúde (1981) — tornou-se um grande sucesso após ter sido incluída na trilha sonora da novela das sete da Rede Globo, Desejos de Mulher. Com intenção de continuar explorando outros estilos musicais, a cantora cogitou gravar um álbum composto por canções de Elis Regina, mas o projeto foi descartado. No lugar deste, surgiu a oportunidade de produzir um show para a série MTV ao Vivo, da MTV Brasil. O produtor Nelson Motta aceitou o convite para produzir o disco, pela amizade que mantinha com a cantora. A princípio, o projeto nasceu como um show da turnê de Sou de Qualquer Lugar, que seria gravado em Lisboa, em parceria com a MTV Portugal. No entanto, depois de várias mudanças, Mercury sugeriu gravar em Salvador, no ápice do verão baiano.
Depois de três meses de ensaios na Bahia, o show foi gravado nos dias 24 e 25 de janeiro de 2003 na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, a partir das 19h, fazendo parte do projeto "Sua Nota É Um Show", do Governo do Estado da Bahia. Contou com uma estrutura de palco com um telão lembrando uma imensa TV ao fundo, trocas constantes de figurinos, e um piso branco cobrindo todo o espaço da Concha Acústica, além de cenários elaborados por Gringo Cardia, avaliados em R$ 130 mil. O concerto atraiu 12 mil pessoas nos dois dias de gravação. O show especial, gravado com uma tecnologia inédita em 96 canais, foi transmitido pela MTV pela primeira vez em 21 de março de 2003, enquanto o CD foi lançado em 3 de abril e o DVD em 25 de junho. A capa para o material, apresenta Mercury cantando em um vestido de couro desenhado por Glória Coelho. A jornalista americana Camille Paglia comentou que a "enfeitiçante" capa dava "um sabor da estonteante variedade de rodopios, das roupas de couro recortadas, jóias intrincadas e extravagantes braçadeiras gaúchas".
Participações especiais
De acordo com Mercury, o critério para a escolha dos artistas participantes do projeto era de que fossem jovens, mais ou menos da mesma idade que ela, que estivessem fazendo alguma música atual de seus países e que fossem alegres, divertidos e bons de cena. A cantora procurava um artista italiano para o projeto. Ela queria mostrar para o Brasil artistas de países que a acolheram, segundo ela, "com muito amor", como a Itália, Espanha e Portugal. Sua opção foi o rapper italiano Lorenzo Cherubini Jovanotti, escolhido após Motta ter traduzido para o português uma canção dele, "L'Ombelico del Mondo", que foi gravada por Mercury como "Umbigo do Mundo" no álbum. Mas o que a aproximou foi o fato de o considera-lo divertido, polêmico e inteligente; "É uma pessoa comprometida com a Itália, ligado a ONGs. É uma pessoa que tem um texto muito forte". O músico também disse ter ficado muito satisfeito em ser convidado para participar do projeto.
Mercury disse não poder deixar de ter seu antigo colaborador, Carlinhos Brown, incluído no projeto, pois a cumplicidade e a identidade dos dois artistas de buscas e de trabalho se completam, e de acordo com ela, Brown "é o nosso menestrel, é um homem criativo". Dulce Pontes, uma cantora portuguesa, foi selecionada por Mercury, após um encontro no saguão de um hotel em que estavam hospedadas em Lisboa; ela estava lá para gravar um programa de televisão, e Pontes, para fazer um show. Trocaram contatos, e um mês depois foi feito o convite, aceito prontamente pela portuguesa; "A primeira grande participação, que eu convidei há algum tempo, foi Dulce Pontes. Essa mulher é uma referência para mim como intérprete. Não é só uma cantora que eu amo e que tenho todos os discos há muito tempo. Mesmo antes de ser conhecida em Portugal já era fã da Dulce, é uma honra enorme tê-la comigo", afirma Mercury. A cantora e atriz espanhola Rosario Flores também foi escolhida para estar dentro do projeto. Mercury descreveu-a como tendo uma música "que também é pop, mas com raízes ciganas e flamencas. Achei que nós tínhamos uma identidade em relação com outros países".
