Ciclo do ouro, também referido como ciclo da mineração e corrida do ouro, foi o período da história brasileira em que a extração e exportação do ouro dominou a dinâmica econômica do Brasil Colônia.BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição revista. São Paulo. Ática. 2003. p. 100. O ciclo vigorou com força durante os primeiros 60 anos do , altura a partir da qual a produção de ouro começou a decair devido ao esgotamento progressivo das minas da região explorada, que compreende, aproximadamente, os atuais estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
As consequências do ciclo do ouro para o Brasil foram inestimáveis. Foi ele que proporcionou à colônia as importantes transformações que antecederam à Independência, em 1822. Primeiro, a população da colônia aumentou significativamente. Ao final do século XVIII, a população era dez vezes maior do que cem anos antes. Segundo, houve um maior conhecimento da terra. As incursões território adentro expandiram os limites da América portuguesa e mudaram a forma do futuro país, que agora se estendia para além dos limites estabelecidos no Tratado de Tordesilhas. Por fim, houve importantes mudanças político-administrativas, como a transferência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro (1763) e a criação de novas capitanias, como a de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Contexto português Durante os 60 anos de duração da dinastia filipina (de 1580 a 1640), Portugal tinha vivido numa união pessoal com Espanha, onde o rei de Espanha era, simultaneamente, o rei de Portugal, a qual deixou o seu comércio bastante arruinado, com os negócios da Índia numa completa decadência e com a marinha mercante praticamente destruída.
Mas, apesar de tudo, durante a dominação filipina, tinha aumentado muito a exploração econômica do Brasil. Nos primeiros tempos, os portugueses apenas comercializavam pau-brasil, mas não tardou para que aproveitassem os terrenos férteis e instalassem grandes engenhos de açúcar e, depois, grandes plantações de tabaco. Em seguida, aventureiros filhos de índios e portugueses, os bandeirantes, rasgaram os caminhos do sertão à procura de escravos índios, pedras preciosas e lugares para se criar gado, fazendo, do Brasil, o principal fornecedor de cabedais da Europa.Coleção de documentários "História Essencial de Portugal", de José Hermano Saraiva; episódio 7, "Da restauração de 1640 às invasões francesas".BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição revista. São Paulo. Ática. 2003. p. 58.
Entretanto, em Portugal, depois do golpe de estado de restauração da independência, em 1640, a Guerra da Restauração com Espanha continuava. Foi uma longa guerra que se prolongou durante vinte e sete anos, terminando em 1668 com o Tratado de Lisboa assinado pelos reis de Portugal e Espanha e onde se reconhece a total independência de Portugal. Mas, logo depois de feita a paz, o conde de Ericeira procurou restituir a independência de Portugal sob o ponto de vista económico: criou fábricas de papel, de vidro, de curtumes, de sedas.
E é então neste contexto que, nos últimos anos do , se descobrem os grandes aluviões de ouro da região que, a partir de então, recebeu o nome de Minas Gerais.
Os sertanistas descobrem o ouro miniaturadaimagem|250x250px|Cena do Brasil colonial, à época do ciclo do ouro, onde se vê uma mulher comprando leite de um vendedor negro e um homem de casaco longo peruca e chapéu. Obra de Carlos Julião ( Quando chegaram ao Brasil, os primeiros exploradores portugueses buscavam ouro e metais preciosos, pois acreditava-se que os havia no seu território. Mas, no início e durante os primeiros dois séculos de ocupação portuguesa, as excursões pioneiras no litoral e interior do país não trouxeram muitos resultados, ainda que estas riquezas abundassem em várias zonas do Brasil, como mais tarde se viria a descobrir.
No fim do , a prosperidade dos engenhos açucareiros das colônias holandesas, francesas e inglesas da América Central fez a produção de açúcar no território brasileiro enfrentar uma séria crise. Foi então que a Coroa Portuguesa começou a estimular os seus funcionários e a população da colônia, principalmente a do Planalto de Piratininga, atual cidade de São Paulo, a desbravar as terras ainda desconhecidas em busca de minerais preciosos, nomeadamente ouro.
