Joseph Franz Seraph Lutzenberger (Altötting, 13 de janeiro de 1882 – Porto Alegre, 2 de agosto de 1951), também conhecido como José Lutzenberger, foi um artista plástico, decorador, arquiteto e professor alemão naturalizado brasileiro que emigrou para o Brasil em 1920, fixando-se em Porto Alegre. Foi um estimado professor do Instituto de Belas Artes, e deixou uma série importante de edifícios, alguns deles protegidos oficialmente, bem como uma obra artística relevante no campo na aquarela e do desenho, com destaque para suas cenas campeiras e urbanas com seus tipos humanos característicos. É pai do ambientalista José Lutzenberger.
Biografia Foi o primeiro dos seis filhos de Joseph Wilhelm Michael Lutzenberger e Magdalena Lemo. O pai mantinha uma livraria e editora que havia sido fundada pela família em 1736. Fez seus primeiros estudos no Ginásio Humanista de Burghausen, e formou-se engenheiro-arquiteto em 1906, pela Universidade Técnica de Munique, mas desde cedo interessou-se pela pintura e pelo desenho. Antes da Primeira Guerra Mundial trabalhou como arquiteto do Departamento de Obras de Wiesbaden. Neste período estudou arte com os professores Polivka (1910), em Praga, e Reinhardt e Sessenguth (1911), em Berlim.Baptista, Maria Teresa Paes Barreto. José Lutzenberger no Rio Grande do Sul: Arquitetura, Ensino e Pintura (1920-1951). Porto Alegre: PUC, 2007, pp. 14-29 Também atuou privadamente para escritórios de arquitetura da Alemanha e República Tcheca.
Com a eclosão da Guerra, serviu nas forças alemãs como projetista de armamentos, atuando na parte técnica na França e na Bélgica. Chegou à patente de tenente-coronel e comandou uma companhia de Engenharia de Campo, mas nunca confrontou diretamente outro combatente e sempre temeu que fosse obrigado a usar suas armas, abominando a ideia de atirar em pessoas que não considerava inimigos. Teve porém contato direto com a vida dos soldados em campanha, que registrou em desenhos e aquarelas, das quais 50 ainda se encontram no Museu Militar de Munique.
A guerra causou a ruína da sua família, a editora foi vendida e Lutzenberger, já sem o emprego no Departamento de Obras, acabou encontrando num jornal uma oferta de emprego da construtora brasileira Weiss, Mennig & Cia, sediada em Porto Alegre. Escolhido entre centenas de candidatos, assinou um contrato de cinco anos. Isso significou uma reviravolta em seus planos de vida, cujo impacto ele descreveu:
"O mundo girou de tal maneira sob os meus pés que a partir de então o Natal deslizou para o verão e Pentecostes para o inverno, meu latim e francês converteram-se em português, a arte da arquitetura virou prática de construção [...] até hoje com freqüência eu mesmo por instantes não me reconheço".
Partiu da Alemanha em 14 de julho de 1920, em Amsterdã tomou o vapor Gelsia, e três semanas depois chegava em Santos. Estava em Porto Alegre em 18 de agosto de 1920. Deixaria em Porto Alegre e outras cidades do estado um importante acervo de edifícios construídos, com destaque para a Igreja de São José, o Palácio do Comércio e a Fundação Pão dos Pobres.
Participou do famoso Salão de Outono de 1925 montado na Intendência de Porto Alegre, onde foram revelados outros talentos.Bohns, Neiva Maria Fonseca. "Arte Brasileira produzida no sul: a visão de Angelo Guido". In: Anais do XXVIII Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Rio de Janeiro, 2009, p. 428 Em fevereiro de 1926 casou com Emma Kroeff, filha do coronel Jakob Kroeff Filho, um rico negociante da região de Hamburgo Velho. Teriam os filhos José Antônio, nascido em 1926, engenheiro-agrônomo e ambientalista, Magdalena, nascida em 1927, e Rose, nascida em 1929, ambas artistas e professoras de Artes.
Em 1936 iniciou sua vinculação por contrato ao Instituto de Belas Artes. Deu aulas de Arte Decorativa, Geometria Descritiva, Perspectiva e Sombras no Curso Superior de Artes Plásticas, e Geometria Descritiva no Curso Técnico de Arquitetura. Entre 1947 e 1950 lecionou Perspectiva, Sombras e Estereotomia no 2º ano do Curso Superior de Arquitetura do IBA, e Composição Decorativa no 3º ano do curso. Também era convocado para as bancas dos exames práticos e orais, e para os juris de premiação dos Salões do Instituto. Iberê Camargo e Ernesto Frederico Scheffel foram seus alunos.Simon, Círio. "Joseph Franz Lutzenberger e o Gótico Historicista no Rio Grande do Sul". Arte Sacra Sul-Rio-Grandense, 19/01/2010 Praticou a docência até falecer mas não se limitou a ela, colaborando também em questões teóricas e administrativas. Sua atuação foi fundamental para a criação do Curso Técnico de Arquitetura.Simon, Círio. Origens do Instituto de Artes da UFRGS. Porto Alegre: PUC-RS, 2006, p. 374 Participou ativamente do processo de construção do prédio novo, e mostrou desenhos, aquarelas e projetos de arquitetura e decoração em vários salões promovidos pelo Instituto, o que garantiu sua inserção definitiva na classe artística local.Ravazzolo, Ângela. Poesia e Precisão: As aquarelas de José Lutzenberger como representação da história e do cotidiano (1920 – 1951). Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2005, pp. 58-59
Disse Fernando Corona que "há nomes que a história não poderá esquecer. Entre aqueles homens que muito deram de seu talento semeando cultura artística entre nós, podemos citar com saudades José Lutzenberger. Ele era alto, corpulento, parco e austero no falar, e de uma modéstia à flor da pele. [...] Pagava para não discutir e sua bondade franciscana prenunciava sua introspecção. Era muito culto, e quando dava uma opinião, era para valer. Se esta não fosse bem acolhida, não se incomodava, e o mutismo de sua atitude, confirmava sua esmerada educação. [...] José Lutzenberger, o homem bom, o artista excelente e o professor querido faleceu em 2 de agosto de 1951, e até hoje em todos nós, as saudades crescem em cada momento que passa. Nada custa lembrar nomes que a história não poderá esquecer".Corona, Fernando. José Lutzenberger. Catálogo. Porto Alegre, 1969
Sua naturalização como cidadão brasileiro só ocorreu postumamente.Barbosa, Luiz Carlos. José Lutzenberger – O Universal no Particular. Porto Alegre: Espaço Cultural Banco Francês e Brasileiro, 1990) Seu legado arquitetônico foi em parte protegido por instâncias oficiais, e seu legado artístico vem sendo mantido vivo através de uma série regular de exposições, destacando-se as ocorridas em 1990, no Espaço Cultural do Banco Francês e Brasileiro, com curadoria de Luiz Carlos Barbosa, e em 2001, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, com curadoria de Paulo Gomes. Consagrado pela crítica, contudo, ainda é um artista pouco conhecido do público.