Sinopse e composição
O show se inicia, Mercury surge ao fundo do palco, enquanto usa um figurino composto por uma blusa laranja e calça marrom, desenhados por Lara Gerin e Carol Gold, com vários anéis em seus dedos. Nele, interpreta "Eletro-doméstico", faixa inédita e título do álbum, que une funk, rap e samba em sua sonoridade. Suas letras, escritas por Marcelo Falcão e Marcelo Yuka, abrigam versos revoltosos que criticam às mazelas sociais do Brasil: "Eletro-doméstico/ eletro Brasil/ eletro selvagem/ futuro que ninguém viu/ Vem aí um baile movido a novas fontes de energia/ Chacina, política e mídia/ Bem perto da casa que eu vivia". A canção é sucedida por uma releitura eletrônica de "Mutante", contida em seu álbum anterior, Sou de Qualquer Lugar (2001). Também inédita, a terceira faixa, "Temporada das Flores", é um pop escrito por Leoni. Logo após, são interpretados "A Praieira" e "Nobre Vagabundo", ambas são partes dos discos Sou de Qualquer Lugar e Feijão com Arroz (1996), respectivamente. O próximo número é uma regravação de "Ive Brussel" (1979), composta e gravada pelo cantor Jorge Ben Jor em seu álbum Salve Simpatia (1979); a nova roupagem, funde ritmos brasileiros à batidas eletrônicas e ao hip-hop, além de conter versos inéditos em italiano proferidos por Jovanotti, que também participa da apresentação. As performances seguintes são obras contidas no catálogo anterior de Mercury, "Minas com Bahia", de Feijão com Arroz, e "Você Não Entende Nada", do álbum O Canto da Cidade (1992). O bloco é encerrado com a interpretação de "Dona da Banca", um samba com influências electro e funk, de autoria de Robson Pacífico e Aleh, originalmente gravado pela banda Eletrosamba em seu álbum homônimo de 2004.
Em seguida, Mercury reaparece no palco em um vestido preto de couro para realizar o bloco das canções de andamento lento do show; o ato se inicia com "Meu Plano", uma balada romântica e inédita, composta por Lenine e Dudu Falcão, interpretada num tom mais grave, sensual e intimista. No final da apresentação, balões brancos que estavam sendo segurados pelo público são estourados. Na sequência, a cantora dá voz a uma versão em bossa nova de "À Primeira Vista", parte de Feijão com Arroz, que é sucedida por "Baby"; originalmente interpretado por Gal Costa e Caetano Veloso e readaptada em estílo trip-hop. "Só pra Te Mostrar", de O Canto da Cidade, e o lançamento "To Remember", dão continuidade às baladas do disco. A última conta com a participação de Brown, um dos autores da canção, que surge no palco lendo um papel em sua mão, no qual representa a carta de amor cantada na música.
A próxima obra executada é "It Ain't Over 'Til It's Over", tema originalmente gravado pelo cantor estadunidense Lenny Kravitz em seu álbum Mama Said (1991), em um novo arranjo de samba-reggae, com participação do grupo Hip Hop Roots no palco. Outra regravação feita é de "Nossa Gente (Avisa Lá)", originária do grupo Olodum, em formato de rap, cujo refrão contém três vozes de Mercury sobrepostas em harmonia. A décima-sétima faixa é uma releitura de "Milagres do Povo", por Veloso. Aqui, é interpretada ao lado de Pontes, que aparece por trás de tapumes verdes sob um vestido rosa que, segundo Mercury, lembra "a própria Oxum". A cantora continua homenageando a cultura africana no Brasil, usando um cocar de ornamentos de prata caindo sobre seus olhos, característico de uma sacerdotisa do Candomblé, dividindo o palco com dançarinas afro-brasileiras, para executar um medley formado pelas canções "O Mais Belo dos Belos (A Verdade do Ilê)" e "Por Amor ao Ilê", presentes em O Canto da Cidade e Música de Rua (1994), respectivamente.
Seguidamente, inicia-se "Riqueza", versão em espanhol de "Tour", tema originalmente gravado e composto por Brown; realizado em dueto com Flores. O número orna elementos do flamenco, da espanhola, ao samba-reggae, da brasileira. Mercury dá seguimento ao show com "Ilê Pérola Negra (O Canto do Negro)", sucesso anterior do disco Sol da Liberdade (2000); durante a performance, ela divide o palco com apenas um dançarino. Para finalizar o bloco, é interpretado "Umbigo do Mundo", versão em português de "L'Ombelico del Mondo", por Jovanotti, em que o grupo Olodum participa. Musicalmente, a faixa integra rap, com elementos de world music, samba, reggae, capoeira e bossa nova. No último ato do show, a intérprete muda de figurino, agora vestindo um vestido vermelho, para cantar um compilado de números antigos, como "Swing da Cor", parte de seu álbum de estreia auto-intitulado, também com a participação de Olodum, além de "Rapunzel" (1996), de Feijão com Arroz. As apresentações de "Trio Metal", de seu primeiro disco ao vivo Elétrica (1998), e "O Canto da Cidade", do registro de mesmo nome (1992), encerram o concerto. Faixa bônus da edição física em CD e única feita em estúdio, "Pára de Chorar" contém uma batida de música house e uma letra reciclada por Motta a pedido de Mercury.
Crítica profissional