Muitos exploradores morreram à procura de joias e pedras preciosas, tal como o bandeirante Fernão Dias Paes Leme, que morreu em 1681 à procura de esmeraldas. Finalmente, nos últimos anos do , os primeiros exploradores descobriram esse tipo de riqueza no Brasil.
miniaturadaimagem|250x250px|Casa Grande e Capela do Sítio Santo Antônio, em São Roque, São Paulo. Construída por volta de 1640, é um importante exemplo de casa bandeirista.|esquerda
Foi nos sertões de Taubaté que, em 1697, se deu a primeira grande descoberta, consistindo em "dezoito a vinte ribeiros de ouro da melhor qualidade", conforme anunciou o então governador do Rio de Janeiro, Castro Caldas. Em janeiro deste mesmo ano, a Coroa havia enviado uma carta régia ao governador Arthur de Sá onde se comprometia com uma ajuda de custos à busca pelos metais preciosos de 600 000 reais por ano e onde se dizia que se dariam aos sertanistas beneméritos "as mesmas honras, e mercês de hábitos, e foros de fidalgos da Casa", desde que encontrassem e explorassem as lavras auríferas. Foi o início da primeira "corrida ao ouro" da história moderna.História, por Voltaire Schilling, http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/br_ouro.htm Em 1719, a bandeira de Pascoal Moreira Cabral descobriu ouro em terras do atual Mato Grosso.História de Mato Grosso. Disponível em http://www.entrelinhaseditora.com.br/uploads/produtopdf/0002762013161854.pdf. Acesso em 15 de abril de 2015. Em 1725, foi descoberto ouro na Vila Boa de Goiás.Klepsidra. Disponível em http://www.klepsidra.net/klepsidra12/caminhosgoias.html. Acesso em 15 de abril de 2015. O suprimento de homens e mercadorias para essas regiões passou a se dar através das monções.
Conflitos pelo ouro
Como era de se esperar, a notícia da descoberta se espalhou rapidamente. Isso fez com que uma quantidade enorme de aventureiros se deslocasse para a região em que o metal havia sido encontrado. Esses aventureiros, em sua maioria vindos de Portugal e de outras regiões do Brasil, passaram a ser chamados de emboabas. A presença de tais grupos gerou atritos com os paulistas (bandeirantes e seus descendentes, oriundos das capitanias de São Vicente e Itanhaém) e engendrou brigas pela posse das jazidas.
Entre os emboabas que vieram de outras regiões da colônia, destacam-se os nordestinos. No Nordeste, como dito anteriormente, a plantação de cana de açúcar estava em decadência. Ninguém conseguia enriquecer e se destacar na sociedade, excetuando-se os poucos senhores de engenhos. Quanto aos que vieram de Portugal, seu fluxo emigratório era tão intenso que, em 1720, João V criou uma lei para controlá-lo. Passou a se fazer a vigia e vistoria dos navios da "Repartição Sul" dirigidos ao porto do Rio de Janeiro, e acabaram por serem adotadas as licenças especiais e o passaporte em 1709 como uma maneira de diminuir o fluxo dos aventureiros.
Os emboabas se espalharam, e, nas povoações já formadas, eram tão numerosos quanto os bandeirantes que vinham de Taubaté, São Vicente e do planalto do Piratininga. Os crimes aumentaram muito, e imperava a lei do mais forte. A população andava armada, as menores discussões se transformavam em conflitos, que deixavam mortos e feridos. No restante da colônia, tinha se instalado o caos. Cidades inteiras eram abandonadas por pessoas que saíam em busca de ouro nos garimpos. Plantações de cana de açúcar foram abandonadas. Houve considerável aumento no preço dos escravos, animais e víveres. Inúmeros povos indígenas foram extintos.BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição revista. São Paulo. Ática. 2003. p. 100,101.