Sua casa, projetada por ele mesmo, foi tombada pela Prefeitura em 2011. Ali funciona a sede administrativa da empresa da família, Vida, especializada em reciclagem de resíduos industriais, e parte do espaço foi transformado em memorial a Joseph e seu filho, o notado ambientalista José Lutzenberger.
Obra Arquitetura e decoração
Como arquiteto, seu estilo se caracteriza pela sobriedade, racionalidade e funcionalidade, mas com soluções formais muitas vezes arrojadas, empregando um estilo eclético com tendência ao déco, e eliminando ornamentações supérfluas. Pouco antes de chegar à cidade, a classe governante estava desenvolvendo um ambicioso plano de reurbanização, com o objetivo de tornar Porto Alegre no cartão de visitas do estado, parte dos planos de governo dos positivistas, empenhados em um amplo projeto civilizatório e progressista, mas ao mesmo tempo uma burguesia endinheirada e vinculada à cultura e à política buscava construir com luxo e em escala monumental. Nas primeiras décadas do século XX Porto Alegre viu surgir uma série de monumentos esplêndidos, hoje todos eles tombados pelo IPHAN ou pelo IPHAE, como os Correios e Telégrafos, a Delegacia Fiscal da Receita Federal e o Palácio Piratini, além de extravagantes sedes de bancos e empresas e dezenas de palacetes para a elite, composta em grande parte por descendentes de alemães, havendo uma grande, empreendedora e influente colônia alemã na capital. 30% do comércio de Porto Alegre estava nas mãos dos alemães. O novo rosto oficial da cidade devia muito da sua estética a eles. Até 1915 dominaram a cena da construção e decoração três alemães: Theo Wiederspahn, arquiteto e construtor, Rudolf Ahrons, engenheiro e construtor, e João Vicente Friedrichs, decorador.Weimer, Günter. Theo Wiederspahn: arquiteto. EDIPUCRS, 2009, pp. 43-71
O excelente mercado para os alemães sofreu alguns abalos desde o Estado Novo até a II Grande Guerra, quando os descendentes de alemães (e italianos, japoneses e outros imigrantes) foram censurados e perseguidos, a fala alemã foi proibida, houve depredação de lojas de alemães, confiscos arbitrários de bens e interdição de associações,Gertz, René E. "A Segunda Guerra Mundial nas regiões de colonização alemã do Rio Grande do Sul". In: Licencia&acturas, 2015; 3 (2) mas Lutzenberger, nesta época já vinculado ao círculo do Instituto de Belas Artes, não foi afetado diretamente, e foi capaz de deixar um grupo consistente de obras que, de acordo com Günter Weimer, lhe dão crédito para ser contado na lista dos artífices "da marcante germanização da arquitetura do Rio Grande do Sul".Teixeira, Paulo César. "A Porto Alegre do arquiteto José Lutzenberger". Jornal do Comércio, 04/06/2020
Algumas das suas obras marcaram o perfil e a história de Porto Alegre, como a Igreja de São José, um marco da comunidade católica alemã da cidade; o Palácio do Comércio, "monumento perpetuador da glória de uma classe que cumpriu e vem cumprindo, galhardamente, a sua elevada missão de coordenadora e propulsora de todas as atividades econômicas riograndenses", e a segunda sede da Fundação Pão dos Pobres, centenário centro de assistência à juventude, "verdadeiro patrimônio da capital".Ravazzolo, pp. 52-56 Também criou os projetos para o Sanatório Leprosário Rio-Grandense (1929), o Colégio Nossa Senhora das Dores (1926-36), o Liceu de Artes Luis Palmeiro (1928), o Edifício Bastian Pinto, as sedes empresariais da Renner, Jung, Nedel e Hermann, o Clube Caixeiral (1922), a Fábrica de Calçados Adams & Cia (1925), e muitos outros, além de prédios em Caxias do Sul (Colégio Nossa Senhora do Carmo e Hospital Pompéia), Lajeado, Santa Cruz do Sul, Cachoeira do Sul, Novo Hamburgo e Caçapava do Sul. Também projetou conjuntos residenciais populares para empresários imobiliários como Ernesto Hoyer, Oscar Bastian Meyer e Carlos de Moraes Vellinho.