O português Manuel Nunes Viana foi nomeado "governador das minas". Logo tentou instaurar a paz na região. Prometeu punir os criminosos e fazer justiça. Todavia, não agradava aos sertanistas ter como líder um emboaba. Foram então ao sertão, e fizeram com que os índios também se revoltassem. Em seguida, foram para Sabará organizar a reação. Daí partiram para lutar contra os emboabas e expulsá-los da terra. Apesar de estarem em maior número, os sertanistas estavam mal organizados. Quando entraram em combate com as tropas de Nunes Viana, foram derrotados. Em seguida, dirigiram-se para o arraial de Cachoeira do Campo. Novo combate se travou, e Nunes Viana foi ferido e substituído. Outros combates se seguiram, os quais os sertanistas perderam de novo. A guerra durou de 1707 a 1709.
Descoberta de ouro em Mato Grosso dá início às monções
miniaturadaimagem|300x300px|"Partida da Monção", quadro de 1897 de Almeida Júnior, acervo do Museu do Ipiranga Com o fim da Guerra dos Emboabas, os sertanistas descobriram uma nova mina na Bahia. Mas o grande acontecimento foi a descoberta de ouro onde hoje é o estado do Mato Grosso. Teve início aí a fase mato-grossense da corrida do ouro.
A descoberta ocorreu em 1718. O descobridor foi Pascoal Moreira Cabral, de 64 anos. Sua expedição, cuja intenção inicial era capturar índios coxiponés, encontrou ouro no riacho Coxipó-Mirim, lugar em que, trinta anos mais tarde, seria a instalada a Capitania de Mato Grosso. Parte da expedição permaneceu no local para extrair o ouro, enquanto Pascoal seguiu o rio Coxipó Mirim até o ponto em que o rio se bifurcava. Aí encontrou mais ouro. Esse local, batizado de Forquilha, onde mais tarde seria Cuiabá.https://www.cuiaba.mt.gov.br/imprime.php?cid=7902&sid=405
Com a notícia dessa e de outras descobertas, houve um rush em direção ao arraial de Cuiabá. Essas expedições, partindo de São Paulo, ficaram conhecidas como as monções. Elas eram muito perigosas, e o trajeto, tortuoso. O itinerário seguido pelas monções era aproximadamente o seguinte:
No longo trajeto, os aventureiros tinham de enfrentar vários perigos, como as pedras, que destruíam as canoas; as cachoeiras, o choque com troncos flutuantes; animais, como piranhas arraias, jacarés, entre vários outros bichos menores, mas ainda assim perturbadores. Além das ameaças da natureza, havia os indígenas da região: os guaicurus e os paiaguás, que constantemente atacavam os colonos, causando enormes perdas.
Em 1725, enquanto a fase mato-grossense da corrida do ouro ainda transcorria, houve o anúncio da descoberta de ouro em Goiás. Era o quarto grande local de grandes jazidas, depois de Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso. Todavia, a corrida do ouro ainda transcorria no oeste da colônia. Em 1730, os mineradores, após praticamente esgotarem o ouro de Cuiabá, prosseguiram em direção ao oeste, chegando até o atual estado da Rondônia 15 anos depois.
Como o ouro era extraído Após a queda de produção do sistema de exploração aurífera de aluvião, passaram a ser necessárias técnicas mais refinadas que exigiam a permanência por maior período do garimpeiro. Esta necessidade de permanecer junto aos locais de exploração também contribuiu para o estabelecimento das novas vilas. É neste período que são fundadas as Vilas de São João del-Rei, do Ribeirão do Carmo, Vila Real de Sabará, de Pitangui e Vila Rica de Ouro Preto, entre outras. miniaturadaimagem|Mina do Chico Rei, lendária mina de ouro preservada em Ouro Preto Quanto às técnicas de mineração adotadas, grande importância teve a contribuição cultural dos escravos minas, que tinham uma grande tradição na mineração e fundição de ouro e ferro, conhecimento este superior ao dos portugueses da época.Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo. Disponível em http://www.fafich.ufmg.br/pae/apoio/bateiascamburestabuleirosmineracaoafricanaemesticagemnonovomundo.pdf. Acesso em 18 de março de 2015.
O apogeu e as mudanças na colônia